{"id":189618,"date":"2020-11-04T12:32:38","date_gmt":"2020-11-04T12:32:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=189618"},"modified":"2020-11-04T12:32:38","modified_gmt":"2020-11-04T12:32:38","slug":"saber-aprender-a-ir-a-fonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-ir-a-fonte\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A ir \u00e0 fonte"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que sabemos o que significa uma Europa Laica? Recentemente, interpelaram-me com alguma indigna\u00e7\u00e3o pelo facto do Papa Francisco ter expressado o sonho de ver uma <em>\u00abEuropa saudavelmente laica\u00bb<\/em>. A indigna\u00e7\u00e3o provinha do sentimento de falta de liga\u00e7\u00e3o entre uma Europa laica e a miss\u00e3o da Igreja de anunciar Cristo, e trabalharmos para um mundo crist\u00e3o que viva as Suas palavras. Esse sentimento talvez proviesse da leitura de uma not\u00edcia sint\u00e9tica publicada na R\u00e1dio Renascen\u00e7a (RR). Quando a li, senti que o Papa desejava ver a <em>Fratelli Tutti<\/em> em acto, mas senti tamb\u00e9m a necessidade de <em>ir \u00e0 fonte<\/em>, algo que precisamos de aprender a fazer.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-189619\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa.jpg 960w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/papa-francisco-europa-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Uma vez li nas not\u00edcias que o Papa Jo\u00e3o Paulo II havia admitido a hip\u00f3tese das rela\u00e7\u00e3os sexuais em pessoas com defici\u00eancia mental acontecerem fora de um contexto matrimonial. Achei aquilo t\u00e3o estranho que fui \u00e0 fonte e, de facto, n\u00e3o era isso que o Papa dizia, mas reconhe\u00e7o ser preciso conhecer melhor sobre o pensamento do Papa Jo\u00e3o Paulo II, como a sua Teologia do Corpo, mas entender a amplitude das suas palavras e evitar a m\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o. Os fluxos de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o tantos que me parece essencial, hoje, saber aprender a ir sempre \u00e0 fonte, e n\u00e3o nos ficarmos somente pela not\u00edcia.<\/p>\n<p>No passado dia 22 de outubro, o Papa Francisco escreveu uma carta ao Cardeal Pietro Parolin por ocasi\u00e3o do 40\u00ba anivers\u00e1rio da Comiss\u00e3o dos Episcopados da Uni\u00e3o Europeia (COMECE), do 50\u00ba anivers\u00e1rio das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre a Santa S\u00e9 e a Uni\u00e3o Europeia e do 50\u00ba anivers\u00e1rio da presen\u00e7a da Santa S\u00e9 como Observador Permanente no Conselho da Europa. De facto, quase no final, o Papa afirma que sonha com \u2014 <em>\u00abuma Europa saudavelmente laica, onde Deus e C\u00e9sar apare\u00e7am distintos, mas n\u00e3o contrapostos.\u00bb<\/em> Como pode esta frase levar algu\u00e9m a pensar que o Papa estaria a desprezar o an\u00fancio de Cristo? Talvez valha a pena referir que existem outros sonhos nesta carta antes de chegar a este.<\/p>\n<p>Os sonhos surgem de uma quest\u00e3o que o Papa se coloca \u2014 <em>\u00abque Europa sonhamos para o futuro?\u00bb<\/em> E depois, sonha. E sonha com:<\/p>\n<ul>\n<li>uma Europa amiga da pessoa e das pessoas;<\/li>\n<li>uma Europa que seja uma fam\u00edlia e uma comunidade;<\/li>\n<li>uma Europa solid\u00e1ria e generosa (e reflecte com maior profundidade sobre o que significa <em>ser solid\u00e1rio<\/em>);<\/li>\n<li>e, por fim, uma Europa saudavelmente laica.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O an\u00fancio de Cristo n\u00e3o \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o para os crist\u00e3os porque esse deveria acontecer com a sua pr\u00f3pria vida. Por vezes, alguns crist\u00e3os focam-se tanto na batalha ideol\u00f3gica que se esquecem dos feridos que jazem moribundos pelo campo de batalha, quer de um lado, quer do outro.<\/p>\n<p>Trabalhar para um mundo crist\u00e3o implica acolher todas as pessoas, independentemente das suas convic\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 essa a experi\u00eancia do Bom Samaritano, par\u00e1bola base de uma boa parte da <em>Fratelli Tutti<\/em>? Uma impress\u00e3o que recebi de uma pessoa que leu o que <a href=\"https:\/\/setemargens.com\/ninguem-tem-tempo\/\">escrevi<\/a> para o 7Margens falava de como nos passa ao lado a vis\u00e3o de um Jesus rebelde quando ousa contar uma par\u00e1bola como a do Bom Samaritano. O sacerdote e o levita representavam as pessoas da hierarquia religiosa daquele tempo, pelo que, atribuir-lhes uma atitude de desprezo pelo outro, e elevando a atitude do samaritano, acaba por ser um apelo (rebelde) ao exemplo do <em>leigo<\/em>.<\/p>\n<p>A leitura que fa\u00e7o da Europa (saudavelmente) Laica do Papa Francisco \u00e9 a de uma \u201cEuropa dos Leigos.\u201d Com os sacerdotes, e bispos, constru\u00edmos uma comunidade crist\u00e3 cuja atitude permanente de servi\u00e7o, gratid\u00e3o e amor, deveria ser suficiente para anunciar Cristo com os gestos, para al\u00e9m das palavras. Depois de um abra\u00e7o, podemos dizer o que quisermos, porque sabemos que o outro reconhece ser respeitado naquilo que acredita. Mas uma compreens\u00e3o mais abrangente e profunda da inten\u00e7\u00e3o do Papa Francisco s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se formos \u00e0 fonte. Isto \u00e9, lermos o texto original que inspirou a not\u00edcia (algo que a RR n\u00e3o colocou e senti falta).<\/p>\n<p>O an\u00fancio de Cristo passa por reconhecer a riqueza da diferen\u00e7a na experi\u00eancia religiosa de cada pessoa. Na Europa existem experi\u00eancias diferentes e seria proselitismo considerar qualquer uma melhor do que qualquer outra. A ideia de que o outro s\u00f3 \u00e9 salvo se for crist\u00e3o diminui em muito a mensagem do Evangelho. Na par\u00e1bola do Bom Samaritano, Jesus mostra-nos como \u00e9 o gesto de amor para com os feridos que testemunha o amor do Pai por cada um.<\/p>\n<p>Qual a leitura a fazer a partir da indigna\u00e7\u00e3o de quem acha que o Papa renuncia ao an\u00fancio de Cristo quando sonha com uma \u201cEuropa saudavelmente laica\u201d? Ser\u00e1 que a efic\u00e1cia do an\u00fancio se mede pelos n\u00fameros? Ser\u00e1 isso baixar os bra\u00e7os na batalha pelo reconhecimento das ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa? Ou, com esse tipo de preocupa\u00e7\u00f5es, estaremos a colocar de lado o essencial da mensagem do Evangelho?<\/p>\n<p>O n\u00famero que lhe atribu\u00edu o ex\u00e9rcito alem\u00e3o era 16670 quando Maximiliano Kolbe foi enviado para Auschwitz, a 28 de maio de 1941. No final de julho desse ano, um prisioneiro escapa e para dar o exemplo aos restantes, os SS escolheram 10 homens para os matar \u00e0 fome num <em>bunker<\/em> subterr\u00e2neo. Entre esses homens estava Franciszek Gajowniczek, um polaco que grita pela sua mulher e filhos. O P. Maximiliano oferece-se para ocupar o seu lugar.<\/p>\n<p>Por duas semanas, estes homens foram deprivados de alimento e \u00e1gua. Do <em>bunker<\/em> ouviam-se ora\u00e7\u00f5es e c\u00e2nticos, cada vez mais fracos, at\u00e9 restar apenas uma voz, a do P. Kolbe. Os militares alem\u00e3es queria vagar o <em>bunker<\/em> e aproximaram-se do P. Kolbe com uma seringa contendo fenol para o golpe final. Uma testemunha afirmou que o P. Kolbe estendeu o seu bra\u00e7o. Do sil\u00eancio do gesto se escreviam as palavras \u2014 <em>\u00abn\u00e3o s\u00e3o voc\u00eas que me tiram a vida, mas sou eu que a dou.\u00bb<\/em> N\u00e3o h\u00e1 maior an\u00fancio de Cristo do que testemunh\u00e1-Lo com a nossa pr\u00f3pria vida. \u00c9 essa a fonte da mais pura coer\u00eancia, onde os gestos falam mais alto do que as palavras.<\/p>\n<h3>Fontes<\/h3>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/letters\/2020\/documents\/papa-francesco_20201022_lettera-parolin-europa.index.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Carta do Papa Franscisco sobre a Europa a sua Emin\u00eancia, o Cardeal Pietro Parolin<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/pastoraldeficiencia.pt\/mensagem-do-papa-joao-paulo-ii-aos-participantes-no-congresso-internacional-sobre-dignidade-e-direitos-da-pessoa-com-deficiencia-2004\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mensagem do Papa Jo\u00e3o Paulo II aos participantes no Congresso Internacional sobre \u201cDignidade e Direitos da Pessoa com Defici\u00eancia\u201d<\/a> (2004)<\/li>\n<li>\u201cNingu\u00e9m tem tempo\u201d, M. Pan\u00e3o, <a href=\"https:\/\/setemargens.com\/ninguem-tem-tempo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Sete Margens<\/a><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-189618","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=189618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/189618\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=189618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=189618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=189618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}