{"id":190293,"date":"2020-11-11T19:38:10","date_gmt":"2020-11-11T19:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=190293"},"modified":"2020-11-11T19:59:43","modified_gmt":"2020-11-11T19:59:43","slug":"saber-aprender-a-dar-o-abraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-dar-o-abraco\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A dar o (a)bra\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Imaginem que chegam junto de uma pessoa e come\u00e7am por estender o cotovelo porque esse \u00e9 o modo actual de cumprimentar algu\u00e9m em tempo de pandemia. Mas essa pessoa olha-vos e diz que n\u00e3o compactua com essas pr\u00e1ticas. Prefere o abra\u00e7o, o toque. Eu tamb\u00e9m prefiro, mas quando um v\u00edrus infecta milhares, e mata dezenas de pessoas por dia, h\u00e1 que aprender que n\u00e3o precisamos de dar o bra\u00e7o a torcer, mas sim de aprender a dar o bra\u00e7o. Nem que seja atrav\u00e9s do cotovelo. Mas h\u00e1 fundamento para deixarmos de dar abra\u00e7os?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-190294\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/00well-hug-promo-superJumbo-v2-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando usamos gestos no momento em que cumprimentamos uma pessoa, o gesto exprime mais do que um simples \u201col\u00e1\u201d. Por detr\u00e1s do acto est\u00e1 uma mensagem como \u201cquero-te bem\u201d, \u201ctenho saudades tuas\u201d, \u201cque bom ver-te de novo\u201d. Mas subjacente a todos estes significados est\u00e1 o quanto desejamos proteger o outro. Pensemos, ent\u00e3o, no abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Existem doen\u00e7as, como a constipa\u00e7\u00e3o, \u00e0s quais estamos mais suscept\u00edveis quando vivemos momentos particulares de stress. \u00c9 como se o stress baixasse as nossas defesas imunol\u00f3gicas. Sheldon Cohen, professor no Departamento de Psicologia da Universidade de Carnegie-Mellon nos Estados Unidos, coordenou um estudo que mostrou como <em>o abra\u00e7o<\/em> funciona n\u00e3o s\u00f3 como suporte social para diminuir o stress, como aumenta, indirectamente, a capacidade imunol\u00f3gica das pessoas em rela\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as como a constipa\u00e7\u00e3o. Estudos como este mostram a import\u00e2ncia fisiol\u00f3gica de um simples gesto. Mas como continuar a faz\u00ea-lo em tempo de pandemia?<\/p>\n<p>Os gestos que fazemos, seja com um simples olhar, ou o cumprimento com o cotovelo que algumas pessoas criticam, fazem parte da linguagem n\u00e3o-verbal que antes da pandemia us\u00e1vamos sem nos darmos conta. No contexto actual, s\u00e3o o modo criativo de desenvolvermos a capacidade para a empatia, e a consci\u00eancia da import\u00e2ncia de nos libertarmos de certos preconceitos. Isto \u00e9, preconceitos como o de que apenas com alguns gestos \u00e9 que demonstramos o afecto pelo outro.<\/p>\n<p>O contacto f\u00edsico amig\u00e1vel \u00e9 o suficiente para libertar uma hormona, a oxitocina, que promove os sentimentos de confian\u00e7a e liga\u00e7\u00e3o com o outro. N\u00e3o \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica a um gesto espec\u00edfico, mas basta um simples e respeitoso toque de amizade (incluindo o cotovelo).<\/p>\n<p>Ficar privados de nos tocarmos pode aumentar os n\u00edveis de stress e depress\u00e3o, da\u00ed a import\u00e2ncia de procurarmos os modos mais seguros de nos podermos tocar, sem aumentar o risco de cont\u00e1gio, para evitar os cen\u00e1rios mais dram\u00e1ticos. Mas ser\u00e1 um abra\u00e7o t\u00e3o problem\u00e1tico assim? Eu pensava que sim, mas nestes momentos \u00e9 importante perceber o que a ci\u00eancia estudou sobre o assunto para entender o perigo.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que no caso do coronav\u00edrus, n\u00e3o sabemos ainda a quantidade necess\u00e1ria de \u201cconsumo\u201d viral para se ficar infectado. H\u00e1 quem coloque a gama entre 200 e 1000 c\u00f3pias do v\u00edrus. Ou seja \u00e9 uma variabilidade muito grande. Em m\u00e9dia, uma tosse pode libertar entre 5000 e 10000 v\u00edrus, mas um contacto pr\u00f3ximo pode levar a um consumo de apenas 2%, representando 100 a 200 c\u00f3pias do v\u00edrus. E se uma pessoa inalasse essa quantidade, apenas uma pequena percentagem \u00e9 que a iria infectar. \u00c9 claro que o risco aumenta com a quantidade de tempo de exposi\u00e7\u00e3o, e varia muito de pessoa para pessoa, mas o que a especialista Linsey Marr da universidade Virginia Tech disse numa entrevista para o <em>New York Times<\/em> \u00e9 que \u2014 <em>\u00abse n\u00e3o falar ou tossir durante um abra\u00e7o, o risco dever\u00e1 ser muito baixo.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Esta leitura cient\u00edfica poderia descansar-nos, mas h\u00e1 uma nuance. Como a variabilidade \u00e9 muito grande, a recomenda\u00e7\u00e3o mais segura \u00e9 a de evitar os abra\u00e7os. Ou ent\u00e3o, se n\u00e3o os conseguimos evitar, pelos motivos mais emocionais ou, simplesmente, sermos apanhados de surpresa pelo outro, o melhor \u00e9 faz\u00ea-lo usando m\u00e1scara e ao ar livre, evitando tocar no corpo e roupas do outro com a cara ou a m\u00e1scara. Por\u00e9m, um breve abra\u00e7o, com as caras voltadas em direc\u00e7\u00f5es opostas, sem falar ou tossir, ter\u00e1 um risco m\u00ednimo, e conv\u00e9m higienizar as m\u00e3os a seguir. Mas h\u00e1 mais posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No caso das crian\u00e7as, se a cabe\u00e7a desta ficar \u00e0 cintura do adulto, basta voltar a cara para o lado contr\u00e1rio ao dela. Para os jovens familiares ou amigos, mais baixos do que n\u00f3s, um carinhoso beijo na parte de tr\u00e1s da cabe\u00e7a \u00e9 mais seguro. E se pudermos suster a respira\u00e7\u00e3o durante o abra\u00e7o, melhor ainda. Como os abra\u00e7os s\u00e3o sentidos, apesar de curta dura\u00e7\u00e3o, suster a respira\u00e7\u00e3o at\u00e9 pode ser um exerc\u00edcio de amor.<\/p>\n<p>Nos ambientes religiosos, h\u00e1 uma carga de emo\u00e7\u00e3o espiritual que pode ser perigosa se n\u00e3o for sabiamente contida. Alguns pensam que podem fazer tudo o que lhes apetece porque Deus protege. \u00c9 preciso dar o \u201cbra\u00e7o a torcer\u201d, porque essa atitude revela consideramos Deus como mais um ingrediente na sopa c\u00f3smica, o que est\u00e1 longe da realidade espiritual mais profunda. <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-sera-deus-um-quimico\/\">Deus n\u00e3o \u00e9 um qu\u00edmico<\/a> que nos protege das pandemias. Essas fazem parte das limita\u00e7\u00f5es do mundo do qual fazemos parte, e n\u00e3o estamos \u00e0 parte.<\/p>\n<p>O que Deus nos deu foi o esp\u00edrito criativo, ou n\u00e3o fossemos n\u00f3s feitos \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a do Criador. Pela import\u00e2ncia que tem o contacto f\u00edsico na nossa sa\u00fade f\u00edsica, social e espiritual, todos os pre-conceitos sobre o que deve ser esse contacto devem ajustar-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pand\u00e9mica actual.<\/p>\n<p>O ser humano sobreviveu ao longo da hist\u00f3ria pela capacidade de se adaptar \u00e0s novas situa\u00e7\u00f5es. Por isso, com uma m\u00e1scara que nos cobre a maior parte da face: vale mais o sorriso dado pelo olhar; o amig\u00e1vel toque do cotovelo; ou o simples gesto de uma m\u00e3o pousada sobre o cora\u00e7\u00e3o, e um baixar respeitoso e terno da cabe\u00e7a, como de quem diz com \u201cvoz\u201d clara \u2014 <em>\u00abquero-te bem!\u00bb<\/em><\/p>\n<h3>Saber mais<\/h3>\n<ul>\n<li>Cohen, S., Janicki-Deverts, D., Turner, R. B., &amp; Doyle, W. J. (2015). Does hugging provide stress-buffering social support? A study of susceptibility to upper respiratory infection and illness. Psychological science, 26(2), 135-147. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1177\/0956797614559284\">https:\/\/doi.org\/10.1177\/0956797614559284<\/a><\/li>\n<li>\u201cHow to hug during a pandemic\u201d, Tara Parker-Pope, NYT, 4 de junho de 2020 (<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/06\/04\/well\/family\/coronavirus-pandemic-hug-mask.html\">https:\/\/www.nytimes.com\/2020\/06\/04\/well\/family\/coronavirus-pandemic-hug-mask.html<\/a>)<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-190293","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=190293"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/190293\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=190293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=190293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=190293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}