{"id":1939,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/permitam-me-discordar\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"permitam-me-discordar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/permitam-me-discordar\/","title":{"rendered":"Permitam-me discordar"},"content":{"rendered":"<p>A Congrega&ccedil;&atilde;o para a Doutrina da F&eacute; publicou recentemente um documento a que deu o nome de &#8220;Considera&ccedil;&otilde;es sobre os projectos de reconhecimento legal das uni&otilde;es entre pessoas homossexuais&#8221;. <br \/>Come&ccedil;ando por recordar &#8220;a natureza e caracter&iacute;sticas irrenunci&aacute;veis do matrim&oacute;nio&#8221;, o documento lembra que a &#8220;complementaridade dos sexos e a fecundidade pertencem &agrave; pr&oacute;pria natureza desse matrim&oacute;nio&#8221;. Partindo da chamada &#8220;lei natural&#8221; e do fundamento b&iacute;blico do casamento, &#8220;elevado por Cristo &agrave; dignidade de sacramento&#8221;, o documento esclarece que n&atilde;o pode haver &#8220;nenhum fundamento para equiparar ou estabelecer analogias, mesmo remotas, entre as uni&otilde;es homossexuais e o plano de Deus sobre a fam&iacute;lia&#8221;. Da&iacute; at&eacute; dizer que as &#8220;rela&ccedil;&otilde;es homossexuais est&atilde;o em contraste com a lei natural&#8221; &eacute; um passo, argumentando que &#8220;os actos homossexuais fecham o acto sexual ao dom da vida. N&atilde;o s&atilde;o fruto de uma verdadeira complementaridade afectiva e sexual. N&atilde;o se podem, de maneira nenhuma, aprovar&#8221;. <br \/>Logo a seguir, por&eacute;m, vem a conversa j&aacute; antiga sobre o &#8220;respeito, compaix&atilde;o e delicadeza&#8221; devidos &agrave;s pessoas homossexuais, contra quem &#8220;deve evitar-se qualquer atitude de injusta discrimina&ccedil;&atilde;o&#8221;. <br \/>O documento prop&otilde;e &#8220;atitudes perante o problema da uni&otilde;es homossexuais&#8221; que se resumem, em &uacute;ltima an&aacute;lise, ao &#8220;dever opor-se-lhe de modo claro e incisivo&#8221;, podendo recorrer, no caso dos pol&iacute;ticos chamados a tomar posi&ccedil;&atilde;o, ao &#8220;direito &agrave; objec&ccedil;&atilde;o de consci&ecirc;ncia&#8221;. <br \/>V&ecirc;m depois as &#8220;argumenta&ccedil;&otilde;es racionais contra o reconhecimento legal das uni&otilde;es homossexuais&#8221;. <br \/>Os primeiros argumentos apresentados s&atilde;o de &#8220;ordem relativa &agrave; recta raz&atilde;o&#8221;, defendendo que qualquer lei feita pelos homens deve, sempre, estar em conformidade com a lei moral natural. Por outro lado, sublinha-se o papel das leis na &#8220;promo&ccedil;&atilde;o de uma mentalidade ou de um costume&#8221;, concluindo que a aprova&ccedil;&atilde;o legal destas uni&otilde;es, levaria &agrave; ofusca&ccedil;&atilde;o de alguns valores morais fundamentais e &agrave; &#8220;desvaloriza&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o matrimonial&#8221;. <br \/>O segundo conjunto de argumentos apresentados s&atilde;o de &#8220;ordem biol&oacute;gica e antropol&oacute;gica&#8221; e resumem-se &agrave; verifica&ccedil;&atilde;o da impossibilidade da procria&ccedil;&atilde;o, concluido que as uni&otilde;es sexuais s&oacute; &#8220;s&atilde;o humanas quando e enquanto exprimem e promovem a m&uacute;tua ajuda dos sexos no matrim&oacute;nio e se mant&ecirc;m abertas &agrave; transmiss&atilde;o da vida&#8221;. <br \/>Em terceiro lugar s&atilde;o apresentados argumentos de &#8220;ordem social&#8221;. Partindo do princ&iacute;pio de que &#8220;a sociedade deve a sua sobreviv&ecirc;ncia &agrave; fam&iacute;lia fundada sobre o matrim&oacute;nio&#8221;, e reafirmando a impossibilidade de as uni&otilde;es homossexuais cumprirem as &#8220;fun&ccedil;&otilde;es pelas quais o matrim&oacute;nio e a fam&iacute;lia merecem um reconhecimento espec&iacute;fico e qualificado&#8221;, nomeadamente a fun&ccedil;&atilde;o &#8220;procriadora e educadora&#8221;, conclui-se que &#8220;tais uni&otilde;es s&atilde;o nocivas a um recto progresso da sociedade humana, sobretudo se aumentasse a sua efectiva incid&ecirc;ncia sobre o tecido social&#8221;. <br \/>Em &uacute;ltimo lugar, referem-se argumentos de &#8220;ordem jur&iacute;dica&#8221;, defendendo que as uni&otilde;es homossexuais n&atilde;o desempenham uma fun&ccedil;&atilde;o em vista do bem comum, ao contr&aacute;rio do matrim&oacute;nio que, ao ser de &#8220;relevante interesse p&uacute;blico&#8221; reclama um reconhecimento institucional. <br \/>Quanto aos direitos comuns, reclamados pelas pessoas homossexuais, defende-se que recorram &#8220;ao direito comum para tutelar situa&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas de interesse rec&iacute;proco&#8221;. A legaliza&ccedil;&atilde;o das uni&otilde;es homossexuais &eacute;, portanto, sup&eacute;rflua. <br \/>O documento termina com uma sugest&atilde;o de &#8220;comportamentos dos pol&iacute;ticos cat&oacute;licos perante legisla&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis &agrave;s uni&otilde;es homossexuais&#8221;. E a orienta&ccedil;&atilde;o &eacute; simples e clara: devem op&ocirc;r-se sempre e em qualquer circunst&acirc;ncia a qualquer iniciativa que v&aacute; no sentido de enquadrar juridicamente as uni&otilde;es entre pessoas do mesmo sexo. E devem fazer os poss&iacute;veis para revogar a legisla&ccedil;&atilde;o j&aacute; aprovada nesse sentido. <br \/>Este documento n&atilde;o surpreende. Infelizmente, &eacute; mais do mesmo. <br \/>As pessoas homossexuais t&ecirc;m direito &agrave; sua realiza&ccedil;&atilde;o afectiva e sexual. E isso passa pela uni&atilde;o com pessoas do mesmo sexo. Sujeit&aacute;-las &agrave; clandestinidade &eacute; promover a instabilidade. Ao contr&aacute;rio do que se afirma, &eacute; mais prejudicial ao equil&iacute;brio do tecido social essa precaridade do que o enquadramento social dessas rela&ccedil;&otilde;es. <br \/>O permanente recurso &agrave; &#8220;lei natural&#8221;, como argumento de condena&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m suscita d&uacute;vidas. &Eacute; que a homossexualidade tamb&eacute;m &eacute; natural e os homossexuais v&atilde;o, naturalmente, continuar a nascer&#8230; <br \/>Por outro lado, n&atilde;o s&atilde;o as uni&otilde;es entre pessoas do mesmo sexo que desvalorizam e amea&ccedil;am a fun&ccedil;&atilde;o insubstitu&iacute;vel ( e a&iacute; estamos de acordo) do matrim&oacute;nio. S&atilde;o m&uacute;ltiplas e variadas as causas dessa desvaloriza&ccedil;&atilde;o. Mas a legaliza&ccedil;&atilde;o das uni&otilde;es homossexuais &eacute; outro problema; misturar os conceitos leva a ambiguidades indesej&aacute;veis. Argumentar que essa legaliza&ccedil;&atilde;o poderia levar ao aumento da &#8220;efectiva incid&ecirc;ncia&#8221; da homossexualidade no tecido social &eacute; desonesto: nenhum heterossexual se transforma em homossexual devido a essa possibilidade jur&iacute;dica. &Eacute; do senso comum que o que acontece &eacute;, com muita frequ&ecirc;ncia, o contr&aacute;rio: homossexuais que, para fugir aos estigmas sociais, acabam por assumir rela&ccedil;&otilde;es heterossexuais feitas de muitos desequil&iacute;brios e frustra&ccedil;&otilde;es. <br \/>Apenas num ponto posso concordar com este documento: no que diz respeito &agrave; possibilidade de adop&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as por parte de casais homossexuais. Porque a&iacute;, os crit&eacute;rios que presidem &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&ecirc;m a ver com com as pessoas homossexuais, mas com as crian&ccedil;as envolvidas. E, portanto, o que est&aacute; em causa &eacute; o bem da crian&ccedil;a e nunca a satisfa&ccedil;&atilde;o, leg&iacute;tima ou n&atilde;o, de um suposto desejo de paternidade ou maternidade. E nesse campo, os casais homossexuais ter&atilde;o de reconhecer as limita&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas da sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual: a impossibilidade de gerar vida. N&atilde;o se pode ter tudo&#8230; <br \/>A defesa da fam&iacute;lia e do matrim&oacute;nio &eacute; urgente e necess&aacute;ria. Mas deve ser feita pela positiva e pela defesa dos seus valores intr&iacute;nsecos. E o que n&atilde;o falta s&atilde;o argumentos para essa defesa. Combater contra moinhos de vento, s&oacute; baralha mais as coisas. <br \/>No que diz respeito &agrave; sexualidade e &agrave; moral dos afectos, a Igreja insiste em falar para os anjos em vez de se dirigir &agrave;s pessoas. E, como se sabe, os anjos n&atilde;o t&ecirc;m sexo&#8230; <br \/>Uma &uacute;ltima nota preocupante: ao mesmo tempo que era publicado em Roma este documento, o senhor George W. Bush interrompia o seu af&atilde; guerreiro para fazer uma solene declara&ccedil;&atilde;o ao povo dos Estados Unidos da Am&eacute;rica sobre esta mesma mat&eacute;ria, defendendo posi&ccedil;&otilde;es muito semelhantes. Desconhe&ccedil;o quem foi o estratega de tal concerta&ccedil;&atilde;o mas, nas actuais circunst&acirc;ncias, n&atilde;o sei se ser&aacute; grande mais valia ter o &#8220;senhor da guerra&#8221; como apoiante em quest&otilde;es de moral&#8230; <\/p>\n<p>Manuel Vieira (A Defesa)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Congrega&ccedil;&atilde;o para a Doutrina da F&eacute; publicou recentemente um documento a que deu o nome de &#8220;Considera&ccedil;&otilde;es sobre os projectos de reconhecimento legal das uni&otilde;es entre pessoas homossexuais&#8221;. 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