{"id":192121,"date":"2020-11-29T09:50:46","date_gmt":"2020-11-29T09:50:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=192121"},"modified":"2020-11-29T11:45:35","modified_gmt":"2020-11-29T11:45:35","slug":"entrevista-capelao-do-hospital-de-sao-joao-elogia-profissionais-sensiveis-que-se-dedicam-aos-doentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-capelao-do-hospital-de-sao-joao-elogia-profissionais-sensiveis-que-se-dedicam-aos-doentes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Capel\u00e3o do Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o elogia profissionais sens\u00edveis, que se dedicam aos doentes"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Paulo Teixeira diz que assiste todos os dias ao chamamento de familiares para que se possam despedir dos doentes<\/em><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Capel\u00e3o hospitalar numa das unidades mais pressionadas pela Covid-19 em Portugal, o Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o, o padre Paulo Teixeira \u00e9 o convidado desta semana da entrevista Renascen\u00e7a\/Ecclesia.<\/p>\n<p>Durante a conversa, deixa duas certezas: ningu\u00e9m morre sozinho no hospital e \u201cningu\u00e9m foi posto \u00e0 porta de casa ou na rua\u201d por falta de camas na sequ\u00eancia da pandemia.<\/p>\n<p>O hospital \u201csempre foi encontrando uma solu\u00e7\u00e3o para aquelas pessoas que est\u00e3o abandonadas pela pr\u00f3pria fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_192122\" aria-describedby=\"caption-attachment-192122\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-192122 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"711\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024-374x260.jpg 374w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024-768x533.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024-980x680.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/012044a933defaultlarge_1024-480x333.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-192122\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joana Gon\u00e7alves\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Esta pandemia o obrigou a uma reparti\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00f5es mais equilibrada entre doentes e profissionais de sa\u00fade?<\/em><\/p>\n<p>O ritmo \u00e9 o de sempre, mas com uma aten\u00e7\u00e3o redobrada, por causa da pandemia. N\u00f3s pr\u00f3prios estamos sujeitos a contrair a Covid-19 e depois ser transmissores. Assim, h\u00e1 um cuidado redobrado para que eu pr\u00f3prio n\u00e3o nem me contagie e n\u00e3o seja ve\u00edculo de transmiss\u00e3o para os doentes, para os profissionais.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o que temos no Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Espiritual e Religiosa no nosso Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o acaba por ser a mesma. N\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a significativa no n\u00famero de acompanhamentos e pedidos que temos, todos os dias, de doentes e profissionais.<\/p>\n<p>Por causa da grande press\u00e3o provocada pela pandemia, algumas pessoas n\u00e3o t\u00eam o \u00e0-vontade para pedir a nossa interven\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque est\u00e3o assoberbadas, muito preocupadas com os problemas que est\u00e3o a viver.<\/p>\n<p>Esta pandemia da Covid-19 deixa-nos mais preocupados, porque a comunica\u00e7\u00e3o social faz eco dela e toda a gente sabe exatamente o que ela pode provocar. Por isso, estamos todos um pouco mais assustados, mesmo profissionais e pessoas que est\u00e3o internadas no hospital, e isso leva as pessoas a nem sequer equacionar a possibilidade de pedir o Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Espiritual e Religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste momento, passar\u00e1 mais tempo no Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o do que quando iniciou a sua miss\u00e3o h\u00e1 quatro anos. Qual \u00e9 a import\u00e2ncia da dimens\u00e3o espiritual e religiosa neste contexto de grande calamidade?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se posso responder de forma completa, porque n\u00e3o sabemos em que momento da pandemia estamos. O meu trabalho acaba por ter um maior n\u00famero de horas, neste momento da pandemia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 descoordena\u00e7\u00e3o no hospital, nenhuma! Mas h\u00e1 uma maior carga de trabalhos&#8230; A procura que as pessoas fazem deste Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Espiritual e Religiosa n\u00e3o \u00e9, muitas vezes, nos hor\u00e1rios habituais, como eram anteriores \u00e0 pandemia. \u00c9 um hor\u00e1rio mais de acordo com as necessidades que surgem naquele momento.<\/p>\n<p>As pessoas, tendo uma carga de trabalho maior \u2013 nomeadamente os profissionais \u2013 n\u00e3o podem pedir ajuda e achar que precisam de ser acompanhado. O meu maior trabalho, nesta altura, tem a ver com isso: n\u00e3o por haver descoordena\u00e7\u00e3o, mas porque h\u00e1 uma carga maior de trabalhos, claramente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Referiu-se \u00e0 necessidade de uma aten\u00e7\u00e3o redobrada, por causa do risco da infe\u00e7\u00e3o. Isso obrigou a procedimentos que o distanciam do doente e prejudicam a proximidade e afeto aos doentes?<\/em><\/p>\n<p>Os nossos afetos, hoje em dia, no ambiente hospitalar, s\u00e3o muito provocados pelo olhar. N\u00f3s damos conta de que, a certa altura, j\u00e1 n\u00e3o nos lembramos da parte de baixo do rosto dos profissionais e dos doentes.<\/p>\n<p>Confesso em p\u00fablico que, de vez em quando, j\u00e1 me custa recordar a parte de baixo do rosto das pessoas. O que eu fixo, trabalho e me d\u00e1 alento para fazer o trabalho todos os dias s\u00e3o os olhos das pessoas. Pelo olhar e a forma como as pessoas nos olham e nos cumprimentam com os olhos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os olhos n\u00e3o mentem&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Nunca, nunca mentem! H\u00e1 quem diga que h\u00e1 por a\u00ed mentirosos compulsivos, mas, nesta quest\u00e3o do olhar e da alma, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que consiga entrar por esse caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O olhar \u00e9 o que mais nos prende no contacto e na rela\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para os olhos n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1scaras e temos esse canal sempre aberto. Falou h\u00e1 pouco no papel da comunica\u00e7\u00e3o social e tamb\u00e9m dos respons\u00e1veis governamentais, na aten\u00e7\u00e3o aos doentes Covid. At\u00e9 que ponto isso tem limitado o acompanhamento aos outros doentes e tamb\u00e9m aos familiares no momento da perda?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o delicada&#8230; De facto, as visitas est\u00e3o limitadas. N\u00e3o est\u00e3o proibidas! A comunica\u00e7\u00e3o social tem dito o que lhe \u00e9 pedido para dizer, mas as visitas n\u00e3o est\u00e3o proibidas.<\/p>\n<p>Ou seja: de um modo geral, os doentes n\u00e3o devem ser visitados porque isso implicaria um risco grande de cont\u00e1gio. Mas quando o doente est\u00e1 internado h\u00e1 um tempo demasiado longo e isso pode trazer para o pr\u00f3prio doente uma carga psicol\u00f3gica muito grande que o diminua \u2013 e os profissionais est\u00e3o sempre atentos a isso \u2013 claro que as visitas s\u00e3o permitidas.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o \u00e9 permitido que venha a fam\u00edlia toda, 5, 10, 15 pessoas&#8230; Vem um de cada vez, mas a visita acontece, bem como aos doentes com Covid-19. Desde o in\u00edcio fui ouvindo que n\u00e3o havia visitas \u00e0s pessoas Covid-19 e que morriam sozinhas. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade, no nosso hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o. Eu assisto todos os dias ao chamamento dos familiares para se apresentarem nas enfermarias onde est\u00e3o esses doentes para que as fam\u00edlias se possam despedir e estabelecer comunica\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 essa possibilidade.<\/p>\n<p>Estas visitas n\u00e3o podem ser di\u00e1rias e n\u00e3o podem ser por um tempo muito alargado. Mas acontecem efetivamente. H\u00e1 um acompanhamento das fam\u00edlias aos seus familiares, n\u00e3o como no per\u00edodo antes da pandemia, mas existe um acompanhamento e a visita.<\/p>\n<p>Isso exige uma sensibilidade muito particular por parte do profissional de sa\u00fade, para saber o momento em que est\u00e1 a precisar da visita do familiar e isso pode esbarrar na az\u00e1fama do seu trabalho di\u00e1rio que \u00e9 de cuidar da sa\u00fade&#8230;<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, junto dos doentes est\u00e3o os profissionais e s\u00e3o eles que conhecem melhor o estado de esp\u00edrito e de sa\u00fade das pessoas que est\u00e3o a cuidar. Juntando a isso a sensibilidade pessoal de cada um, conseguimos entre todos avaliar essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste hospital, temos um corpo de profissionais de alt\u00edssimo calibre! S\u00e3o profissionais inteiros, que n\u00e3o usam apenas a sua arte da medicina, da enfermagem, do aux\u00edlio que \u00e9 preciso nas artes m\u00e9dicas e enfermagem, mas procuram p\u00f4r a sua sensibilidade pessoa.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos pessoas que s\u00e3o muito bem formadas, em todas as \u00e1reas. A \u00e1rea da humanidade, o que a pessoa pode fazer em prol do pr\u00f3ximo, est\u00e1 presente em quase todos os profissionais da nossa casa: a sensibilidade para o cuidado generoso e direto do pr\u00f3ximo est\u00e1 presente em quase todos os profissionais da nossa casa.<\/p>\n<p>Eu vou conhecendo todos os dias os 8 mil profissionais que trabalham na nossa casa, v\u00e3o aparecendo alguns de novo, nomeadamente m\u00e9dicos, e posso afirmar isso desta forma categ\u00f3rica. A sensibilidade que os profissionais manifestam \u00e9 o garante para que possam, no momento certo, fazer que aconte\u00e7a a visita e a pessoa n\u00e3o se sinta diminu\u00edda e a visita possa reabilit\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A ministra da Sa\u00fade disse esta semana, em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a, que a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave nos cuidados intensivos e que dezembro vai ser dif\u00edcil. J\u00e1 aqui falou do profissionalismo e da qualidade humana dos profissionais de sa\u00fade. Sente que os profissionais est\u00e3o preparados apesar da natural exaust\u00e3o de meses de trabalho extraordin\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>Eu vejo os profissionais da nossa casa, do Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o, de quem sou colega de trabalho. Vejo que todos eles t\u00eam essa capacidade de renova\u00e7\u00e3o, de dar mais um pouco, de estar inteiramente ao servi\u00e7o mesmo para l\u00e1 dos seus interesses e necessidades pessoais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu tenho assistido, ao longo destes tempos, que alguns profissionais mesmo j\u00e1 num estado, digamos assim, de um cansa\u00e7o que j\u00e1 \u00e9 notado, que se v\u00ea perfeitamente que \u00e9 um cansa\u00e7o mesmo s\u00e9rio, conseguem ainda dar mais um turno. Porqu\u00ea? Porque um colega teve de assistir um familiar, porque um colega ficou infetado, um colega ficou doente, e eles conseguem, digamos assim, contra toda a esperan\u00e7a \u2013 eu creio que posso dizer esta express\u00e3o, contra toda a esperan\u00e7a \u2013 atender mais um pouco. \u00c9 impressionante!<\/p>\n<p>Eu sei que provavelmente as pessoas que estejam a ouvir-me possam dizer ele \u00e9 capel\u00e3o, est\u00e1 ali a tentar meter alguma \u00e1gua na fervura\u2026 n\u00e3o \u00e9 verdade, eu estou-lhe a dizer aquilo que vejo, e aquilo que vejo \u00e9 uma dedica\u00e7\u00e3o extrema destes profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>E eles sabem, e eu tamb\u00e9m sei, que daqui a pouco provavelmente vir\u00e3o mais situa\u00e7\u00f5es, mas o hospital, at\u00e9 na sua estrutura, na sua administra\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o humana, vai conseguir abrir portas e janelas para que se possa atender a todas as pessoas.<\/p>\n<p>Eu tenho ouvido de vez em quando dizer que isto est\u00e1 muito assoberbado com entrada de novos infetados nos hospitais. \u00c9 verdade que a casa est\u00e1 preenchida e dificilmente n\u00f3s encontramos uma cama vazia neste per\u00edodo. \u00c9 verdade, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as pessoas que est\u00e3o a recorrer ao hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o nunca s\u00e3o mandadas embora.<\/p>\n<p>At\u00e9 ao dia de hoje, nunca aconteceu isso e, portanto, h\u00e1 sempre mais um espa\u00e7o e eu tenho assistido a que o hospital procura sempre alargar os espa\u00e7os de cuidados intensivos e outros cuidados e com esse alargamento vai conseguindo acolher a todas as pessoas.<\/p>\n<p>Atrevo-me a dizer que isto \u00e9 praticamente como a mesa de Deus: cabe sempre mais um. Ou seja, Deus tem sempre mais um lugar para mais um dos teus filhos, mesmo que o filho n\u00e3o mere\u00e7a ou mesmo que o filho n\u00e3o esteja a fazer corretamente aquilo que o Pai lhe pediu. No hospital acontece, creio eu exatamente como na mesa Deus: h\u00e1 sempre lugar para mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O abandono de doentes em contexto hospitalar \u00e9 transversal a todo o pa\u00eds. E numa altura em que todas as camas s\u00e3o necess\u00e1rias aumenta a press\u00e3o para os hospitais, desculpe a express\u00e3o, &#8220;se livrarem&#8221; desses doentes. Esta \u00e9 uma realidade preocupante no S\u00e3o Jo\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o perten\u00e7o \u00e0 assist\u00eancia social do hospital, mas vou-me apercebendo das solu\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sendo encontradas e depois s\u00e3o realizadas. Vi agora, nestes \u00faltimos tempos, que essas pessoas que dizem que s\u00e3o abandonadas \u2013 ou seja, s\u00e3o colocadas aqui no hospital e depois esquecidas pela pr\u00f3pria fam\u00edlia \u2013 o hospital tem conseguido dar resposta a todos.<\/p>\n<p>Portanto, n\u00f3s no per\u00edodo antes da pandemia t\u00ednhamos \u2013 passe a express\u00e3o \u2013 pessoas que residiam aqui no hospital por um ano, dois anos&#8230; Eu j\u00e1 acompanhei v\u00e1rias pessoas que estiveram aqui depois do per\u00edodo de convalescen\u00e7a mais um ano ou dois. Mas a verdade \u00e9 que, quando aquela cama \u00e9 precisa, quando digamos assim, se procura organizar melhor as unidades do hospital, encontra-se sempre uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que eu tenho percebido at\u00e9 este momento \u00e9 que ningu\u00e9m foi posto \u00e0 porta de casa ou na rua, porque sempre foi encontrada uma solu\u00e7\u00e3o para aquelas pessoas que est\u00e3o abandonadas pela pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Creio que isso ser\u00e1 sempre uma prioridade do hospital, ou seja, como disse h\u00e1 pouco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mesa de Deus e comparando com a mesa do hospital, ningu\u00e9m ser\u00e1 colocado fora do hospital. N\u00e3o, em nenhuma situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei agora porque n\u00e3o posso precisar, mas o nosso hospital de Valongo que pertence ao centro hospitalar Universit\u00e1rio de S\u00e3o Jo\u00e3o e vai acolhendo exatamente esses casos. Ou seja, quando n\u00f3s precisamos de uma cama dispon\u00edvel essa pessoa que j\u00e1 estava aqui h\u00e1 um ano ou dois era colocada, se fosse precisa aquela cama, era colocada em Valongo, no nosso centro de reabilita\u00e7\u00e3o. Mas agora, creio que n\u00e3o existir\u00e1 nenhum problema nesta \u00e1rea. Eu estou convencido disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 muitos doentes que permanecem demasiado tempo no hospital e que se possam sentir abandonados pelas fam\u00edlias?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim. Eu estou praticamente h\u00e1 cinco anos aqui no hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o, e eu pr\u00f3prio j\u00e1 acompanhei v\u00e1rias pessoas que estiveram nessa situa\u00e7\u00e3o. Os sentimentos s\u00e3o contradit\u00f3rios. E porque \u00e9 que eu digo isto? Passo a justificar: h\u00e1 pessoas que s\u00e3o deixadas aqui no hospital e que ficam muito tristes porque o filho ou neto ou a neta nunca mais quiseram saber deles. Eu acompanhei casos desses.<\/p>\n<p>Mas acompanhei outros casos. Eu quero dizer publicamente que s\u00e3o em maior n\u00famero que estes primeiros que eu acabo de referir. Estes segundos casos s\u00e3o pessoas que, depois de serem cuidadas da sua doen\u00e7a no hospital, querem ficar no hospital. Eu digo assim: eu j\u00e1 assisti a choro compulsivo de pessoas que tiveram de sair do hospital para o centro de reabilita\u00e7\u00e3o ou para Valongo, porque n\u00e3o queriam sair daquela enfermaria, n\u00e3o queriam sair do conv\u00edvio com aqueles profissionais, com quem estiveram durante tanto tempo.<\/p>\n<p>E este n\u00famero de pessoas que ficam tristes como a morte por terem de abandonar o hospital para ir para outro lugar s\u00e3o em maior n\u00famero que os primeiros. Porque n\u00e3o s\u00e3o assim tantos os que ficam muito triste por terem sido abandonados pela fam\u00edlia, porque os casos sociais, s\u00e3o casos que j\u00e1 trazem antecedentes de casa. E, portanto, a pessoa n\u00e3o \u00e9 apenas maltratada pela fam\u00edlia no hospital; j\u00e1 o era provavelmente antes de chegar ao hospital. E aquilo \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de fuga tamb\u00e9m. Ou seja, a pessoa sente-se t\u00e3o bem acolhida no hospital, porque tem refei\u00e7\u00f5es a horas certas, tem quem lhe d\u00ea banho todos os dias\u2026 e muitas vezes o enfermeiro, o m\u00e9dico at\u00e9 traz um mimo para dar a essas pessoas.<\/p>\n<p>Isso tudo \u00e9, de facto, um ambiente de fam\u00edlia. Quem \u00e9 que n\u00e3o quer um ambiente de fam\u00edlia assim? E essas pessoas est\u00e3o felizes; felizes por estarem no hospital com todos estes cuidados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s estamos a emitir esta entrevista no primeiro domingo do Advento; \u00e9 o in\u00edcio do ano lit\u00fargico e o tempo de prepara\u00e7\u00e3o para o Natal, no calend\u00e1rio cat\u00f3lico. Como \u00e9 que se prepara o Natal face \u00e0 incerteza que est\u00e1 a reinar neste momento?<\/em><\/p>\n<p>O Natal existe j\u00e1 h\u00e1 2000 anos. Natal \u00e9 nascimento de Jesus e no dizer do Cardeal Tolentino Mendon\u00e7a \u2013 e eu procuro sempre situar e refletir a minha vida a partir da\u00ed \u2013 n\u00f3s somos a manjedoura onde Jesus deve nascer.<\/p>\n<p>O cardeal Tolentino Mendon\u00e7a tem um poema que \u00e9 curt\u00edssimo e bel\u00edssimo e que diz isto. O Natal j\u00e1 aconteceu h\u00e1 dois mil anos, essa manjedoura onde Ele deve nascer somos n\u00f3s. E de facto, tudo aquilo que est\u00e1 \u00e0 nossa volta contribui para que aconte\u00e7a Natal. E o Natal n\u00e3o \u00e9 como se diz quando um homem quiser. N\u00e3o, o Natal \u00e9 quando a manjedoura estiver preparada. E a manjedoura \u2013 \u00e9 a nossa vida, \u00e9 o nosso cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 o centro da nossa exist\u00eancia \u2013 deve estar preparada. Quando isso tudo estiver preparado, \u00e9 Natal.<\/p>\n<p>Por causa da pandemia, teremos muitas restri\u00e7\u00f5es, mas essas restri\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam retirar-nos do sentido do verdadeiro Natal.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por haver pandemia que n\u00f3s vamos ter mais ou menos Natal do que nos outros anos. Porque nos outros anos, quando estamos todos sentados \u00e0 volta da mesa e estamos a comer as batatas e o bacalhau, mas h\u00e1 um membro da fam\u00edlia que est\u00e1 aborrecido comigo, eu tamb\u00e9m n\u00e3o tenho a manjedoura preparada. E, portanto, n\u00e3o creio que a pandemia nos v\u00e1 retirar, digamos assim, a viv\u00eancia ou a n\u00e3o viv\u00eancia do verdadeiro sentimento do Natal.<\/p>\n<p>Claro que nos pode retirar do conv\u00edvio, pelas regras sanit\u00e1rias que est\u00e3o propostas pela DGS, mas o verdadeiro Natal nunca nos ser\u00e1 retirado. Agora, depende de cada um. Cada um tem de fazer caminho, tem de ficar a escuta e \u00e0 espera para que a sua manjedoura; a manjedoura da sua pr\u00f3pria vida possa devidamente ser habitada. E habitada, se poss\u00edvel, n\u00e3o por bens materiais, n\u00e3o por estas coisas que nos afagam a sede de bens materiais, mas que nos preenchem a partir de dentro para conseguirmos ser verdadeiros filhos de Deus \u00e0 escuta, numa escuta permanente daquilo que Deus tem para nos dizer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Paulo Teixeira diz que assiste todos os dias ao chamamento de familiares para que se possam despedir dos doentes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":192122,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[100,698],"class_list":["post-192121","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-advento","tag-covid-19"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192121","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192121"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192121\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/192122"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}