{"id":194111,"date":"2020-12-27T09:30:23","date_gmt":"2020-12-27T09:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=194111"},"modified":"2020-12-21T17:31:36","modified_gmt":"2020-12-21T17:31:36","slug":"a-licao-enquanto-nao-tivermos-vacina-e-cuidado-cuidado-manuel-lemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-licao-enquanto-nao-tivermos-vacina-e-cuidado-cuidado-manuel-lemos\/","title":{"rendered":"\u00abA li\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o tivermos vacina, \u00e9 cuidado, cuidado\u00bb &#8211; Manuel Lemos"},"content":{"rendered":"<p><em>Presidente da Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias Portuguesas h\u00e1 13 anos, Manuel Lemos fala sobre o impacto da pandemia e a necessidade de mudar o olhar sobre a situa\u00e7\u00e3o dos mais velhos<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_194112\" aria-describedby=\"caption-attachment-194112\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-194112\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-400x224.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-400x224.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-768x431.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base-480x269.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/nfs_manuel_lemos_20190205_t031581c25565539fc9_base.jpg 840w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194112\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A esta dist\u00e2ncia do in\u00edcio da pandemia j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel avaliar o que tem corrido menos bem?<\/em><\/p>\n<p>Queria come\u00e7ar por dizer que, de facto, ningu\u00e9m estava preparado para esta pandemia. Ningu\u00e9m no mundo inteiro e tamb\u00e9m, naturalmente, em Portugal. O que n\u00e3o admira, porque a \u00faltima grande pandemia que tivemos foi no princ\u00edpio do s\u00e9culo passado &#8211; a pneum\u00f3nica &#8211; e de l\u00e1 para c\u00e1, sobretudo em Portugal, n\u00e3o tivemos grandes pandemias. Nada com o impacto que esta teve e essa foi uma primeira constata\u00e7\u00e3o para verificarmos que as coisas n\u00e3o podiam ter corrido logo bem. Depois, centro-me s\u00f3 num aspeto, algo que n\u00f3s na Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias v\u00ednhamos a falar h\u00e1 j\u00e1 alguns anos e que ficou evidente: a falta de articula\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os do Estado, nomeadamente entre o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e o Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a Social. Isso foi muito evidente. Foi talvez aquilo que correu menos bem, neste processo. Felizmente, muitas outras coisas correram bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>2020 \u00e9 um ano que vai ficar na hist\u00f3ria. O que \u00e9 que foi poss\u00edvel aprender com este ano e como \u00e9 que a sociedade portuguesa deve passar a olhar para os mais velhos?<\/em><\/p>\n<p>Foi necess\u00e1rio aprender a evid\u00eancia de que os mais velhos est\u00e3o desprotegidos. N\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o protegidos como n\u00f3s gost\u00e1vamos. Embora, tamb\u00e9m \u00e9 preciso diz\u00ea-lo e sermos razo\u00e1veis nisto: se compararmos por exemplo o que aconteceu em Portugal nos lares com o que aconteceu nos outros pa\u00edses da Europa, \u00e9 absolutamente fant\u00e1stico o que conseguimos, quer em n\u00famero de \u00f3bitos &#8211; mesmo que incluamos aqui os \u00f3bitos nos lares ilegais, que t\u00eam uma percentagem muit\u00edssimo elevada. Os n\u00fameros que me foram transmitidos pela senhora ministra \u00e9 que Portugal tinha uma taxa de \u00f3bitos \u00e0 volta dos 32%, o que n\u00e3o tem nada a ver com os 50% da Espanha, da It\u00e1lia, ou 60% da Inglaterra. Portanto, apesar de tudo houve alguns fatores que merecem reflex\u00e3o: como \u00e9 que Portugal, um pa\u00eds mais pobre, em que a comparticipa\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 de cerca de 400 euros por m\u00eas, e em Inglaterra \u00e9 qualquer coisa como 1600 euros por quinzena, estamos a falar de 3200 euros por m\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o como se justifica esse \u201csucesso\u201d? Sucesso relativo, porque estamos a falar de mortes&#8230;.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 de facto um sucesso relativo. Eu penso que \u00e9 a estrutura das institui\u00e7\u00f5es da coopera\u00e7\u00e3o de uma maneira geral, e das miseric\u00f3rdias em particular: a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades. Voc\u00eas deram conta e as televis\u00f5es mostraram com imagens: nos lares em It\u00e1lia ou Espanha os colaboradores fugiam, pura e simplesmente tinham medo e abandonavam\u2026<\/p>\n<p>Aqui em Portugal isso n\u00e3o aconteceu, n\u00e3o tenho nenhuma not\u00edcia que isso tenha acontecido. O que tem muito a ver com a capilaridade das nossas institui\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9, quem \u00e9 que est\u00e1 nos lares? Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o que existe entre a comunidade e os que trabalham e as pessoas que est\u00e3o nos lares? \u00c9 o pai, \u00e9 a m\u00e3e, \u00e9 o av\u00f4, \u00e9 a av\u00f3, \u00e9 o padre que os casou, \u00e9 o padrinho, \u00e9 o pai do melhor amigo&#8230;.. \u00a0isso fez com que as pessoas, que tinham o mesmo medo, os colaboradores, que tinham o mesmo medo, conseguissem ultrapassar esse medo para cuidar das pessoas e isso foi fundamental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para quem, como o presidente da Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias, tem de acompanhar a realidade de tantas institui\u00e7\u00f5es. Identifica os momentos mais dif\u00edceis de 2020?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que foram os primeiros casos, em que n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos de todo lidar com eles. E a\u00ed eu queria dizer que os provedores, mas tamb\u00e9m os dirigentes das IPSS (Institui\u00e7\u00f5es Particulares de Solidariedade Social) e os colaboradores, como acabei de dizer, foram verdadeiros her\u00f3is do quotidiano, porque estiveram l\u00e1, n\u00e3o arredaram p\u00e9. Os trabalhadores &#8211; e houve provedores que fizeram a mesma coisa &#8211; meteram-se dentro das institui\u00e7\u00f5es, ficaram l\u00e1 \u00e0s quinzenas. Deixaram as fam\u00edlias em casa e esse foi um momento muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Depois, houve algo que saiu na comunica\u00e7\u00e3o social e que causou muita impress\u00e3o, aquelas barras gordas que as televis\u00f5es tinham com o n\u00famero de idosos mortos. E come\u00e7ou a\u00ed um debate, quase que um debate surdo, sobre se as institui\u00e7\u00f5es do sector social teriam ou n\u00e3o capacidade para lidar com a pandemia, e quase foi posta em cima da mesa uma ideia de que caberia ao Estado. E esse foi tamb\u00e9m um momento dif\u00edcil, porque n\u00f3s percebemos rapidamente de que a nossa realidade era bem melhor do que a dos outros pa\u00edses e que as institui\u00e7\u00f5es estavam a conseguir esse resultado fant\u00e1stico, que naturalmente pela sua pr\u00f3pria natureza nunca poderia ser conseguido pelo (setor) p\u00fablico. Foram dois momentos muito dif\u00edceis. Tudo acrescido com a falta evidente dos equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual e a dificuldade financeira que as institui\u00e7\u00f5es tiveram em ultrapassar estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0E houve aquela grande dificuldade com os testes&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Isso j\u00e1 foi num segundo momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Cada surto num lar \u00e9 um momento de grande ang\u00fastia para os seus respons\u00e1veis&#8230; Que li\u00e7\u00f5es foram retiradas destas situa\u00e7\u00f5es para que elas possam ser uma situa\u00e7\u00e3o do passado e n\u00e3o se repitam alguns erros que se tenham cometido?<\/em><\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o houver a vacina &#8211; e tamb\u00e9m vamos ver como as pessoas v\u00e3o reagir \u00e0 vacina -, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 outra maneira de evitar o v\u00edrus que n\u00e3o seja fugir dele. E como \u00e9 que foge dele? confinando-nos. Ora, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de se fazer durante muito tempo em nenhuma sociedade. Para fugir era preciso quase, que durante um per\u00edodo enorme &#8211; impens\u00e1vel, irrealiz\u00e1vel &#8211; os cuidadores e os cuidados vivessem no mesmo ambiente e n\u00e3o sa\u00edssem dali. Isso at\u00e9 come\u00e7ou a trazer problemas que voc\u00eas tamb\u00e9m relataram da circunst\u00e2ncia da necessidade de psic\u00f3logos e de outras categorias profissionais que pudessem ultrapassar isto. Porque as pessoas gostam de estar umas com as outras. Portanto, a li\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o tivermos vacina, \u00e9 cuidado, cuidado. Todas as precau\u00e7\u00f5es s\u00e3o boas. N\u00f3s Estamos aqui no est\u00fadio de m\u00e1scara. \u00c9 quase uma disciplina que \u00e9 importante ter. \u00c9 como p\u00f4r o cinto no carro quando a gente se senta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa Francisco tem insistido na necessidade de uma maior aten\u00e7\u00e3o e cuidado aos mais desfavorecidos. O Papa fala mesmo de uma cultura do cuidado. Este \u00e9 um conceito que de alguma forma \u00e9 a cara das miseric\u00f3rdias?<\/em><\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que o Papa Francisco &#8211; presumo eu n\u00e3o conhecendo a realidade das Miseric\u00f3rdias portuguesas, para al\u00e9m daquilo que tivemos oportunidade de lhe dizer nos encontros que tivemos &#8211; tem a perce\u00e7\u00e3o de que a cultura do cuidado \u00e9 um valor absoluto, que em Portugal &#8211; n\u00e3o s\u00f3 pelas Miseric\u00f3rdias, mas tamb\u00e9m por outras organiza\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00f3s fomos desenvolvendo. E \u00e9 isso porventura que explica o relativo sucesso em termos de cuidados que nos fomos prestando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_194113\" aria-describedby=\"caption-attachment-194113\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-194113\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2-510x341.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/unnamed-2.jpg 512w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-194113\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Em finais de outubro, e depois de uma audi\u00eancia em Bel\u00e9m, a Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias Portuguesas dizia que pedidos de ajuda de fam\u00edlias tinha aumentado e que essa era uma preocupa\u00e7\u00e3o. Falou de um agravamento \u00abvis\u00edvel\u00bb da crise. Subsiste o problema? As medidas econ\u00f3micas criadas pelo Governo t\u00eam sido eficazes? Subsiste o problema? As medidas econ\u00f3micas criadas pelo Governo t\u00eam sido eficazes?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza, todas as medidas ajudam. Neste momento, a minha evid\u00eancia era sobretudo para aquilo que poder\u00edamos chamar dos arcos das cinturas dos grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, nomeadamente, e como sempre aconteceu no distrito de Set\u00fabal, onde os provedores relatam com muita veem\u00eancia o aumento de pessoas que procuram as Miseric\u00f3rdias para as respostas habituais em tempo de crise que as miseric\u00f3rdias v\u00e3o prestando. Valia a pena tamb\u00e9m olharmos para esse outro lado da pandemia, que \u00e9 a circunst\u00e2ncia de tendo fechado muitas empresas e algumas terem come\u00e7ado a fazer desempregos em massa, isso ia bater obviamente como sempre bate nas miseric\u00f3rdias. Quer dizer, no fim da linha l\u00e1 estamos n\u00f3s para ajudar. Portanto, penso que as medidas do Governo ser\u00e3o todas boas, n\u00e3o sei se ser\u00e3o todas suficientes. Mas ser\u00e3o seguramente todas boas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Or\u00e7amento de Estado (OE) para 2021 passou mesmo ao lado do setor social como afirmou?<\/em><\/p>\n<p>Eu percebo que sem economia, e sem uma economia crescente, o Estado tem menos recursos para apoiar as pessoas. A quest\u00e3o \u00e9 que se fala sempre do Estado Social como um subproduto disso. Nas sociedades desenvolvidas, o setor social n\u00e3o pode ser um subproduto disso. Tem de ser um parceiro, a par do setor econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>A minha rea\u00e7\u00e3o surgiu porque no trabalho do professor Costa e Silva, tem tr\u00eas linhas\u2026 e a prop\u00f3sito de uma quest\u00e3o, relevante mas n\u00e3o absoluta, que \u00e9 o aumento de camas, a necessidade de aumentar as camas de cuidados continuados. Isso mostra que, ao n\u00edvel das medidas a tomar, n\u00e3o \u00e9 assumido \u2013 n\u00e3o estou a dizer que n\u00e3o percebe do assunto, porque at\u00e9 \u00e9 uma pessoa inteligente \u2013 quase como uma prioridade. Se ele dissesse que falta uma parte social que caber\u00e1 a outros fazer\u2026 j\u00e1 fic\u00e1vamos contentes. Percebemos que o que lhe foi pedido foi falar sobre a parte econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao olhar para uma das situa\u00e7\u00f5es que vai marcar os pr\u00f3ximos meses, que papel \u00e9 que o terceiro setor pode ter no plano de vacina\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s cooperamos com o Estado com aquilo que ele nos entende, a cada momento, pedir. J\u00e1 tive uma reuni\u00e3o com o doutor Francisco Ramos \u2013 pessoa que estimo e conhe\u00e7o h\u00e1 muitos anos \u2013 e j\u00e1 conversamos como fazer a vacina\u00e7\u00e3o nos lares, que \u00e9 uma prioridade. J\u00e1 lhe disse que estar\u00edamos dispon\u00edveis, na medida em que ele necessitasse, para recorrer a n\u00f3s. C\u00e1 estamos, se houver alguma sugest\u00e3o boa que pudermos dar, daremos com certeza\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A vacina ser\u00e1 mesmo a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas? Quais as suas expetativas para 2021e que mudan\u00e7as espera na sociedade, sobretudo depois da vacina\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Uma vez li num livro que uma das grandes li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria \u00e9 que os homens n\u00e3o aprendem com as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria. Sou otimista por natureza, mas isto at\u00e9 parece um lado menos positivo. Todavia penso que alguma coisa vai ter de mudar nesta mat\u00e9ria. Atualmente, temos uma opini\u00e3o p\u00fablica muito mais aberta para ouvir, quando os representantes do setor social dizem que temos de olhar para os idosos. Os idosos t\u00eam de ser mais bem tratados e a rede de cuidados continuados n\u00e3o pode estar como est\u00e1. Ou que temos de olhar para a sustentabilidade das Institui\u00e7\u00f5es, que o Estado se fosse a fazer isto gastava 3 vezes ou 4 vezes mais\u2026<\/p>\n<p>Nesta mat\u00e9ria, n\u00f3s n\u00e3o nos calaremos e penso que a opini\u00e3o p\u00fablica vai olhar para n\u00f3s com mais aten\u00e7\u00e3o. Estou convencido que os pol\u00edticos, nessa mat\u00e9ria, v\u00e3o reagir positivamente. N\u00e3o tenho d\u00favidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos assuntos abordados nesta entrevista foi o papel dos trabalhadores das miseric\u00f3rdias na resposta a esta pandemia. Nalgumas circunst\u00e2ncias, estes t\u00eam vindo a manifestar o seu descontentamento face ao rendimento e ordenados que auferem. Qual o esfor\u00e7o poss\u00edvel para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de muitos trabalhadores que recebem o sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que uma das coisas que tem de mudar \u00e9 o modelo de financiamento. O modelo de financiamento das institui\u00e7\u00f5es vai obrigar\u2026 Todos os anos, como \u00e9 que se negoceia? Qual o valor do ano anterior? Quanto vamos aumentar 2%, 3%? Eu pergunto: a que \u00e9 que isso corresponde? N\u00e3o corresponde a nada.<\/p>\n<p>Quando o Pacto de Coopera\u00e7\u00e3o para a Solidariedade \u2013 a magna carta da nossa rela\u00e7\u00e3o com o Estado \u2013 foi celebrado, faz agora 25 anos, era Primeiro-Ministro o engenheiro Ant\u00f3nio Guterres. Ele disse, nesse ato de posse, que o Estado devia pagar no m\u00ednimo 50% do custo da resposta e, desejavelmente, 60%. Atualmente, estamos em 37,38%. E estamos a valores de 2018, porque em 2020 ainda n\u00e3o temos contas prontas. Portanto, vai para 34, 35%, por causa dos custos dos Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual, etc.<\/p>\n<p>Quanto custa cuidar de um idoso hoje? E quanto custa cuidar desejavelmente?<\/p>\n<p>A parte de le\u00e3o desse trabalho tem de ser para pagar aos nossos colaboradores. Os nossos trabalhadores est\u00e3o, de facto, muito mal pagos. O sal\u00e1rio m\u00ednimo em muitas institui\u00e7\u00f5es \u00e9 o sal\u00e1rio m\u00e9dio: isso \u00e9 inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se o Estado assumir a sua responsabilidade nessa mat\u00e9ria. Se n\u00e3o assumir, temos todos de repensar\u2026 A tal quest\u00e3o, o que \u00e9 que tem de mudar, com a opini\u00e3o p\u00fablica, os pr\u00f3prios sindicatos. N\u00f3s n\u00e3o queremos ganhar dinheiro, queremos o valor justo do custo de uma resposta social.<\/p>\n<p>Os colaboradores, repito, foram uns her\u00f3is neste processo. Continuam a ser, todos os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 pouco mais de um ano tomou posse para um novo mandato. Prev\u00ea que seja o \u00faltimo?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 com certeza o \u00faltimo. J\u00e1 s\u00e3o muitos anos e temos de ter a consci\u00eancia daquilo que somos capazes de fazer. A renova\u00e7\u00e3o e a chegada de gente nova com pensamento e disponibilidade s\u00e3o essenciais \u2013 e penso que h\u00e1 no seio das Miseric\u00f3rdias, e logo a partir da minha equipa, pessoas capazes de continuar. Isto n\u00e3o \u00e9 um movimento de uma pessoa. \u00c9 um movimento de um pa\u00eds, de uma comunidade, de uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Estou muito orgulhoso e honrado por ter estado estes anos e levar o mandato at\u00e9 ao fim. Acho que h\u00e1 um tempo para tudo. Se calhar este mandato j\u00e1 foi excessivo, mas as pessoas pediram e eu disponibilizei-me. Penso que \u00e9 tempo de mudar\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente da Uni\u00e3o das Miseric\u00f3rdias Portuguesas h\u00e1 13 anos, Manuel Lemos fala sobre o impacto da pandemia e a necessidade de mudar o olhar sobre a situa\u00e7\u00e3o dos mais velhos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":194112,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[698,462],"class_list":["post-194111","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-covid-19","tag-misericordias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194111"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194111\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/194112"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}