{"id":18523,"date":"2006-06-10T16:36:30","date_gmt":"2006-06-10T16:36:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/06\/10\/fazer-da-evangelizacao-a-expressao-e-o-anuncio-da-caridade\/"},"modified":"2006-06-10T16:36:30","modified_gmt":"2006-06-10T16:36:30","slug":"fazer-da-evangelizacao-a-expressao-e-o-anuncio-da-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fazer-da-evangelizacao-a-expressao-e-o-anuncio-da-caridade\/","title":{"rendered":"<i>Fazer da evangeliza\u00e7\u00e3o a express\u00e3o e o an\u00fancio da caridade<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Dia da Igreja Diocesana <!--more--> 1. O tema desta minha interven\u00e7\u00e3o na celebra\u00e7\u00e3o do Dia da Igreja Diocesana, \u00e9 o objectivo fundamental do Programa Diocesano de Pastoral, agora tornado p\u00fablico. No ano pastoral que agora finda, o Programa de Pastoral da diocese identificou-se com o Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, a sua prepara\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o e o tomar consci\u00eancia das interpela\u00e7\u00f5es e linhas de for\u00e7a que ele lan\u00e7ou \u00e0 comunidade diocesana para o cumprimento da sua miss\u00e3o. Retomamos agora a publica\u00e7\u00e3o de programas pastorais e este, o primeiro depois do Congresso, s\u00f3 pode ser a indica\u00e7\u00e3o dos caminhos de fidelidade \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es que o Congresso nos deixou. J\u00e1 depois dele, a Igreja foi sacudida com uma outra interpela\u00e7\u00e3o, a do Santo Padre na Carta Enc\u00edclica \u201cDeus \u00e9 Amor\u201d, que nos convida a fazer da caridade, vivida e praticada e n\u00e3o apenas proclamada, o princ\u00edpio inspirador de toda a ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja. N\u00e3o poder\u00edamos ignorar esta Palavra do Papa, ali\u00e1s convergente com as interpela\u00e7\u00f5es do Congresso, pois toda a ac\u00e7\u00e3o da Igreja deve ser express\u00e3o da caridade e busca da caridade, quando celebra os mist\u00e9rios da f\u00e9, quando anuncia a Palavra, quando concretiza, no realismo da vida e das situa\u00e7\u00f5es, o mandamento do amor fraterno. Amar sempre, aprender a amar, anunciar o amor e ensinar a amar, \u00e9 o objectivo perene da miss\u00e3o da Igreja.  2. Se \u00e9 assim, para qu\u00ea Programas de Pastoral? O Santo Padre Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Apost\u00f3lica \u201cNo in\u00edcio do Novo Mil\u00e9nio\u201d, em que encaminha a Igreja para tirar todas as consequ\u00eancias pastorais de um outro grande acontecimento, o \u201cGrande Jubileu do Ano 2000\u201d, diz que o programa pastoral da Igreja \u00e9 Jesus Cristo (cf. NMI, 29). Essa \u00e9 a miss\u00e3o da Igreja: anunciar Jesus Cristo, edificar um Povo de crentes, que se identifica com o Seu pr\u00f3prio corpo, que h\u00e1-de viver, j\u00e1 neste mundo, a densidade do amor-comunh\u00e3o, que se exprime em plenitude na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria, e faz da Igreja na viv\u00eancia mesma da caridade, um Povo peregrino dessa mesma plenitude. Como afirma o Conc\u00edlio Vaticano II, \u201cassim a Igreja Universal aparece como um povo que tira a sua unidade da unidade do Pai e do Filho e do Esp\u00edrito Santo\u201d (L.G. n. 4). Misteriosa e vasta, a miss\u00e3o da Igreja abarca toda a realidade do homem e da hist\u00f3ria. \u00c9 justo e necess\u00e1rio que, em cada tempo, tendo em conta as circunst\u00e2ncias peculiares da sociedade e da Igreja, esta planeie a sua miss\u00e3o pastoral, estabelecendo prioridades e modos de agir, lendo os \u201csinais dos tempos\u201d, isto \u00e9, discernindo as aberturas ao Evangelho e \u00e0 f\u00e9, pr\u00f3prias de cada momento da hist\u00f3ria, mobilizando pessoas e meios para a sua miss\u00e3o. \u00c9 preciso reconhecer que o h\u00e1bito de programar a ac\u00e7\u00e3o pastoral de certo modo se \u201ctecnicizou\u201d, sob a influ\u00eancia das modernas teorias das organiza\u00e7\u00f5es, onde o tra\u00e7ar de objectivos a alcan\u00e7ar, garantir os recursos, pessoais, materiais e t\u00e9cnicos para os atingir, guardam o segredo do seu crescimento e sucesso. Nessas teorias das organiza\u00e7\u00f5es, a avalia\u00e7\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o dos programas, e a adapta\u00e7\u00e3o dos meios que se mobilizaram, s\u00e3o igualmente importantes para garantir o sucesso. \u00c9 ineg\u00e1vel que a Igreja \u00e9, nesse sentido, uma grande organiza\u00e7\u00e3o e que pode aprender dessa teoria das organiza\u00e7\u00f5es, a definir objectivos para a sua ac\u00e7\u00e3o, a potenciar os meios, humanos e outros, de que disp\u00f5e para a sua consecu\u00e7\u00e3o e a saber avaliar a execu\u00e7\u00e3o dos seus programas. Mas ao programar, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer que a Igreja \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o peculiar: a principal for\u00e7a de que disp\u00f5e \u00e9 Cristo ressuscitado, que no-la comunica atrav\u00e9s do dom permanente do Seu Esp\u00edrito, que n\u00e3o \u00e9 facilmente mensur\u00e1vel. Nenhum objectivo tra\u00e7ado pode ser rigorosamente sectorial, pois tem de abranger sempre a totalidade do mist\u00e9rio da Igreja. Se Cristo \u00e9 o programa pastoral da Igreja, todos os programas t\u00eam de ter a dimens\u00e3o de Jesus Cristo. Nas organiza\u00e7\u00f5es humanas, o sucesso dos seus programas depende, em grande parte, da qualidade do factor humano, da sua prepara\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o entusiasta para a realiza\u00e7\u00e3o dos objectivos tra\u00e7ados. Este elemento da teoria das organiza\u00e7\u00f5es \u00e9 v\u00e1lido para a Igreja. \u00c9 nessa dinamiza\u00e7\u00e3o do elemento humano, os \u201cagentes da ac\u00e7\u00e3o pastoral\u201d, que o elemento transcendente da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito \u00e9 decisivo, pois a verdadeira dimens\u00e3o da estatura de Jesus Cristo define-se, antes de mais, no cora\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os. \u00c9 por isso que a caridade \u00e9 o dinamismo mobilizador de toda a ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja.   3. O objectivo fundamental escolhido para a nossa programa\u00e7\u00e3o pastoral no post-Congresso, \u201cfazer da evangeliza\u00e7\u00e3o a express\u00e3o e o an\u00fancio da caridade\u201d, p\u00f5e em relevo, como n\u00e3o podia deixar de ser depois de um Congresso sobre a \u201cNova Evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d, a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. Mas ao considerar a evangeliza\u00e7\u00e3o como express\u00e3o e an\u00fancio da caridade, essa miss\u00e3o \u00e0 totalidade do mist\u00e9rio da Igreja, na consci\u00eancia de que a aut\u00eantica express\u00e3o da Igreja \u00e9 evangelizadora, porque \u00e9 an\u00fancio e testemunho, e anunciar a f\u00e9 \u00e9 express\u00e3o de amor a Deus e aos irm\u00e3os. \u00c9 isso que distingue a miss\u00e3o evangelizadora da Igreja de qualquer \u201cmarketing\u201d de propaganda ou proselitismo. Por isso, todo o Programa, nos v\u00e1rios objectivos sectoriais, \u00e9 para ser realizado ao mesmo tempo, na totalidade da Igreja Diocesana, ainda que seja justific\u00e1vel que certos Departamentos e Servi\u00e7os, Par\u00f3quias ou Movimentos, desenvolvam mais uns aspectos do que outros. \u00c9 porque cada um desses objectivos faz parte do todo da Igreja, mas n\u00e3o \u00e9 a Igreja toda.  Desenvolverei, de seguida, os principais aspectos deste objectivo que nos propusemos, na sua din\u00e2mica de ac\u00e7\u00e3o, na Igreja que somos, na sociedade em que estamos inseridos, com os meios de que dispomos.  <b>O an\u00fancio da f\u00e9: a pastoral querigm\u00e1tica<\/b> 4. \u00c9, desde o in\u00edcio, a primeira concretiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. Esta \u00e9 um Povo de disc\u00edpulos de Jesus ressuscitado, aqueles que acreditam que Jesus est\u00e1 vivo, porque ressuscitou dos mortos e inaugurou, j\u00e1 neste mundo, a plenitude da vida. O Cristianismo, como tradi\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, pode ser uma religi\u00e3o. Mas s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente revolucion\u00e1rio, fundador de uma total transforma\u00e7\u00e3o da vida, para aqueles que acreditam que Jesus est\u00e1 vivo no meio do Seu Povo, ressuscitou para que tenhamos a vida em abund\u00e2ncia, e estabelece connosco uma rela\u00e7\u00e3o de amor, a do Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e a quem as ovelhas reconhecem. O an\u00fancio de que Cristo est\u00e1 vivo \u00e9 o testemunho de uma experi\u00eancia vivida e libertadora. Foi assim para os primeiros disc\u00edpulos, a quem o Senhor ressuscitado se manifestou; foi assim, ao longo de dois mil anos, quando os crist\u00e3os que vivem a experi\u00eancia dessa presen\u00e7a e desse conv\u00edvio o testemunham com alegria. O an\u00fancio querigm\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 uma primeira al\u00ednea de um programa pastoral; \u00e9 o testemunho de uma experi\u00eancia, que parte da abertura da pr\u00f3pria intimidade num di\u00e1logo confiante. \u00c9 por isso que ele toca os cora\u00e7\u00f5es. S\u00e3o hoje muitos, dentro da Igreja e fora dela, aqueles e aquelas que ainda n\u00e3o abriram o seu cora\u00e7\u00e3o a esta realidade inaudita de Cristo vivo, a conviver com o Seu Povo e com cada um dos seus membros. Basta pensar nessa multid\u00e3o imensa dos que foram baptizados em crian\u00e7a e a quem nunca ningu\u00e9m deu esse testemunho convincente de Cristo ressuscitado. Ali\u00e1s esse testemunho, simples e sincero, expresso mais em atitudes do que em palavras, n\u00e3o \u00e9 importante apenas no in\u00edcio da f\u00e9. Todos n\u00f3s, que em comunidade procuramos viver, cada vez mais profundamente, a nossa f\u00e9 em Cristo vivo, somos fortalecidos, nessa caminhada de f\u00e9, pelo testemunho dos irm\u00e3os e sempre pelo testemunho da Igreja. A f\u00e9 da Igreja \u00e9 sempre o est\u00edmulo que nos fortalece.  5. Esta atitude querigm\u00e1tica \u00e9, entre todas as express\u00f5es da realiza\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o da Igreja, a mais dificilmente program\u00e1vel. Ela acontece ao ritmo do imprevis\u00edvel da vida. Uma coisa \u00e9 certa: quando um crist\u00e3o vive sinceramente esta rela\u00e7\u00e3o de fidelidade com Jesus Cristo, o Vivo, semeia \u00e0 sua volta as sementes da vida, e, por vezes, os outros interpelam-no sobre as suas raz\u00f5es de viver. Podemos preparar indirectamente este an\u00fancio, abrindo os crist\u00e3os para a ousadia do testemunho. Ali\u00e1s toda a vida do crist\u00e3o, como ali\u00e1s as atitudes da Igreja deveriam ser um testemunho. \u00c9 por isso que a Igreja \u00e9 um sinal sacramental. Sabemos que nem sempre assim foi e nem sempre assim \u00e9. Por vezes a Igreja empobrece-se a si mesma com a pobreza das suas atitudes. \u00c9 por isso que sempre, antes de celebrar a Eucaristia, ela se assume como pecadora e penitente. No dia a dia da ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja, h\u00e1 momentos em que esta qualidade testemunhal deve ser especialmente cultivada, dando testemunho desta conviv\u00eancia com Cristo, manifesta\u00e7\u00e3o do amor, em tudo o que fazemos na Igreja, em nome da Igreja: quando celebramos a Eucaristia, quando anunciamos a Palavra, quando damos catequese, quando ajudamos os irm\u00e3os. Mas, sobretudo, ao fazer das situa\u00e7\u00f5es de acolhimento ocasi\u00f5es simples de an\u00fancio da nossa f\u00e9 em Cristo ressuscitado. Quando as pessoas pedem o baptismo para os seus filhos, quando os noivos pedem o sacramento do matrim\u00f3nio, quando os pais inscrevem os filhos na catequese, quando as pessoas enlutadas batem \u00e0 porta da Igreja, sempre que algu\u00e9m aflito procura uma palavra de orienta\u00e7\u00e3o ou consolo. Quem acolhe em nome da Igreja tem de ser testemunha da ressurrei\u00e7\u00e3o.  <b>Aprofundamento da f\u00e9 que leve \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de amor com Deus e com os irm\u00e3os<\/b> 6. Situa-se aqui o essencial da miss\u00e3o da Igreja: faz\u00ea-la crescer como experi\u00eancia de comunh\u00e3o. A grande novidade pascal, que a Sagrada Escritura designa com v\u00e1rias express\u00f5es como \u201cvida nova\u201d, \u201chomem novo\u201d, \u201cnova cria\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cnascer de novo\u201d, consiste na possibilidade dos disc\u00edpulos, pessoalmente e em comunidade, participarem no amor do Pai e do Filho, no Esp\u00edrito Santo. Conduzida pelo Esp\u00edrito, a Igreja \u00e9 um mist\u00e9rio da caridade, porque fazendo-se um com Cristo, abre-se progressivamente ao mist\u00e9rio do amor de Deus. Os caminhos deste crescimento na f\u00e9 e no amor situam-nos no essencial da ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja. * A escuta da Palavra. A Palavra de Deus deve ser proclamada e acolhida como uma manifesta\u00e7\u00e3o do amor de Deus pelo Seu Povo. S\u00f3 um Deus que ama se revela. Proclam\u00e1-la em nome de Deus e da Igreja \u00e9 j\u00e1 deixar-se envolver por esse dinamismo de amor. \u00c9 a caridade, amor de Deus pelos homens, que leva a Igreja a nunca desistir de proclamar a Sua Palavra, a tempo e a contra tempo. Todos os servidores da Palavra, leitores, di\u00e1conos, sacerdotes, devem estar possu\u00eddos da urg\u00eancia e exig\u00eancia do amor. S\u00f3 ele os levar\u00e1 a procurar a qualidade no exerc\u00edcio do seu minist\u00e9rio. * A catequese. O crist\u00e3o, desde o momento em que acreditou na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e entrou na Igreja, pelo baptismo, estar\u00e1 at\u00e9 ao fim da sua vida em estado de catequese. Esta vai da inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia da vida nova e ao seu aprofundamento cont\u00ednuo, que culminar\u00e1 no dom da pr\u00f3pria vida a Deus e aos irm\u00e3os, cume da caridade, a que normalmente chamamos santidade. \u00c9 uma experi\u00eancia esclarecida e esclarecedora, pois s\u00f3 quando a f\u00e9 se torna sabedoria e se transforma em cultura, ilumina a liberdade. A inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida da gra\u00e7a sup\u00f5e a estrutura\u00e7\u00e3o progressiva de uma racionalidade crente. * A ora\u00e7\u00e3o. O crescimento na vida da f\u00e9 sup\u00f5e, necessariamente, a inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. \u00c9 nela que Deus se revela ao mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o e se manifesta com o ardor do Seu amor. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9, na vida do crist\u00e3o, o lugar da caridade. Uma pastoral de descoberta da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande desafio que se apresenta \u00e0 Igreja de Lisboa. Tendo em comum para todos a adora\u00e7\u00e3o e a escuta de Deus, abrindo-se ao Seu amor, a ora\u00e7\u00e3o pode revestir-se de dinamismos e dons particulares segundo a idade, o sexo, a situa\u00e7\u00e3o, a miss\u00e3o. A ora\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as tem a candura e a simplicidade de um cora\u00e7\u00e3o puro; a ora\u00e7\u00e3o da mulher pode ser potenciada pela sua capacidade natural de reduzir a vida ao amor; a ora\u00e7\u00e3o das pessoas casadas tem o sabor de uma vida vivida em comunh\u00e3o de amor; a ora\u00e7\u00e3o dos doentes pode exprimir a radicalidade do dom e a confian\u00e7a de quem se abandona totalmente ao amor de Deus. * A liturgia. \u00c9 a ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da Igreja. Nela sente-se, como nunca, que Cristo Vivo faz parte da Igreja e est\u00e1 no meio do Seu Povo, e reza com ele ao Pai. A\u00ed a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 entrega de tudo a Deus, tornada poss\u00edvel pela entrega perene de Cristo ao Pai. A liturgia \u00e9 a fonte de toda a caminhada pessoal na ora\u00e7\u00e3o.  <b>A caridade fraterna<\/b> 7. A caridade que anima a Igreja exprime-se, necessariamente, no amor fraterno. Viver em comunidade \u00e9 dar densidade \u00e0 comunh\u00e3o de amor. Ningu\u00e9m est\u00e1 triste que n\u00e3o soframos com ele, ningu\u00e9m est\u00e1 sozinho, que n\u00e3o vamos ao seu encontro; ningu\u00e9m est\u00e1 em necessidade, que n\u00e3o partilhemos com ele o que temos; ningu\u00e9m est\u00e1 desorientado ou em tenta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o vamos ao seu encontro. No Patriarcado de Lisboa, a pr\u00e1tica da caridade neste sector exige dos crist\u00e3os, fundamentalmente, duas atitudes: a partilha de bens e disponibilidade de tempo e de cora\u00e7\u00e3o para acolher e ir ao encontro das pessoas que sofrem. Nem todas as necessidades dos nossos irm\u00e3os, mesmo dos pobres, se resolvem com dinheiro. Sinto que h\u00e1 j\u00e1 uma grande disponibilidade dos crist\u00e3os de Lisboa para a partilha de bens. \u00c9 preciso aprofundar a disponibilidade para o apoio humanit\u00e1rio, a pessoas idosas, sozinhas, doentes, nos hospitais e cadeias etc. \u00c9 preciso suscitar o sentido de vizinhan\u00e7a atenta, porque muitas pessoas n\u00e3o s\u00e3o ajudadas porque a sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 conhecida. Os vizinhos devem ser intermedi\u00e1rios entre as pessoas que precisam de apoio e a comunidade. A pastoral da caridade est\u00e1, na nossa Diocese, organizada. Grandes institui\u00e7\u00f5es da Igreja, como s\u00e3o os Centros Sociais Paroquiais, as Miseric\u00f3rdias, a Comunidade Vida e Paz, e outras, garantem a efic\u00e1cia das comunidades crist\u00e3s no apoio aos necessitados. A\u00ed, o desafio \u00e9 o da forma\u00e7\u00e3o permanente dos agentes dessas institui\u00e7\u00f5es, para que sejam, n\u00e3o apenas tecnicamente competentes, mas possam encarnar o amor da Igreja pelos necessitados.  <b>Fortalecer todas as estruturas de comunh\u00e3o<\/b> 8. Na execu\u00e7\u00e3o de um Programa de Pastoral, centrado na caridade, \u00e9 preciso apoiar e refor\u00e7ar as estruturas humanas e eclesiais que encontram na comunh\u00e3o de amor e de servi\u00e7o, a sua verdade e a sua raz\u00e3o de ser. Trata-se de sublinhar a dimens\u00e3o existencial da caridade. Entre elas a ac\u00e7\u00e3o pastoral prestar\u00e1 particular aten\u00e7\u00e3o: * \u00c0 Par\u00f3quia. Continua a ser a comunidade de refer\u00eancia da Igreja comunh\u00e3o. A caridade vivida \u00e9 a for\u00e7a que a congrega e dinamiza. Na Par\u00f3quia a f\u00e9 torna-se, necessariamente, caridade. A Eucaristia \u00e9 a principal express\u00e3o e o foco irradiador dessa viv\u00eancia do amor. Na verdade mais profunda da Igreja, s\u00f3 uma comunidade unida na caridade pode celebrar, com plenitude de sentido, o sacramento da Ceia do Senhor. O mandamento novo \u201camai-vos uns aos outros como Eu vos amei\u201d \u00e9, na Par\u00f3quia, um desafio cont\u00ednuo. Para a Par\u00f3quia convergem e a\u00ed encontram for\u00e7a, as outras estruturas da comunh\u00e3o. A fam\u00edlia, \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d, recebe a\u00ed a for\u00e7a e o est\u00edmulo para a sua experi\u00eancia espec\u00edfica de comunh\u00e3o; atrav\u00e9s do P\u00e1roco, os fi\u00e9is participam e est\u00e3o unidos ao presbit\u00e9rio, que \u00e9 uma experi\u00eancia de comunh\u00e3o estruturante da Igreja particular; os movimentos ao fazerem uma experi\u00eancia de comunidade, contribuem e s\u00e3o sinal da vida em comunh\u00e3o da Par\u00f3quia. Por outro lado, a Par\u00f3quia, na variedade das suas actividades e viv\u00eancia da miss\u00e3o, exprime as diversas concretiza\u00e7\u00f5es da caridade: a celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica e a ora\u00e7\u00e3o assim como o servi\u00e7o da comunidade humana onde os crist\u00e3os d\u00e3o testemunho da caridade que os une. A Par\u00f3quia como realidade de comunh\u00e3o e de servi\u00e7o ser\u00e1, cada vez mais, a principal express\u00e3o da visibilidade da Igreja no mundo e, por isso mesmo, tamb\u00e9m da miss\u00e3o da Igreja na sociedade. * \u00c0 Fam\u00edlia. A criatividade na pastoral familiar \u00e9 das maiores exig\u00eancias da nossa programa\u00e7\u00e3o pastoral, dada a centralidade decisiva da fam\u00edlia na Igreja e na sociedade. \u00c9 preciso salvar, na sociedade contempor\u00e2nea, a compreens\u00e3o da fam\u00edlia como comunh\u00e3o de amor. Na fam\u00edlia concentram-se, na sua riqueza e complexidade, todas as grandes express\u00f5es da caridade: a intimidade partilhada, a diferen\u00e7a assumida como riqueza, a fecundidade como express\u00e3o da generosidade do amor, a for\u00e7a da natureza e a beleza da gra\u00e7a. A fam\u00edlia crist\u00e3, para ser express\u00e3o da caridade, tem de fazer um longo caminho que significa a passagem de uma natureza fragilizada pelo pecado, \u00e0 viv\u00eancia da realidade nova da vida em Cristo ressuscitado, que n\u00e3o anula a natureza, mas a corrige, ajuda e plenifica. Como o Santo Padre Bento XVI afirma na sua Enc\u00edclica, este \u00e9 o caminho que leva do \u201ceros\u201d, o amor sexuado com a for\u00e7a e a beleza que lhe s\u00e3o originais, ao amor caridade (agap\u00ea), que n\u00e3o anula a sexualidade, antes lhe revela o seu sentido pleno. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s da evangeliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do amor. \u00c9 que a beleza desse sentido novo do amor humano tem de ser continuamente revelado, e s\u00f3 se atinge, n\u00e3o com a for\u00e7a da natureza, mas com a for\u00e7a do Esp\u00edrito, que faz dele a express\u00e3o do amor de Jesus Cristo. Por outro lado, a fam\u00edlia tem sofrido o efeito das grandes altera\u00e7\u00f5es sociais e culturais: a mulher no trabalho; um urbanismo concebido segundo as regras e exig\u00eancias do mercado e do lucro e n\u00e3o segundo as vantagens da comunidade familiar; a eros\u00e3o dos valores da generosidade, da fidelidade, da pureza e simplicidade do cora\u00e7\u00e3o; as exig\u00eancias e custos da maternidade\/paternidade, etc. A pastoral da Igreja n\u00e3o pode limitar-se a propagar um ideal de vida familiar que a muitos, por parecer inalcan\u00e7\u00e1vel, deixa de interessar como objectivo a atingir. Tem de dirigir-se \u00e0 fam\u00edlia concreta, no realismo das suas dificuldades culturais, econ\u00f3micas, sociais. * A outro tipo de comunidades. H\u00e1 muitos crist\u00e3os que optaram por viver a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da caridade, n\u00e3o apenas na par\u00f3quia e na fam\u00edlia, mas noutro tipo de comunidades, normalmente reunidas \u00e0 volta de um carisma pr\u00f3prio e de uma vis\u00e3o concreta da miss\u00e3o. S\u00e3o muitas estas comunidades: a imensa variedade das comunidades religiosas, de Institutos Seculares, de Movimentos que valorizam a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da vida crist\u00e3. S\u00e3o uma riqueza imensa e indispens\u00e1vel numa Igreja que se quer afirmar pela for\u00e7a da comunh\u00e3o. A atitude pastoral da diocese vai na linha de reconhecer e ajudar a viver a especificidade do carisma de cada uma, levar toda a Igreja a consider\u00e1-las como uma express\u00e3o da comunh\u00e3o eclesial e uma for\u00e7a para a miss\u00e3o. * Ao Presbit\u00e9rio. O Bispo e os Sacerdotes formam uma estrutura de comunh\u00e3o peculiar, fonte eficaz e inspiradora de toda a comunh\u00e3o eclesial. A caridade que brota do dom do sacerd\u00f3cio de Jesus Cristo \u00e0 Igreja \u00e9 a for\u00e7a de coes\u00e3o do Presbit\u00e9rio, caridade que n\u00e3o engloba apenas os seus membros, mas todo o Povo de Deus, pois na Eucaristia a que presidem, realizam e exprimem a comunh\u00e3o da Igreja na caridade. No seio da comunidade crist\u00e3, o sacerdote, antes de exercer uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, \u00e9 um mist\u00e9rio. Esta coes\u00e3o do Presbit\u00e9rio como mist\u00e9rio de comunh\u00e3o que abra\u00e7a toda a Igreja, \u00e9 um caminho nunca completamente percorrido. Estou profundamente convencido que da viv\u00eancia deste mist\u00e9rio, pelos sacerdotes e por toda a comunidade eclesial, brotar\u00e3o voca\u00e7\u00f5es sacerdotais.  <b>Uma espiritualidade abrangente<\/b> 9. Fazer da caridade a for\u00e7a condutora e inspiradora de toda a ac\u00e7\u00e3o pastoral, sup\u00f5e uma espiritualidade abrangente. Ao falar de espiritualidade, refiro-me \u00e0quela interpreta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da nossa vida, em Igreja, que enquadra e d\u00e1 sentido \u00e0s op\u00e7\u00f5es, \u00e0s actividades, \u00e0 an\u00e1lise dos problemas, que leva cada crist\u00e3o, em cada momento, a agir e reagir, n\u00e3o individualmente, mas como membro da Igreja; a sentir, em cada circunst\u00e2ncia que \u00e9 mais do que ele mesmo, que \u00e9 a Igreja a que pertence. S\u00f3 a caridade fundamenta uma espiritualidade, a caridade praticada e n\u00e3o apenas afirmada. Ela \u00e9 fruto natural da caridade vivida, mas pode ser cultivada explicitamente, na forma\u00e7\u00e3o, no esp\u00edrito com que se abra\u00e7a cada miss\u00e3o, na ora\u00e7\u00e3o pessoal e em comunidade. Sobretudo os crist\u00e3os mais comprometidos na ac\u00e7\u00e3o pastoral devem procurar momentos fortes em que se cultive e aprofunde essa espiritualidade. Ela coincide, no fundo, com o \u201cesp\u00edrito de Igreja\u201d, o \u201csentir com a Igreja\u201d, que nos faz sentir a Igreja como a nossa casa, a fam\u00edlia a que pertencemos, com quem percorrermos os caminhos da vida, at\u00e9 nos reunirmos um dia na Casa do Pai.  Parque das Na\u00e7\u00f5es, 10 de Junho de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Cardeal-Patriarca de Lisboa no Dia da Igreja Diocesana<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,144,154,168,199,206,237,246,268],"class_list":["post-18523","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-espiritualidade","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-nova-evangelizacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18523\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}