{"id":186709,"date":"2020-10-04T07:30:09","date_gmt":"2020-10-04T06:30:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=186709"},"modified":"2020-10-06T15:29:48","modified_gmt":"2020-10-06T14:29:48","slug":"santa-se-tem-de-olhar-para-a-igreja-na-china-em-termos-de-longo-prazo-padre-peter-stilwell","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santa-se-tem-de-olhar-para-a-igreja-na-china-em-termos-de-longo-prazo-padre-peter-stilwell\/","title":{"rendered":"\u00abSanta S\u00e9 tem de olhar para a Igreja na China em termos de longo prazo\u00bb \u2013 Padre Peter Stilwell (c\/v\u00eddeo)"},"content":{"rendered":"<p>Antigo reitor da Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9, em Macau &#8211; a \u00fanica universidade cat\u00f3lica na China continental -, regressa a Portugal ap\u00f3s oito anos em territ\u00f3rio chin\u00eas, fazendo um balan\u00e7o positivo da experi\u00eancia. O novo diretor do Departamento das Rela\u00e7\u00f5es Ecum\u00e9nicas e do Di\u00e1logo Inter-Religioso no Patriarcado de Lisboa sublinha o pragmatismo do Vaticano, na renova\u00e7\u00e3o do acordo com Pequim, sobre a nomea\u00e7\u00e3o de bispos, sublinhando que em 2030 a China pode ser \u00abo maior pa\u00eds crist\u00e3o do mundo\u00bb.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Matos<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_186622\" aria-describedby=\"caption-attachment-186622\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-186622 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/PeterStilwell1-HM-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-186622\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/HM<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 Se os n\u00fameros est\u00e3o corretos a Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 tem cerca de 1700 alunos. Pode-se dizer que \u00e9 um importante p\u00f3lo de cria\u00e7\u00e3o de saber, alinhado com os princ\u00edpios da \u00e9tica crist\u00e3 e dos valores, numa oferta de ensino na Rep\u00fablica Popular da China? <\/em><\/p>\n<p><em>Padre Peter Stilwell (PS) \u2013<\/em> No extremo Oriente s\u00e3o 1200 alunos neste momento. Tem vindo a crescer ao longo dos \u00faltimos anos. Consta-me que neste ano letivo que come\u00e7a, h\u00e1 um ligeiro maior n\u00famero porque houve algum receio por parte das fam\u00edlias. Era previs\u00edvel enviarem os seus filhos para o estrangeiro \u2013 trata-se de um h\u00e1bito tradicional em Macau, enviar os filhos para estudar nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, Canad\u00e1 ou Inglaterra e tamb\u00e9m para a China continental.<\/p>\n<p>O medo do v\u00edrus, os inconvenientes de ter de fazer quarentenas pelo caminho, levou a que as pessoas retivessem os seus filhos, ou os pr\u00f3prios estudantes preferiram fazer os seus estudos localmente.<\/p>\n<p>A Universidade tem os princ\u00edpios de uma Universidade Cat\u00f3lica. S\u00f3 uma pequena percentagem dos alunos \u00e9 que ser\u00e3o crist\u00e3os ou cat\u00f3licos \u2013 em Macau \u00e9 menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o que \u00e9 crist\u00e3 ou cat\u00f3lica \u2013 entre os professores tamb\u00e9m, embora a percentagem seja maior, porque os professores s\u00e3o recrutados de fora de Macau. H\u00e1 muitos professores que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os ou batizados.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que se pensa a quest\u00e3o dos valores e porque \u00e9 que se chama Universidade Cat\u00f3lica? Tem um curso de Teologia, de Filosofia, forma\u00e7\u00e3o de padres e tem outras \u00e1reas de Gest\u00e3o, Arquitetura, Design, Servi\u00e7o Social e Educa\u00e7\u00e3o. O princ\u00edpio que eu fui seguindo \u00e9 que as pessoas deviam perceber que a mundivid\u00eancia da Universidade era crist\u00e3; ao aceitarem ser alunos ou professores sabiam quais eram as regras da casa e foi esse o desafio que lancei aos professores.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o tempo fosse passando, que eles fossem analisando quais os valores de fundo das suas \u00e1reas de saber. Quando a pessoa est\u00e1 a ensinar Direito ou Gest\u00e3o, qual a vis\u00e3o do mundo que est\u00e1 por detr\u00e1s do tipo de gest\u00e3o que se est\u00e1 a ensinar? E gradualmente fui vendo que houve inflex\u00e3o nos objetivos que as pessoas colocavam ao desenvolvimento das suas Faculdades, dos seus departamentos e isso, penso, era o objetivo de longo prazo.<\/p>\n<p>A curto prazo havia gente que achava que devia haver umas disciplinas especiais de ensino sobre a \u00e9tica crist\u00e3, mas essas disciplinas extracurriculares ou t\u00eam um professor brilhante que atrai os alunos por causa do seu magnetismo pessoal ou acabam por ser contraproducentes porque s\u00e3o aceites como uma \u00abseca\u00bb pelos alunos e n\u00e3o v\u00e3o na linha das mat\u00e9rias que eles est\u00e3o a estudar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O ex-respons\u00e1vel governamental pelos assuntos sociais e pela cultura, Alexis Tam, refor\u00e7ou uma estreita colabora\u00e7\u00e3o entre a Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 e a Universidade Cat\u00f3lica Portugu\u00eas (UCP), como refor\u00e7o da estrat\u00e9gia de Macau, enquanto plataforma de coopera\u00e7\u00e3o entre a China e os pa\u00edses lus\u00f3fonos. Falar desta Universidade \u00e9 falar de uma ponte com o Ocidente, com Portugal concretamente?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013 <\/em>H\u00e1 uma expectativa por parte da sociedade e por parte do governo de que a Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 se desenvolva para ajudar Macau a ser o que o governo central deseja, que \u00e9 uma plataforma de encontro entre a China e os pa\u00edses lus\u00f3fonos.<\/p>\n<p>Penso que h\u00e1 ainda um caminho a percorrer para sermos capazes de responder a essa expectativa mas, sem d\u00favida, a Universidade foi criada pela UCP e a Diocese de Macau. S\u00e3o as duas entidades que s\u00e3o donas da Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9, existe no seu ADN essa liga\u00e7\u00e3o a Portugal.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, no entanto, que as mat\u00e9rias do ensino do portugu\u00eas e da cultura portuguesa se desenvolvam e isso conseguimos nos \u00faltimos anos: primeiro a cria\u00e7\u00e3o de alguns cursos, e o curso que tem tido mais sucesso \u00e9 o de tradu\u00e7\u00e3o chin\u00eas-portugu\u00eas. Temos outra licenciatura sobre literatura lus\u00f3fono, mas tem pouca procura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 n\u00e3o pode abrir candidaturas no territ\u00f3rio da China continental?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Foi uma limita\u00e7\u00e3o. Somos a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o de ensino superior em Macau que n\u00e3o pode recrutar na China continental. Temos tido sempre, ao longo dos meus tempos como reitor, palavras simp\u00e1ticas por parte dos representantes do governo central, ningu\u00e9m quer ser obst\u00e1culo, todos dizem que o problema n\u00e3o est\u00e1 com eles, mas o facto \u00e9 que a autoriza\u00e7\u00e3o para recrutar tem demorado.<\/p>\n<p>Penso que no ano letivo passado houve um avan\u00e7o legal, uma vez que Macau assinou um acordo com Portugal e outro com a China continental para que todos os t\u00edtulos concedidos em Macau fossem reconhecidos diretamente.<\/p>\n<p>Os t\u00edtulos dados em Macau pela Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 s\u00e3o reconhecidos na China, portanto a quest\u00e3o est\u00e1 em saber at\u00e9 que ponto \u00e9 que o governo central ir\u00e1 colocar na lista de Universidade aceites a Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9, para que os governadores locais deem visto aos estudantes para poderem entrar em Macau, porque &#8211; n\u00e3o sei se t\u00eam consci\u00eancia &#8211; uma pessoa da China continental n\u00e3o pode entrar em Macau ou Hong Kong sem ter um visto, apesar de ser territ\u00f3rio chin\u00eas, a travessia da fronteira faz-se s\u00f3 com autoriza\u00e7\u00e3o dos governos locais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Em 2018 a Santa S\u00e9 assinou um acordo provis\u00f3rio com a Rep\u00fablica Popular na China. Era por dois anos, termina agora a 22 de outubro. Ser\u00e1 altura de o prolongar ou renovar. Esperava-se que este acordo poderia dar um impulso a esta quest\u00e3o da Universidade no sentido de ter maior penetra\u00e7\u00e3o na China continental?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> T\u00ednhamos essa expectativa e em janeiro fui a Beijing com o que veio a ser meu sucessor, o professor Stephen Morgan, e a vice-reitora, a professora Rochelle Ge. Fomos visitar uma das Universidades importantes e tamb\u00e9m visitar a entidade respons\u00e1vel por tutelar as religi\u00f5es, passando pela sede da Confer\u00eancia Episcopal Chinesa para falar com o seu presidente &#8211; chamo-lhe assim embora n\u00e3o tenha aprova\u00e7\u00e3o como Confer\u00eancia Episcopal pela Santa S\u00e9, mas funciona como tal.<\/p>\n<p>Em todos esses lugares tivemos \u00f3timo acolhimento. Inclusivamente por parte da Confer\u00eancia Episcopal mostraram muito interesse em que a Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 servisse de espa\u00e7o para forma\u00e7\u00e3o de alguns alunos com maiores capacidades do interior da China, a fim de se poder fazer avan\u00e7os no estudo sem ter de deslocar alunos para a Europa ou EUA.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E a forma\u00e7\u00e3o de sacerdotes?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> A forma\u00e7\u00e3o de sacerdotes acontece na China. Isto seria para candidatos na forma\u00e7\u00e3o dos semin\u00e1rios da China continental que fariam estudos acrescidos na Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9 em vez de se deslocarem a Roma, \u00e0 Alemanha ou EUA, como tem acontecido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas n\u00e3o se p\u00f5e a quest\u00e3o de fazerem a forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Seria a forma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. N\u00e3o sabemos se isso ser\u00e1 poss\u00edvel. A Confer\u00eancia Episcopal mostrou interesse em cursos de forma\u00e7\u00e3o dos bispos porque dizem que depois do acordo com a Santa S\u00e9, os bispos da China t\u00eam sido convidados para participar em col\u00f3quios e visitar dioceses fora da China e percebi, da maneira como colocaram a quest\u00e3o, que se sentiam talvez fora dos discursos e da conversa da Igreja universal. E gostariam, por isso, de ter algum espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o connosco em Macau. Mas ficou ao n\u00edvel da conversa e vamos ver o que acontece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ser\u00e1 isso indiciador de um clima de alguma distens\u00e3o? Resultado do acordo provis\u00f3rio estabelecido pela Santa S\u00e9? Houve cr\u00edticas fortes a este entendimento. Pelo que tenho acompanhado da sua reflex\u00e3o, \u00e9 mais pragm\u00e1tico sobre este acordo e menos cr\u00edtico.<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> N\u00e3o sou ing\u00e9nuo. Sei que as coisas s\u00e3o dif\u00edceis e sei que h\u00e1 dificuldades nas comunidades que sempre foram fi\u00e9is ao Papa e algumas t\u00eam sido maltratadas, outras vivem na clandestinidade com grandes dificuldades. Mas \u00e9 preciso n\u00e3o perder de vista a grande imagem e os grandes objetivos; a Santa S\u00e9 tem de olhar para a Igreja na China em termos de longo prazo, n\u00e3o apenas no presente.<\/p>\n<p>Havia o risco de a China desenvolver uma Igreja que se viesse a tornar cism\u00e1tica. Havia a Igreja oficial cism\u00e1tica, que n\u00e3o estaria em liga\u00e7\u00e3o com o Vaticano, e havia a Igreja clandestina, cada vez mais acossada pelo regime \u00e0 medida que ele procura controlar todos os sectores da sociedade.<\/p>\n<p>A Santa S\u00e9 tratou pragmaticamente do assunto. Uma das \u00e1reas chave para o desenvolvimento da Igreja \u00e9 a nomea\u00e7\u00e3o dos bispos, se eles puderem ser reconhecidos pela Santa S\u00e9, se puderem, por isso, visitar dioceses no exterior, ir a S\u00ednodos de bispos, visitar o Papa em Roma, tudo isso \u00e9 capaz de, a m\u00e9dio e longo prazo, produzir efeitos positivos.<\/p>\n<p>E \u00e9 preciso lembrar, como eu \u00e0s vezes tenho dito, que h\u00e1 uma terceira Igreja. Existe a Igreja chamada patri\u00f3tica, a Igreja clandestina, mas existe a Igreja que s\u00e3o as pessoas que neste momento procuram um sentido para a sua vida, com grande desenvolvimento econ\u00f3mico e social em curso na China, e muitos t\u00eam procurado no Cristianismo e concretamente no Catolicismo uma resposta para as suas procuras existenciais e religiosas.<\/p>\n<p>Essas pessoas est\u00e3o menos interessadas nas discuss\u00f5es can\u00f3nicas sobre se o bispo prestou ou n\u00e3o vassalagem ao governo ou ao Papa. \u00a0Se em Portugal, pergunt\u00e1ssemos \u00e0s pessoas nas par\u00f3quias se conhecem o nome do seu bispo, creio que nalgumas dioceses, nalgumas partes do pa\u00eds n\u00e3o saberiam. Sabem o nome do seu p\u00e1roco, do Papa, o nome do seu bispo, se calhar n\u00e3o sabem\u2026<\/p>\n<p>Portanto a liga\u00e7\u00e3o com a rede dos bispos, embora para os bispos pare\u00e7a muito importante, para as pessoas no terreno o que lhes interessa \u00e9 batizar os seus filhos, casar e poder ir \u00e0 Missa ao domingo.<\/p>\n<p>Eu estive em Missas em Xangai, e noutras cidades; em todas elas eu notei que estavam a abarrotar de gente. Na \u00faltima, as pessoas tinham trazido os seus banquinhos para se sentar no adro da igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Falou da atitude de descoberta, por parte dos jovens, do Cristianismo. Numa China que nos chega c\u00e1, profundamente tecnol\u00f3gica, muito desenvolvida num estilo ocidental de vida a ser disseminado, em especial nos grandes centros urbanos. Percebe, apesar de tudo, este interesse pelos valores e religi\u00e3o crist\u00e3?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Diz-se que a China, no ano 2030, ser\u00e1 o maior pa\u00eds crist\u00e3o do mundo. Vai ultrapassar o Brasil. O crescimento tem-se dado sobretudo na \u00e1rea dos protestantes evang\u00e9licos, onde existe uma capacidade de penetra\u00e7\u00e3o e de flexibilidade na evangeliza\u00e7\u00e3o que a Igreja Cat\u00f3lica n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Costumo lembrar que n\u00f3s esquecemo-nos da enorme comunidade chinesa nos Estados Unidos e no Canad\u00e1, que foram desde o s\u00e9culo XIX imigrantes nesses pa\u00edses para constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas dos comboios, por exemplo, e que a\u00ed se encontraram com o Cristianismo. Houve gente que se converteu ao Cristianismo e depois voltou \u00e0 China onde se integrou na malha social de uma forma espont\u00e2nea e natural.<\/p>\n<p>As pessoas procuram uma resposta, como eu dizia, para o sentido da sua vida no meio do desenvolvimento tecnol\u00f3gico, as grandes quest\u00f5es existenciais sobre o sentido da vida continuam a existir &#8211; o marxismo mesmo o marxismo mao\u00edsta \u00e9 uma ideologia que no fundo j\u00e1 n\u00e3o responde a estas inquieta\u00e7\u00f5es e \u00e9 preciso lembrar que a China est\u00e1 a ser transfigurada por duas heresias ocidentais com ra\u00edzes judaico-crist\u00e3s que \u00e9 o comunismo e o capitalismo, que transportam em si uma antropologia e vis\u00e3o do mundo, aspira\u00e7\u00f5es que n\u00e3o faziam parte da vis\u00e3o do mundo do Confucionismo, do Tao\u00edsmo ou do Budismo.<\/p>\n<p>As pessoas quando olham \u00e0 volta, de repente, sentem que h\u00e1 uma coincid\u00eancia entre os valores que respiram existencialmente no seu trabalho e aspira\u00e7\u00f5es de fazer desenvolver as suas empresas e das suas fam\u00edlias e aquilo que \u00e9 a proposta crist\u00e3. Pelo menos em dois ou tr\u00eas casos com quem conversei isso foi percept\u00edvel. Tinha sido atrav\u00e9s da literatura, do visitar igrejas, que as pessoas encontraram qualquer coisa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Esta tens\u00e3o crescente do Ocidente com a China que temos vivido ultimamente, nomeadamente por parte da administra\u00e7\u00e3o dos EUA. Portugal muito recentemente era aconselhado pelo embaixador a esclarecer a sua posi\u00e7\u00e3o, a escolher os seus aliados entre o tradicional americano ou o parceiro econ\u00f3mico chin\u00eas. Como \u00e9 que v\u00ea esta crescente tens\u00e3o do Ocidente com a China?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> A China foi encarada como sendo a f\u00e1brica do mundo: as coisas eram pensadas e inventadas nos EUA e na Europa e eram produzidas na China. Todos vemos isso nas lojas \u2013 \u2018made in China\u2019 era uma coisa comum porque faziam mais barato. Entretanto a China cresceu e o sr. Donald Trump chamou a aten\u00e7\u00e3o para isto: aquilo que \u00e9 criado e pensado no Ocidente \u00e9, depois, copiado na China. O respeito para com os \u2018copyrigths\u2019 e os direitos de autor e as patentes\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas a China est\u00e1 a dar um grande salto tecnol\u00f3gico de cria\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Come\u00e7ou por a\u00ed. \u00c9 preciso dizer que culturalmente n\u00e3o faz muito sentido a ideia de respeitar \u2013 o outro inventou e eu copio o que o outro fez. Isso foi sempre a maneira de agir, s\u00f3 gradualmente poder\u00e1 entrar na cultura atual da China a ideia de que, para estimular a criatividade, conv\u00e9m que as pessoas tenham esse benef\u00edcio: se eu invento, tenho algum beneficio dessa inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tens\u00e3o ocorre a\u00ed. A China nesse salta tecnol\u00f3gico que tem feito j\u00e1 \u00e9 a segunda economia mundial, j\u00e1 ombreia com outros pa\u00edses na produ\u00e7\u00e3o de chips e vimos com a quest\u00e3o da Huawei, a partir da grande necessidade tecnol\u00f3gica, que eles j\u00e1 assustam o Ocidente em termos da sua produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que a China olha para os portugueses?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Os portugueses s\u00e3o bem vistos. Tive a certa altura um problema que andou nos jornais por causa do despedimento de professores &#8211; infelizmente nos meus primeiros anos tive de despedir um ter\u00e7o dos docentes da Universidade e uma grande pol\u00e9mica andou nos jornais.<\/p>\n<p>A certa altura fui contactado pelos servi\u00e7os do governo de liga\u00e7\u00e3o a Beijing que me disse para n\u00e3o me preocupar, que n\u00e3o ligavam a essas coisas. \u2018Os outros n\u00f3s sabemos que s\u00e3o importantes, mas os que compreendemos s\u00e3o os portugueses\u2019. Fiquei com a impress\u00e3o de que eles compreendem os portugueses porque h\u00e1 algumas semelhan\u00e7as em termos culturais e tamb\u00e9m algum \u2018know-how\u2019 dos portugueses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Uma longa tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> 400 anos de resid\u00eancia, h\u00e1 toda uma cultura de saber lidar com a China ou com as Chinas, porque tem diferentes culturas e sensibilidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Antes de regressar a Portugal esteve a cumprir quarentena em Hong Kong e t\u00eam-nos chegado pelas not\u00edcias, os tumultos, as lutas pela liberdade dos cidad\u00e3os. A Igreja tem apelado \u00e0 unidade, vai dizendo aos crist\u00e3os que n\u00e3o \u00e9 pela viol\u00eancia que as coisas se resolvem. Como \u00e9 que em territ\u00f3rio vizinho acompanham esta tens\u00e3o que periodicamente eclode?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Certamente que a maneira de eu falar sobre isso \u00e9 muito limitada ao meu ponto de vista. N\u00e3o h\u00e1 sondagens sobre isso, mas a sensibilidade que vou captando \u00e9 que havia algum receio por parte de v\u00e1rios setores da sociedade que a inquieta\u00e7\u00e3o dos jovens estudantes de Hong Kong e da popula\u00e7\u00e3o em geral transbordasse para Macau.<\/p>\n<p>Macau tem clara consci\u00eancia da sua depend\u00eancia de boas rela\u00e7\u00f5es com a China continental. S\u00e3o 700 mil habitantes, a economia de Macau depende praticamente, totalmente, de haver f\u00e1cil comunica\u00e7\u00e3o com a China continental, quer por causa do jogo e da alimenta\u00e7\u00e3o, mesmo da \u00e1gua e da electricidade, tudo depende da China continental.<\/p>\n<p>Em Hong Kong, \u00e9 uma popula\u00e7\u00e3o de sete milh\u00f5es, \u00e9 praticamente em termos populacionais que Portugal, embora o territ\u00f3rio seja pequeno. Grande parte daquela popula\u00e7\u00e3o, se as minhas informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o correras, foi crescendo ao longo do s\u00e9culo XX a partir das instabilidades na China continental, guerras internas, civis, problemas dos japoneses e finalmente a implanta\u00e7\u00e3o do regime comunista e da revolu\u00e7\u00e3o cultural. Tudo isso levou a que pessoas preocupadas com as suas fam\u00edlias, nesse ambiente de instabilidade se tivessem deslocado em levas sucessivas para Hong-Kong. N\u00e3o \u00e9 tanto como Taiwan, mas um pouco, ou seja, um lugar de ref\u00fagio de gente cuja tradi\u00e7\u00e3o familiar tem algum p\u00e9 atr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o ao que se passa no interior da China.<\/p>\n<p>Notamos esta resist\u00eancia, passo a passo, \u00e0quilo que a m\u00e9dio prazo se avizinha que \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o total de Hong-Kong na China continental, quando se completarem os 50 anos da transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E h\u00e1 muitos crist\u00e3os envolvidos nestes confrontos e conquista de liberdade?<\/em><\/p>\n<p><em>PS \u2013<\/em> Certos setores ao n\u00edvel da lideran\u00e7a pare\u00e7am ligados a comunidades protestantes, cat\u00f3licos. At\u00e9 certa altura as pessoas cantavam c\u00e2nticos religiosos para manter a tranquilidade nas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O cardeal Joseph Zen gosta de estar na primeira fila. A Igreja Cat\u00f3lica procura equilibrar as coisas e dizer que \u00e9 preciso di\u00e1logo entre as partes. A chefe do executivo \u00e9 uma cat\u00f3lica de Comunh\u00e3o di\u00e1ria &#8211; antes de ir para o cargo, agora n\u00e3o sei se tem tempo\u2026<\/p>\n<p>Claramente o governo central tinha consci\u00eancia de que esse fator religioso era importante, quando escolheram Carrie Lam para ser chefe do executivo (em Hong-Kong), foi claramente na ideia que ela pudesse ser uma ponte.<\/p>\n<p>A minha impress\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o tem manifestado os talentos pol\u00edticos que seriam necess\u00e1rios para conduzir a uma pacifica\u00e7\u00e3o da sociedade. H\u00e1 uns anos, as autoridades intervieram e prenderam ou maltrataram os cabecilhas, portanto estas \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam tido cabecilhas conhecidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 com quem negociar, o que \u00e9 um problema e isso significa que tamb\u00e9m as manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o sujeitas a ser manipuladas por gente que vem lan\u00e7ar bombas, invadir a assembleia legislativa. \u00c0s vezes com as autoridades locais, como a pol\u00edcia, quase parece que fecham os olhos a esses acontecimentos mais violentos para que depois apare\u00e7a nas not\u00edcias, uma manipula\u00e7\u00e3o dos factos.<\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_70552\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2hlp_tuyXgk?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antigo reitor da Universidade de S\u00e3o Jos\u00e9, em Macau &#8211; a \u00fanica universidade cat\u00f3lica na China continental -, regressa a Portugal ap\u00f3s oito anos em territ\u00f3rio chin\u00eas, fazendo um balan\u00e7o positivo da experi\u00eancia. 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