{"id":190938,"date":"2020-11-18T10:33:55","date_gmt":"2020-11-18T10:33:55","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=190938"},"modified":"2020-11-18T10:33:55","modified_gmt":"2020-11-18T10:33:55","slug":"saber-aprender-a-ampliar-a-comunhao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-ampliar-a-comunhao\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A ampliar a comunh\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Muitos come\u00e7am de novo a sentir os efeitos da necessidade de maior confinamento para mitigar os efeitos da pandemia. Mas, sabemos, que as part\u00edculas que podem contagiar-nos, facilmente se dispersam nos ambientes naturais, da\u00ed que esses sejam mais seguros para podermos estar juntos. Estamos todos cientes de que o Inverno implica chuva e frio, mas temos a experi\u00eancia de que existem dias com c\u00e9u limpo que permitem passear com a nossa fam\u00edlia por ambientes naturais. Enquanto as pessoas de risco n\u00e3o arriscam a tomar parte da comunh\u00e3o sacramental da Eucaristia, o que \u00e9 compreens\u00edvel, creio podermos ser criativos, e ampliar a experi\u00eancia de comunh\u00e3o atrav\u00e9s do modo f\u00edsico e concreto com que estamos presentes na Natureza usando os v\u00e1rios sentidos do corpo e a mente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_190939\" aria-describedby=\"caption-attachment-190939\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-190939\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1001\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-1280x854.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/comungarNatureza-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-190939\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Rusty Watson em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Pensar que a presen\u00e7a e experi\u00eancia de Deus se reduz aos edif\u00edcios, como as Igrejas ou capelas, ou at\u00e9 \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es, seria uma vis\u00e3o muito redutora da experi\u00eancia pessoal de comunh\u00e3o com Deus. Se a experi\u00eancia da comunh\u00e3o sacramental \u00e9 f\u00edsica porque comemos a h\u00f3stia consagrada, tamb\u00e9m podemos fazer uma comunh\u00e3o corporal com a natureza, com um sentido diferente do sacramental, mas t\u00e3o profundo quanto esse. Talvez o maior entrave a experimentar uma <em><strong>comunh\u00e3o<\/strong><\/em> com a natureza esteja no significado restrito que damos a essa palavra. <em>Comunh\u00e3o<\/em> significa m\u00fatua \u00edntima iman\u00eancia. \u00c9 uma experi\u00eancia de doa\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, de intimidade entre n\u00f3s, e com o que est\u00e1 para al\u00e9m de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia mais comum de comunh\u00e3o com a natureza acontece atrav\u00e9s do <em>olhar contemplativo<\/em>. Um p\u00f4r-do-sol facilmente nos eleva e impele a entrar num di\u00e1logo silencioso com Deus. Mas as experi\u00eancias de comunh\u00e3o com a natureza n\u00e3o se reduzem \u00e0 vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando era mais novo e voltava da escola, havia na sebe de uma moradia umas flores cujo n\u00e9ctar era de um doce irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>Numa outra vez, estava com o grupo de escuteiros acampados na Su\u00ed\u00e7a, e ao chover, notei como uma l\u00edmpida camada de \u00e1gua escorria pela casca incrivelmente lisa de uma \u00e1rvore. Lembro-me de ter encostado a m\u00e3o \u00e0 \u00e1rvore para criar um fio de \u00e1gua que podia beber. O sabor era t\u00e3o parecido com o da conhecida \u00e1gua do Luso&#8230;<\/p>\n<p>Por fim, a casa de campo dos meus sogros tem \u00e0 beira de uma parte do terreno uma figueira. Qualquer um pode ir, tirar um figo, e comer. A figueira \u00e9 um dom para n\u00f3s como pode ser para os outros. Estas tr\u00eas simples experi\u00eancias parecem banais, mas longe disso. N\u00e3o comemos e bebemos o corpo e sangue de Cristo no p\u00e3o e vinho transubstanciados?<\/p>\n<p>O poeta americano Ralph Waldo Emerson dizia que <em>\u00abo c\u00e9u \u00e9 o p\u00e3o nosso de cada dia para os olhos\u00bb<\/em>, frase que nos pode inspirar a fazer de toda a interac\u00e7\u00e3o com o mundo natural um alimento para uma comunh\u00e3o espiritual que nos aproxime mais de Deus. A comunh\u00e3o com a natureza faz-se atrav\u00e9s dos sentidos, pelo que, al\u00e9m do olhar contemplativo, temos a audi\u00e7\u00e3o, o odor, o tacto e, tamb\u00e9m, o gosto contemplativo (como experimentamos atrav\u00e9s dos figos).<\/p>\n<p>Se permearmos os nossos sentidos no contacto com a natureza de uma tonalidade espiritual, qualquer acto contemplativo torna-se um momento de comunh\u00e3o com o mundo natural que faz mem\u00f3ria. De certo modo, n\u00e3o \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o, mas uma actualiza\u00e7\u00e3o no presente daquilo que j\u00e1 experiment\u00e1mos no passado, uma verdadeira <em>anamnese<\/em> em sentido eucar\u00edstico. \u00c9 como se v\u00edssemos cada p\u00f4r-do-sol pela primeira vez, renovando o nosso interior, enquanto aprofundamos o relacionamento com a natureza.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense que a sagrada comunh\u00e3o se realiza mais como um acto de envolvimento individual, do que comunit\u00e1rio. Ou h\u00e1 ainda quem seja tentado a pensar que fazer dos sentidos actos contemplativos \u00e9 puxar demais para uma espiritualidade desenraizada das tradi\u00e7\u00f5es religiosas, conferindo ao indiv\u00edduo uma experi\u00eancia mais intensa, at\u00e9 da presen\u00e7a de Deus, do que se a vivesse em comunidade. Mas n\u00e3o h\u00e1 acto contemplativo que n\u00e3o seja relacional na sua ess\u00eancia. E os relacionamentos envolvem, tamb\u00e9m, o acto de dar-se totalmente, mesmo como alimento. Pois, a liga\u00e7\u00e3o mais profunda que temos com a natureza \u00e9 por via do alimento, sem o qual n\u00e3o conseguir\u00edamos sobreviver.<\/p>\n<p>Da\u00ed que me pare\u00e7a particularmente interessante a reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo ambientalista Wendell Berry ao considerar que uma comunh\u00e3o de teor sacramental com a natureza reside mais no colectivo, do que no indiv\u00edduo, o que n\u00e3o sugere que<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab(&#8230;) possamos viver inofensivamente, ou estritamente \u00e0 nossa custa; n\u00f3s dependemos das outras criaturas e sobrevivemos com a sua morte. Para viver, temos de quebrar, diariamente, o corpo, e derramar o sangue da Cria\u00e7\u00e3o. Quando o fazemos com conhecimento de causa, amando, com destreza, rever\u00eancia, \u00e9 um sacramento. Quando o fazemos com ignor\u00e2ncia, avidamente, desastradamente, destrutivamente, \u00e9 uma profana\u00e7\u00e3o. E em tal profana\u00e7\u00e3o, condenamo-nos a n\u00f3s mesmos \u00e0 solid\u00e3o espiritual e moral, e os outros \u00e0 car\u00eancia.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>S\u00e3o palavras fortes que redimensionam a nossa gratid\u00e3o diante de tudo o que recebemos da natureza. Mas h\u00e1 ainda a uma outra forma de comunh\u00e3o revitalizante que pode continuar a ampliar o sentido e significado desta palavra na nossa vida. Refiro-me \u00e0 comunh\u00e3o que podemos fazer com aqueles que j\u00e1 partiram para o Pai, ou que continuar\u00e3o o percurso humano pela hist\u00f3ria, depois de partirmos n\u00f3s, atrav\u00e9s da <em>leitura<\/em> e da <em>escrita<\/em>. Os primeiros, lemos; os segundos, ler-nos-\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando nos encontramos em espa\u00e7os naturais, e levamos um livro connosco para fazer alguma forma de medita\u00e7\u00e3o, essa corresponde a uma leitura em profundidade. E envolve-nos mais fisicamente do que pensamos. Henry David Thoreau em <em>\u201dWalden &#8211; ou a vida nos bosques\u201d<\/em> diz que<\/p>\n<blockquote><p>\u00abLer bem, isto \u00e9, ler livros verdadeiros com esp\u00edrito verdadeiro, \u00e9 um nobre exerc\u00edcio que p\u00f5e \u00e0 prova o leitor mais do que qualquer outro exerc\u00edcio tido em alta conta nos h\u00e1bitos contempor\u00e2neos. Exige um treino semelhante \u00e0quele a que se submetem os atletas, a firme perseveran\u00e7a de quase toda a vida nesse objectivo. Os livros devem ser lidos com o mesmo cuidado e circunspec\u00e7\u00e3o com que foram escritos.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>O que escrevemos pode ser express\u00e3o do cuidado pela mensagem que queremos deixar \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es. Escrever para proporcionar uma leitura em profundidade \u00e9 algo incompat\u00edvel com a linguagem dos coment\u00e1rios, mensagens e <em>tweets<\/em> repletos de superficialidade.<\/p>\n<p>Ler \u00e9 uma comunh\u00e3o que vai para al\u00e9m do nosso espa\u00e7o e tempo. \u00c9 o alimento da mente proveniente da relacionalidade entre leitor e escritor, que pode dar mais sentido ao alimento do corpo. Pois, um dia, tamb\u00e9m n\u00f3s partiremos para o Pai e daremos o nosso corpo em alimento para a natureza. Parece fazer parte da lei da vida: saber aprender a ampliar o comungar, e a dar-se em comunh\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-190938","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=190938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190938\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=190938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=190938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=190938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}