{"id":187023,"date":"2020-10-06T11:57:08","date_gmt":"2020-10-06T10:57:08","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=187023"},"modified":"2020-10-06T11:59:42","modified_gmt":"2020-10-06T10:59:42","slug":"fratelli-tutti-papa-propoe-novo-paradigma-de-humanidade-sem-muros-sem-fronteiras-sem-barreiras-sem-exclusao-e-sem-discriminacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fratelli-tutti-papa-propoe-novo-paradigma-de-humanidade-sem-muros-sem-fronteiras-sem-barreiras-sem-exclusao-e-sem-discriminacao\/","title":{"rendered":"\u00abFratelli Tutti\u00bb: Papa prop\u00f5e \u00abnovo paradigma de humanidade sem muros, sem fronteiras, sem barreiras, sem exclus\u00e3o e sem discrimina\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Isabel Varanda, professora da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, comenta, em entrevista escrita \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, os pontos principais de um documento dirigido a toda a humanidade, em tempo de crise<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista realizada por Oct\u00e1vio Carmo<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_156276\" aria-describedby=\"caption-attachment-156276\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-156276 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-156276\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Tal como a Laudato Si&#8217;, em 2015, procurou responder com o conceito de ecologia integral aos desafios das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, em pleno debate que levaria ao Acordo de Paris, o novo texto parece propor conceitos fundamentais como fraternidade e amizade social a um mundo marcado pela pandemia.<\/em><\/p>\n<p>Temos em m\u00e3os uma enc\u00edclica social, um texto universal, que n\u00e3o deixar\u00e1, certamente, ningu\u00e9m indiferente. Muito pelo contr\u00e1rio, aceitar ler um texto ao qual \u00e9 dado o t\u00edtulo <em>Todos irm\u00e3os<\/em> (FT) j\u00e1 permite antever que dele n\u00e3o sairemos ilesos: \u00e9 uma esp\u00e9cie de murro no est\u00f4mago, que aperta o cora\u00e7\u00e3o e deixa a raz\u00e3o envergonhada. Se \u00e9 verdade que o tema \u00e9 mais do que pertinente neste tempo de pandemia, da qual ainda n\u00e3o conseguimos vislumbrar o fim, tamb\u00e9m me parece que o Papa Francisco escreveria esta Carta ao mundo em algum momento do seu pontificado. Ele pr\u00f3prio diz: \u201cas quest\u00f5es relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupa\u00e7\u00f5es\u201d (FT \u00a75). Por isso, a enc\u00edclica <em>Todos Irm\u00e3os<\/em> \u00e9 escrita como um contributo para a reflex\u00e3o sobre a crise dram\u00e1tica de fraternidade, que \u00e9 crise dram\u00e1tica de humanidade, na esperan\u00e7a de que \u201cum sonho novo de fraternidade e amizade social\u201d (FT \u00a76) possa motivar o ser humano para modos benfazejos de habitar o mundo, modos benfazejos de fazer o mundo e modos benfazejos de ser mundo.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, encontramos numerosas interven\u00e7\u00f5es de Francisco, seja nas enc\u00edclicas, nas exorta\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas, nas mensagens, nos discursos ou nas alocu\u00e7\u00f5es, onde claramente exprime preocupa\u00e7\u00e3o aguda para \u201ccom as v\u00e1rias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros\u201d (FT \u00a76). Parece bem ao Santo Padre reunir algumas dessas muitas interven\u00e7\u00f5es e transp\u00f4-las para um \u00e2mbito de reflex\u00e3o mais alargado. Resulta uma carta enc\u00edclica organizada em 8 cap\u00edtulos, com 287 par\u00e1grafos e 288 notas de rodap\u00e9. Cerca de 55% das notas de rodap\u00e9 e refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas remetem para as m\u00faltiplas interven\u00e7\u00f5es do Papa. Podemos dizer, por isso, que este \u00e9 o pensamento de Francisco, esta \u00e9 a Carta que Francisco sempre desejou enviar a todos os seres humanos, lembrando-lhes: Somos <em>Todos Irm\u00e3os<\/em>.<\/p>\n<p>Adota um tom pedag\u00f3gico, num estilo redaccional polimorfo. Incisivo, n\u00e3o deixa de dar nome \u00e0s coisas e aos fen\u00f3menos, n\u00e3o se esquiva aos pormenores, pois n\u00e3o nos quer poupar ao traumatismo do encontro com as dores do mundo e com as feridas em carne viva da fraternidade. N\u00e3o se dirige a uma elite ilustrada, retorica, clerical ou acad\u00e9mica; a linguagem \u00e9 af\u00e1vel, mas sempre interpeladora e frontal: \u201csomos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais fr\u00e1geis e vulner\u00e1veis das nossas sociedades\u201d (FT \u00a765), \u201csintomas de uma sociedade enferma, pois procura construir-se de costas para o sofrimento\u201d (FT \u00a766), constata. Alguma ironia, algum tom magoado de quem muito sabe, muito v\u00ea, muito experimenta, muito sente, muito sofre e muito reza. Lamento de irm\u00e3o ferido. N\u00e3o evitando tamb\u00e9m a linguagem dura, a cr\u00edtica cortante, a palavra incomodativa: \u201cAquilo que ainda h\u00e1 pouco tempo uma pessoa n\u00e3o podia dizer sem correr o risco de perder o respeito de todos, hoje pode ser pronunciado com toda a grosseria, at\u00e9 por algumas autoridades pol\u00edticas, e ficar impune\u201d (FT \u00a745). A voz do Papa Francisco \u00e9 voz que destoa no tom e na t\u00f3nica; exp\u00f5e, d\u00e1 nome \u00e0 mar\u00e9 de desumanidade que avan\u00e7a inclemente e inconsciente: denuncia tudo o que fecha, tudo o que reduz, tudo o que exclui, tudo o que esconde, tudo o que apouca, tudo o que descria o mundo e a humanidade.<\/p>\n<p>S\u00f3 um pequeno resto mant\u00e9m esta ousadia e este discurso, um ainda mais pequeno resto \u00e9 sens\u00edvel ao que \u00e9 dito e s\u00f3 um \u00ednfimo resto se deixa envolver no esp\u00edrito de mudan\u00e7a, de convers\u00e3o \u00e0 tarefa hist\u00f3rica de priorizar o bem comum e a vida boa para todas as criaturas. O facto \u00e9 que o desejo de mudan\u00e7a e a motiva\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a s\u00f3 ocorrem se estivermos convictos de que a mudan\u00e7a \u00e9 para algo melhor do que o que temos; precisamos de sentir que vale a pena o esfor\u00e7o; s\u00f3 esta convic\u00e7\u00e3o nos mover\u00e1 para outros caminhos, mais fraternos, mais inclusivos, mais \u201cpercursos de esperan\u00e7a\u201d (FT \u00a754).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_99152\" aria-describedby=\"caption-attachment-99152\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-99152 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971-300x200.jpg\" alt=\"Lampedusa\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971-300x200.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/c5d78770e7_38359971-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-99152\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Osservatore Romano<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Em 2013, a primeira viagem do Papa levou-o a Lampedusa para condenar a globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a e colocar a quest\u00e3o inicial de todo o edif\u00edcio \u00e9tico ocidental, vinda do pr\u00f3prio Deus: Onde est\u00e1 o teu irm\u00e3o? O que \u00e9 o irm\u00e3o, no pensamento\u00a0cat\u00f3lico?<\/em><\/p>\n<p>A enc\u00edclica <em>Laudato Si<\/em> \u2018 (24 de maio de 2015) recordou ao mundo, de modo luminoso, que todas as criaturas, humanas e n\u00e3o humanas, vis\u00edveis e invis\u00edveis, est\u00e3o intrinsecamente ligadas e, por isso, tudo o que acontece com a mais \u00ednfima part\u00edcula ou com a mais gigantesca forma de vida inscreve-se, de forma indel\u00e9vel, na biografia comum da cria\u00e7\u00e3o. A evid\u00eancia de perten\u00e7a \u00e0 \u201ccarne do mundo\u201d e da interdepend\u00eancia fundamental pode ser dif\u00edcil de aceitar ao p\u00f4r aparentemente em causa os devaneios prometeicos do ser humano, um certo entendimento da autonomia, da liberdade, do poder e da capacidade de dom\u00ednio. Mas, n\u00e3o h\u00e1 volta a dar. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da vida tal como a conhecemos, e \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o feliz. Esta \u00e9 a nossa identidade: nem o planeta terra \u00e9 solit\u00e1rio, nem o ser humano \u00e9 solit\u00e1rio; somos solid\u00e1rios e isto n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o; \u00e9 condi\u00e7\u00e3o. A fragilidade ou mesmo aus\u00eancia desta consci\u00eancia de perten\u00e7a a algo mais do que eu, maior do que eu e diferente de mim, \u00e9 fator determinante do modo como vemos e nos relacionamos com o outro, os outros e com tudo o que nos rodeia. Como passamos do reconhecimento desta solidariedade biol\u00f3gica para uma fraternidade universal? O que faz com que reconhe\u00e7amos um outro, que n\u00e3o sou eu, portanto, importante aos meus olhos, digno de contempla\u00e7\u00e3o e de admira\u00e7\u00e3o, digno do meu desejo, merecedor do meu cuidado e do meu amor, a tal ponto que posso equacionar a possibilidade de dar a vida por ele? Saber que tal \u00e9 poss\u00edvel maravilha-me e diz muito sobre quem \u00e9 o ser humano, quem somos n\u00f3s e do que somos capazes. Se ousasse uma tentativa de resposta, sempre insuficiente, diria: isto \u00e9 Amor. E s\u00f3 o amor nos permite reconhecer o outro meu pr\u00f3ximo, pr\u00f3ximo a mim e de quem eu sou pr\u00f3ximo, meu irm\u00e3o, que me interpela, me responsabiliza, me seduz e me enche de admira\u00e7\u00e3o; ele aparece-me, fora de mim, e desencadeia um turbilh\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o \u00e9tica at\u00e9 ao reconhecimento: Ecce frater \u2013 Eis o irm\u00e3o. Sabemos todos, no entanto, que se trata, muitas vezes, de uma fraternidade ferida e tantas vezes ferida de morte. Por isso, ressoa atrav\u00e9s dos tempos e dos espa\u00e7os e no \u00edntimo de cada um de n\u00f3s a pergunta vinda do pr\u00f3prio Deus: \u201conde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u201d (Gn 4,9).\u00a0 Em Lampedusa e em todas as Lampedusas e \u201cestradas desoladas\u201d do mundo onde deixamos um ser humano ferido, abandonado, ignorado, humilhado, explorado, enxovalhado, \u201cca\u00eddo nas margens da vida\u201d (FT\u00a7 68): <em>Ecce homo &#8211; Ecce frater<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cA mim que me importa?\u201d \u201cSou, porventura, guarda do meu irm\u00e3o?\u201d (Gn4,9). A 13 de setembro de 2014, no Sacr\u00e1rio Militar de Redipuglia, em it\u00e1lia, o Papa Francisco chorou a morte de milhares de seres humanos, e apelou a que n\u00e3o mais se dissesse: \u201ca mim, que me importa?\u201d e convidou a que se passasse do \u201ca mim, que me importa?\u201d para o pranto. \u201cO pranto. Irm\u00e3os, a humanidade precisa de chorar; e esta \u00e9 a hora do pranto\u201d, assim concluiu a homilia.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica FT traz-nos, no cap\u00edtulo II: \u201cum estranho no caminho\u201d. Pela milion\u00e9sima vez na nossa vida somos convocados para aquela narrativa de Lc 10,25-37, consagrada como <em>a par\u00e1bola do Bom Samaritano<\/em>. Vale a pena escut\u00e1-la de novo. Francisco consegue cont\u00e1-la como se fosse a primeira vez, arrastando o leitor para o centro do drama de fraternidade que ali decorre: \u201cCom quem te identificas? \u00c9 uma pergunta sem rodeios direta e determinante: a qual deles te assemelhas?\u201d (FT \u00a764) E Francisco continua: \u201cDiante de tanta dor, \u00e0 vista de tantas feridas, a \u00fanica via de sa\u00edda \u00e9 ser como o bom samaritano. Qualquer outra op\u00e7\u00e3o deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo sem se compadecerem com o sofrimento do ferido na estrada\u201d (FT \u00a767). <em>Ecce frater<\/em>! E isto \u00e9 dignidade humana! isto \u00e9 fraternidade, fraternidade universal, \u2013 o ferido n\u00e3o tem nome &#8211; aberta a todo e qualquer ser humano e alargada a todas as criaturas nossas irm\u00e3s, como nos mostra Francisco de Assis.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria necess\u00e1rio evocar a religi\u00e3o ou a f\u00e9 para se chegar \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da fraternidade humana. Para os crist\u00e3os, esta fraternidade humana e c\u00f3smica \u00e9 fraternidade crist\u00e3 porque intimamente ligada a Jesus Cristo, o Filho de Deus, por quem, com quem, em quem, todas as criaturas, \u00e0 sua maneira pr\u00f3pria, s\u00e3o convidadas a reconhecer e a aceitar a filia\u00e7\u00e3o divina. No Filho, todos os filhos dizem, de vez em quando, Pai-nosso, o que nos obriga a olhar para o lado e dizer: Irm\u00e3o- meu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Podemos ver no atual pontificado a proposta da Fraternidade e do respeito pela dignidade de cada pessoa e cada comunidade como uma alternativa ao globalismo sem rumo?<\/em><\/p>\n<p>Tudo o que for sem rumo, seja movimento global, seja movimento local, \u00e9 arriscar-se na deriva, no vaguear. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas fomos fortalecendo a consci\u00eancia pr\u00e1tica de que pass\u00e1vamos bem sem mem\u00f3ria do que nos precede, sem refer\u00eancias extr\u00ednsecas claras e consistentes, sem Deus e sem os outros. Os mitos de autossufici\u00eancia, de individualismo, de milagre tecnol\u00f3gico, do poder de saber e de ter, de prosperidade e de abund\u00e2ncia, t\u00eam tido efeito semelhante a um anest\u00e9sico, que mergulha as sociedades e os indiv\u00edduos num reconfortante torpor. \u201cVemos como reina uma indiferen\u00e7a acomodada, fria e globalizada\u201d (FT \u00a730), escreve o Papa.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XXI n\u00e3o cessa de nos dizer que fomos longe de mais, temos ido longe de mais. Estamos a ser for\u00e7ados a sair do torpor e o sobressalto \u00e9 terrivelmente angustiante e desconcertante. As duas grandes crises globais que devastam o presente ano 2020 \u2013 a crise ecol\u00f3gica e a crise pand\u00e9mica &#8211; vergam e desfazem todas as ilus\u00f5es. O mundo inteiro agita-se ansiosamente em busca de sinais que indiquem que estamos a voltar ou vamos voltar ao que eramos, ao que t\u00ednhamos, ao que faz\u00edamos. Ora, \u00e9 provavelmente erro de expetativa. Edgar Morin, do alto dos seus extraordin\u00e1rios 99 anos de vida, escreve um pequeno livro em tempos de Covid 19 e d\u00e1-lhe o t\u00edtulo : <em>Changeons de voie<\/em> \u2013 Mudemos de caminho\u201d. Sim, mudemos de caminho, n\u00e3o voltemos ao mesmo. Este \u00e9 um tempo de luto e de tomada de decis\u00f5es cruciais. Estamos de luto, n\u00e3o s\u00f3 pelos milh\u00f5es de pessoas que a pandemia est\u00e1 a levar, mas pela vida e pelo mundo de antes, ao qual n\u00e3o regressaremos. Mudemos de caminho, tracemos juntos \u201cum rumo verdadeiramente humano\u201d (FT \u00a729) enfrentando juntos, de m\u00e3os dadas, numa frente universal fraterna, os caminhos que escolhermos e que podermos abrir; de outro modo \u201cenfrentaremos juntos a vala comum\u201d, vaticina o soci\u00f3logo polaco Zigmunt Bauman.<\/p>\n<p>Estaremos j\u00e1 preparados para escolher individualmente um modo fraterno de vida comum? Estaremos preparados para \u201cpensar e gerar um mundo aberto\u201d? (cf. FT cap. III). Em todo o caso, podemos come\u00e7ar por estabelecer que a educa\u00e7\u00e3o formal e informal seja tamb\u00e9m educa\u00e7\u00e3o para a rela\u00e7\u00e3o com o outro, para a consci\u00eancia de perten\u00e7a, para o bem comum, para o cuidado e \u201camizade social\u201d, para uma \u201csobriedade feliz\u201d, para uma vis\u00e3o aberta do mundo e das suas circunst\u00e2ncias, para o valor da vida, para a aten\u00e7\u00e3o privilegiada \u00e0 fragilidade e \u00e0 vulnerabilidade. Qui\u00e7\u00e1, a educa\u00e7\u00e3o possa contribuir, de modo determinante e decisivo, para dotar as gera\u00e7\u00f5es que nos sucedem de sabedoria e compet\u00eancias humanas para evitar \u201co cisma\u201d, que talvez j\u00e1 esteja em curso, entre o individuo e a comunidade humana, \u201cneste mundo que corre sem um rumo comum\u201d [cf. FT \u00a731).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_186646\" aria-describedby=\"caption-attachment-186646\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-186646\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/57213699_639866203105506_2728616388418600960_o_acnur.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-186646\" class=\"wp-caption-text\">Foto: ACNUR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Que import\u00e2ncia t\u00eam as mensagens do Papa sobre populismos e discursos racistas, xen\u00f3fobos?<\/em><\/p>\n<p>O que nos aconteceu? Como foi poss\u00edvel chegarmos l\u00e1? De onde nos vem o poder e a autoridade de olhar o outro de alto? Com que fundamento decidimos que ele \u00e9 de fora e que tem de corresponder aos meus crit\u00e9rios e padr\u00f5es para poder entrar? Como foi poss\u00edvel tornar os mais necessitados e vulner\u00e1veis ref\u00e9ns dos nossos esquemas desumanos, dos nossos discursos racistas e xen\u00f3fobos, transform\u00e1-los em objeto de \u00f3dio, de desd\u00e9m e de viol\u00eancia?<\/p>\n<p>Mais perigoso do que o v\u00edrus Sars Cov 2 \u00e9 o v\u00edrus inomin\u00e1vel que se propaga nas nossas sociedades, entre os nossos amigos e nas nossas fam\u00edlias como fogo em palha. Pasmo ao ver tanta gente com responsabilidade social, cultural e eclesial acrescidas serem contagiadas e conseguirem elaborar narrativas de autoconvencimento e de autojustifica\u00e7\u00e3o para se desviarem dos valores humanos que sempre alicer\u00e7aram as suas vidas e, em muitos casos, para se desviarem, de modo indecente e inconsciente, do Evangelho de Jesus Cristo. Que vos aconteceu, meus irm\u00e3os e minhas irm\u00e3s? Que ressentimentos t\u00e3o grandes carregais convosco ao ponto de n\u00e3o suportar a diferen\u00e7a do outro, a necessidade do outro, a cor do outro, o respirar do outro, a vida do outro? Quem \u00e9 o teu pr\u00f3ximo, afinal? E tu \u00e9s pr\u00f3ximo de quem, afinal? Como foi poss\u00edvel chegar l\u00e1? O que nos aconteceu? N\u00e3o sei e n\u00e3o encontro palavras para exprimir a repugn\u00e2ncia por todo o tipo de populismos e de racismos insanos que envergonham a humanidade neste s\u00e9culo XXI. Na nova Enc\u00edclica, Francisco aborda desassombradamente a quest\u00e3o de \u201cl\u00edderes populares\u201d cujo poder degenera num \u201cpopulismo insano, quando se transforma na habilidade de algu\u00e9m atrair consensos a fim de instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal ideol\u00f3gico, ao servi\u00e7o do seu projeto pessoal e da sua perman\u00eancia no poder\u201d (FT \u00a7159).<\/p>\n<p>\u201cDai-nos a gra\u00e7a de nos envergonharmos daquilo que, como homens, fomos capazes de fazer\u2026 nunca mais, Senhor, nunca mais!\u201d, clama o Papa Francisco.\u00a0 Sim. D\u00e1-nos a gra\u00e7a, \u00f3 Deus, de nos envergonharmos. (cf. visita do Papa Francisco ao Memorial de Yad Vashem em 26 de maio de 2014, FT \u00a7247).<\/p>\n<p>Choremos, porque o tempo \u00e9 de pranto e precisamos de aprender a chorar e descobrir a for\u00e7a purificadora do pranto pelo outro. \u00c9 tempo de n\u00e3o avan\u00e7ar mais. \u00c9 tempo de resistir \u00e0 voragem destruidora e resgatar o que faz de n\u00f3s pessoas: o amor fraterno universal e \u201ca amizade social\u201d que, por um lado, se se deveria estender pelos espa\u00e7os mais e menos long\u00ednquos, dentro do mesmo pa\u00eds e entre pa\u00edses e, por outro, precisa de se fortalecer no reconhecimento e desejo cordial de estar a\u00ed para o pr\u00f3ximo, para o mais pr\u00f3ximo: mormente, o doente, o pobre, o desempregado, o analfabeto, o ignorante, o falante de outra l\u00edngua, o velho, o homem e a mulher, o emigrante, o refugiado. Ecce homo \u2013 Ecce frater. Seriamos todos t\u00e3o mais felizes! Esperemos que as bolsas de humanidade aut\u00eantica que ainda resistem no meio de tanta selvageria humana possam resgatar do medo e da frustra\u00e7\u00e3o alienantes, dos quais muitos de n\u00f3s estamos ref\u00e9ns, algum resto de humanidade. N\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, n\u00e3o se pode aceitar, e precisamos todos de nos tornar mais vigilantes para resistir ao cont\u00e1gio mim\u00e9tico. \u201cDeixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras\u201d (FT \u00a778). Isso \u00e9 dignidade humana!<\/p>\n<p>Precisamos todos de perceber que ainda vale a pena repropor, com a nossa pr\u00f3pria vida, uma cultura de \u201camizade social\u201d, um espirito de delicadeza e de justi\u00e7a, uma linguagem sempre aberta e luminosa, que n\u00e3o permita que as sombras se apoderem do mundo e nos escondam, para sempre, o rosto do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa prop\u00f5e, sobretudo aos mais jovens, o ideal da Amizade Social, que inspira esta enc\u00edclica, para um mundo onde n\u00e3o h\u00e1 estranhos, de todos e para todos. Que consequ\u00eancias pr\u00e1ticas \u00e9 poss\u00edvel tirar desta \u201cutopia\u201d, digamos assim.<\/em><\/p>\n<p>Tudo se resume ao modelo de sociedade que gostar\u00edamos de ser, com a qual gostar\u00edamos de viver e que decidiremos construir. As op\u00e7\u00f5es educativas derivam das nossas decis\u00f5es e op\u00e7\u00f5es de sociedade e de vida comum. Tudo se resume a <em>Educa\u00e7\u00e3o, Educa\u00e7\u00e3o, Educa\u00e7\u00e3o<\/em> onde conste explicitamente \u00e1reas de desenvolvimento e de aprendizagens essenciais no que respeita \u00e0 vida, ao valor da vida, ao valor intr\u00ednseco de todas as criaturas, \u00e0 dignidade da vida humana, ao Bem comum, ao sentido de perten\u00e7a \u00e0 <em>humana communitas<\/em> e esta \u00e0 comunidade bioplanet\u00e1ria e c\u00f3smica.<\/p>\n<p>S\u00f3 podemos fazer a sugest\u00e3o veemente da leitura da enc\u00edclica, por todos. Foi escrita para todos e para que todos a possam ler. As gera\u00e7\u00f5es mais jovens encontrar\u00e3o nessa leitura chaves interessantes para pensar criticamente a sociabilidade virtual, ou mesmo, a amizade virtual e, em simult\u00e2neo, trabalhar o desejo de fraternidade aberta e de amizade social como pilares de uma vida pac\u00edfica e boa para a humanidade e para todas as criaturas. A todos n\u00f3s pertence proporcionarmos uns aos outros experi\u00eancias gratificantes de fraternidade e de amizade social. Lembro a exorta\u00e7\u00e3o do Papa Francisco na Exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii<em> Gaudium<\/em>: \u201cN\u00e3o deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!\u201d (EG \u00a7101).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A enc\u00edclica sobre a fraternidade nasce, de alguma forma, em fevereiro de 2019, com a declara\u00e7\u00e3o conjunta assinada em Abu Dhabi, sobre este tema, com o im\u00e3 Al-Azhar. Lembro que nesse encontro inter-religioso, Francisco deixou uma frase que pode definir a sua vis\u00e3o do di\u00e1logo entre religi\u00f5es e destas com a sociedade: \u201cHoje tamb\u00e9m n\u00f3s, em nome de Deus, para salvaguardar a paz, precisamos de entrar juntos, como uma \u00fanica fam\u00edlia, numa arca que possa sulcar os mares tempestuosos do mundo: a Arca de Fraternidade\u201d. Isto foi antes de falarmos em estar todos no mesmo barco, como repetimos agora\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem se a analogia mar\u00edtima \u00e9 assim tao fecunda. A bem dizer, eu dispensaria a <em>Arca de Fraternidade<\/em> e ficaria pelo movimento fraterno planet\u00e1rio dos \u201ccaminhantes da mesma carne humana\u201d, com os p\u00e9s bem na terra, avan\u00e7ando pelo solo comum. Na nova enc\u00edclica, o Papa lembra-nos que \u201cGozamos de um espa\u00e7o de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transforma\u00e7\u00f5es\u201d [\u00a777) e prop\u00f5e como metodologia: \u201ccome\u00e7ar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local\u2026 Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete\u201d, sugere. (FT \u00a787)<\/p>\n<p>Isto dito, vale a pena lembrar e aprofundar o marco de comunh\u00e3o inter-religiosa que o documento de Abu Dabhi, assinado no dia 4 de fevereiro de 2019, pelo Papa Francisco e o Gr\u00e3o-Im\u00e3 de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, representa. \u00c9 tamb\u00e9m com estes gestos concretos, neste caso dos cat\u00f3licos e dos mu\u00e7ulmanos, que se d\u00e3o passos efetivos na constru\u00e7\u00e3o da \u201cFraternidade humana em prol da paz mundial e da conviv\u00eancia comum\u201d. \u201cEm nome de Deus, da alma humana, dos pobres, dos miser\u00e1veis, dos necessitados e dos marginalizados, dos \u00f3rf\u00e3os, das vi\u00favas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus pa\u00edses, dos povos em guerra, da fraternidade humana, da liberdade, da justi\u00e7a e da miseric\u00f3rdia e em nome de todas as pessoas de boa vontade, \u201cdeclaramos adotar a cultura do di\u00e1logo como caminho; a colabora\u00e7\u00e3o comum como conduta, o conhecimento m\u00fatuo como m\u00e9todo e crit\u00e9rio\u201d.<\/p>\n<p>Reconhecer o estranho como \u201cmeu irm\u00e3o\u201d n\u00e3o se decreta. S\u00f3 uma imagina\u00e7\u00e3o livre, criativa e amorosa nos poder\u00e1 iniciar ao desejo de di\u00e1logo, ao desejo de encontro de religi\u00f5es, de culturas, de saberes, de \u201camizade social\u201d e de conviv\u00eancia fraterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A transforma\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis em sujeitos dispens\u00e1veis, descart\u00e1veis \u00e9 uma das marcas mais negativas deste tempo. Penso em particular nos mais velhos. A a\u00e7\u00e3o social tem algo a aprender com o que se tem passado?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o podemos mais fazer-nos de distra\u00eddos. Todos \u201cvemos, ouvimos e lemos. N\u00e3o podemos ignorar\u201d. A infe\u00e7\u00e3o pelo V\u00edrus Sars Cov 2, que evolui para pandemia, p\u00f4s a nu as feridas em carne viva das nossas sociedades. A crise humanit\u00e1ria e sanit\u00e1ria global \u00e9 um grito de irm\u00e3o ferido. \u2018Ecce frater\u2019. Milh\u00f5es de pessoas lutam desesperadamente para manter o seu emprego, para p\u00f4r alguma coisa na mesa para comer, para comprar um medicamento \u2013 s\u00e3o combates de irm\u00e3os, feridos numa luta desigual, sem fim \u00e0 vista.<\/p>\n<p>\u201cOlhos que n\u00e3o v\u00eam cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o sente\u201d, diz um ad\u00e1gio popular. Enfim, come\u00e7amos a ver e \u00e9 uma gra\u00e7a muito grande percebermos que muitos cora\u00e7\u00f5es come\u00e7am a sentir. O sobressalto, a perplexidade, o embara\u00e7o s\u00e3o grandes, confrontados com \u201cas sombras de um mundo fechado\u201d, que p\u00f5e a nu uma sociedade doente de medo e de solid\u00e3o (cf. FT cap. I). O Papa adverte para a exclus\u00e3o dos pobres, dos vulner\u00e1veis, dos doentes, dos que s\u00e3o relegados para as \u201cperiferias da vida\u201d, dos que jazem como mortos nas estradas desertas, dos que n\u00e3o se v\u00eam, dos que se tornam invis\u00edveis, dos \u201cforasteiros existenciais\u201d e dos \u201cexilados ocultos\u201d. Nestes \u00faltimos, Francisco reconhece um sem n\u00famero dos nossos velhos, que op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais arrumam e escondem at\u00e9 que caiam no esquecimento e se tornem invis\u00edveis. N\u00e3o temos n\u00f3s um retrato disso mesmo naquilo a que chamamos em Portugal <em>lares clandestinos<\/em>? Por defini\u00e7\u00e3o, o clandestino \u00e9 como se n\u00e3o existisse &#8211; <em>etsi homo non daretur<\/em>. Francisco lembra, e n\u00f3s fazemos quest\u00e3o de o real\u00e7ar, que, tal como cada um de n\u00f3s, cada um \u00e0 sua medida, tamb\u00e9m \u201cos pol\u00edticos s\u00e3o chamados a cuidar da fragilidade dos povos e das pessoas\u2026 cuidar da fragilidade quer dizer for\u00e7a e ternura, luta e fecundidade, no meio de um modelo funcionalista e individualista que conduz \u00e0 cultura do descarte\u201d [FT \u00a7188) e lembra ainda aquilo de que os nossos pol\u00edticos gostar\u00e3o de ser lembrados, a saber: \u201cNa pol\u00edtica, h\u00e1 lugar para amar com ternura\u201d [FT \u00a3\u00a7194).<\/p>\n<p>Um novo paradigma de humanidade sem muros, sem fronteiras, sem barreiras, sem exclus\u00e3o e sem discrimina\u00e7\u00e3o, assente no cuidar e no bem comum \u00e9 o ideal que se perfila diante de todos os cidad\u00e3os do mundo e de modo particular diante dos grandes decisores mundiais e locais. Que estes, daqui a alguns a anos, no balan\u00e7o da sua vida pol\u00edtica n\u00e3o se perguntem: \u201cQuantos me aprovaram, quantos votaram em mim, quantos tiveram uma imagem positiva de mim? As perguntas, talvez dolorosas ser\u00e3o: \u201cQuanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o meu povo? Que la\u00e7os reais construi? Quanta paz social semeei?\u201d [FT \u00a7197)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_186651\" aria-describedby=\"caption-attachment-186651\" style=\"width: 391px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-186651\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA-391x260.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA-480x319.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/h_55174094_EPA.jpg 948w\" sizes=\"(max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-186651\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa\/EPA<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Podemos encontrar nas indica\u00e7\u00f5es deste pontificado, j\u00e1 com sete anos e meio, as indica\u00e7\u00f5es para um novo paradigma, que nos permita n\u00e3o voltar \u00e0 normalidade doente, mas realmente a um mundo melhor, no p\u00f3s-pandemia?<\/em><\/p>\n<p>Jorge Bergoglio, hoje Papa Francisco, \u00e9, na sua pessoa, sinal vivo de um resto de humanidade fraterna, de uma vida evangelicamente reconhec\u00edvel e de um novo paradigma eclesial.<\/p>\n<p>A esta luz e com esta nova enc\u00edclica, oxal\u00e1 \u201cdescubramos, enfim, que precisamos e somos devedores uns dos outros, para que a humanidade renas\u00e7a com todos os rostos, todas as m\u00e3os e todas a vozes, livre das fronteiras que criamos\u201d [FT\u00a7\u00a735). Oxal\u00e1!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Varanda, professora da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, comenta, em entrevista escrita \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, os pontos principais de um documento dirigido a toda a humanidade, em tempo de crise<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":156277,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[736],"class_list":["post-187023","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-fratelli-tutti"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187023","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=187023"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/187023\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/156277"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=187023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=187023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=187023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}