{"id":19190,"date":"2006-07-18T13:21:53","date_gmt":"2006-07-18T13:21:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/07\/18\/pma-com-ou-sem-lei\/"},"modified":"2006-07-18T13:21:53","modified_gmt":"2006-07-18T13:21:53","slug":"pma-com-ou-sem-lei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pma-com-ou-sem-lei\/","title":{"rendered":"PMA: com ou sem lei?"},"content":{"rendered":"<p>Daniel Serr\u00e3o <!--more--> \u00c9 leg\u00edtima a pergunta. De facto, o tratamento m\u00e9dico da infertilidade, como qualquer outro tratamento do \u00e2mbito dos cuidados de sa\u00fade, n\u00e3o justificaria, por si s\u00f3, a interven\u00e7\u00e3o do legislador, fosse ele o Governo ou a Assembleia da Rep\u00fablica. E outros processos de tratamento da infertilidade, que n\u00e3o a PMA, como \u00e9 o caso da desobstru\u00e7\u00e3o cir\u00fargica das trompas, n\u00e3o s\u00e3o objecto de preocupa\u00e7\u00e3o dos legisladores. Basta a regra b\u00e1sica da actividade m\u00e9dica que \u00e9 a de o m\u00e9dico agir sempre segundo as regras da boa pr\u00e1tica cient\u00edfica e t\u00e9cnica, as leges artis dos juristas. Assim sendo, algo deve acontecer na PMA que ultrapassa a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-t\u00e9cnica e que imp\u00f4s a interven\u00e7\u00e3o do legislador. E acontece: a PMA \u00e9 um acto m\u00e9dico que extravasa da simples inten\u00e7\u00e3o terap\u00eautica de curar a infertilidade, para campos n\u00e3o m\u00e9dicos e claramente sociais. E \u00e9 a repercuss\u00e3o na sociedade e suas estruturas b\u00e1sicas, como a fam\u00edlia, que imp\u00f4s, e bem, a interven\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica. Se o fez da melhor maneira, isso \u00e9 mat\u00e9ria controversa. Do meu ponto de vista, n\u00e3o o fez da melhor maneira e perdeu a oportunidade de preparar uma lei voltada para o futuro e para os novos problemas que j\u00e1 se perfilam no horizonte.  A quest\u00e3o essencial \u00e9 a de saber se deve permitir-se que embri\u00f5es humanos, constitu\u00eddos para tentar resolver um problema cl\u00ednico de infertilidade de um casal com vontade procriativa, podem ser usados para outras finalidades que nada t\u00eam a ver com procria\u00e7\u00e3o. Para mim \u00e9 evidente que n\u00e3o podem. Este desvio s\u00f3 aconteceu porque a imperfei\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica e o descontrole das fases cr\u00edticas do processo biol\u00f3gico de fertiliza\u00e7\u00e3o de ov\u00f3citos no laborat\u00f3rio fez que aparecessem embri\u00f5es que, tendo sido constitu\u00eddos para serem implantados na mulher n\u00e3o v\u00e3o mais ser usados para essa finalidade e s\u00e3o chamados embri\u00f5es sobran-tes. J\u00e1 que sobraram e ningu\u00e9m os quer vamos us\u00e1-los para investiga\u00e7\u00e3o &#8211; como a lei aprovada permite. \u00c9 imposs\u00edvel evitar a forma\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es em excesso? N\u00e3o \u00e9. H\u00e1 muitos anos que na Alemanha, na \u00c1ustria e, pelo menos num Centro, em Portugal, se pratica PMA sem embri\u00f5es excedent\u00e1rios. A lei, nestes dois pa\u00edses, para maior seguran\u00e7a, criminaliza a constitui\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es em n\u00famero superior aos que v\u00e3o ser usados para tentar resolver o problema m\u00e9dico da infertilidade. Actualmente, nos pa\u00edses mais avan\u00e7ados, a boa pr\u00e1tica \u00e9 transferir apenas um embri\u00e3o em cada tentativa de procria\u00e7\u00e3o, na maior parte dos casos. E o prolongamento da cultura dos embri\u00f5es at\u00e9 aos 5-6 dias faz com que o aparecimento de embri\u00f5es sobrantes seja hoje uma muito rara eventualidade. Uma legisla\u00e7\u00e3o moderna que desejasse, de facto, proteger a eminente dignidade de um ser humano em fase embrion\u00e1ria, n\u00e3o deveria prever nenhuma possibilidade de usar embri\u00f5es humanos fora da sua digna utiliza\u00e7\u00e3o na tentativa de curar a infertilidade humana. Tudo o que a lei prescreve quanto a investiga\u00e7\u00e3o em embri\u00f5es, a diagn\u00f3stico antes da implanta\u00e7\u00e3o, a uso de espermatoz\u00f3ides ou ov\u00f3citos alheios ao casal inf\u00e9rtil \u00e9 desajustado numa lei sobre procria\u00e7\u00e3o medicamente assistida. Tendo a lei optado por criar um Conselho Nacional de Procria\u00e7\u00e3o Medicamente Assistida, melhor seria que as quest\u00f5es marginais \u00e0 interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica dos m\u00e9dicos fossem deixadas \u00e0 pondera\u00e7\u00e3o deste Conselho, caso a caso, como conv\u00e9m. Desde que este Conselho desse \u00e0 Sociedade Civil a garantia de \u201cindepend\u00eancia, multidisciplinaridade e plura-lismo\u201d e da \u201ctranspar\u00eancia dos seus procedimentos\u201d. Como refere o Presidente da Rep\u00fablica na sua mensagem \u00e0 Assembleia. Ora, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil que um Conselho com a constitui\u00e7\u00e3o prevista na lei, venha a ter a necess\u00e1ria independ\u00eancia do poder pol\u00edtico e dos l\u00f3bis de interesses que se constitu\u00edram para o uso de embri\u00f5es humanos como mat\u00e9ria prima para a obten\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas estaminais embrion\u00e1rias para investiga\u00e7\u00e3o pela Ind\u00fastria farmac\u00eautica. Sem esta independ\u00eancia e com as disposi\u00e7\u00f5es constantes da lei, dificilmente ela poder\u00e1 ser o ve\u00edculo da opini\u00e3o dos cidad\u00e3os. A estes deveria ter sido dada a possibilidade de se pronunciarem sobre aspectos essencialmente sociais e altamente controversos da PMA, como foi solicitado, at\u00e9 agora sem sucesso, por oitenta mil portugueses no pleno uso dos seus direitos de cidadania. Legisla\u00e7\u00e3o? Certamente, mas que fosse moderna, justa e respeitadora da opini\u00e3o p\u00fablica, devidamente averiguada. <i>Daniel Serr\u00e3o<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Serr\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[206],"class_list":["post-19190","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19190","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19190"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19190\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}