{"id":194279,"date":"2020-12-23T10:59:17","date_gmt":"2020-12-23T10:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=194279"},"modified":"2020-12-23T14:36:14","modified_gmt":"2020-12-23T14:36:14","slug":"saber-aprender-a-persistir-em-vez-de-desistir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-persistir-em-vez-de-desistir\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A persistir em vez de desistir."},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Em muitos meios fala-se cada vez mais de resili\u00eancia. Penso que essa seja uma das atitudes mentais mais importantes de algu\u00e9m que se disp\u00f5e a estar sempre a aprender. Mas tem um pre\u00e7o. E a hist\u00f3ria de Katalin Karik\u00f3, cientista gra\u00e7as \u00e0 qual temos hoje uma vacina para a Covid-19, \u00e9 um exemplo disso. Mas, tamb\u00e9m, o tempo de Natal. Uma festa usualmente colorida e iluminada pela beleza indiscrit\u00edvel do nascimento de um beb\u00e9, mas que esconde uma hist\u00f3ria de sofrimento e incerteza. Ambas as hist\u00f3rias mostram como o sofrimento \u00e9 um passo no caminho daquilo que realmente tem valor na nossa vida.<\/p>\n<figure id=\"attachment_194286\" aria-describedby=\"caption-attachment-194286\" style=\"width: 1199px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-194286\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia.jpg\" alt=\"\" width=\"1199\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia.jpg 1199w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nathan-dumlao-RJp0YdjgK_E-unsplash-ecclesia-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1199px) 100vw, 1199px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194286\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Nathan Dumlao em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1995, segundo li num artigo da revista <em>Wired<\/em>, Katalin Karik\u00f3 estava a viver um momento de extrema desilus\u00e3o. Havia dedicado 20 anos da sua investiga\u00e7\u00e3o ao estudo do ARNm com fins terap\u00eauticos e n\u00e3o encontrava apoio em lado algum. Projectos n\u00e3o financiados, falta de paci\u00eancia da Universidade da Pennsilvania pela incapacidade de Katalin encontrar financiamento com a sua investiga\u00e7\u00e3o, fazendo-lhe mesmo um <em>ultimatum<\/em> \u2014 <em>\u00abou sais ou \u00e9s despromovida.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>No nosso corpo, o ARNm s\u00e3o mol\u00e9culas que actuam como gravadores digitais. Ou seja, repetidamente, copiam as instru\u00e7\u00f5es que est\u00e3o do ADN situado no interior das nossas c\u00e9lulas, e levam-nas para os ribossomas que funcionam como f\u00e1bricas de prote\u00ednas. Sem estas mol\u00e9culas mensageiras, o ADN seria completamente in\u00fatil, ou seja, ser\u00edamos como computadores sem software. Logo, dificilmente haveria condi\u00e7\u00f5es para sobrevivermos. Na sua investiga\u00e7\u00e3o, Katalin explorou a potencialidade de criar mensageiros artificiais ARNm que educam o nosso corpo a se proteger com anti-corpos para os v\u00edrus que atentam contra a nossa sa\u00fade.<\/p>\n<p>A ideia era promissora e a tecnologia de cria\u00e7\u00e3o de ARNm artificial iniciou-se nos anos 1990, mas o interesse come\u00e7ou a desaparecer. Todos os testes feitos com animais injectados com ARNm artificial geravam inflama\u00e7\u00f5es no corpo e acabavam por mat\u00e1-los. Por isso, realizar testes em humanos seria imposs\u00edvel. Enquanto muitos desistiram de prosseguir com esta ideia, Katalin foi resiliente e persistiu. Todos diziam-lhe que estava a perder o seu tempo.<\/p>\n<p>Quando lhe fizeram o <em>ultimatum<\/em>, tinha-lhe sido diagnosticado um carcinoma e teria de ser operada. Estava sozinha em terra estrangeira, porque o seu marido tinha voltado \u00e0 Hungria para obter a carta verde e s\u00f3 voltaria dentro de seis meses. Diante de todas as dificuldades, ela aceitou a despromo\u00e7\u00e3o com redu\u00e7\u00e3o salarial (mais baixo que o t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio) para continuar a trabalhar no ARNm artificial para fins terap\u00eauticos. S\u00f3 em 1997, quando conheceu o seu colega Drew Weissman, que tinha sido recentemente contratado e possuia fundos, pode prosseguir com sucesso esta investiga\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, produzir ARNm artificial usado com seguran\u00e7a para fins terap\u00eauticos. Publicaram em 2005 o seu trabalho, fizeram uma patente, criaram uma empresa e\u2026 ningu\u00e9m ligou nenhuma. Ningu\u00e9m os convidou para falar sobre o que tinham feito. Nada. Mas persistiram. Hoje, \u00e9 gra\u00e7as a essa persist\u00eancia que temos uma vacina para a Covid-19.<\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o apelidados de loucos e in\u00fateis quando insistem numa ideia, e o mundo n\u00e3o v\u00ea qualquer fruto. Devido \u00e0 Grande Acelera\u00e7\u00e3o impulsionada pelo avan\u00e7o tecnol\u00f3gico dos \u00faltimos 70 anos, gradualmente, fomo-nos habituando a obter tudo o que queremos cada vez mais cedo. Depois, se uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica est\u00e1 na berra, \u00e9 financiada; se n\u00e3o est\u00e1, \u00e9 ridicularizada.<\/p>\n<p>Aprender a persistir n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil quando trabalhamos em algo novo, que nunca antes foi trabalhado, pela incerteza e ang\u00fastia enormes de n\u00e3o saber se estamos a persistir no caminho certo. Recordo-me de ter passado muitas horas no laborat\u00f3rio a medir quando percebi que algo n\u00e3o estava bem na experi\u00eancia e tive de deitar uma imensa quantidade de dados, horas e suor para o lixo.<\/p>\n<p>A sociedade est\u00e1 habituada a regozijar-se com o sucesso dos grandes cientistas e investigadores que revolucionaram a nossa vis\u00e3o do mundo atrav\u00e9s das suas descobertas, mas pouco sabe (ou despreza) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de horas, des\u00e2nimo, rejei\u00e7\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es que passaram a persistir, em vez de desistir, at\u00e9 obterem sucesso, ou que o seu sucesso fosse reconhecido. Todo o sucesso na ci\u00eancia est\u00e1 marcado pelo sofrimento do caminho realizado. Um pouco como o Natal.<\/p>\n<p>Luzes, calor, conforto da fam\u00edlia, alegria, celebrar o nascimento de um beb\u00e9, mas n\u00e3o podemos esquecer o caminho de sofrimento que antecede o evento, e pensar em toda a incerteza que Maria e Jos\u00e9 viviam pela primeira vez na hist\u00f3ria. Queriam somente que Jesus pudesse nascer em seguran\u00e7a, e que a Sua m\u00e3e pudesse dar \u00e0 luz com algum conforto, criando as condi\u00e7\u00f5es para recuperar de seguida. Mas, sabemos que n\u00e3o encontravam o lugar desejado, tiveram de improvisar as condi\u00e7\u00f5es ambientais com alguns animais, e o melhor colch\u00e3o que arranjaram para o mi\u00fado foram umas palhas. Francamente. J\u00e1 experimentaram dormir em cima de palhas? Olho para cada pres\u00e9pio e vejo o sucesso a partir do sofrimento.<\/p>\n<p>A festa do Natal \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o da persist\u00eancia de Deus que n\u00e3o desiste de n\u00f3s, fazendo-se humano e sofrendo o que sofre cada crian\u00e7a quando realiza o primeiro respiro. \u00c9 estranho que um <em>Deus<\/em> aceite o sofrimento. N\u00e3o posso deixar de pensar que isso possui um grande significado palp\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida concreta.<\/p>\n<p>Muitos sofrem durante este per\u00edodo natal\u00edcio por estarem s\u00f3s, sem fam\u00edlia, n\u00e3o terem p\u00e3o, ou presentes. V\u00eaem a sua vida por um fio, enquanto do exterior observam o calor humano de amor no interior da casa de algumas pessoas.<\/p>\n<p>O Natal \u00e9 um tempo de alegria que n\u00e3o esconde ou esquece o sofrimento do caminho. Por isso, este Natal pensava no convite que esta celebra\u00e7\u00e3o faz a sabermos aprender a persistir em vez de desistir.<\/p>\n<p>A persistir nos sonhos, nos esfor\u00e7os, nas m\u00e1scaras, na esperan\u00e7a de que um dia nos voltaremos a abra\u00e7ar, na confian\u00e7a de que os investigadores d\u00e3o o seu suor, tempo e sa\u00fade para que n\u00f3s tenhamos sa\u00fade.<\/p>\n<p>A persistir em n\u00e3o desistir diante do sofrimento porque se Deus acolheu esse aspecto da vida do Universo, ao nascer beb\u00e9, \u00e9 porque faz sentido, contra todas as ilus\u00f5es tecnol\u00f3gicas de um mundo sem dor. Por vezes, esse sentido para a dor e o sofrimento est\u00e1 enublado pela incerteza vivida no presente, mas o Natal convida-nos a viver na confian\u00e7a de que, com Deus, descobriremos esse sentido no futuro. No Natal \u00e9 a esperan\u00e7a que nos leva \u00e0 resili\u00eancia de estar diante da adversidade e persistir em vez de desistir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-194279","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194279"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194279\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}