{"id":192584,"date":"2020-12-06T09:30:24","date_gmt":"2020-12-06T09:30:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=192584"},"modified":"2020-12-04T17:19:03","modified_gmt":"2020-12-04T17:19:03","slug":"igreja-saude-nao-podemos-deixar-nos-enredar-nos-numeros-na-desumanizacao-presidente-da-associacao-dos-medicos-catolicos-portugueses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-saude-nao-podemos-deixar-nos-enredar-nos-numeros-na-desumanizacao-presidente-da-associacao-dos-medicos-catolicos-portugueses\/","title":{"rendered":"Igreja\/Sa\u00fade: \u00abN\u00e3o podemos deixar-nos enredar nos n\u00fameros, na desumaniza\u00e7\u00e3o\u00bb &#8211; presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos Portugueses"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Diogo Ferreira Martins, especialista em cardiologia pedi\u00e1trica, \u00e9 o novo presidente da AMCP. Em entrevista conjunta \u00e0 Renascen\u00e7a e Ecclesia aborda os objetivos assumidos para este mandato e os desafios \u00e9ticos <em>levantados pela atual pandemia de Covid-19<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-190196\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Jose_Martins_vice-presidente-AMCP.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Comecemos por falar das prioridades da Associa\u00e7\u00e3o, enunciados quando eleito presidente. Alude \u00e0 necessidade de falar para fora, face aos desafios que se colocam no imediato. \u00c9 de esperar uma maior exposi\u00e7\u00e3o, no espa\u00e7o medi\u00e1tico?<\/em><\/p>\n<p>O caminho \u00e9 um caminho de continuidade. A presen\u00e7a no espa\u00e7o medi\u00e1tico foi algo que n\u00f3s identificamos como uma prioridade no \u00faltimo tri\u00e9nio e que desejar\u00edamos manter, para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos desta nova dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entendemos que a Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos tem o dever de anunciar a alegria daquilo em que acreditamos, da nossa f\u00e9, e que os valores que n\u00f3s partilhamos s\u00e3o tamb\u00e9m partilhados por aqueles que n\u00e3o t\u00eam o dom da f\u00e9, mas que se reveem neles. Por isso, achamos que temos esse dever e desejamos continuar a faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a fazer esta entrevista \u00e0 dist\u00e2ncia, como tanta coisa hoje acontece \u00e0 dist\u00e2ncia. Que desafios se levantam \u00e0 pr\u00e1tica m\u00e9dica num contexto de pandemia, em que se vai perdendo, de alguma forma, a dimens\u00e3o do encontro presencial? <\/em><\/p>\n<p>A Covid \u00e9, efetivamente, um desafio enorme, que veio p\u00f4r a descoberto uma necessidade enorme de convertermos o olhar do cora\u00e7\u00e3o. Converter o olhar do cora\u00e7\u00e3o, para que a nossa miss\u00e3o de m\u00e9dicos, de cuidar daqueles que s\u00e3o mais pequeninos, como se proclamava no Evangelho da solenidade de Cristo-Rei, em que Jesus nos exorta a ter o comportamento de cuidar dos mais pequeninos \u2013 e n\u00f3s, como m\u00e9dicos, revemo-nos muito nessas palavras -, dos mais fr\u00e1geis, dos doentes, dos que est\u00e3o nus, dos que t\u00eam fome, sede\u2026<\/p>\n<p>Quando temos esta pandemia, \u00e9 efetivamente um desafio enorme a quantidade de dificuldades que se colocam. A primeira delas, que se torna muito clara, \u00e9 que os pequeninos, os mais fr\u00e1geis, s\u00e3o os idosos, especialmente os que vivem nos lares, mas tamb\u00e9m aqueles que vivem sozinhos, sem uma fam\u00edlia que os possa acompanhar. \u00c9 primeiro tudo a esses que n\u00f3s temos de olhar com especial aten\u00e7\u00e3o e cuidar com especial carinho.<\/p>\n<p>Outra situa\u00e7\u00e3o que torna muito dif\u00edcil o cuidado das pessoas que sofrem de Covid \u00e9 o acompanhamento espiritual. Infelizmente, desde o in\u00edcio da pandemia, temos vindo a ler com muita tristeza v\u00e1rios relatos de pessoas que se encontram gravemente doentes e que v\u00eam a morrer em ambiente hospitalar, sem que tenha sido poss\u00edvel \u2013 por discricionariedade no acesso aos cuidados espirituais \u2013 que estas pessoas pudessem ter o conforto dos Sacramentos, que s\u00e3o essenciais. Isso \u00e9 algo de que continuamos a ter relato. Temos procurado intervir nessa \u00e1rea, trabalhar com as capelanias hospitalares, no sentido de ajudar os sacerdotes a estar mais presentes, mas ainda existem situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, de gente que morre sozinha, nos hospitais, rodeada de m\u00e9dicos e enfermeiros equipados como se fossem extraterrestres, que eles n\u00e3o conseguem compreender, com quem n\u00e3o se conseguem relacionar. \u00c9 um clamor que n\u00e3o pode deixar de comover o nosso cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como se faz para humanizar o cuidado? Sente que se est\u00e1 a perder a dimens\u00e3o humana?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favidas disso, a v\u00e1rios n\u00edveis. Quando fazemos uma consulta no Hospital, passamos metade do tempo a escrever no computador, em vez de ser a olhar para as pessoas. Cada vez temos menos tempo de consulta, para conversar com os nossos pacientes, e tudo isto \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que vinha de tr\u00e1s. A partir do momento em que o toque \u2013 e \u00e9 t\u00e3o importante \u2013 deixa de ser uma pr\u00e1tica m\u00e9dica, perdemos uma dimens\u00e3o essencial da nossa vida.<\/p>\n<p>Jesus, quando faz os seus milagres, toca ou deixa-se tocar pelas pessoas que lhe s\u00e3o pr\u00f3ximas. Por isso, este contacto f\u00edsico \u00e9 algo que nos faz verdadeiramente falta na nossa vida, especialmente na vida dos que est\u00e3o doentes. A sua falta \u00e9 uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma dificuldade acrescida: a concilia\u00e7\u00e3o entre a necessidade de n\u00e3o contaminarmos e a de estarmos mais pr\u00f3ximos dessas pessoas. Como minimizar esta quest\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>De facto, n\u00e3o h\u00e1 como ultrapass\u00e1-la, porque n\u00f3s n\u00e3o podemos p\u00f4r em risco os nossos doentes \u2013 nem a n\u00f3s pr\u00f3prios, enquanto cuidadores e profissionais de sa\u00fade. Podemos minimiz\u00e1-la, primeiro do que tudo, como disse h\u00e1 pouco, convertendo o olhar do cora\u00e7\u00e3o. Olharmos cada vez mais para cada uma daquelas pessoas como algu\u00e9m que precisa de ser cuidado, pela sua fragilidade. Isto tem de nos desinstalar, como profissionais de sa\u00fade; como m\u00e9dicos, n\u00e3o podemos deixar-nos enredar nos n\u00fameros, na desumaniza\u00e7\u00e3o, nas pessoas que s\u00e3o tratadas sem ser do modo como querem ser tratadas. H\u00e1 tanto a fazer nos hospitais, cada um de n\u00f3s, enquanto m\u00e9dico, para se tornar mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o aqui uma partilha pessoal: \u00e0s vezes, quando falava com os pais dos meus doentes, na \u00e9poca pr\u00e9-Covid, se tinha boas not\u00edcias, gostava de os abra\u00e7ar; e se tinha m\u00e1s not\u00edcias, tamb\u00e9m. Hoje em dia n\u00e3o o posso fazer, mas digo: estar\u00edamos a abra\u00e7ar-nos agora, n\u00e3o podemos, mas sinta o meu abra\u00e7o, porque era assim que eu queria comunicar consigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como vai ser poss\u00edvel gerir a necessidade de defender e anunciar &#8220;com alegria a dignidade da pessoa humana desde o in\u00edcio (a conce\u00e7\u00e3o) at\u00e9 ao fim (a morte natural)\u201d face \u00e0 a possibilidade de a lei da eutan\u00e1sia ficar pronta para seguir para Bel\u00e9m neste m\u00eas de dezembro?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 foi tanto dito sobre a eutan\u00e1sia e h\u00e1 tantas coisas boas que vale a pena relembrar\u2026 Eu desafiava todos, se tiverem tempo, a ler a carta \u2018<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/congregations\/cfaith\/documents\/rc_con_cfaith_doc_20200714_samaritanus-bonus_po.html\">Samaritanus Bonus<\/a>\u2019, da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 (Santa S\u00e9), dedicado ao cuidado com as pessoas nas fases cr\u00edticas e terminais da vida. Ali\u00e1s, o n\u00facleo diocesano de Lisboa da Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos vai organizar uma reuni\u00e3o zoom, para abordar esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A carta \u00e9 muito bonita, porque volta a colocar as coisas em perspetiva, come\u00e7ando com frases verdadeiramente impactantes. Diz-nos que a grandeza da sociedade e da humanidade se determina na rela\u00e7\u00e3o com o sofrimento e o sofredor. Depois, faz uma reflex\u00e3o sobre a par\u00e1bola do Bom Samaritano e como, quando temos esta pandemia, percebemos que todos os nossos instintos s\u00e3o para cuidar dos que est\u00e3o mais fr\u00e1geis, para cuidar dos que est\u00e3o em fim de vida. Nunca deixamos de anunciar com alegria que viver \u00e9 viver at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>Hoje a medicina tem solu\u00e7\u00f5es para a dor f\u00edsica, mas as solu\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis s\u00e3o, efetivamente, as da dor emocional, da solid\u00e3o, da falta de prop\u00f3sito para este fim de vida. E \u00e9 a\u00ed que os cuidados paliativos t\u00eam uma enorme palavra a dizer.<\/p>\n<p>O nosso enorme receio, enquanto associa\u00e7\u00e3o \u2013 e penso que isto \u00e9 partilhado por tantas pessoas, tem sido dito de forma reiterada por muitos \u2013 \u00e9 que, a partir do momento em que n\u00f3s damos \u00e0s pessoas a op\u00e7\u00e3o de morrer, a pedido, e sob a\u00e7\u00e3o direta dos m\u00e9dicos, sem terem um cuidado de sa\u00fade claro e bom at\u00e9 ao fim da sua vida, ao n\u00e3o dar a op\u00e7\u00e3o dos cuidados paliativos, de algum modo, involunt\u00e1rio, admito, estamos \u2013 e temos de perceber que estamos \u2013 a empurrar as pessoas para a solu\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_188665\" aria-describedby=\"caption-attachment-188665\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-188665\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/DOC.20201022.29858120.08764127.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-188665\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa\/EPA<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para al\u00e9m da Eutan\u00e1sia; h\u00e1 outras quest\u00f5es- como a insemina\u00e7\u00e3o p\u00f3s-morte, ou problemas \u00e9ticos relacionados com a Covid-19 de que falaremos j\u00e1 a seguir &#8211; no centro das vossas preocupa\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Eu acho que h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o \u00e9tica, neste momento, que \u00e9 se calhar a mais presente na Covid e que tem a ver com a vacina.\u00a0 N\u00f3s lemos recentemente que havia umas propostas preliminares relativamente aos grupos priorit\u00e1rios, porque naturalmente que ao longo do ano de 2021 \u00e9 expect\u00e1vel que todos venhamos a poder receber esta vacina.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00f3s n\u00e3o podemos deixar de dizer que entendemos que os priorit\u00e1rios s\u00e3o os mais fr\u00e1geis.\u00a0 Reparem, se n\u00f3s olharmos para os n\u00fameros da DGS, verificamos que a taxa de letalidade, isto \u00e9 o n\u00famero de pessoas que morrem em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de pessoas que est\u00e3o doentes \u00e9 de 14%, nas pessoas com mais de 80 anos. 5% entre os 70 e os 79%. E abaixo de um por cento, abaixo dos 70 anos. Ora, n\u00f3s n\u00e3o podemos deixar de pensar que aqueles que mais v\u00e3o beneficiar com a vacina s\u00e3o aqueles que t\u00eam uma idade maior ou que tem outras comorbilidades. \u00c9 evidente que faltam muitos dados sobre a vacina. N\u00f3s ainda n\u00e3o temos a certeza de qual \u00e9 a efic\u00e1cia em cada grupo et\u00e1rio, mas sabendo o que sabemos agora, parece-nos que temos de come\u00e7ar pelos lares, por aqueles que s\u00e3o mais fr\u00e1geis, pelos mais idosos e pelos que t\u00eam doen\u00e7as, e obviamente pelos profissionais que deles cuidam para n\u00e3o os infetarem e para continuarem poder tratar deles.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A Associa\u00e7\u00e3o publicou e abril o documento \u2018Cuidados de sa\u00fade durante a pandemia Covid-19\u2019, onde prop\u00f4s \u201calgumas linhas orientadores\u201d para ajudar os profissionais de sa\u00fade a tecer ju\u00edzos retos e a tomar op\u00e7\u00f5es prudenciais. Os \u00faltimos dias apontam para um cen\u00e1rio mais desanuviado, mas subsiste o risco de obrigar a &#8220;escolhas terr\u00edveis&#8221; sobre os doentes a tratar. J\u00e1 em novembro tivemos o parecer do Conselho de \u00c9tica da Ordem dos M\u00e9dicos. Identifica-se com estas orienta\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Ficamos felizes por ver que as orienta\u00e7\u00f5es da ordem dos m\u00e9dicos partilham os valores que n\u00f3s t\u00ednhamos anunciado 6 meses antes. Isto \u00e9, no fundo aquilo que eu vivia no in\u00edcio, n\u00e3o \u00e9 preciso ter o dom da f\u00e9 para partilhar os valores que pugnamos para o resto da sociedade.\u00a0 E efetivamente, a ordem dos m\u00e9dicos disse de forma muito clara que idade, por si s\u00f3, n\u00e3o dever\u00e1 ser um crit\u00e9rio para aloca\u00e7\u00e3o de recursos de sa\u00fade. Por outro lado, e isto \u00e9 algo que desde sempre a igreja que est\u00e1 na linha da frente do Cuidado com os mais fr\u00e1geis, em todas as terras na hist\u00f3ria da humanidade, n\u00f3s soubemos que h\u00e1 altura que tem de tomar escolhas e escolhas terr\u00edveis de facto. E a\u00ed aquilo que n\u00f3s temos de fazer \u00e9 como linha geral fazer o maior bem ao maior n\u00famero de pessoas poss\u00edveis. E tentar dentro daquilo que \u00e9 poss\u00edvel utilizar scores de risco para perceber se n\u00f3s formos confrontados com essa escassez de recursos m\u00e9dicos a quem \u00e9 que os vamos alocar, mas sempre de uma forma regrada, com protocolos r\u00edgidos e que n\u00e3o dependam de emo\u00e7\u00f5es do momento, e que n\u00e3o dependam de aleatoriedade ou de discricionariedade ou de proveni\u00eancias \u00e9tnicas, de limita\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, de press\u00f5es pol\u00edticas ou outra. Porque todas as pessoas s\u00e3o igualmente dignas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e3o aceit\u00e1veis crit\u00e9rios baseados unicamente na idade ou em fatores aleat\u00f3rios, como a ordem de chegada ao Hospital?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que essa reflex\u00e3o tem vindo a ser feita. \u00c0s vezes n\u00e3o necessariamente na Pra\u00e7a p\u00fablica, mas aquilo que \u00e9 o meu contacto com m\u00e9dicos de muitas especialidades, pessoas com quem n\u00f3s contratamos no dia-a-dia, \u00e9 que efetivamente todos n\u00f3s, genericamente temos um enorme cuidado com este tipo de discuss\u00f5es, com este tipo de debates, e eu devo dizer com franqueza que a classe m\u00e9dica em geral daquilo que me \u00e9 dado a ver, e do que n\u00f3s vamos conversando na associa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos cat\u00f3licos tem-se portado de forma magnifica, abnegada e sempre\u00a0 com este crit\u00e9rio \u00e9tico que n\u00f3s partilhamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos objetivos assumidos \u00e9 o di\u00e1logo com as outras associa\u00e7\u00f5es de profissionais cat\u00f3licos. Como perspetiva essa necessidade de di\u00e1logo e de posi\u00e7\u00f5es conjuntas?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s vamos fazer nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos seguramente quando pandemia nos deixar encontros regulares com as outras associa\u00e7\u00f5es profissionais cat\u00f3licos. Falo dos empres\u00e1rios cat\u00f3licos, dos juristas cat\u00f3licos, dos nossos colegas enfermeiros e psic\u00f3logos cat\u00f3licos, e em todos eles encontramo-nos esta complementaridade que significa que temos a mesma raiz, e sabemos que estas associa\u00e7\u00f5es de profissionais cat\u00f3licos que t\u00eam sido muito acarinhadas pelo anterior, e seguramente tamb\u00e9m pela atual presidente da Confer\u00eancia Episcopal, e portanto, estaremos completamente ao servi\u00e7o da confer\u00eancia episcopal e gost\u00e1vamos de o reafirmar para que nos fa\u00e7a instrumento da voz de tantos que acreditam e que \u00e0s vezes n\u00e3o tem n\u00e3o t\u00eam essa voz no espa\u00e7o p\u00fablico. E por isso, o di\u00e1logo de frutuoso que n\u00f3s teremos com os nossos profissionais cat\u00f3licos de outras associa\u00e7\u00f5es, e que anunciaremos oportunamente, ser\u00e3o ocasi\u00f5es para crescermos e para discernirmos de forma mais verdadeira e concreta aquilo que \u00e9 a vontade do Senhor.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Por \u00faltimo, o desafio do crescimento da Associa\u00e7\u00e3o. Qual a estrat\u00e9gia para agregar novos membros e chegar por exemplo aos jovens m\u00e9dicos e estudantes de medicina?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s este ano entendemos que dev\u00edamos, n\u00e3o s\u00f3 alargar a dire\u00e7\u00e3o para ter elementos de v\u00e1rios n\u00facleos diocesanos: temos dos A\u00e7ores,\u00a0 temos de Santar\u00e9m, temos de Lisboa; como tamb\u00e9m incluir\u00a0 jovens m\u00e9dicos, nomeadamente os que ainda est\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o no internato complementar; de modo a podemos estar mais presente nos n\u00facleos de estudantes cat\u00f3licos das faculdades, e tentar perceber este este mist\u00e9rio &#8211;\u00a0 para mim \u00e9 um mist\u00e9rio &#8211;\u00a0 como \u00e9 que h\u00e1 30 mil m\u00e9dicos em Portugal e n\u00f3s somos 700 s\u00f3cios da associa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Seguramente que somos n\u00f3s que n\u00e3o temos sido capaz de chegar a todos, mas gostamos sempre aproveitar para desafiar todos os que nos ouvem: visitem o site da associa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos cat\u00f3licos, interajam connosco, inscrevam-se, fa\u00e7am presentes, fa\u00e7am-se ouvir porque n\u00f3s temos de crescer e sabemos que h\u00e1 muita gente l\u00e1 fora que seguramente gostar\u00e1 e beneficiar\u00e1 de ser s\u00f3cio da nossa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Diogo Ferreira Martins, especialista em cardiologia pedi\u00e1trica, \u00e9 o novo presidente da AMCP. 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