{"id":190354,"date":"2020-11-15T09:30:00","date_gmt":"2020-11-15T09:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=190354"},"modified":"2020-11-12T15:00:07","modified_gmt":"2020-11-12T15:00:07","slug":"problemas-sociais-vao-ficar-como-cicatrizes-desta-crise-enorme-manuel-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/problemas-sociais-vao-ficar-como-cicatrizes-desta-crise-enorme-manuel-antunes\/","title":{"rendered":"Problemas sociais v\u00e3o ficar \u00abcomo cicatrizes, desta crise enorme\u00bb &#8211; Manuel Antunes"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00c9 conhecido como o m\u00e9dico que n\u00e3o tinha listas de espera no servi\u00e7o que criou e no qual esteve 30 anos \u2013 o Departamento de Cirurgia Cardiotor\u00e1cica do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra. Agora, a Diocese confiou-lhe outro desafio: a presid\u00eancia da C\u00e1ritas de Coimbra<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_190351\" aria-describedby=\"caption-attachment-190351\" style=\"width: 392px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-190351\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o-392x260.jpg\" alt=\"\" width=\"392\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o-392x260.jpg 392w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o-768x509.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o-480x318.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/124622502_3493632164053702_9031737282605667349_o.jpg 947w\" sizes=\"(max-width: 392px) 100vw, 392px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-190351\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Correio de Coimbra<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Para um m\u00e9dico que teve sempre \u201co cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os\u201d, literalmente, ser agora presidente da C\u00e1ritas Diocesana de Coimbra \u00e9 uma forma diferente de cuidar do cora\u00e7\u00e3o de quem precisa?<\/em><\/p>\n<p>Sim, evidentemente. N\u00f3s temos muita gente com muitas necessidades, sobretudo nesta \u00e9poca em que vivemos, mas esta institui\u00e7\u00e3o j\u00e1 c\u00e1 estava muito antes da pandemia. Eu vejo isto, agora que tenho algum tempo, como\u00a0uma miss\u00e3o de cidadania. H\u00e1 gente que precisa de n\u00f3s, se temos tempo e temos capacidade\u2026<\/p>\n<p>Tenho algumas d\u00favidas, mas convenceram-me a aceitar este lugar, o senhor D. Virg\u00edlio (Antunes, bispo de Coimbra), convidou-me para o assumir e c\u00e1 estou, conjuntamente com outros, \u00e9 uma equipa enorme. A C\u00e1ritas de Coimbra\u00a0tem mais de 1000 pessoas a trabalhar para ela, diretamente, mais os volunt\u00e1rios todos, tem 140 servi\u00e7os diferentes de assist\u00eancia, de v\u00e1rios tipos \u2013 creches, ATL, lares, cl\u00ednicas \u2013 e um or\u00e7amento de 20 milh\u00f5es de euros. \u00c9 a maior C\u00e1ritas Diocesana do pa\u00eds e, portanto, isso vai dar algum trabalho, mas obviamente n\u00e3o se faz sozinho. Ela est\u00e1 estruturada, a funcionar bem, espero que consiga levar o barco a bom porto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 um desafio muito diferente daqueles que teve at\u00e9 agora, mas teve esse convite do bispo de Coimbra\u2026<\/em><\/p>\n<p>Curiosamente, o senhor bispo disse que era uma coisa a que eu j\u00e1 estava habituado, porque geria uma equipa e sempre fui conhecido, at\u00e9, para al\u00e9m da parte m\u00e9dico-cir\u00fargica, propriamente, pelo meu estilo de gest\u00e3o de unidades de sa\u00fade. Disse-me que seria uma experi\u00eancia interessante, que n\u00e3o seria totalmente nova para mim. Mas \u00e9 realmente nova, \u00e9 chefiar uma equipa maior.<\/p>\n<p>Vamos at\u00e9 alterar o modelo de gest\u00e3o, porque at\u00e9 aqui havia um presidente que era a cabe\u00e7a, o tronco e os membros da C\u00e1ritas e vamos passar a ter uma equipa que inclui um gestor, profissional, que ser\u00e1 coordenador-geral, fazendo a comunica\u00e7\u00e3o entre as bases, os servi\u00e7os na periferia, a presta\u00e7\u00e3o de cuidados sociais, e a Dire\u00e7\u00e3o, que tem obviamente que definir os objetivos e os caminhos que a institui\u00e7\u00e3o tem de seguir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua tomada de posse, chamou a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de respostas sociais atempadas para quem est\u00e1 a sofrer o impacto desta pandemia. Ser\u00e1 uma prioridade, essa resposta pronta e atempada?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro. Este mandato estende-se por quatro anos e espero bem que a pandemia n\u00e3o se prolongue, que daqui a um ano, pelo menos \u2013 ainda que haja alguns casos -, estejamos a conviver razoavelmente com a pandemia. Mesmo depois de passar, \u00e9 evidente que,\u00a0pelo desastre econ\u00f3mico que a pandemia constituiu, h\u00e1 de haver muita gente com dificuldades que n\u00e3o sentia antes.\u00a0Os desempregados, as despesas que se fizeram e que as pessoas t\u00eam de pagar, mesmo que voltem ao seu emprego; desestrutura\u00e7\u00e3o, at\u00e9, de personalidades, de fam\u00edlias. Vai haver necessidades, durante algum tempo, ligadas \u00e0 pandemia.<\/p>\n<p>Mesmo antes da pandemia, a C\u00e1ritas de Coimbra e outras institui\u00e7\u00f5es id\u00eanticas j\u00e1 tinham um campo muito alargado, porque o nosso pa\u00eds \u00e9 um pa\u00eds economicamente e at\u00e9 socialmente d\u00e9bil.\u00a0O Estado n\u00e3o pode acorrer a tudo e, se calhar, at\u00e9 nem \u00e9 conveniente que o fa\u00e7a\u00a0\u2013 sou um pouco liberal, nesse sentido.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o a compara\u00e7\u00e3o com o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade: enquanto continuo a pensar que o pilar da presta\u00e7\u00e3o de cuidados tem de ser o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, aqui, talvez,\u00a0o pilar da presta\u00e7\u00e3o de cuidados sociais devem ser as Institui\u00e7\u00f5es Particulares de Solidariedade Social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A C\u00e1ritas de Coimbra tem v\u00e1rios projetos inovadores que usam tecnologias para acompanhar pessoas idosas. Estes projetos que promovem a proximidade s\u00e3o fundamentais nesta altura?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o. N\u00f3s temos um departamento muito ativo, de inova\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, com muitos projetos, em coopera\u00e7\u00e3o europeia. Quando dei uma volta pela institui\u00e7\u00e3o, estive junto do rob\u00f4 que acompanha os idoso, que os cumprimenta e sorri, fala com eles.\u00a0S\u00e3o projetos inovadores, em que a C\u00e1ritas de Coimbra, a n\u00edvel nacional, neste tipo de atividade, se tem salientado\u00a0acima de outras institui\u00e7\u00f5es id\u00eanticas. Temos ali um departamento, que ainda n\u00e3o conhe\u00e7o bem, mas que parece estar a trabalhar muito bem. Quem tiver curiosidade e quiser ir \u00e0<a href=\"https:\/\/caritascoimbra.pt\/\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/caritascoimbra.pt\/&amp;source=gmail&amp;ust=1605267613526000&amp;usg=AOvVaw34W12PIV66TdaqSm8zNfUD\">\u00a0p\u00e1gina<\/a>\u00a0na internet, encontra l\u00e1 uma lista uma lista enorme de projetos interinstitucionais, europeus, que impressiona, realmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso tamb\u00e9m o deixa entusiasmado?<\/em><\/p>\n<p>Sim. O futuro vai ser destas tecnologias, podemos avan\u00e7ar ainda mais, com modos diferentes de melhorar a vida das pessoas, utilizados pela C\u00e1ritas e que possa, eventualmente, ser adaptados por outras institui\u00e7\u00f5es com as mesmas finalidades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o aceitaria um cargo destes, imagino. n\u00e3o sendo crente. A f\u00e9 tem import\u00e2ncia, na sua vida?<\/em><\/p>\n<p>A f\u00e9 tem import\u00e2ncia, mas isso n\u00e3o quer dizer que, se n\u00e3o fosse crente, n\u00e3o o tomaria, tamb\u00e9m. N\u00e3o podemos diabolizar os n\u00e3o-crentes, porque muitos se comportam melhor do que alguns crentes.<\/p>\n<p>Evidentemente,\u00a0a f\u00e9 teve um impacto muito grande. Desde logo, quem me convidou, o senhor D. Virg\u00edlio Antunes, bispo de Coimbra, conhece-me pelas atividades que eu tenho desempenhado na par\u00f3quia. Estando esta institui\u00e7\u00e3o t\u00e3o ligada \u00e0 Igreja, faz todo o sentido que esteja \u00e0 frente dela algu\u00e9m que n\u00e3o venha dizer \u201ceu at\u00e9 sou ateu, mas estou aqui para prestar este servi\u00e7o c\u00edvico\u201d.<\/p>\n<p>A pessoa que vai assumir este papel de administrador executivo, que vai estar mais no campo, estabelecendo esta liga\u00e7\u00e3o entre as diversas atividades \u2013 que s\u00e3o muito extensas, cobrindo todo o distrito de Coimbra e um bocadinho mais al\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 hoje que um s\u00f3 homem possa fazer \u2013, o doutor Carlos Jo\u00e3o, \u00e9 uma pessoa talvez ainda mais ligada \u00e0s atividades da Igreja, mais intensamente. Espero que os dois possamos cumprir a tarefa.<\/p>\n<p>Esta obra, n\u00e3o sei se pode crescer muito mais. Tal como um corpo, que a partir de certa altura n\u00e3o pode crescer mais, precisa de ser fortalecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O seu m\u00e9todo de trabalho foi inspirado no modelo que conheceu na \u00c1frica do Sul, onde estudou e come\u00e7ou a exercer. Mas o ser cat\u00f3lico tamb\u00e9m tem influ\u00eancia na forma como exerce medicina, como se relaciona com os doentes?<\/em><\/p>\n<p>Tem sempre. Acho que n\u00f3s, cat\u00f3licos, temos essa obriga\u00e7\u00e3o, \u00e9 um dever, a f\u00e9 que nos move, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que me pergunte isso, porque me lembro que no concurso que fiz para professor, o equivalente a professor catedr\u00e1tico, na \u00c1frica do Sul \u2013 onde percorri a carreira toda, tanto hospitalar como acad\u00e9mica -, tinha 21 pessoas como j\u00fari. Inclu\u00eda pessoas como o diretor do principal jornal, o administrador de pessoal da faculdade e o capel\u00e3o do Hospital. A pergunta que ele me fez foi: o senhor diz aqui que \u00e9 cat\u00f3lico e est\u00e1 num pa\u00eds que \u00e9 eminentemente protestante. Acha que isso vai interferir na sua atividade? Eu acho que n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Eu procuro nem sequer perguntar aos doentes se s\u00e3o desta religi\u00e3o ou n\u00e3o, os protestantes, os anglicanos tamb\u00e9m s\u00e3o crist\u00e3os, no fim de contas. Penso que cat\u00f3licos com forma\u00e7\u00e3o, naturalmente, temos mais predisposi\u00e7\u00e3o para isso. Mas admito que qualquer pessoas, n\u00e3o-crente, n\u00e3o-cat\u00f3lica, pudesse fazer a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a C\u00e1ritas de Coimbra \u00e9 regida por princ\u00edpios pr\u00f3prios, h\u00e1 um elemento do clero, o capel\u00e3o, que vai verificar se a institui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m obedece, al\u00e9m de tudo o resto, aos princ\u00edpios que norteiam a doutrina da Igreja Cat\u00f3lica na condu\u00e7\u00e3o do \u201cneg\u00f3cio\u201d que \u00e9\u00a0esta presta\u00e7\u00e3o de cuidados sociais a quem necessita, muitos deles n\u00e3o ser\u00e3o crentes. N\u00e3o lhes vamos prestar os cuidados de maneira diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta entrevista \u00e9 divulgada num Domingo em que a Igreja assinala o IV Dia Mundial dos Pobres, institu\u00eddo pelo Papa para que haja uma tomada de consci\u00eancia da necessidade de um compromisso social das comunidades cat\u00f3licas. Nesta nova miss\u00e3o, como presidente da C\u00e1ritas de Coimbra, que inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 que tira da figura do Papa Francisco nesta sua rela\u00e7\u00e3o com os mais necessitados e a atitude de miseric\u00f3rdia?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter em conta que o Papa, numa recente enc\u00edclica, referiu a caridade como sendo um dos tr\u00eas princ\u00edpios importantes da atividade da Igreja. Normalmente as pessoas veem a atividade da Igreja como sendo celebrar umas Missas, uns casamentos e uns batizados de vez em quando, e o Papa Francisco tem realmente despertado em todos n\u00f3s &#8211; os cat\u00f3licos, os crist\u00e3os em geral e at\u00e9 os n\u00e3o crentes &#8211; um respeito muito grande pela maneira como tem feito uma abordagem muito menos cl\u00e1ssica, muito menos r\u00edgida.<\/p>\n<p>O Papa tem realmente impressionado o mundo, e um dia quando ele se for &#8211; todos nos iremos &#8211; vai certamente ser lembrado por muito tempo, pelo resto da hist\u00f3ria da humanidade, n\u00e3o s\u00f3 pelos cat\u00f3licos, mas tamb\u00e9m por todos os crist\u00e3os. Tem sido uma influ\u00eancia em todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para quem est\u00e1 no campo da solidariedade, ou at\u00e9 olhando para outras \u00e1reas que conhece bem, a rela\u00e7\u00e3o por exemplo do Papa com os doentes, o facto de os chamar para a linha da frente, de lhes querer dar aten\u00e7\u00e3o, ir ao encontro deles\u2026 \u00c9 pelo testemunho que ele marca a diferen\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 sempre pelo testemunho que se marca a diferen\u00e7a, e o Papa tem testemunhado e marcado essa diferen\u00e7a. Infelizmente aquilo que acontece \u00e9 que as pessoas que t\u00eam muitas necessidades e t\u00eam de recorrer a estas institui\u00e7\u00f5es, pela maneira como a vida os tratou &#8211; ou maltratou &#8211; \u00e0s vezes tendem a perder a f\u00e9, mesmo aqueles que a tinham. N\u00e3o sei se o exemplo e a presen\u00e7a das equipas e das pessoas que assumem estas atividades de caridade os influencia nesse aspeto, \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 um caminho que tamb\u00e9m temos de fazer, eventualmente at\u00e9 o capel\u00e3o da C\u00e1ritas poder\u00e1 ajudar-nos a p\u00f4r tamb\u00e9m nas nossas atividades esse fator, para que se possa tamb\u00e9m ajudar as pessoas a restaurar e a recuperar a f\u00e9 que possam ter perdido devido \u00e0s dificuldades que a vida lhes trouxe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando ao facto de ser um m\u00e9dico bastante conhecedor do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade &#8211; embora neste momento esteja no privado, a exercer e operar em Viseu em Coimbra &#8211; como \u00e9 que avalia a forma como o SNS tem estado a responder a esta pandemia? Arriscamos nesta altura entrar em rutura ao n\u00edvel dos internamentos e dos cuidados intensivos, era poss\u00edvel ter planeado isto de outra forma, ter uma resposta mais adequada a esta segunda vaga?<\/em><\/p>\n<p>Certamente seria sempre poss\u00edvel fazer melhor. Eu, como sabe, durante a minha vida, nestes 30 ou 32 anos em Portugal, fui muitas vezes muito cr\u00edtico da maneira como o SNS funciona, como est\u00e1 estruturado. Penso que o problema \u00e9 o da defici\u00eancia de estrutura\u00e7\u00e3o que tem, e defici\u00eancia de gest\u00e3o, mas as coisas neste momento s\u00e3o completamente diferentes. Fala-se muito da falta de camas, da falta de ventiladores, na falta de m\u00e9dicos, na falta de enfermeiros, como se n\u00f3s pud\u00e9ssemos ter &#8211; nenhum pa\u00eds tem, e muito menos um pa\u00eds economicamente fr\u00e1gil como Portugal -, tudo o que fosse preciso, \u00e0 espera que um dia venha um novo terramoto de Lisboa e possamos dar resposta a tudo aquilo que uma qualquer desgra\u00e7a acarreta\u2026. e isto verdadeiramente para a humanidade \u00e9 uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Havia tantos desconhecidos nesta doen\u00e7a, nesta pandemia, na maneira como evolui, que por muito bem preparados que estiv\u00e9ssemos havia sempre qualquer coisa que n\u00e3o podia correr bem. E aqui, o que n\u00e3o correu bem logo no in\u00edcio foi que n\u00e3o foi poss\u00edvel calcular &#8211; n\u00e3o sei se era poss\u00edvel, n\u00e3o sou especialista disso &#8211; que n\u00e3o precis\u00e1vamos naquela altura de tantos ventiladores, que depois n\u00e3o funcionavam&#8230;<\/p>\n<p>Agora nesta segunda vaga temos um problema grave, \u00e9 que percebemos que a primeira vaga quase destruiu a economia do pa\u00eds, e quem tem de tomar decis\u00f5es deve ser muito dif\u00edcil. Eu, sendo muito cr\u00edtico at\u00e9 dos atuais respons\u00e1veis noutras alturas, agora digo que tem de se ter algum cuidado. Porque resolver esta coisa \u00e9 muito sens\u00edvel, saber se se pro\u00edbe as pessoas de circular ao s\u00e1bado e ao Domingo depois das 13h00 ou se a partir das 15h00, porque isso j\u00e1 permitia aos restaurantes venderem almo\u00e7os \u00e0quela hora\u2026 \u00e9 muito dif\u00edcil tomar uma decis\u00e3o. E n\u00e3o sei se no fim vamos conseguir dizer &#8216;esta maneira foi melhor do que aquela&#8217;. \u00c9 tudo muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_190349\" aria-describedby=\"caption-attachment-190349\" style=\"width: 392px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-190349\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o-392x260.jpg\" alt=\"\" width=\"392\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o-392x260.jpg 392w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o-768x510.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o-480x318.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/125193769_3493632560720329_7709766686968205188_o.jpg 948w\" sizes=\"(max-width: 392px) 100vw, 392px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-190349\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Correio de Coimbra<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A falta de assist\u00eancia aos doentes n\u00e3o Covid, que j\u00e1 era not\u00f3ria na primeira fase da pandemia, \u00e9 ainda mais acentuada agora. N\u00e3o corremos o risco disto se transformar noutra pandemia?<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 parece um pouco caricato que ao fim de uma semana da pandemia, na primeira vaga, que afinal foi muito ligeira, t\u00ednhamos os hospitais completamente parados, o que deu como resultado aquele n\u00famero de mortos a mais do que o habitual na m\u00e9dia dos \u00faltimos cinco anos. Tem provavelmente que ver com o facto de que houve muitas outras doen\u00e7as &#8211; t\u00e3o mort\u00edferas, ou talvez at\u00e9 mais mort\u00edferas do que a pandemia &#8211; e que n\u00e3o foram cuidadas. E aqui h\u00e1 uma coisa em que tenho de ser cr\u00edtico, \u00e9 nesta relut\u00e2ncia, que n\u00e3o consigo compreender, em obter o apoio dos privados e at\u00e9 do setor social ligado \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade. Dizem &#8216;ah, mas eles sempre se recusaram a ter doentes Covid\u2019. Pois, porque as estruturas privadas n\u00e3o foram preparadas para ter, mas podiam fazer o tratamento das outras doen\u00e7as que n\u00e3o podem ser tratadas nos hospitais, quando reservarem camas para o Covid.<\/p>\n<p>Parece que agora h\u00e1 uma ligeira mudan\u00e7a na pol\u00edtica que estava a ser seguida, mas temo que seja um pouco tardio, porque as medidas que tomarmos agora s\u00f3 v\u00e3o ter efeito daqui a um m\u00eas ou dois. Eu espero que (nessa altura) j\u00e1 estejamos outra vez na fase descendente da pandemia, e quando chegar a vacina que o assunto se resolva. Mas, n\u00e3o se vai resolver imediatamente, sobretudo os problemas sociais, que v\u00e3o ficar como sequelas, como cicatrizes, desta crise enorme. Isso vai demorar anos, n\u00e3o \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma das sequelas desta pandemia foram as muitas perdas. Como \u00e9 que lida com a morte? Imagino que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil perder um doente&#8230;<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9. Sabe que eu operei 35 mil doentes eu pr\u00f3prio, e estive envolvido, como diretor de servi\u00e7o, h\u00e1 de ir para a meia centena de milhar. Mesmo que a mortalidade seja um por cento &#8211; e \u00e9 uma das mais baixas que pode encontrar, mesmo em centros de grande envergadura, no estrangeiro -, um por cento de 50 mil ainda s\u00e3o qualquer coisa como 500 mortos.<\/p>\n<p>Quando acontecia eu fazia quest\u00e3o de estar l\u00e1 ao p\u00e9. Gostaria de fugir, mas sabia que era a minha obriga\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ao \u00faltimo minuto podia esperar fazer mais qualquer coisa, e \u00e9 muito dif\u00edcil&#8230; \u00c9 muito dif\u00edcil para qualquer pessoa, independentemente da f\u00e9, se acredita na vida que h\u00e1 de vir, se acredita em Deus, ou n\u00e3o acredita em Deus, mesmo tendo em conta que todos havemos de morrer, uns mais cedo do que outros, e alguns destes que eu disse tamb\u00e9m j\u00e1 estavam praticamente no fim de vida. Mas, tamb\u00e9m assisti \u00e0 morte de crian\u00e7as que ainda n\u00e3o tinham come\u00e7ado a sua vida, e \u00e9 muito dif\u00edcil, porque nos altera psicologicamente muito. Naturalmente t\u00ednhamos de ultrapassar isso, e eu dizia sempre &#8216;temos de nos lembrar que n\u00e3o somos deuses, e que n\u00e3o temos cura para todos\u2019. Jesus Cristo tamb\u00e9m assistiu \u00e0 morte de alguns \u00e0 volta dele, e n\u00e3o achou que devia intervir sempre, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Aquilo que procurei sempre foi que aquele momento fosse um momento de sil\u00eancio, de\u00a0 sagrado, para aqueles que achavam que podiam fazer uma ora\u00e7\u00e3o, eu pr\u00f3prio fazia uma ora\u00e7\u00e3o, mesmo que fosse apenas interiormente. Mas, \u00e9 muito dif\u00edcil psicologicamente para todos n\u00f3s. Lidar com a morte n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 aqui outra quest\u00e3o, que \u00e9 a da eutan\u00e1sia. Temos o parlamento a legislar sobre este tema&#8230;<\/em><\/p>\n<p>E temo o que a\u00ed vem&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que sou totalmente contra! Contra a eutan\u00e1sia, contra terminar deliberadamente com a vida ou ajudar algu\u00e9m a terminar com a sua vida, sou contra.<\/p>\n<p>Eu costumo dizer que se formos numa ponte &#8211; pode ser uma ponte pequenina, aqui em Coimbra, ou a ponte sobre o Tejo, que tem aquela altitude &#8211; e virmos algu\u00e9m a tentar, ou a fazer men\u00e7\u00e3o de se atirar para baixo, para se suicidar, temos obriga\u00e7\u00e3o de fazer exatamente o contr\u00e1rio, de tentar convencer aquela pessoa que h\u00e1 sempre uma solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas e encaminh\u00e1-lo depois. Portanto, para mim \u00e9 contra o meu princ\u00edpio.<\/p>\n<p>E como a Ordem dos M\u00e9dicos at\u00e9 tem feito saber, e bem &#8211; e alguns n\u00e3o s\u00e3o religiosos, n\u00e3o s\u00e3o crentes &#8211; n\u00f3s, m\u00e9dicos, fomos criados e ensinados a fazer tudo para preservar e melhorar a vida das pessoas, e n\u00e3o ao contr\u00e1rio. Eu nunca desliguei uma m\u00e1quina, porque a natureza &#8211; e costumo dizer apenas a natureza &#8211; acaba sempre por seguir o seu caminho, se quiser, os des\u00edgnios de Deus acabam sempre por prosseguir.<\/p>\n<p>A um doente que est\u00e1 mesmo terminal, que tem muitas dores, dar-lhe uma morfina que o p\u00f5e a dormir e que provavelmente at\u00e9 vai abreviar o momento da sua morte, isso \u00e9 uma coisa diferente. Porque frequentemente se faz muita confus\u00e3o entre eutan\u00e1sia e estes m\u00e9todos que se destinam a suavizar e a tirar o sofrimento no momento da morte, que \u00e9, considero, uma obriga\u00e7\u00e3o, ainda que por vezes isso possa abreviar a morte. N\u00f3s n\u00e3o queremos dar ou abreviar a morte ao doente, estamos a torn\u00e1-lo confort\u00e1vel para que possa morrer em paz, para evitar que o \u00faltimo momento possa ser at\u00e9 de descr\u00e9dito, pensar &#8216;meu Deus, porque \u00e9 que me deixas, porque me abandonaste?&#8217;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Politicamente este \u00e9 o momento correto para se discutir a eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que n\u00e3o, \u00e9 incorreto, porque estamos preocupados em salvar vidas. N\u00e3o h\u00e1 nenhum momento politicamente correto para isso, mas este \u00e9 ainda pior. N\u00f3s temos muito mais em que pensar, mesmo os parlamentares, que est\u00e3o l\u00e1 um pouco isolados e talvez um bocadinho imunes \u00e0 pandemia, acho que n\u00e3o \u00e9 bom&#8230; mas, sabe, acho que a pol\u00edtica n\u00e3o tem momentos corretos. \u00c0s vezes aproveitar os momentos politicamente incorretos serve a pol\u00edtica para alguns fins. Muitos pol\u00edticos querem ser politicamente incorretos para, exatamente, servir os seus fins.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 conhecido como o m\u00e9dico que n\u00e3o tinha listas de espera no servi\u00e7o que criou e no qual esteve 30 anos \u2013 o Departamento de Cirurgia Cardiotor\u00e1cica do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra. Agora, a Diocese confiou-lhe outro desafio: a presid\u00eancia da C\u00e1ritas de Coimbra<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":190349,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-190354","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190354","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=190354"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190354\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/190349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=190354"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=190354"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=190354"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}