{"id":19344,"date":"2006-07-25T13:25:53","date_gmt":"2006-07-25T13:25:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/07\/25\/emigrantes-de-segunda-geracao\/"},"modified":"2006-07-25T13:25:53","modified_gmt":"2006-07-25T13:25:53","slug":"emigrantes-de-segunda-geracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/emigrantes-de-segunda-geracao\/","title":{"rendered":"Emigrantes de segunda gera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Nascer, crescer e viver numa comunidade de l\u00edngua portuguesa no estrangeiro \u00e9, sem d\u00favida, uma forma diferente de ser portugu\u00eas. A comunidade, neste meu caso, na Alemanha, marcou-me profundamente o meu pensar e, talvez ainda mais importante, o meu crer. Hoje, frequento o Semin\u00e1rio Diocesano de Freiburgo (Alemanha) e, no decorrer dos meus estudos teol\u00f3gicos, estou a elaborar a minha tese de licenciatura sobre as comunidades de l\u00edngua portuguesa na Alemanha. Ap\u00f3s mais de quarenta anos de emigra\u00e7\u00e3o portuguesa, ser\u00e1 que existe uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o da sociedade acolhedora? Qual foram os problemas que se puseram \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica e quais foram as respostas dadas? Ap\u00f3s a terceira gera\u00e7\u00e3o, qual a perspectiva da comunidade crist\u00e3 perante uma situa\u00e7\u00e3o nova e modificada dos seus membros? Sem d\u00favida que a Igreja Cat\u00f3lica em Portugal teve um papel importante e positivo nos primeiros tempos da emigra\u00e7\u00e3o. Os rec\u00e9m-chegados estavam numa situa\u00e7\u00e3o complicada. Longe do seu ambiente familiar, obrigados a integrar-se numa sociedade desconhecida, sem falar a l\u00edngua e com pouco poder de adapta\u00e7\u00e3o. Com o surgimento de mission\u00e1rios portugueses, os emigrantes tiveram a possibilidade de encontrar um ponto comum para as suas necessidades. Encontraram nestas comunidades um elemento forte para a sua identidade social e, com as celebra\u00e7\u00f5es dominicais, tamb\u00e9m a oportunidade de preservar um elemento fundamental do seu Ser, a f\u00e9. Esta iniciativa, seguindo as propostas da altura do Magist\u00e9rio da Igreja (Exudo Familia, 1952), tamb\u00e9m foi favor\u00e1vel \u00e0s igrejas locais acolhedoras, dado que delegavam a responsabilidade pelos emigrantes aos pa\u00edses de origem, n\u00e3o tendo assim que assegurar estes servi\u00e7os por padres diocesanos, o que exigiria uma forma\u00e7\u00e3o por parte destes (aprendizagem das diferentes l\u00ednguas, nomeadamente). O mission\u00e1rio tornou-se, nessa altura, n\u00e3o s\u00f3 o respons\u00e1vel pela comunidade crist\u00e3, mas tamb\u00e9m numa esp\u00e9cie de assistente social, ajudando os emigrantes nas mais diferentes \u00e1reas da sociedade (autoridades locais, escolas, etc.). A partir deste n\u00facleo da comunidade crist\u00e3 e da celebra\u00e7\u00e3o dominical, desenvolveu-se toda uma estrutura no seio destas comunidades, com caf\u00e9s, associa\u00e7\u00f5es e lojas. Mas este desenvolvimento, embora tenha dado um pouco de conforto e estabilidade aos emigrantes, n\u00e3o teve s\u00f3 vantagens para os emigrantes. Deste modo os emigrantes conservaram um Portugal que j\u00e1 n\u00e3o existe, com costumes, regras e tradi\u00e7\u00f5es h\u00e1 muito esquecidas na terra natal. Formaram um c\u00edrculo social, em que encontravam tudo que necessitavam, fugindo assim a uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o na sociedade acolhedora. Esta &#8220;n\u00e3o integra\u00e7\u00e3o&#8221; ainda hoje \u00e9 not\u00e1vel entre os membros da primeira gera\u00e7\u00e3o. A segunda gera\u00e7\u00e3o teve um papel algo complicado no seio das comunidades. Nascidos no pais de acolhimento, com uma educa\u00e7\u00e3o tipicamente portuguesa em casa, frequentando a escola p\u00fablica juntamente com aulas de l\u00edngua e cultura portuguesas, esta gera\u00e7\u00e3o viu-se for\u00e7ada a integrar ambas as sociedades. Adaptaram-se \u00e0 sociedade acolhedora, mantendo o ritmo de sociedade desenvolvida. Por outro lado, isto chocou com o conservadorismo vivido nas comunidades de l\u00edngua portuguesa. Eis a gera\u00e7\u00e3o rebelde. Mas, para al\u00e9m de rebelde, as suas &#8220;vantagens&#8221; foram not\u00f3rias. Dominando ambos os idiomas, foram ponte entre as culturas. Tentando reunir em si mesmos e nos seus projectos as duas formas de pensamento. Foi nesta gera\u00e7\u00e3o que a Igreja, tanto do pa\u00eds natal como acolhedor, n\u00e3o soube ler os sinais dos tempos e simplesmente continuou, tal como se nada nas comunidades tivesse mudado. N\u00e3o foram criados novas perspectivas no \u00e2mbito da f\u00e9. Celebra\u00e7\u00f5es bilingues, com participa\u00e7\u00e3o de comunidades diferentes, encontros de jovens de diferentes backgrounds sociais, a introdu\u00e7\u00e3o de p\u00e1rocos alem\u00e3es para presidir as celebra\u00e7\u00f5es, servi\u00e7os prestados a portugueses pelas par\u00f3quias alem\u00e3s etc. Todo este vasto leque de op\u00e7\u00f5es s\u00f3 foi descoberto muito lentamente e um pouco tarde. A segunda gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o sofreu uma quebra na sua pr\u00e1tica dominical, dado entender plenamente a l\u00edngua em que expressava a sua f\u00e9, tanto na pr\u00e1tica comunit\u00e1ria, como na ora\u00e7\u00e3o pessoal. A grande quest\u00e3o de hoje est\u00e1 nas gera\u00e7\u00f5es seguintes. N\u00e3o dominam o portugu\u00eas, est\u00e3o completamente integrados na sociedade acolhedora, neste caso a Alemanha, mas est\u00e3o presos \u00e0 comunidade crist\u00e3 portuguesa. A transmiss\u00e3o da f\u00e9 acontece numa l\u00edngua que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a deles. A terceira gera\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de encontrar novas formas para o encontro com Deus, na l\u00edngua que \u00e9 a deles, n\u00e3o esquecendo as suas ra\u00edzes. A comunidade portuguesa, da forma como \u00e9 vivida at\u00e9 agora, n\u00e3o poder\u00e1 satisfazer estas necessidades. A Igreja descobriu esta gera\u00e7\u00e3o recentemente. Agora, \u00e9 hora de avan\u00e7ar, para que, ap\u00f3s uma verdadeira integra\u00e7\u00e3o social, possa haver uma real integra\u00e7\u00e3o na Igreja Cat\u00f3lica, ou universal.  <i>Nelson Ribeiro, Emigrante na Alemanha<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nascer, crescer e viver numa comunidade de l\u00edngua portuguesa no estrangeiro \u00e9, sem d\u00favida, uma forma diferente de ser portugu\u00eas. A comunidade, neste meu caso, na Alemanha, marcou-me profundamente o meu pensar e, talvez ainda mais importante, o meu crer. 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