{"id":185848,"date":"2020-09-23T11:25:40","date_gmt":"2020-09-23T10:25:40","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=185848"},"modified":"2020-09-23T11:25:40","modified_gmt":"2020-09-23T10:25:40","slug":"saber-aprender-a-viver-consigo-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-viver-consigo-mesmo\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A viver consigo mesmo"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Muitas pessoas de idade avan\u00e7ada que vivem nos lares dizem \u2014 <em>\u201dAndo triste. N\u00e3o sei por qu\u00ea.\u201d<\/em> \u2014 e questiona Julie Machado num interessante <a href=\"https:\/\/observador.pt\/opiniao\/morrer-de-covid-nao-mas-sim-de-solidao\/\">artigo<\/a> publicado no Observador \u2014 <em>\u201dSer\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 a Covid-19 que mata? Ou a solid\u00e3o n\u00e3o mata tamb\u00e9m?\u201d<\/em> De facto, passamos os dias conectados a tudo e todos, mas ao longo do tempo esquecemos de nos conectarmos connosco pr\u00f3prios, e o resultado parece ser a solid\u00e3o. Uma das li\u00e7\u00f5es desta pandemia \u00e9 a necessidade de saber aprender a viver em solitude.<\/p>\n<figure id=\"attachment_185849\" aria-describedby=\"caption-attachment-185849\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-185849\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/sozinho-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-185849\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Noah Silliman em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos primeiros dois anos e meio depois de vir para a Universidade de Coimbra e ser professor, vivia num apartamento que tinha o essencial para viver, excepto pessoas. Foi a experi\u00eancia mais pr\u00f3xima que tive de solid\u00e3o. Como a maior parte do tempo estava em sil\u00eancio, a boca secava frequentemente. A n\u00e3o ser que fizesse um telefonema para a fam\u00edlia, via s\u00e9ries, corrigia exerc\u00edcios, trabalhava, rezava, e n\u00e3o andava, propriamente, triste, mas confesso n\u00e3o ser a melhor das experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Se ao longo da nossa vida n\u00e3o aprendermos a viver connosco pr\u00f3prios, a estar junto com os nossos pensamentos, a mantermo-nos conectados com o nosso interior, o risco de experimentarmos a solid\u00e3o no futuro \u00e9 elevado.<\/p>\n<p>O psiquiatra americano Anthony Storr, no seu livro sobre a solitude, afirma que <em>\u00aba capacidade de estar sozinho \u00e9 tamb\u00e9m um aspecto de maturidade emocional.\u00bb<\/em> No processo de matura\u00e7\u00e3o humana, pensando nas crian\u00e7as, por exemplo, o estar sozinho implica entrar num modo de auto-descoberta e auto-realiza\u00e7\u00e3o, dando-se conta das necessidades, sentimentos e impulsos mais profundos. Se ao longo da vida abdicamos deste tempo dedicado \u00e0 nossa interioridade, corremos o risco de nos desconectarmos de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>O jornalista Michael Harris diz tamb\u00e9m algo interessante, a arte da solitude torna os <em>\u00abdias vazios em telas em branco.\u00bb<\/em> Isto \u00e9, quando aprendemos a estar connosco pr\u00f3prios, temos a oportunidade de nos tornarmos telas onde podemos pintar aquilo que o momento presente quiser. Momentos de dar largas \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, aos pensamentos, e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o no sentido da abertura espiritual de quem d\u00e1 espa\u00e7o a Deus para falar dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abEu creio que conhe\u00e7o a \u00fanica cura, que \u00e9 tornar o centro da nossa vida dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios, n\u00e3o egoisticamente ou exclusivamente, mas como uma esp\u00e9cie de inatac\u00e1vel serenidade \u2014 decorar a casa interior de tal modo que estejamos contentes quando l\u00e1 estamos, felizes para acolher qualquer um que queira entrar e ficar, mas felizes na mesma quando se est\u00e1, inevitavelmente, sozinho.\u00bb (Edith Wharton, escritora)<\/p><\/blockquote>\n<p>Os dramas da solid\u00e3o emergem, naturalmente, da natureza relacional que caracteriza o ser humano. Mas a nossa vida n\u00e3o se pode reduzir a uma exterioridade relacional, feita de sociabilidade, dinamismo, e constante presen\u00e7a de tudo e todos.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s tem uma interioridade relacional. E essa n\u00e3o consiste num voltar-se para si mesmo, mas um relacionar-se consigo pr\u00f3prio, e conhecer-se. \u00c9 sempre positivo sabermos que se estivermos em determinadas situa\u00e7\u00f5es, reagimos de uma determinada maneira que nos perturba. Logo, podemo-nos precaver e evitar essas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Blaise Pascal dizia que <em>\u00abtodos os problemas da Humanidade resultam da incapacidade do Homem em sentar-se sozinho numa sala em sil\u00eancio.\u00bb<\/em> E a cultura que vemos desenvolver-se diante dos nossos olhos, espelha isto porque muitos abdicam dos espa\u00e7os de sil\u00eancio interior em favor das redes sociais e permanentes trocas de mensagens. Deste ponto de vista, o sil\u00eancio caracter\u00edstico da experi\u00eancia de solitude n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de som, ou at\u00e9 a serenidade matinal no alvor de cada dia, mas a aus\u00eancia de ru\u00eddo interior que permite um encontro s\u00e9rio e sereno com o que nos passa pela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Receio que os idosos que vivem numa profunda solid\u00e3o sofram j\u00e1 deste d\u00e9fice cultural proveniente da <em>priva\u00e7\u00e3o de solitude<\/em>. Essa, como define Cal Newport, consiste num <em>\u00abestado em que se passa perto de zero tempo a s\u00f3s com os seus pr\u00f3prios pensamentos e livre da informa\u00e7\u00e3o transmitida por outras mentes.\u00bb<\/em> Ou seja, as pessoas que vivem permanentemente conectadas on-line, vivem mais com os pensamentos dos outros do que com os seus.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense que todo este discurso de \u201cviver consigo mesmo\u201d, \u201cestar connosco pr\u00f3prios\u201d, \u201csaber estar sozinho\u201d, significa isolar-se dos outros, ou viver a pensar somente em si. Ou, ainda, significa estarmos a diminuir a carga relacional que nos faz descobrir a beleza do contacto com os outros, e viver uma experi\u00eancia aut\u00eantica de fraternidade universal. Mas a realidade \u00e9 bem diferente.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o consegue viver consigo mesmo, dificilmente consegue viver com os outros. Vive antes uma depend\u00eancia dos outros e os relacionamentos acabam por se centrar nas necessidades relacionais que temos, em vez da aut\u00eantica reciprocidade de vidas partilhadas. Pois, uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel pressup\u00f5e um dar-se rec\u00edproco, livre, e sem apegos.<\/p>\n<p>Preparar a nossa reforma n\u00e3o passa somente pelas quest\u00f5es financeiras. Por vezes esquecemos que a riqueza interior supera qualquer pobreza exterior. Preparar a nossa reforma come\u00e7a na inf\u00e2ncia, passando pela adolesc\u00eancia, juventude, e fase adulta, sendo fundamental saber aprender a n\u00e3o se privar dos momentos de solitude. Esses estruturam-nos por dentro, contribuindo para o desenvolvimento da maturidade interior.<\/p>\n<p>As gera\u00e7\u00f5es futuras aprendem sempre com a experi\u00eancia das gera\u00e7\u00f5es passadas, mas o elevado grau de priva\u00e7\u00e3o de solitude que assistimos todos os dias \u2014 nos transportes p\u00fablicos, filas de espera, ou at\u00e9 dentro das nossas casas \u2014 revela a import\u00e2ncia de saber aprender a viver consigo mesmo. A solid\u00e3o \u00e9 a semente de solitude que nunca cresceu.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, \u00e9 a dimens\u00e3o espiritual da vida humana que permite entender o sentido da solitude e fazer crescer esta semente. Pois, o espa\u00e7o de solitude \u00e9 aquele a partir do qual Deus nos pode falar e inspirar. E desse ponto de vista, nunca estaremos s\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-185848","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185848"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185848\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}