{"id":191685,"date":"2020-11-24T10:59:09","date_gmt":"2020-11-24T10:59:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=191685"},"modified":"2020-11-24T11:02:08","modified_gmt":"2020-11-24T11:02:08","slug":"a-cruz-escondida-121","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cruz-escondida-121\/","title":{"rendered":"A cruz escondida"},"content":{"rendered":"<p><em>PAQUIST\u00c3O: Culpado de blasf\u00e9mia, crist\u00e3o vive escondido h\u00e1 20 anos<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-191687\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/paquistao-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<h4>Uma vida nas sombras<\/h4>\n<p>A vida de Shafique Masih mudou no dia 31 de Maio de 1998 quando uma multid\u00e3o ati\u00e7ada pelos gritos dos altifalantes das mesquitas se reuniu junto \u00e0 sua casa em Faisalabad, no Paquist\u00e3o. A acusa\u00e7\u00e3o era simples. Tinha insultado o profeta. Nesse dia, nesse instante, come\u00e7ou um verdadeiro purgat\u00f3rio para este humilde crist\u00e3o. Desde ent\u00e3o, vive escondido com medo de ser descoberto, de ser apontado outra vez pelo dedo acusador das multid\u00f5es em f\u00faria<\/p>\n<p>De nada valeram os seus argumentos, dizer que tudo n\u00e3o passava de um mal-entendido, que aquela era apenas uma hist\u00f3ria inventada pela inveja do seu s\u00f3cio, o mu\u00e7ulmano Majeed. \u201cAcusou-me de ter participado nas manifesta\u00e7\u00f5es contra a lei da blasf\u00e9mia e de ter falado depreciativamente sobre o profeta Maom\u00e9.\u201d Era mentira. No entanto, no bairro, para a multid\u00e3o sedenta de vingan\u00e7a, n\u00e3o havia outra verdade. Culpado antes de ser julgado, Shafique salvou-se pela coragem de vizinhos que o esconderam numa escola e chamaram as autoridades. Mas depressa o descobriram. J\u00e1 se escutavam tiros quando chegou a pol\u00edcia. \u201cCom medo de um ataque \u00e0 esquadra, levaram-me naquela noite para a pris\u00e3o central de Faisalabad.\u201d Foram tr\u00eas anos na cadeia por um crime de blaf\u00e9mia que n\u00e3o cometeu. Foram intermin\u00e1veis tr\u00eas anos. Foi um tempo de medo que ainda hoje atordoa a mem\u00f3ria de Shafique Masih. Por mais de uma vez tentaram assassin\u00e1-lo. Por mais de uma vez, os pr\u00f3prios guardas incentivaram para que se cumprisse ali, na pris\u00e3o de Faisalabad, a senten\u00e7a de morte que o juiz entendeu n\u00e3o dever aplicar. \u201cFoi um inferno\u201d, recorda Shafique \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o AIS. \u201cDeixavam deliberadamente a fechadura da minha cela aberta para que algu\u00e9m me pudesse atacar\u2026\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Pesadelo sem fim<\/h4>\n<p>O pesadelo continuou mesmo depois de ter sido libertado em 2001. Ningu\u00e9m se esquecera da sua hist\u00f3ria. Todos conheciam o seu rosto, sabiam o seu nome e queriam vingan\u00e7a. Sempre vingan\u00e7a. \u201cFui acolhido por um sacerdote que cuidou de mim como um filho e cuidou de todas as necessidades da minha fam\u00edlia\u2026\u201d Dois anos depois, em 2003, com o apoio da Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz do Paquist\u00e3o e da Funda\u00e7\u00e3o AIS, Shafique foi transferido, com a fam\u00edlia, para uma casa-abrigo num bairro residencial. \u201cQuatro dos meus filhos nasceram aqui. Os mais novos, g\u00e9meos com 12 anos, ajudam-me na oficina pois tenho uma catarata no olho esquerdo.\u201d Shafique continua a ser soldador. \u00c9 a sua profiss\u00e3o. O neg\u00f3cio, que nunca foi pr\u00f3spero, est\u00e1 agora quase moribundo. \u00c9 uma consequ\u00eancia tamb\u00e9m da pandemia do coronav\u00edrus. A escassez do neg\u00f3cio n\u00e3o lhe permite deitar m\u00e3os \u00e0s obras que gostaria de fazer em casa. As chuvas da mon\u00e7\u00e3o do ano passado fizeram desabar a parede do quintal. O terreno ficou inundado com a \u00e1gua dos esgotos e a casa de banho precisa de ser concertada. Mas, apesar de tudo isso, aquela casa ser\u00e1 sempre um quase para\u00edso quando comparada com a cela na pris\u00e3o de Faisalabad, onde viveu encolhido pelo medo. Essa \u00e9 uma mem\u00f3ria que ainda o assusta, que perturba. Praticamente h\u00e1 vinte anos que Shafique n\u00e3o sabe o que \u00e9 viver em tranquilidade. At\u00e9 as visitas aos irm\u00e3os, que vivem na aldeia de Bagywal, s\u00e3o um risco. \u201cS\u00f3 viajo at\u00e9 l\u00e1 de noite\u2026\u201d O medo nunca mais o abandonou, est\u00e1 presente nos pormenores mais pequenos do quotidiano. Em qualquer altura algu\u00e9m pode passar por ali, pela oficina, e apontar-lhe o dedo. Os gritos dos altifalantes das mesquitas que espica\u00e7aram o \u00f3dio da multid\u00e3o que se reuniu com varapaus e tochas junto \u00e0 sua casa h\u00e1 vinte anos continuam a atordoar-lhe os sentidos. H\u00e1 praticamente vinte anos que Shafique vive nas sombras da clandestinidade. \u00c9 um crist\u00e3o perseguido pela intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PAQUIST\u00c3O: Culpado de blasf\u00e9mia, crist\u00e3o vive escondido h\u00e1 20 anos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":187728,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-191685","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191685","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=191685"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191685\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/187728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=191685"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=191685"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=191685"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}