{"id":18892,"date":"2006-07-03T11:18:49","date_gmt":"2006-07-03T11:18:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/07\/03\/autonomia-nunca-esta-completa\/"},"modified":"2006-07-03T11:18:49","modified_gmt":"2006-07-03T11:18:49","slug":"autonomia-nunca-esta-completa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/autonomia-nunca-esta-completa\/","title":{"rendered":"Autonomia nunca est\u00e1 completa"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Funchal na Missa de Louvor e Ac\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as no Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma da Madeira <!--more--> Caros crist\u00e3os 1 &#8211; Deus \u00e9 amigo da vida, \u00abn\u00e3o foi Deus quem fez a morte, nem Ele se alegra com a perdi\u00e7\u00e3o dos vivos\u00bb, este \u00e9 o tema central da liturgia como \u00e9 afirmado no livro da Sabedoria (Sab. 11, 26). No evangelho Jesus aparece actuando pela vida, ao curar uma pobre mulher que sofria fluxo de sangue \u2013 o que a tornava impura perante a sociedade \u2013 e ao ressuscitar a filha de Jairo, o chefe da sinagoga.  Os dois milagres de Jesus s\u00e3o realizados em mulheres que t\u00eam em comum os doze anos \u2013 idade da menina e do per\u00edodo da doen\u00e7a da mulher hemoro\u00edsa. Nas duas cenas de milagres, o evangelho evidencia a f\u00e9 humilde, a da mulher doente que, \u00e0s escondidas, toca na f\u00edmbria da veste de Jesus quando este era comprimido pela multid\u00e3o, e a do chefe da sinagoga que, de joelhos, perante Jesus lhe implora a cura da sua filha.  Estas duas curas s\u00e3o sinais: mostram o poder de Jesus Cristo sobre a morte, anunciam que chegou o Reino de Deus e preanunciam a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. S\u00f3 Cristo tem o poder de nos fazer passar as fronteiras da morte. As curas f\u00edsicas operadas por Jesus n\u00e3o possuem a marca do definitivo, tanto a menina como a velhinha tiveram, posteriormente, de enfrentar a morte natural.  O que contou para Jesus foi a f\u00e9, tanto a do pai da menina, como da mulher doente. S\u00e3o Paulo afirma na carta aos Romanos: quem salva \u00e9 a f\u00e9 desde que se torne operante atrav\u00e9s do amor.  Cada um de n\u00f3s tem necessidade de crer, a f\u00e9 \u00e9 insubstitu\u00edvel na vida de uma pessoa. No contexto em que vivemos e como consequ\u00eancia do secularismo, a f\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 em perigo, como afirmam alguns, a crise actual n\u00e3o \u00e9 maior que a das outras \u00e9pocas. A profecia laica de se \u00abviver como se Deus n\u00e3o existisse\u00bb n\u00e3o ajudou a humanidade a ser melhor nem a atingir a meta da sua maturidade. O pre\u00e7o da aut\u00eantica liberdade \u00e9 bem mais alto do que a recusa de Deus. \u00c9 verdade que \u00e9 preciso \u00abaprender a crer\u00bb, mas nascemos com a possibilidade de crer. A f\u00e9 \u00e9 um ideal t\u00e3o elevado que exige toda a nossa vida. \u00c9 um dom de Deus que se recebe na humildade e gratid\u00e3o.   <b>O amor n\u00e3o d\u00e1 nada al\u00e9m de si mesmo<\/b> 2 &#8211; O maior dom que qualquer um de n\u00f3s recebeu foi o da vida, tanto a f\u00edsica como a crist\u00e3. Ambas prov\u00eam de dois grandes amores, o dos nossos pais e o de Deus.  A vida \u00e9 felicidade, alegria, conviv\u00eancia humana, realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pessoa, criatividade, mas nela aparece tamb\u00e9m a dor e o sofrimento, a depress\u00e3o e a tristeza, a doen\u00e7a e a morte.  No mundo em que vivemos, h\u00e1 nega\u00e7\u00f5es da vida, umas por causas naturais, outras por maldade e culpa dos homens, como a guerra, a fome, o ego\u00edsmo, a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo, a viol\u00eancia e a opress\u00e3o, o \u00f3dio e rancores, viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos.  Para os disc\u00edpulos de Jesus o mal vence-se com o bem, a vida e a morte t\u00eam sentido novo; Deus criou o homem para a felicidade. O amor tanto na vida de Jesus, como na do crist\u00e3o, d\u00e1 fecundidade ao sofrimento, gera vida mesmo na morte.  Sem a entrega pessoal aos outros ou a uma causa nobre, sem o esquecimento de si pr\u00f3prio, sem sofrer e alegrar-se com os irm\u00e3os, sem amar sem medida, \u00e9 dif\u00edcil a fecundidade pessoal e humana. S\u00e3o Jo\u00e3o exprimiu com vigor este pensamento de Jesus: \u00abSe o gr\u00e3o de trigo n\u00e3o cai na terra e n\u00e3o morre, fica sozinho. Mas, se morre, produz muito fruto. Quem tem apego \u00e0 sua vida vai perd\u00ea-la; quem despreza a sua vida neste mundo vai conserv\u00e1-la para a vida eterna\u00bb (Jo. 12, 24 ss). Escreveu um poeta (Gibran) que \u00abo amor n\u00e3o d\u00e1 nada al\u00e9m de si mesmo, e n\u00e3o recolhe nada sen\u00e3o de si mesmo. O amor basta ao amor\u00bb.   <b>A festa dos 30 anos da autonomia<\/b> 3 \u2013 Desde o primeiro quartel do s\u00e9culo XV o Porto Santo e a Madeira foram povoados pelo povo portugu\u00eas. No ano de 1514 o Papa Le\u00e3o X, filho de Louren\u00e7o o Magn\u00edfico, de Floren\u00e7a, criou a Diocese do Funchal, sinal de que na Madeira havia uma comunidade crist\u00e3 capaz de tomar em suas m\u00e3os a evangeliza\u00e7\u00e3o, administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos e a organiza\u00e7\u00e3o da vida de caridade.  \u00abN\u00e3o temas, basta que tenhas f\u00e9\u00bb, disse Jesus ao chefe da sinagoga. \u00c9 impressionante o n\u00famero de vezes que a B\u00edblia usa as palavras \u00abn\u00e3o temas\u00bb! 365 vezes como que a revelar-nos que em cada dia e em cada momento somos protegidos pela Provid\u00eancia de Deus. Assim aconteceu na Madeira durante estes cinco s\u00e9culos de exist\u00eancia como povo crist\u00e3o aut\u00f3nomo, dependendo apenas do sucessor de S\u00e3o Pedro, o Papa de Roma.  H\u00e1 30 anos aconteceu a Autonomia, momento importante e fecundo na hist\u00f3ria deste povo que sempre esperou ter maior interven\u00e7\u00e3o na sua hist\u00f3ria insular.  Durante este per\u00edodo da Autonomia a Madeira cresceu em desenvolvimento e estruturas que honram qualquer povo, mas como acontece com homens livres, a justi\u00e7a e a equidade, a distribui\u00e7\u00e3o de bens e da ci\u00eancia n\u00e3o acompanharam o desenvolvimento material, nem chegaram a todos os madeirenses.  A Autonomia, no sentido de bem comum, nunca est\u00e1 completa, mas sempre num estado de conquista, tendendo para a perfei\u00e7\u00e3o. Autonomia n\u00e3o se compreende sem democracia. \u00abA Igreja aprecia o sistema de democracia, enquanto assegura a participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os nas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e garante aos governos a possibilidade tanto de eleger e controlar os pr\u00f3prios governantes, como de substitui-los de modo pac\u00edfico, onde isso resulte oportuno\u00bb (Centesimus annus, n\u00ba 48).  A Igreja encoraja o ideal democr\u00e1tico, enquanto esse promove a participa\u00e7\u00e3o de todos os cidad\u00e3os nos empenhos sociais e considera este sistema como o mais id\u00f3neo para favorecer tal participa\u00e7\u00e3o e pleno desenvolvimento de cada pessoa a n\u00edvel pessoal e associativo, o que se torna poss\u00edvel se inspirado numa antropologia plena. \u00abUma democracia sem valores converte-se facilmente num totalitarismo aberto ou dissimulado como demonstra a hist\u00f3ria\u00bb (Centesimus Annus 46).  A democracia deve reconhecer como seu elemento fundamental a pessoa humana, o respeito e a promo\u00e7\u00e3o dos seus direitos essenciais, que s\u00e3o v\u00e1lidos para todos, crentes e descrentes. A pessoa humana \u00e9 qualquer ser humano, quaisquer que sejam as suas condi\u00e7\u00f5es, o seu estado de sa\u00fade, de desenvolvimento, as suas capacidades cognitivas. Por isso a democracia deve reconhecer-lhes o direito \u00e0 vida, do qual \u00e9 parte integrante, o direito a crescer junto do cora\u00e7\u00e3o da m\u00e3e desde que foi gerado, o direito a viver numa fam\u00edlia unida e em ambiente moral, a desenvolver a sua personalidade, a amadurecer a pr\u00f3pria intelig\u00eancia e liberdade no conhecimento da verdade, o direito ao trabalho, o de fundar livremente uma fam\u00edlia, o de receber e educar os filhos, o direito \u00e0 liberdade religiosa para viver segundo a pr\u00f3pria f\u00e9. N\u00e3o se pode falar de um direito \u00abobjectivo\u00bb ao aborto, \u00e0 eutan\u00e1sia, a formas de uni\u00f5es conjugais que n\u00e3o asseguram aos filhos uma estabilidade e seguran\u00e7a afectiva.  O voto \u00e9 essencial nas democracias, mas ser\u00e1 l\u00edcito recorrer ao voto das maiorias quando se trata de problemas e pr\u00e1ticas em que est\u00e3o implicados princ\u00edpios e valores morais que tocam a consci\u00eancia mais \u00edntima das pessoas ou de grande parte da popula\u00e7\u00e3o? A democracia por sua natureza, \u00e9 um \u00abordenamento\u00bb de natureza pol\u00edtica para a pac\u00edfica solu\u00e7\u00e3o dos problemas que dizem respeito \u00e0 vida pol\u00edtica, mas ser\u00e1 um instrumento para legislar sobre problemas que tocam as convic\u00e7\u00f5es morais e religiosas, ou seja, da consci\u00eancia dos cidad\u00e3os?  Como nos anos anteriores celebramos o Dia da Regi\u00e3o com uma missa de louvor a Deus e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pelos benef\u00edcios que nos cumulou. Este gesto continua a atitude e f\u00e9 dos primeiros povoadores que, ao pisar o solo madeirense, o consagraram a Deus com a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia.  Maria, a m\u00e3e de Jesus, entrou desde o in\u00edcio na hist\u00f3ria insular com o t\u00edtulo de Nossa Senhora do Monte. Uma devo\u00e7\u00e3o muito profunda e filial tem unido o cora\u00e7\u00e3o dos madeirenses ao cora\u00e7\u00e3o de Maria.  Ao contr\u00e1rio do s\u00e9culo XV, j\u00e1 n\u00e3o vivemos num bloco monocultural que, ent\u00e3o, deixava transparecer a unidade entre cultura e f\u00e9. S. Pedro apresenta-nos na sua 1\u00aa carta um princ\u00edpio v\u00e1lido tamb\u00e9m para n\u00f3s: \u00abEstai sempre dispostos a dar raz\u00e3o da vossa esperan\u00e7a a todo aquele que vo-lo pe\u00e7a. Que isto se fa\u00e7a com rectid\u00e3o, respeito e recta consci\u00eancia\u00bb (1 Pd. 3, 15).   Funchal, 1 de Julho de 2006 <i>\u2020 Teodoro de Faria, Bispo do Funchal<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Funchal na Missa de Louvor e Ac\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as no Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma da Madeira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,186,187,189,206,246,294],"class_list":["post-18892","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-diocese-do-funchal","tag-diocese-do-porto","tag-direitos-humanos","tag-familia","tag-liturgia","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18892"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18892\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}