{"id":186442,"date":"2020-09-30T11:22:12","date_gmt":"2020-09-30T10:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=186442"},"modified":"2020-09-30T11:59:01","modified_gmt":"2020-09-30T10:59:01","slug":"saber-aprender-a-viver-sem-redes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-viver-sem-redes-sociais\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A viver sem Redes Sociais"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A cultura actual tem muita dificuldade em conceber uma vida sem redes sociais. De tal forma que, pensar em viver sem redes sociais \u00e9, para a maioria das pessoas, impens\u00e1vel. Ali\u00e1s, algu\u00e9m que n\u00e3o suporta quem faz cr\u00edticas \u00e0s redes sociais pode ser incapaz de ler este artigo, e eu explico a raz\u00e3o, mas ter\u00e1 de ler at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<figure id=\"attachment_186443\" aria-describedby=\"caption-attachment-186443\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-186443\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1048\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-372x260.jpg 372w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-1024x715.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-768x537.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-1080x755.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-1280x894.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-980x685.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/ViverSemRS-ecclesia1-480x335.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-186443\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Christopher Ott em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Sabemos hoje que as redes sociais diminuem a nossa capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que o investimento nessas, mesmo com bom conte\u00fado, contribui para o d\u00e9fice de aten\u00e7\u00e3o que geram? Ou seja, ao estimular o seu uso n\u00e3o estaremos a contribuir para o problema, aumentando a bola de neve consumidora da nossa aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Em setembro de 2020, a <em>Reboot Foundation<\/em> publicou os resultados de um <a href=\"https:\/\/reboot-foundation.org\/is-there-a-fake-news-generation\/\">estudo<\/a> que pretendia avaliar qual o grau de influ\u00eancia que tem a desinforma\u00e7\u00e3o na capacidade para o discernimento em jovens e adultos. As maiores conclus\u00f5es foram: 1) os mais velhos (81%) s\u00e3o mais suscept\u00edveis a clicar em <em>ca\u00e7a-cliques<\/em> (<em>clickbaits<\/em>) do que os jovens (72%); 2) quanto mais tempo se gasta nas redes sociais, maior \u00e9 a susceptibilidade \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o; 3) os jovens pensam ser capazes de distinguir as not\u00edcias verdadeiras das falsas, mas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bons como pensam; 4) e, de um modo geral para jovens e adultos, determinar a fiabilidade dos websites \u00e9 um problema.<\/p>\n<p>Existem dois aspectos cr\u00edticos que este relat\u00f3rio aponta. O primeiro refere-se \u00e0 <em>literacia medi\u00e1tica<\/em>. \u00c9 cada vez mais importante desenvolver um sentido cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que temos dispon\u00edvel atrav\u00e9s da internet, sobretudo pelas redes sociais. E, segundo, a crise da literacia medi\u00e1tica n\u00e3o est\u00e1 somente nas <em>fakes news<\/em> difundidas pelas redes sociais, mas na variedade cada vez maior de fontes de desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1996, quando a internet estava em expans\u00e3o, Luciano Floridi, professor da <em>Wolfson College<\/em> <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1108\/eb045517\">questionava<\/a> se a internet seria uma <em>super-auto-estrada<\/em> da desinforma\u00e7\u00e3o, identificando tr\u00eas formas: a <em>falta de objectividade<\/em>, como na propaganda (ex. os <em>ca\u00e7a-cliques<\/em>); a <em>falta de completude<\/em>, como na \u201ccondena\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria\u201d, isto \u00e9, apagar algu\u00e9m, ou algo, da mem\u00f3ria como se n\u00e3o tivesse existido (ex. a absolutiza\u00e7\u00e3o da wikipedia); a <em>falta de pluralismo<\/em>, como no caso da censura. Por\u00e9m, achei curioso como j\u00e1 h\u00e1 24 anos Luciano referia que <em>\u00abcom o consumo passivo dos mass media, o problema principal \u00e9 o da <strong>cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o-premeditada de desinforma\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00bb<\/em> , preconizando o que acontece hoje com as redes sociais. Isto \u00e9, quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Ou uma pequena gralha pode transformar \u201cprelado\u201d em \u201cpelado,\u201d gerando ondas de desinforma\u00e7\u00e3o. A partir do momento em que qualquer um de n\u00f3s pode tornar-se numa fonte de informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das redes sociais, o risco da desinforma\u00e7\u00e3o aumenta exponencialmente.<\/p>\n<p>Nas Jornadas Nacionais de Comunica\u00e7\u00e3o Social ocorridas entre 24 e 25 de setembro, o jornalista da Ecclesia Oct\u00e1vio Carmo partilhou a iniciativa de um padre cat\u00f3lico de chegar aos jovens atrav\u00e9s do Tik Tok, mas a impress\u00e3o que me deixou ao ver as imagens foi a do esvaziamento da mensagem. A prop\u00f3sito desse sentimento, tamb\u00e9m o jornalista da SIC Joaquim Franco recorda-se daquilo que Marshall McLuhan disse h\u00e1 anos de que <em>\u00abo meio passa a ser a mensagem, e a mensagem desaparece.\u00bb<\/em> Seguramente que n\u00e3o \u00e9 essa a inten\u00e7\u00e3o de quem procura chegar aos mais jovens atrav\u00e9s das redes sociais que usam, mas o risco que se corre \u00e9 o de sermos utilizados, em vez de sermos utilizadores. Ali\u00e1s, j\u00e1 Adolf Hitler escrevia na sua <em>Mein Kampf<\/em> em 1925 que <em>\u00aba larga massa de uma na\u00e7\u00e3o (\u2026) ser\u00e1 mais facilmente v\u00edtima de uma grande mentira do que de uma pequena.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Um grupo de investigadores italiano liderado por Ana Schmidt <a href=\"https:\/\/www.pnas.org\/content\/114\/12\/3035\/tab-article-info\">estudou<\/a> a anatomia do consumo de not\u00edcias no Facebook para concluir que as pessoas tendem a prestar aten\u00e7\u00e3o ao que faz parte do seu grupo de interesses. Por isso, se houver uma not\u00edcia falsa divulgada nesse grupo, essa tende a propagar-se. \u00c9 o que Kelly Garret, professor na Universidade Estatal de Ohio, denomida de \u201cc\u00e2maras de eco\u201d ou \u201cfiltros-bolha,\u201d isto \u00e9, <em>\u00abpr\u00e1ticas nas redes sociais que exibem conte\u00fados envolventes altamente segmentados na forma de \u201clikes,\u201d partilhas, e coment\u00e1rios.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Quando se pensa em disseminar a mensagem do Evangelho pelas redes sociais \u2014 por ser onde est\u00e3o as pessoas \u2014 n\u00e3o estamos a chegar aos que n\u00e3o a conhecem, mas antes aos que j\u00e1 a acolheram nas suas vidas. Por outro lado, tamb\u00e9m no \u00e2mbito religioso circulam not\u00edcias falsas, ainda que a inten\u00e7\u00e3o \u201cpare\u00e7a\u201d boa. A \u00faltima que me lembro \u00e9 de atribu\u00edrem a uma homilia do Papa Francisco desde 2018, um texto de Augusto Cury.<\/p>\n<p>Existem pessoas de sucesso criadoras de empresas que operam, exclusivamente, online. O seu sustento prov\u00e9m da aten\u00e7\u00e3o captada atrav\u00e9s dos an\u00fancios que pagam \u00e0s empresas gestoras das redes sociais. \u00c9 por esse motivo que este mercado se denomina por <em>economia da aten\u00e7\u00e3o.<\/em> O \u00fanico objectivo, como ficou bem expresso no document\u00e1rio da Netflix <em>The Social Dilema<\/em>, \u00e9 captar a nossa aten\u00e7\u00e3o para nos manter colados ao ecr\u00e3 na esperan\u00e7a de que os algoritmos mostrem a nossa publicidade e cliquemos nela.<\/p>\n<p>Compreendo que as pessoas que trabalham no mercado online, e fora do \u00e2mbito de trabalho dedicam-se \u00e0 forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos jovens, sejam favor\u00e1veis ao uso das redes sociais, argumentando que \u00e9 l\u00e1 que os jovens est\u00e3o. Por isso, n\u00f3s devemos estar tamb\u00e9m. Mas, em vez de libertarmos a mente do jovem para se manter aberta e sens\u00edvel ao diferente, n\u00e3o corremos o risco de os aprisionar ainda mais em filtros-bolha, onde poderemos n\u00f3s, tamb\u00e9m, estar presos?<\/p>\n<p>Se estivermos presentes nas redes sociais para estimular jovens e adultos a sair das redes sociais parecer ser um contrasenso. Mas esse \u00e9 o desafio. Importa n\u00e3o confundir cr\u00edtica \u00e0 tecnologia que colocam nas nossas m\u00e3os, com ser anti-tecnologia. Ser cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao valor que a tecnologia da aten\u00e7\u00e3o tem, como as redes sociais, significa redescobrir primeiro o que traz valor \u00e0 nossa vida. Por exemplo, a verdade.<\/p>\n<p>H\u00e1 um movimento de redescoberta da qualidade da informa\u00e7\u00e3o, como se demonstra pelo aumento das assinaturas digitais de jornais credenciados. \u00c9 poss\u00edvel viver sem redes sociais e manter-se informado daquilo que se passa no mundo, aprendendo a ser cr\u00edtico, sem excluir a opini\u00e3o diferente da nossa.<\/p>\n<p>Saber aprender a viver sem redes sociais \u00e9 sair das nossas bolhas, e ir para as periferias existenciais como o Papa Francisco nos convida. Ir para onde a informa\u00e7\u00e3o se vive na primeira pessoa e nos ensina a ultrapassar o desafio cultural da desinforma\u00e7\u00e3o, estimulando ir sempre a fundo nas quest\u00f5es, por amor \u00e0 Verdade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-186442","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/186442","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=186442"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/186442\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=186442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=186442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=186442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}