{"id":192344,"date":"2020-12-02T11:00:40","date_gmt":"2020-12-02T11:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=192344"},"modified":"2020-12-02T11:00:40","modified_gmt":"2020-12-02T11:00:40","slug":"saber-aprender-a-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-escrever\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A escrever"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Durante esta pandemia, as pessoas sonham com a covid-19, vivem ansiosas, tristes por n\u00e3o poderem estar do mesmo modo com os que mais amam, e a sensa\u00e7\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 a da necessidade de uma terapia social e relacional depois de tudo isto terminar. H\u00e1 quem n\u00e3o consiga sair da solid\u00e3o que vive quando est\u00e1 confinado. Por\u00e9m, creio que todos temos a solu\u00e7\u00e3o para lidar com todas estas dificuldades na m\u00e3o. Literalmente. Basta voltar a (manu-)escrever.<\/p>\n<figure id=\"attachment_192348\" aria-describedby=\"caption-attachment-192348\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-192348\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/jessica-delp-NUQtVifTqs4-unsplash-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-192348\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Jessica Delp em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Escrever com a m\u00e3o \u00e9 uma forma de pensar, de nos libertarmos das nossas preocupa\u00e7\u00f5es e de nos organizarmos interiormente. Escrever, pensar e aprender s\u00e3o o mesmo. E n\u00e3o \u00e9 algo reservado a quem tem pensamentos muito profundos, ou se considera muito conhecedor das artes e ci\u00eancias humanas, ou quem acha ser uma alma sens\u00edvel e com dom para os jogos de palavras. N\u00e3o. Escrever, para quem aprendeu ou pode vir a aprender, \u00e9 pensar no papel.<\/p>\n<p>O novo livro de Barak Obama, <em>\u201dUma Terra Prometida\u201d<\/em>, foi escrito \u00e0 m\u00e3o. J.K. Rowling, autora da s\u00e9rie Harry Potter, escreveu as mais de 150 p\u00e1ginas de <em>&#8220;Os Contos de Beedle, o Bardo\u201d<\/em> \u00e0 m\u00e3o. Tamb\u00e9m outros grandes escritores, como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, escreviam \u00e0 m\u00e3o por ser um processo de aten\u00e7\u00e3o plena que encoraja a serenidade e a criatividade. Escrever \u00e0 m\u00e3o afecta tanto o nosso c\u00e9rebro, como a nossa interioridade.<\/p>\n<p>Os investigadores Karin James e Laura Engelhardt, da Universidade de Indiana nos EUA, realizaram um estudo que demonstrou como a escrita \u00e0 m\u00e3o se correlaciona com a capacidade de uma crian\u00e7a em aprender a ler. Ali\u00e1s, as zonas activadas no c\u00e9rebro pela escrita \u00e0 m\u00e3o s\u00e3o semelhantes \u00e0s activadas durante uma medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O movimento caligr\u00e1fico da m\u00e3o pode ser repousante e despertar em n\u00f3s a criatividade, desenvolvendo ainda a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. Em 1985, o escritor Robert Stone, numa entrevista para a <em>Paris Review<\/em>, partilha que \u2014 <em>\u00abescrevo \u00e0 m\u00e3o para ser preciso. Na m\u00e1quina de escrever ou no processador de texto, podes-te apressar a algo que n\u00e3o deve ser apressado. Podes perder a nuance, a riqueza, e a lucidez. A caneta impele \u00e0 lucidez.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Ou como diz William Zinsser, autor de <em>\u201dWriting to Learn\u201d<\/em>, <em>\u00abescrever organiza e clarifica os nossos pensamentos. Escrever \u00e9 o modo como pensamos sobre um determinado assunto e tornamo-lo nosso. Escrever permite-nos perceber o que sabemos \u2014 e o que n\u00e3o sabemos \u2014 sobre seja o que for que estamos a aprender. Colocar uma ideia em palavras escritas \u00e9 como descongelar o vidro do carro; a ideia, t\u00e3o vaga no meio de uma neblina cerrada, lentamente, come\u00e7a a transformar-se numa forma sens\u00edvel.\u00bb<\/em> Por isso, este autor sugere que um dos melhores modos de aprender seja o que for \u00e9 escrever sobre isso.<\/p>\n<p>Por outro lado, a ess\u00eancia de escrever \u00e9 re-escrever. Por isso, cada texto \u00e9 como se fosse um organismo em permanente evolu\u00e7\u00e3o. Mas com a gradual intromiss\u00e3o dos ecr\u00e3s no tempo de escrita, fomos perdendo a capacidade de racioc\u00ednio que essa desenvolvia, assim como se tem reduzido a capacidade de prestar aten\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, voltar a escrever trabalha a neuroplasticidade do nosso c\u00e9rebro e podemos voltar a desenvolver essas capacidades.<\/p>\n<p>A pandemia obriga-nos a um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia sobre o que valorizamos na vida, e se esses valores nos movem na direc\u00e7\u00e3o de uma vida profunda.<\/p>\n<p>Lembro-me de haver um tempo h\u00e1, talvez, uns dez anos, em que a minha escrita restringia-se somente a teclados. Cheguei mesmo a pensar se seria capaz de assinar um documento. Ali\u00e1s, quando isso acontecia, sentia que a letra tremia como se tivesse as m\u00e3os emperradas e descontroladas. Depois, quando iniciei a experi\u00eancia de escrever todos os dias tr\u00eas p\u00e1ginas sobre aquilo que quisesse, sem filtros, \u2014 as p\u00e1ginas matinais \u2014 notava como a legibilidade da letra se relacionava com o meu estado de alma. Se estava mais ansioso ou preocupado, ou cansado, a letra era quase ileg\u00edvel, a m\u00e3o do\u00eda, e at\u00e9 aumentava o tamanho para acabar de escrever. Hoje, passados v\u00e1rios meses, tenho feito a experi\u00eancia da <em>lentid\u00e3o caligr\u00e1fica<\/em>. Quando diminu\u00edmos a velocidade, encontramos uma paz surpreendente, um desejo crescente de beleza, e at\u00e9 come\u00e7amos a modificar o modo como escrevemos algumas letras para que o texto fique mais belo caligraficamente. A mente sereniza-se e clarifica-se.<\/p>\n<p>As pessoas que pensam ter muito que fazer e n\u00e3o v\u00eaem valor nesta pr\u00e1tica, possuem uma resist\u00eancia natural \u00e0 ideia. Ou dizem ser melhor escrever nos dispositivos porque tudo fica mais \u201cpartilh\u00e1vel\u201d, sincronizado em todos os aparelhos, e n\u00e3o corremos o risco de perder as ideias que temos ao longo do dia. Mas a ideia \u00e9 outra. N\u00e3o a de substituir as vantagens que as novas tecnologias permitem, mas a de desenvolver a escrita \u00e0 m\u00e3o como uma pr\u00e1tica de vida profunda.<\/p>\n<p>Quem escreve na solitude, realiza por instantes um encontro com o seu interior. H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o te encontras com a tua consci\u00eancia? Com os teus pensamentos, ideias, preocupa\u00e7\u00f5es e receios. Quando escrevemos, reencontramo-nos. Por isso, diminu\u00edmos, tamb\u00e9m, o peso da solid\u00e3o dos confinamentos pelo bem dos outros em tempo de pandemia.<\/p>\n<p>A m\u00e3o pode tremer, ou doer porque estamos desabituados, mas n\u00e3o importa se a letra \u00e9 bonita ou feia. O que importa \u00e9 o momento rico de interioridade que escrever pode ser. Pode, inclusiv\u00e9, ser um momento de ora\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo expl\u00edcito com Deus. Escrever-Lhe sabemos que l\u00ea enquanto escrevemos. Quem sabe se come\u00e7amos at\u00e9 a escrever algo que sentimos n\u00e3o vir de n\u00f3s, mas d\u2019Ele dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Saber aprender a escrever \u00e9 criar um h\u00e1bito que alimenta uma vida profunda, afastando-nos da superficialidade, ou libertando-nos dos rigorismos farisaicos que nos podem tentar com falsas certezas nestes tempos incertos. Por fim, o que escrevemos deixa um pouco de n\u00f3s neste mundo. E se o que outros escreveram, muito antes de n\u00f3s, ajuda-nos a caminhar para uma vida profunda, sem pretens\u00f5es, quem sabe o que as nossas palavras podem fazer pelas gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>SABER MAIS<\/h4>\n<ul>\n<li>James, K. H., &amp; Engelhardt, L. (2012). The effects of handwriting experience on functional brain development in pre-literate children. Trends in neuroscience and education, 1(1), 32-42.(<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.tine.2012.08.001\">LINK<\/a>)<\/li>\n<li>William Zinsser, \u201cWriting to Leanr\u201d, Harper &amp; Row, 1989.<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-192344","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192344"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192344\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}