{"id":18829,"date":"2006-06-28T13:38:47","date_gmt":"2006-06-28T13:38:47","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/06\/28\/espero-ainda-em-vida-ver-um-timor-erguido-e-feliz\/"},"modified":"2006-06-28T13:38:47","modified_gmt":"2006-06-28T13:38:47","slug":"espero-ainda-em-vida-ver-um-timor-erguido-e-feliz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/espero-ainda-em-vida-ver-um-timor-erguido-e-feliz\/","title":{"rendered":"Espero ainda em vida ver um Timor erguido e feliz"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista de D. Bas\u00edlio do Nascimento \u00e0 \u00abVoz Portucalense\u00bb <!--more--> <i>VP \u2013 Pode explicar-nos realmente o motivo deste clima de instabilidade e insatisfa\u00e7\u00e3o timorenses? D. Bas\u00edlio do Nascimento (BN) \u2013<\/i> Eu para j\u00e1 vejo dois: um \u00e9 o desentendimento institucional entre os militares (um grupo deles resolveu protestar contra a Institui\u00e7\u00e3o a que pertence, alegando discrimina\u00e7\u00e3o) e outro, que est\u00e1 subsequente ao primeiro e a tomar grande express\u00e3o, \u00e9 a vida s\u00f3cio-econ\u00f3mica que o pa\u00eds vive. De facto, n\u00e3o h\u00e1 emprego, n\u00e3o h\u00e1 ocupa\u00e7\u00e3o. Penso que tamb\u00e9m \u00e9 isto que tem contribu\u00eddo para a insatisfa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o face ao Governo, despoletada pelo descontentamento militar, que serviu de interruptor.   <i>VP \u2013 O que \u00e9 sempre esteve por detr\u00e1s disto e que agora eclode de novo? Que problema de fundo, camuflado ou irresoluto? BN \u2013<\/i> Tem-se invocado c\u00e1 a luta do problema \u00e9tnico (entre leste e oeste). Isso \u00e9 um problema, que, de facto, n\u00e3o existe! Essa designa\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve de base, nem serviu, para conflitos entre a popula\u00e7\u00e3o timorense. Tamb\u00e9m \u00e9 muito poss\u00edvel \u2013 isso n\u00e3o posso dizer com certeza \u2013 que no tempo da Resist\u00eancia tenha havido alguma discrimina\u00e7\u00e3o entre os comandantes da guerrilha e isto tenha sido acumulado e n\u00e3o tenha sido ent\u00e3o resolvido e depois, quando Timor passou para a independ\u00eancia, julgo que houve uma certa crucifica\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o das Institui\u00e7\u00f5es. A n\u00e3o regulariza\u00e7\u00e3o das estruturas faz com que ao primeiro abalo as situa\u00e7\u00f5es acumuladas venham ao de cima.  <i>VP \u2013 De que forma e como se posiciona a Igreja nesta situa\u00e7\u00e3o desconcertante? BN \u2013<\/i> Bom, a Igreja tem sido apontada de \u201cquando fala \u00e9 porque fala, quando n\u00e3o fala \u00e9 porque n\u00e3o fala\u201d. Mas, neste momento, \u00e9 necess\u00e1rio deixar aos \u00f3rg\u00e3os do poder a decis\u00e3o para esta situa\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 ao Estado que compete orientar e tomar estas decis\u00f5es. Evidentemente que a Igreja n\u00e3o est\u00e1 alheia, sem ser protagonista, tamb\u00e9m tentamos dar o nosso contributo falando com os poss\u00edveis focos de instabilidade, com os que aumentam a tens\u00e3o. Temos pessoas da Igreja, identificada por n\u00f3s, muito pr\u00f3xima desses \u201cfocos\u201d e tentamos acalmar o esp\u00edrito.  <i>VP \u2013 E o Vaticano tem-se mostrado solid\u00e1rio convosco? BN \u2013<\/i> Sim, j\u00e1 desde o tempo da Indon\u00e9sia. E at\u00e9 fiquei bastante admirado por terem observa\u00e7\u00f5es ao pormenor do que vai acontecendo. Mesmo agora temos recebido v\u00e1rias comunica\u00e7\u00f5es dos Cardeais respons\u00e1veis dos Dicast\u00e9rios assim como recebemos uma mensagem pessoal do Papa Bento XVI, enviando-nos uma palavra de presen\u00e7a, de recomenda\u00e7\u00e3o e de encorajamento. De maneira que a situa\u00e7\u00e3o de Timor n\u00e3o \u00e9 ignorada em Roma.  <i>VP \u2013 J\u00e1 sei que elei\u00e7\u00f5es antecipadas no seu entender n\u00e3o resolvem. Acha que a resolu\u00e7\u00e3o passa pela demiss\u00e3o de Alkatiri, para dar lugar a Ramos Horta e mantendo Xanana Gusm\u00e3o? BN \u2013<\/i> Sinceramente, n\u00e3o sei, a n\u00edvel de pessoas se saindo este e entrando aquele, n\u00e3o sei se resolve. Acho que elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvem. Ser\u00e1 que a sa\u00edda do Primeiro-Ministro resolver\u00e1? Fa\u00e7o eu a quest\u00e3o. E ser\u00e1 que o seu executivo concordar\u00e1? Neste momento n\u00e3o sei, a n\u00edvel de pessoas, quem \u00e9 mais indicado. S\u00f3 a n\u00edvel de aspira\u00e7\u00e3o \u00e9 que manifesto o anseio do restabelecimento de seguran\u00e7a, para as que as pessoas possam regressar \u00e0 sua vida sem grandes receios e os refugiados possam regressar \u00e0s suas casas e a n\u00edvel pol\u00edtico \u00e9 necess\u00e1rio que a tens\u00e3o diminua. Neste momento, a vida est\u00e1 parada em Timor e entra-se num ciclo vicioso. N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto Timor conseguir\u00e1 aguentar com este tipo de vida.  <i>VP \u2013 Se Ramos Horta avan\u00e7ar j\u00e1 n\u00e3o o poderemos ter, eventualmente, como Secret\u00e1rio-geral da ONU\u2026 BN \u2013<\/i> Eu pessoalmente acho que o cargo de Secret\u00e1rio-geral \u00e9 um cargo de prest\u00edgio para a pessoa e, sem d\u00favida alguma, tamb\u00e9m seria um cargo de prest\u00edgio para o pa\u00eds, que \u00e9 representado pela pessoa, neste caso seria o Dr. Ramos Horta. Tamb\u00e9m j\u00e1 falei com ele, algumas vezes, sobre este assunto e tenho-me interrogado onde, neste momento, o Dr. Ramos Horta \u00e9 mais importante, na ONU ou em Timor? Penso que agora Timor precisa mais dele que a ONU. N\u00e3o sei se ele depois ter\u00e1 oportunidade, vamos ver\u2026  <i>VP \u2013 Qual a(s) raz\u00e3o(\u00f5es) da sua vinda e estadia em Portugal nestes \u00faltimos dias? BN \u2013<\/i> A raz\u00e3o \u00e9 por causa da sa\u00fade. Eu fui operado ao cora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uns anos atr\u00e1s e o meu cardiologista recomenda, pelo menos, 2 controlos por ano. Agora desta vez, depois de ter adiado a viagem por causa do clima de Timor, vim quando me pareceu oportuno e quando cheguei a Hong-Kong soube pelo meu Vig\u00e1rio Geral que as coisas tinham complicado.  <i>VP \u2013 Como acha que o povo portugu\u00eas, com a liga\u00e7\u00e3o que tem, reage e sente este panorama dif\u00edcil timorense? BN \u2013<\/i> Penso que at\u00e9 aqui Portugal sempre tem mostrado afectividade e ternura em rela\u00e7\u00e3o a Timor e eu falo por experi\u00eancia \u2013 talvez seja suspeito porque passei toda a minha vida de adolescente\/jovem aqui \u2013 mas, em 1999, quando j\u00e1 era Bispo em Timor vi o que o povo timorense viu e vi como o povo portugu\u00eas se manifestou, com amor ao timorense. Sentimento este que estrangeiros que est\u00e3o em Timor n\u00e3o compreendem. Porque depois do risco que a opini\u00e3o p\u00fablica e a Comunica\u00e7\u00e3o Social fazem passar \u00e9 leg\u00edtimo que o povo portugu\u00eas se interrogue: \u201cser\u00e1 que valer\u00e1 a pena continuar a ajudar Timor?\u201d. No entanto, deixem-me dizer que quem sofre\/mais sofre n\u00e3o s\u00e3o os provocadores das crises, os provocadores dos conflitos, s\u00e3o sempre aqueles que sofrem as consequ\u00eancias dessas crises e conflitos, gente pobre que n\u00e3o tem nada, os pequenos. Por isso penso que Portugal nunca fechar\u00e1 os seus olhos nem o seu cora\u00e7\u00e3o.  <i>VP \u2013 Isso \u00e9 apenas vis\u00edvel nas campanhas de solidariedade em que a Caritas e os portugueses se envolvem ou chega de outro modo (como chega) a Timor? BN \u2013<\/i> Chega muita coisa e de muitos modos que n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel, que n\u00e3o aparece na Comunica\u00e7\u00e3o Social. Penso que isso tem sido o importante, isto \u00e9, as situa\u00e7\u00f5es quando aparecem nas primeiras p\u00e1ginas dos jornais todo o mundo se d\u00e1 conta, a realidade come\u00e7a quando as situa\u00e7\u00f5es deixam de aparecer e pass\u00e1mos a apanhar os \u201ccacos\u201d \u2013 passo a express\u00e3o \u2013 e a\u00ed tem havido amigos, sempre gente de bom cora\u00e7\u00e3o, sem se tornar conhecida, sem grandes alaridos. Temos estendido as m\u00e3os, n\u00f3s Igreja, para continuarmos a apanhar os \u201ccacos\u201d.  <i>VP \u2013 Tem sentido algum tipo de cr\u00edticas e press\u00e3o em redor de todo este processo longo e delicado? Como enfrenta e contorna esses dissabores? BN \u2013<\/i> N\u00e3o podemos agradar a toda gente. Temos que gerir aqui e em todo o lado aquilo que nos parece ser melhor para cada momento, segundo o nosso discernimento, e tentar agir em conformidade. Nem sempre as decis\u00f5es que se tomam como as ac\u00e7\u00f5es que se cometem s\u00e3o as melhores, mas quem decide tem de escolher e a escolha \u00e9 sempre relativa e tem as suas consequ\u00eancias. Quanto \u00e0s cr\u00edticas acho que s\u00e3o normais.  <i>VP \u2013 Que an\u00e1lise faz \u00e0 pol\u00edtica e rela\u00e7\u00f5es internacionais e governamentais relativamente \u00e0 aus\u00eancia de paz e democracia verdadeiras em Timor? BN \u2013<\/i> Penso que para um pa\u00eds que come\u00e7a, como Timor, h\u00e1 muita coisa que falta. H\u00e1 muita coisa que se aprende nos livros, com as experi\u00eancias dos outros, mas as realidades n\u00e3o s\u00e3o as mesmas. Mas para um pa\u00eds como Timor, com a escassez de recursos humanos e recursos financeiros e para al\u00e9m destas crises de 3\/4 anos de independ\u00eancia timorense, penso que tem havido um crescimento ligeiro econ\u00f3mico e h\u00e1 uma boa rela\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses vizinhos e os restantes pa\u00edses do Mundo. A avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o negativa como \u00e0 primeira vista poderia parecer, e estes dados chegam-me de relat\u00f3rios de observadores especializados.  <i>VP \u2013 E acha que essa boa rela\u00e7\u00e3o de alguns pa\u00edses vizinhos dever-se-\u00e1 a algum interesse pol\u00edtico sobre Timor, em vista ao petr\u00f3leo e ao pr\u00f3prio terreno? BN \u2013<\/i> Segundo aquilo que sei e tenho ouvido Timor \u00e9 um pa\u00eds com alguns recursos bastantes significativos para a dimens\u00e3o que tem. Dizem tamb\u00e9m os entendidos que a n\u00edvel geo-estrat\u00e9gico Timor ocupa uma boa posi\u00e7\u00e3o. Penso que tudo isto deve contar para a aprecia\u00e7\u00e3o dos fazedores da pol\u00edtica internacional e da \u00e1rea que nos escapam a n\u00f3s, leigos da pol\u00edtica.  <i>VP \u2013 Que sol de esperan\u00e7a e de justi\u00e7a anseia e prev\u00ea no futuro timorense? BN \u2013<\/i> Estes surtos de viol\u00eancia entristecem-nos porque sonhamos com o melhor para n\u00f3s, para as nossas vidas, para o pa\u00eds. Mas, sem d\u00favida, que acredito que \u201cn\u00e3o h\u00e1 mal que sempre dure\u201d. Penso que os erros ser\u00e3o os grandes mestres para a gente poder crescer. Penso que aos poucos a viol\u00eancia vai sendo reduzida, as pessoas v\u00e3o voltando \u00e0 sua vida e amanh\u00e3 as coisas n\u00e3o poder\u00e3o ser como hoje s\u00e3o. Tenho muita esperan\u00e7a que, apesar de tudo, Timor possa construir-se e espero ainda em vida ver um Timor erguido e feliz!  <i>Andr\u00e9 Rubim Rangel<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de D. 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