{"id":189339,"date":"2020-11-01T09:31:42","date_gmt":"2020-11-01T09:31:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=189339"},"modified":"2020-10-30T18:49:00","modified_gmt":"2020-10-30T18:49:00","slug":"o-luto-faz-se-sempre-jose-eduardo-rebelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-luto-faz-se-sempre-jose-eduardo-rebelo\/","title":{"rendered":"\u00abO luto faz-se sempre\u00bb &#8211; Jos\u00e9 Eduardo Rebelo"},"content":{"rendered":"<p><em>A pandemia trouxe muitas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 forma como decorrem hoje as cerim\u00f3nias f\u00fanebres. Ser\u00e1 que a experi\u00eancia do \u2018novo normal\u2019 que vivemos pode deixar marcas a este n\u00edvel?<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Nestes dias em que, apesar das restri\u00e7\u00f5es, muitos portugueses n\u00e3o deixar\u00e3o de homenagear os seus mortos, conversamos com Jos\u00e9 Eduardo Rebelo, da Universidade de Aveiro, fundador da associa\u00e7\u00e3o APELO.<\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-189340 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o.jpg\" alt=\"\" width=\"1217\" height=\"812\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o.jpg 1217w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-1080x721.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/58373485_1840160362752555_6754853434748305408_o-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1217px) 100vw, 1217px\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 bi\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 v\u00e1rios anos que se dedica \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o na \u00e1rea do luto. Sabemos que foi na sequ\u00eancia de uma trag\u00e9dia pessoal que decidiu criar a APELO, uma associa\u00e7\u00e3o que ajuda pessoas e fam\u00edlias enlutadas. Constatou que esta sua experi\u00eancia pessoal que fazia falta apoio a este n\u00edvel?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 existia uma associa\u00e7\u00e3o de apoio a pais em luto, &#8216;A nossa \u00e2ncora&#8217;, mas que se dedicava exclusivamente a\u00a0esta \u00e1rea, e particularmente atrav\u00e9s do grupos de entreajuda. Eu achei que, de facto, ao n\u00edvel do luto em termos globais, dos diferentes tipos de luto &#8211;\u00a0 por perda de filhos, mas tamb\u00e9m por viuvez, e por perda de pais, etc. &#8211; n\u00e3o existia, e nesse sentido decidi, em 2004, fundar precisamente a APELO.<\/p>\n<p>Mais tarde verifiquei que era necess\u00e1rio alargar o campo de a\u00e7\u00e3o, porque ainda existia uma resist\u00eancia muito forte por parte da comunidade em geral, mas tamb\u00e9m de certos setores mais esclarecidos, a n\u00edvel acad\u00e9mico, por exemplo, em rela\u00e7\u00e3o a esta tem\u00e1tica. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, a come\u00e7ar, e na sequ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao luto, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es provocadas por perdas pessoais profundas, como costumo designar. Nesse\u00a0sentido, convidei colegas de diferentes academias &#8211; da Universidade de Lisboa, da Universidade do Minho e de Coimbra &#8211; e organiz\u00e1mos na Universidade de Aveiro uma reuni\u00e3o para debater esta quest\u00e3o e tomar medidas. E foi nessa sequ\u00eancia que cri\u00e1mos a Sociedade Portuguesa de Estudo e Interven\u00e7\u00e3o no Luto (SPEIL), tendo em considera\u00e7\u00e3o que era necess\u00e1rio dar um salto qualitativo. Em fun\u00e7\u00e3o disso criei tamb\u00e9m o Espa\u00e7o de Luto, que tem uma vertente mais para a \u00e1rea formativa e de investiga\u00e7\u00e3o.\u00a0Ent\u00e3o, particularmente a partir de 2010 demos um salto qualitativo na abordagem na tem\u00e1tica do luto em Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 poss\u00edvel perceber o que \u00e9 que j\u00e1 mudou de forma positiva na abordagem ao fen\u00f3meno do luto?<\/em><\/p>\n<p>Olhe, uma das primeiras iniciativas que tom\u00e1mos foi organizar congressos sobre o luto. Trouxemos c\u00e1 os maiores especialistas a n\u00edvel mundial, fizemos cinco edi\u00e7\u00f5es do Congresso &#8216;O luto em Portugal&#8217; e um congresso mundial, alternadamente entre a Universidade de Aveiro e a Universidade de Lisboa, e cheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o que, embora tenhamos aprendido sempre coisas, as estrat\u00e9gias que eles utilizavam n\u00e3o nos eram estranhas. O trabalho que desenvolv\u00edamos aqui era um trabalho equiparado &#8211; e nalguns casos melhor &#8211; \u00e0quilo que se fazia noutros pa\u00edses com tradi\u00e7\u00f5es, como s\u00e3o os anglo-sax\u00f3nicos, que t\u00eam abertura e a\u00e7\u00e3o efetiva para a a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, os grupos de entreajuda, etc.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que em 10 anos verific\u00e1mos? Que durante esta d\u00e9cada se alterou uma disponibilidade das pessoas &#8211; porque tem havido divulga\u00e7\u00e3o da nossa parte para esta tem\u00e1tica-, mas tamb\u00e9m de determinados setores, nomeadamente a n\u00edvel acad\u00e9mico. J\u00e1 se fazem teses de doutoramento e mestrado, o luto j\u00e1 chegou \u00e0s academias e j\u00e1 come\u00e7a a ser investigado de uma forma que n\u00e3o era, de todo, antes de termos dado este impulso. Ora, isso \u00e9 extremamente positivo. Obviamente que n\u00e3o vamos mudar esta situa\u00e7\u00e3o de um dia para o outro, mas estamos a lan\u00e7ar bases.<\/p>\n<p>Continua a existir uma certa indisponibilidade das pessoas para procurarem apoio institucional junto dos Conselheiros do Luto, que tamb\u00e9m fomos n\u00f3s que cri\u00e1mos, porque n\u00e3o existiam especialistas no apoio ao luto. De qualquer forma vamos caminhando no sentido de dar passos, de consolidar&#8230;<\/p>\n<p>Dou um exemplo muito concreto: na sequ\u00eancia dos inc\u00eandios de 2017, que provocaram uma grande trag\u00e9dia comunit\u00e1ria, com bastantes mortes, foi decidido pelo Estado promover uma a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria direta na regi\u00e3o, e fomos convidados, e estamos a exercer essa a\u00e7\u00e3o como \u2018consultores\u2019 para um grande projeto de a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria de capacita\u00e7\u00e3o para apoio ao luto, e de apoio ao luto por a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Portanto, de facto, j\u00e1 se d\u00e3o passos e v\u00e3o surgindo reflexos da nossa atividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos, ent\u00e3o, falar das a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o que promovem, nomeadamente o curso de Conselheiros do Luto, e das sess\u00f5es que t\u00eam marcadas para \u00a0este m\u00eas de novembro. &#8216;Desatar o n\u00f3 do luto&#8217;, \u00e9 o tema da forma\u00e7\u00e3o marcada para dias 16 e 17, mas h\u00e1 outras previstas, com outros temas, como &#8216;O desgaste (burnout) do cuidador&#8217;, o &#8216;Luto no idoso&#8217;, ou &#8216;Comunicar a morte&#8217;. H\u00e1 muita procura por estar forma\u00e7\u00f5es? E quem \u00e9 que procura?<\/em><\/p>\n<p>Temos duas \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o, uma \u00e9 o curso de Conselheiros do Luto, e depois as outras, que referiu, que s\u00e3o a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o de 8 horas, enquanto que o curso de Conselheiros do Luto decorre durante mais de 80 horas. Qual \u00e9 a diferen\u00e7a? \u00c9 que fruto da nossa experi\u00eancia, cheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o que fazia falta em Portugal a especialidade em apoio ao luto.<\/p>\n<p>Eu sou bi\u00f3logo, mas em consequ\u00eancia de uma trag\u00e9dia pessoal tive que me repartir por estas duas \u00e1reas de investiga\u00e7\u00e3o, e decidi criar o curso de Conselheiros do Luto porque, dando aulas de biologia a alunos do curso de Psicologia da Universidade de Aveiro, e em colabora\u00e7\u00f5es com o curso de enfermagem, aqui na Escola de Sa\u00fade (Aveiro) e por a\u00ed, pelo pa\u00eds fora, desde Viana do Castelo at\u00e9 Beja e ao Algarve, constatei que a forma\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de sa\u00fade e na \u00e1rea social da psicologia, n\u00e3o eram capacitantes do ponto de vista de luto. O luto era dado assim a correr, numa aula, ou isso, mas n\u00e3o havia uma especialidade.<\/p>\n<p>Na Sociedade (SPEIL) falei com o meu colega Ant\u00f3nio Barbosa, da Faculdade de Medicina, e disse-lhe que t\u00ednhamos de mudar este paradigma no nosso pa\u00eds, e criar especialistas em luto, com duas vertentes a considerar: a vertente da a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, do apoio ao luto sadio, que \u00e9 a esmagadora maioria &#8211; 90 por cento dos lutos que as pessoas vivenciam, experienciam, s\u00e3o de natureza sadia -, e depois os lutos psicopatol\u00f3gicos, que t\u00eam de ser tratados sob supervis\u00e3o psiqui\u00e1trica. Coloquei-lhe a quest\u00e3o nesses termos, de termos de criar dois tipos de especialistas no nosso pa\u00eds, os Conselheiros do Luto e os Terapeutas do Luto.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que faz especificamente um Conselheiro do Luto?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O que faz \u00e9 ouvir e n\u00e3o censurar a pessoa. Basicamente a estrat\u00e9gia do apoio ao luto \u00e9 ouvir empaticamente e n\u00e3o julgar.<\/p>\n<p>No luto, em fun\u00e7\u00e3o de uma perda pessoal profunda, as\u00a0pessoas vivenciam situa\u00e7\u00f5es absolutamente anormais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que elas pr\u00f3prias conhecem de si. \u00c9 um processo extremamente doloroso, que se pode prolongar mais ou menos no tempo. Agora, se for um processo partilhado \u00e9 mesmo sofrido e demora necessariamente menos tempo. Partilhado com quem? Quando existe uma rede social familiar que permita \u00e0 pessoa falar &#8211; porque o enlutado necessita exclusivamente de falar, ser ouvido, sem condi\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel para ouvir, s\u00f3 est\u00e1 dispon\u00edvel para ser ouvido&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o Conselheiro do Luto faz isso?<\/em><\/p>\n<p>Faz isso. Ouve, cria um espa\u00e7o de seguran\u00e7a para a pessoa partilhar tudo e mais alguma coisa, sem ser julgado e de forma segura, para que a pessoa n\u00e3o se exponha. Ela j\u00e1 vive numa vulnerabilidade emocional, \u00e9 preciso que essa vulnerabilidade emocional n\u00e3o se torne numa vulnerabilidade social. Basicamente o Conselheiro do Luto centra-se na pessoa, ouve aquilo que a pessoa vai dizendo, e depois, atrav\u00e9s do meu modelo, existem viv\u00eancias de sujei\u00e7\u00e3o, viv\u00eancias de assimila\u00e7\u00e3o da perda, sujei\u00e7\u00e3o \u00e0 perda, e o que vai fazendo \u00e9 devolver \u00e0 pessoa os elementos que s\u00e3o elementos de assimila\u00e7\u00e3o, no sentido de ela progredir no processo do luto de forma mais tranquila, dentro do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-189341\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/332417_528535960504695_84600939_o.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Como \u00e9 que as pessoas que precisarem podem aceder aos conselheiros do luto? H\u00e1 muitos, no pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito simples: na p\u00e1gina apelo.pt, as pessoas t\u00eam no menu a op\u00e7\u00e3o \u201cpedido de apoio para o meu luto\u201d. Clicam, h\u00e1 um formul\u00e1rio, as pessoas preenchem e passadas 48 horas, no m\u00e1ximo, obt\u00eam um contacto telef\u00f3nico. Se n\u00e3o estiverem familiarizadas com a internet, ligam para o 917\u00a0052\u00a0052, todos os dias \u00fateis, entre as 14h00 e as 17h00, comunicam e \u00e9 marcada uma sess\u00e3o, que pode ser feita presencialmente \u2013 se a pandemia deixar \u2013 em Aveiro, Lisboa, Estremoz e Coimbra -, ou \u00e0 dist\u00e2ncia para todo o pa\u00eds e para todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Usou uma express\u00e3o que marca muito os \u00faltimos meses: se a pandemia deixar. Em condi\u00e7\u00f5es, os dias 1 e 2 de novembro s\u00e3o de romagem, peregrina\u00e7\u00e3o interior e exterior aos cemit\u00e9rios. Este ano, com as restri\u00e7\u00f5es de desloca\u00e7\u00e3o impostas pelo Governo, provavelmente h\u00e1 rituais que n\u00e3o se v\u00e3o cumprir, da mesma maneira que houve rituais que n\u00e3o se cumpriram, no confinamento. Isto pode deixar marcas, no futuro?<\/em><\/p>\n<p>Eu devo esclarecer, \u00e0 partida, que o luto se faz sempre e n\u00e3o \u00e9 um trauma psicol\u00f3gico, n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a. Se fosse uma doen\u00e7a, estar\u00edamos todos mortos, porque ao longo da vida passamos por cerca de 40 perdas, a come\u00e7ar pela perda da inf\u00e2ncia, da adolesc\u00eancia, e depois as perdas pessoais profundas. N\u00e3o sobreviver\u00edamos a elas. Mas n\u00f3s sobrevivemos, isto \u00e9, estamos capacitados biologicamente para enfrentar e superar as perdas. O luto faz-se sempre.<\/p>\n<p>Como referi, pode ser de forma mais dolorosa, sofrida, de forma mais demorada ou menos demorada, mas faz-se. Os rituais, obviamente, ajudam a criarmos rotinas relativamente a este mesmo processo, bengalas, se quiserem, para nos apoiarmos nos momentos em que estamos mais desequilibrados. Mas, passado esse tempo, sendo uma bengala mais c\u00f3moda ou n\u00e3o, mais ou menos baixa, o que \u00e9 certo \u00e9 que continuamos a nossa marcha e recuperamos\u2026 recuperamos, n\u00e3o, criamos um novo equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>O que se passa pelo meio s\u00e3o muitos acidentes de percurso, nomeadamente este que estamos a viver, agora. Ele \u00e9 significativo para as pessoas, mas tem uma curiosidade: \u00e9 de natureza comunit\u00e1ria, ou seja, afeta todos. Enquanto que, por exemplo, quando h\u00e1 uma pessoa que no seu processo de luto \u00e9 afetada por uma circunst\u00e2ncia qualquer e n\u00e3o pode reagir, por uma ou outra raz\u00e3o, essa pessoa poder\u00e1 ficar mais afetada \u2013 porque n\u00e3o se p\u00f4de despedir do ente querido porque est\u00e1 muito longe, saiu em viagem, ou porque sofreu uma doen\u00e7a incapacitante -, a\u00ed haver\u00e1 outro problema.<\/p>\n<p>Quando se trata de um evento de natureza comunit\u00e1ria, claro que individualmente as pessoas se sentem revoltadas \u2013 que faz parte do processo de luto, a revolta -, isso provoca tristeza, culpa, mas s\u00e3o epis\u00f3dios, passageiros, em rela\u00e7\u00e3o ao luto.<\/p>\n<p>Referiram a palavra trauma e eu acho que \u00e9 excessiva. Eu acho que n\u00e3o provoca trauma, provoca desequil\u00edbrios, problemas, mas as pessoas superam. Trauma, para mim, \u00e9 algo que fica para o resto da vida e \u00e9 extremamente complexo. Ora, o luto \u00e9 um processo sadio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas com estas altera\u00e7\u00f5es que houve durante a pandemia, nos rituais das cerim\u00f3nias f\u00fanebres, que marcam profundamente algumas pessoas, n\u00e3o acha que tem havido algum exagero neste \u00e2mbito, por parte das autoridades?<\/em><\/p>\n<p>Desde h\u00e1 100 anos, nunca t\u00ednhamos enfrentado t\u00e3o grave, em que a esp\u00e9cie humana pode estar em risco, \u00e9 uma amea\u00e7a global, que \u00e9 a pr\u00f3pria natureza a confrontar-nos com isso. Nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio tomar medidas. Qualquer decis\u00e3o que seja tomada acaba sempre por ser criticada: ou porque peca por defeito ou porque \u00e9 em excesso.<\/p>\n<p>Se \u2013 porque considero que o luto \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica \u2013 j\u00e1 existisse, a n\u00edvel global, uma disponibilidade para o apoio ao luto e os conselheiros do luto fossem reconhecidos, se estivessem nos Centros de Sa\u00fade, este tipo de respostas seria mais f\u00e1cil. Ajudando, nomeadamente, as pessoas que se veem confrontadas com limita\u00e7\u00f5es, relativamente aos seus rituais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muitas pessoas v\u00e3o passar estes dias a pensar no que n\u00e3o puderam fazer. Seria bom que a fam\u00edlia, os grupos mais pr\u00f3ximos, procurassem alternativas, at\u00e9 recorrendo a novas tecnologias?<\/em><\/p>\n<p>O luto \u00e9 individual. Quando eu amo determinada pessoa, ningu\u00e9m consegue imaginar a dimens\u00e3o, os la\u00e7os intrincados que crio, la\u00e7os de sobreviv\u00eancia \u2013 por isso \u00e9 que o luto \u00e9 t\u00e3o complicado. Quando me ligo com a esposa, o meu filho, o meu pai, a minha m\u00e3e, estes la\u00e7os s\u00e3o apertad\u00edssimos. Ent\u00e3o, o luto, como costumo dizer, \u00e9 um processo dramaticamente solit\u00e1rio. Claro que as pessoas encontram estrat\u00e9gias comunit\u00e1rias de resposta, para se sentirem mais confort\u00e1veis.<\/p>\n<p>Uma dessas estrat\u00e9gias \u00e9 a cerim\u00f3nia com toda a gente no cemit\u00e9rio, isso normaliza o que \u00e9 individual.<\/p>\n<p>As pessoas tamb\u00e9m t\u00eam de pensar que est\u00e1 em risco a sua pr\u00f3pria vida, se se deixarem contaminar. Temos de balancear isto, nesta perspetiva, e encontrar formas individuais de estabelecer mem\u00f3rias apraz\u00edveis relativamente \u00e0 pessoa perdida.<\/p>\n<p>Claro que \u00e9 poss\u00edvel \u2013 com as redes sociais, a internet \u2013 criar formas de as pessoas se encontrarem. N\u00e3o \u00e9 mesma coisa, porque est\u00e3o habituadas a um ritual, e isto exige muita imagina\u00e7\u00e3o, da nossa parte. Como voc\u00eas sabem, os portugueses t\u00eam uma grande capacidade adaptativa.<\/p>\n<p>Do ponto de vista individual, do luto, cada um deve encontrar o seu memorial. Por exemplo, h\u00e1 um evento que se chama \u201cacenda uma vela\u201d e que \u00e9 em mem\u00f3ria de filhos. Pode criar-se uma coisa desse g\u00e9nero, em que a pessoa p\u00f5e uma vela el\u00e9trica na janela ou p\u00f5e uma tarja de determinada cor. Ou p\u00f5e \u00e0 janela a coroa de flores que ia colocar no cemit\u00e9rio. N\u00e3o est\u00e1 no local, mas est\u00e1, a n\u00edvel global, a demonstrar a mem\u00f3ria que tem da pessoa perdida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia trouxe muitas restri\u00e7\u00f5es \u00e0 forma como decorrem hoje as cerim\u00f3nias f\u00fanebres. 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