{"id":18974,"date":"2006-07-06T12:50:31","date_gmt":"2006-07-06T12:50:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/07\/06\/cepac-presenca-espiritana-junto-dos-imigrantes\/"},"modified":"2006-07-06T12:50:31","modified_gmt":"2006-07-06T12:50:31","slug":"cepac-presenca-espiritana-junto-dos-imigrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cepac-presenca-espiritana-junto-dos-imigrantes\/","title":{"rendered":"CEPAC: presen\u00e7a Espiritana junto dos imigrantes"},"content":{"rendered":"<p>O Lu\u00eds (nome fict\u00edcio) \u00e9 um jovem de 26 anos, natural de um dos novos pa\u00edses de express\u00e3o portuguesa. Vive h\u00e1 oito anos em Portugal e h\u00e1 tr\u00eas meses tem a rua como tecto, sendo a sua cama um conjunto de cart\u00f5es que costuma estender debaixo de um v\u00e3o de uma escada, numa determinada rua, desta cidade de Lisboa.  O Lu\u00eds \u00e9 o mais velho de sete irm\u00e3os e, por isso, sentiu que poderia ajudar a sua m\u00e3e e os seus irm\u00e3os imigrando. Sempre ouviu dizer que \u201cl\u00e1 em Lisboa\u201d as pessoas ganham bem e sempre conseguem mandar um \u201cdinheirito\u201d, que vai ajudar a fam\u00edlia a ter uma vida melhor. Pensou-o, e porque \u00e9 um rapaz valente, viaja rumo a Portugal, nunca pensando, nos seus 19 anos da altura, que a vida afinal tem contornos que ningu\u00e9m pode prever. Na sua cabe\u00e7a tinha apenas os seus irm\u00e3os e a sua m\u00e3e que iriam, com toda a certeza, ter, a partir daquela altura dias melhores.  Chegado a Lisboa, facilmente arranjou emprego, nas obras. Altura de grandes constru\u00e7\u00f5es em Portugal, a m\u00e3o de obra era muito necess\u00e1ria, e o Lu\u00eds, rapaz lutador e corajoso, soube deitar m\u00e3os ao trabalho duro. As motiva\u00e7\u00f5es eram fortes e, afinal, que alegria n\u00e3o iria ter a sua m\u00e3e quando recebesse, l\u00e1 na \u00c1frica, o primeiro fruto das sua economias! Rapaz de tra\u00e7os franzinos, mas de cora\u00e7\u00e3o grande, n\u00e3o muito letrado, mas cheio de sabedoria e, sobretudo, com capacidade de vencer na vida! Mesmo sem ajuda de ningu\u00e9m, trabalhou, desde logo a sua situa\u00e7\u00e3o legal e, ap\u00f3s pouco tempo de perman\u00eancia no nosso pa\u00eds, ei-lo com \u201cautoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia tempor\u00e1ria\u201d.  H\u00e1 tantos anos sem ver os seus, achou ser a ocasi\u00e3o de ir at\u00e9 ao seu pa\u00eds. Dizia a sua m\u00e3e, nas cartas que dela sempre foi recebendo, que as suas irm\u00e3s estavam mulheres feitas e que at\u00e9 j\u00e1 tinha um sobrinho. Lindo, lindo, que era o seu sobrinho, dizia-lhe a m\u00e3e. E ele que nem o conhecia. Afinal, as f\u00e9rias estavam a\u00ed, num m\u00eas teria muito tempo para matar algumas saudades, e at\u00e9 para \u201cpuxar as orelhas\u201d a um dos seus irm\u00e3os, que um pouco desobediente, andava a preocupar o cora\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e (e o dele!). Imaginemos a alegria que n\u00e3o ter\u00e1 sido h\u00e1s uns tempos, naquele pa\u00eds e naquela aldeia durante as f\u00e9rias do Lu\u00eds.  Era s\u00f3 um m\u00eas, nem mais um dia, estava bem avisado. Pois \u00e9, mas, talvez por descuido, talvez por raz\u00f5es de complica\u00e7\u00f5es em arranjar viagem de volta, talvez porque a sua vontade fosse mesmo a de n\u00e3o mais deixar os seus, ou, o mais certo, por todas estas raz\u00f5es e mais outras que n\u00e3o me disse, o Lu\u00eds chegou uma semana atrasado ao seu trabalho. Ele que at\u00e9 j\u00e1 trabalhava h\u00e1 quatro anos naquele patr\u00e3o. Foi despedido! Ele nem queria acreditar que lhe fossem fazer tal coisa! Mas fizeram! A autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia, por azar, tinha mesmo de ser renovada nessa altura, mas no desemprego n\u00e3o era mesmo poss\u00edvel.  Sem trabalho n\u00e3o h\u00e1 \u201cpap\u00e9is\u201d, mas sem \u201cpap\u00e9is\u201d n\u00e3o h\u00e1 trabalho. Um c\u00edrculo terr\u00edvel, que pode transformar uma vida com sentido, num acumular de insucessos que conduz ao desacreditar que a felicidade \u00e9 um direito. \u00c9 que sem trabalho n\u00e3o se pode comprar comida, nem pagar renda de casa. E o Lu\u00eds \u00e9 um jovem que, como todos, tem direito a uma dignidade inerente \u00e0 sua natureza humana. N\u00e3o deixou de ser \u201cimagem e semelhan\u00e7a de Deus\u201d! Foi encontrado na rua, numa noite, por uma das equipas que, como o Centro Padre Alves Correia (CEPAC), pertencem ao Plano Lx. N\u00e3o me atrevo a relatar todos os sentimentos que me invadiram quando, pela primeira vez, o atendi. Um misto de pena, n\u00e3o posso negar, mas igualmente de revolta contra n\u00e3o sei quem. Como \u00e9 poss\u00edvel?! O Lu\u00eds chorou, mesmo se na sua cultura, como na nossa, n\u00e3o fica bem a um homem chorar. Mas ele chorou, chorou porque tinha fome, chorou porque estava vestido como um maltrapilho e, porque cheirava mal, as pessoas se afastavam e o evitavam, mas, sobretudo chorou, porque os seus continuavam a precisar do dinheiro que todos os meses ia enviando. \u201cQue a minha m\u00e3e n\u00e3o saiba a minha situa\u00e7\u00e3o\u201d, pedia-me com redobrada insist\u00eancia.  <b>Imigrante porqu\u00ea?<\/b> Parece evidente que o Lu\u00eds, como qualquer imigrante, avaliando as desvantagens da perman\u00eancia na terra em que vive por compara\u00e7\u00e3o com as vantagens da migra\u00e7\u00e3o para uma sociedade com melhores condi\u00e7\u00f5es materiais de vida (sal\u00e1rios mais elevados, mais garantias de emprego&#8230;). e procurando minimizar os custos da sua condi\u00e7\u00e3o e maximizar os ganhos das oportunidades, escolheu aventurar-se porque a compara\u00e7\u00e3o lhe revela que a perman\u00eancia representa um custo e a migra\u00e7\u00e3o um ganho. Imaginando a press\u00e3o que as pessoas sentem nos pa\u00edses de origem (pobreza, conflitos, fraco acesso a bens essenciais, etc.), n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil deduzir que muitos s\u00e3o os que arriscam a sua sorte na esperan\u00e7a de encontrarem um esp\u00e9cie de \u201c\u00e1rvore de patacas\u201d em outros pa\u00edses. Hoje, compreendo muito melhor aquilo que, em crian\u00e7a, ouvia dizer dos nossos compatriotas que partiam para o Brasil!  Devemos ter em conta que neste c\u00e1lculo, aparentemente racional, os potenciais imigrantes decidem com base naquilo que aos seus pa\u00edses vai chegando atrav\u00e9s dos imigrantes bem sucedidos, que a\u00ed v\u00e3o passar as suas f\u00e9rias, ou, atrav\u00e9s das modifica\u00e7\u00f5es positivas que verificam na vida dos familiares que permanecem. O Lu\u00eds era muito fiel a enviar, todos os meses, parte das suas poupan\u00e7as e, quando em f\u00e9rias, fez quest\u00e3o de mostrar que a vida aqui lhe corria bem. Afinal, tamb\u00e9m tinha direito a umas extravag\u00e2ncias, ele que trabalhava habitualmente que nem um escravo!   Os movimentos migrat\u00f3rios t\u00eam sido uma constante ao longo da hist\u00f3ria. V\u00e3o mudando as suas direc\u00e7\u00f5es, mas permanecem constantes. Permanecem porque h\u00e1 em n\u00f3s, seres humanos, uma puls\u00e3o para a descoberta de coisas novas, mas igualmente uma vontade forte de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida. De tal forma \u00e9 verdade que o artigo 13\u00ba, da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, diz que \u201ctoda a pessoa tem o direito de deixar qualquer pa\u00eds, inclusive o pr\u00f3prio, e a este regressar\u201d. Por isso, quanto mais os mecanismos de controle se tornem apertados, mais os canais paralelos aumentar\u00e3o e assistiremos, necessariamente, ao aparecimento das \u201cm\u00e1fias\u201d. Porque, por maior que sejam os obst\u00e1culos n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel parar os fluxos de imigrantes \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.  \u00c9 um bom sinal que os imigrantes nos procurem, pois eles v\u00eam \u00e0 procura do nosso sucesso. Todos sabemos que o crescimento da imigra\u00e7\u00e3o em Portugal \u00e9, antes de mais, um reflexo do desenvolvimento econ\u00f3mico do nosso pa\u00eds, mas \u00e9, igualmente uma das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 sustentabilidade desse mesmo desenvolvimento. Os imigrantes trazem-nos muitas vantagens, a n\u00edvel econ\u00f3mico, de que s\u00e3o exemplo, a produtividade que geram (s\u00e3o respons\u00e1veis por 5% do PIB nacional) e pelas contribui\u00e7\u00f5es e impostos que pagam (s\u00e3o contribuintes l\u00edquidos positivos). As remessas que enviam para os seus pa\u00edses de origem em nada nos prejudicam e s\u00e3o fruto de desenvolvimento para esses povos. Outros benef\u00edcios adv\u00eam, e que ningu\u00e9m pode negar, seja a n\u00edvel cultural, seja a n\u00edvel demogr\u00e1fico.  As estat\u00edsticas, mesmo as oficiais, n\u00e3o escondem que, desde 2001, a imigra\u00e7\u00e3o ilegal tem fortemente aumentado. Calcula-se que ser\u00e3o uns 53 mil os imigrantes irregulares que est\u00e3o no nosso pa\u00eds. Quer-nos parecer que a quest\u00e3o fundamental n\u00e3o ser\u00e1 o aumento da imigra\u00e7\u00e3o irregular, mas, antes que tudo, ser\u00e1 a imigra\u00e7\u00e3o regular que tem diminu\u00eddo. S\u00e3o v\u00e1rias as vozes que afirmam que o desequil\u00edbrio est\u00e1 a ser provocado por uma inefici\u00eancia interna, provocada por leis irrealistas, com grandes consequ\u00eancias burocr\u00e1ticas que, pretendendo ser desmotivadoras da entrada de trabalhadores estrangeiros, mais n\u00e3o t\u00eam feito do que aumentar a imigra\u00e7\u00e3o extra canais legais. Nova lei est\u00e1, neste momento, em discuss\u00e3o p\u00fablica e oxal\u00e1 a realidade venha a modificar-se. Um novo conjunto de Fundos Estruturais se avizinham e Portugal n\u00e3o pode olhar os imigrantes como simples coisas descart\u00e1veis, ao sabor dos ciclos econ\u00f3micos. \u201cTodos s\u00e3o iguais perante a lei e t\u00eam, sem qualquer distin\u00e7\u00e3o, a igual protec\u00e7\u00e3o da lei. Todos t\u00eam direito a igual protec\u00e7\u00e3o contra qualquer discrimina\u00e7\u00e3o que viole a presente Declara\u00e7\u00e3o e contra qualquer incitamento a tal discrimina\u00e7\u00e3o\u201d (artigo 7\u00ba da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos).  <b>Os Espiritanos s\u00e3o advogados dos pobres<\/b> O Lu\u00eds \u00e9 apenas uma das situa\u00e7\u00f5es, entre as tr\u00eas centenas de situa\u00e7\u00f5es que o CEPAC segue com regularidade. S\u00e3o muitos os casos complicados, dif\u00edceis tantas vezes, sendo o Lu\u00eds um caso paradigm\u00e1tico, mas n\u00e3o o mais dram\u00e1tico. As pessoas que nos procuram t\u00eam todas problemas semelhantes, mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o todas distintas e \u00e9, por isso, necess\u00e1rio saber ouvir, tentando penetrar o sentido que as hist\u00f3rias de vida nos revelam, para, depois, com os pr\u00f3prios, ir tentando desenhar projectos de interven\u00e7\u00e3o realistas.   O Lu\u00eds est\u00e1 neste momento em lista de espera, em dois centros de acolhimento. \u00c9 preciso tir\u00e1-lo da rua! Em lista de espera? Verdade, as respostas sociais a este n\u00edvel n\u00e3o abundam e o Lu\u00eds tem o estigma de estar \u201cclandestino\u201d. Mas j\u00e1 est\u00e1 a comer refei\u00e7\u00f5es cuidadas e quentes, num dos refeit\u00f3rios da cidade. Desde que nos conhece o comer n\u00e3o lhe tem faltado, mesmo se andou alguns dias a comer \u201cn\u00e3o cozinh\u00e1veis\u201d, daqueles que o apoio alimentar do CEPAC podia proporcionar. Roupa tamb\u00e9m tem tido, andando limpinho e muito digno, porque as volunt\u00e1rias do nosso Banco de Roupa, na sua grande generosidade, e criaram um aut\u00eantico pronto a vestir. Claro n\u00e3o tem ainda onde lavar a roupa, mas h\u00e1-de ter, brevemente, tenhamos esperan\u00e7a.  Ser\u00e1 sempre uma dificuldade, neste trabalho, saber qual \u00e9 o mais priorit\u00e1rio do priorit\u00e1rio. Comer, vestir, dormir, s\u00e3o necessidades, de tal forma b\u00e1sicas que, quando n\u00e3o satisfeitas, se perde a dimens\u00e3o do humano. Mas h\u00e1 outras! Quem est\u00e1 na rua tem a sua sa\u00fade debilitada e a Enfermeira, articulando muito bem com os nossos dois m\u00e9dicos, tem feito maravilhas. Bonita rela\u00e7\u00e3o, neste sector se vai igualmente estabelecendo. O nosso Lu\u00eds tem sido assistido regularmente e as suas complica\u00e7\u00f5es de pele, naturais a quem dorme na rua e n\u00e3o pode ter os devidos cuidados de higiene, est\u00e3o quase debeladas. E, claro, quem fornece os medicamentos? Se os temos, oferecidos, sai-nos mais barato\u2026  O emprego, n\u00e3o s\u00f3 o trabalho, \u00e9 fundamental para conseguir a regulariza\u00e7\u00e3o que, no caso do Lu\u00eds, at\u00e9 nem \u00e9 dif\u00edcil, uma vez que j\u00e1 esteve em situa\u00e7\u00e3o regular. Mas \u00e9 preciso passar por todo um processo de papelada e provas e vai ser preciso dinheiro, \u00e0 volta de cem Euros, para pagar as coimas respectivas. Noutros casos, o daqueles que nunca estiveram legais, ainda bem mais complicados, \u00e9 preciso utilizar a per\u00edcia da nossa Advogada, tamb\u00e9m ela volunt\u00e1ria, porque os pedidos de regulariza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria s\u00e3o muito dif\u00edceis de conduzir.  Vai-se procurando trabalhar a integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes. Foi para isto que o CEPAC nasceu e \u00e9 para isto que continuamos com esta presen\u00e7a Espiritana, no meio destas pessoas que precisam de uma m\u00e3o que as ajude. Queremos t\u00e3o somente que o Lu\u00eds, como tantos outros, caminhem pelo seu pr\u00f3prio p\u00e9, tornando-se eles pr\u00f3prios elos de uma cadeia de solidariedade, para que as margens em nossa sociedade n\u00e3o v\u00e3o engrossando as suas fileiras. Porque acreditamos que este \u00e9 um trabalho mission\u00e1rio, continuaremos a dar do nosso melhor, no meio de alegrias e de tristezas, de muitos sofrimentos, mas sempre vivendo a esperan\u00e7a que o futuro do Lu\u00eds h\u00e1-de ser de vida plena e criativa, com liberdade e dignidade. Este tem sido o lema de todos: Direc\u00e7\u00e3o do CEPAC, dos dois funcion\u00e1rios e dos dezassete volunt\u00e1rios que connosco trabalham. Quem nos quiser visitar, ser\u00e1 sempre muito bem recebido!  <i>M\u00e1rio Faria Silva<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Lu\u00eds (nome fict\u00edcio) \u00e9 um jovem de 26 anos, natural de um dos novos pa\u00edses de express\u00e3o portuguesa. 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