{"id":185104,"date":"2020-09-16T10:34:52","date_gmt":"2020-09-16T09:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=185104"},"modified":"2020-09-16T10:34:52","modified_gmt":"2020-09-16T09:34:52","slug":"saber-aprender-a-dar-espaco-ao-tempo-da-criacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-dar-espaco-ao-tempo-da-criacao\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A dar espa\u00e7o ao Tempo da Cria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>At\u00e9 chegarmos ao in\u00edcio de outubro, os crist\u00e3os s\u00e3o convidados a celebrar um Tempo da Cria\u00e7\u00e3o, mas talvez seja o momento de <em>dar espa\u00e7o ao Tempo da Cria\u00e7\u00e3o.<\/em> Pensamos saber como a cria\u00e7\u00e3o \u201cdeve ser,\u201d mas a realidade \u00e9 bem diferente. A Cria\u00e7\u00e3o precisa de gozar de alguma paz sem muitas ideias dos humanos. Ali\u00e1s, contra muitas das teorias ecol\u00f3gicas, foi isso que aconteceu em Oostvaardersplassen, na Holanda. O ser humano deixou que a natureza <em>se expressasse<\/em> e os ecossistemas floresceram.<\/p>\n<figure id=\"attachment_185105\" aria-describedby=\"caption-attachment-185105\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-185105 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza.jpg\" alt=\"Ecologia\" width=\"1500\" height=\"908\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-400x242.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-1024x620.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-768x465.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-1080x654.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-1280x775.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-980x593.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/natureza-480x291.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-185105\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Hendrik Cornelissen em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Frans Vera \u00e9 um ecologista que tem questionado h\u00e1 alguns anos a no\u00e7\u00e3o que temos de um espa\u00e7o <em>selvagem.<\/em> Usualmente, consideramos como \u00e1reas selvagens aquelas onde os humanos nunca estiveram presentes. Mas, como diz Vera, as \u00e1reas onde o ser humano deixou de estar presente acabam por tornar-se, tamb\u00e9m, selvagens. Por\u00e9m, a base cultural das teorias predominantes que procuram preservar os ecossistemas terrestres afirmam, como Heinz Ellenberg em 1988 no seu livro <em>\u201dVegetation Ecology of Central Europe\u201d<\/em> que: <em>\u00aba Europa Central seria uma paisagem mon\u00f3tona de \u00e1rvores, se o ser humano n\u00e3o tivesse criado o mosaico colorido de campos, charnecas, campos de feno e pastagens.\u00bb<\/em> Subjacente a esta vis\u00e3o dos campos agr\u00edcolas e jardins como paisagens naturais est\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o antropoc\u00eantrica de que n\u00f3s \u00e9 que sabemos o que \u00e9 bom para a biodiversidade. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>A diversidade da vida presente nos ecossistemas terrestres depende de uma rede complexa de recursos naturais e relacionamentos entre as esp\u00e9cies. De certo modo, quanto mais uma esp\u00e9cie vive num ambiente natural, mais se acomoda a esse ambiente, e mais esse ambiente se acomoda a essa esp\u00e9cie. E desta reciprocidade que dinamiza os ecossistemas nasce a sua produtividade e resili\u00eancia.<\/p>\n<p>No seu livro <em>Feral<\/em>, George Monbiot salienta que o desejo de beleza que as pessoas sentem ao pensar nos ambientes naturais prov\u00e9m da ideia de que lhes falta alguma coisa que encontram nesses ambientes: <em>uma maior e plena conex\u00e3o com a natureza.<\/em> A vida urbana acaba por nos dar uma sensa\u00e7\u00e3o de vivermos em desertos artificiais (urbanos) quando comparados com o passado selvagem. Mas quando penso em passear por ambientes selvagens, sei que muitas pessoas ficam impressionadas com os \u201cbichos\u201d, fugindo deles e a experi\u00eancia de sonho, na realidade, revela ser uma ilus\u00e3o. Como viver a autenticidade de um Tempo da Cria\u00e7\u00e3o se muitos t\u00eam \u201cmedo\u201d dos bichos que l\u00e1 ir\u00e3o encontrar?<\/p>\n<p>Rezamos e agradecemos a Cria\u00e7\u00e3o de Deus, mas pisamos o pobre do insecto, ou aspiramos a aranha que n\u00e3o fez mal a ningu\u00e9m, \u00e0 primeira oportunidade que temos.<\/p>\n<p>Quando estava no 5\u00baano de escolaridade, na sala onde tinha naquela hora uma aula de portugu\u00eas, algu\u00e9m reparou numa barata a passear por entre as cadeira. Toda a turma entra em alvoro\u00e7o com berros, risos, e coment\u00e1rios em voz alta. Eu fui o \u00fanico que subi para cima da cadeira. Que vergonha\u2026 H\u00e1 quem tenha mais medo de insectos do que ser v\u00edtima de um crime violento. De onde vem este medo por seres t\u00e3o pequenos e que fazem parte da cria\u00e7\u00e3o de Deus? Talvez porque alguns sejam realmente periogosos e muito feios.<\/p>\n<p>A picada de alguns insectos pode gerar infec\u00e7\u00f5es graves e a maior parte dos insectos gera alguma repugn\u00e2ncia. O facto de entrarem nas nossas casas sem autoriza\u00e7\u00e3o leva-nos a sentir \u201cinvadidos\u201d, acabando por transportar esse sentimento quando estamos fora de casa em ambiente natural. Da\u00ed que a maior parte das pessoas prefira os jardins, bem cuidados, com flores, \u00e1rvores, lagos e m\u00ednimo n\u00famero de insectos e outros animais que receamos. Mas ser\u00e1 o cuidado e valoriza\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os um modo de darmos Tempo \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o pensamento ecol\u00f3gico da nossa cultura est\u00e1 ainda muito influeciado pela ideia que <em>n\u00f3s<\/em> tempos de ambiente natural, n\u00e3o da ideia que o ambiente <em>realmente<\/em> natural nos oferece. Muitos argumentam que Deus pede-nos para cuidar da cria\u00e7\u00e3o, logo, tudo o que fazemos por garantir a harmonia nos espa\u00e7os \u2014 ditos \u2014 naturais, \u00e9 somente a realiza\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o a que fomos chamados. Mas, e se a <em>Natureza<\/em> tiver uma ideia diferente da nossa?<\/p>\n<p>Isabella Tree que escreveu o interessante livro <em>\u201dWilding &#8211; the return of nature to a British farm\u201d<\/em> convida-nos a algo ousado:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00ababre a caixa, e deixa que os processos naturais se desenvolvam, dando \u00e0s esp\u00e9cies uma vis\u00e3o mais alargada para que se expressem a si mesmas, e ter\u00e1s uma imagem muito diferente. (\u2026) <strong>M\u00ednima interven\u00e7\u00e3o.<\/strong> Deixar que a natureza se revele. E o resultado ser\u00e1 um ambiente que desconhecemos.\u00bb<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Se nada fizermos para deixarmos que a Natureza seja por si mesma, daremos mais e melhor espa\u00e7o ao Tempo da Cria\u00e7\u00e3o. Um tempo onde as transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam o mesmo ritmo humano, exigem maior paci\u00eancia, mais contempla\u00e7\u00e3o para reconhecer a beleza em cada detalhe. Saber aprender a encontrar dentro de n\u00f3s o espa\u00e7o para dar tempo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o ajuda-nos a desacelerar e a equilibrar os ritmos culturais com os naturais.<\/p>\n<p>Quando vires um jardim que te parece descuidado, inverte o teu olhar. O desleixo casual revela-se como a sabedoria que precisamos neste momento para conhecer melhor a verdadeira e livre cria\u00e7\u00e3o de Deus que, no fundo, desconhecemos quando lhe damos espa\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-185104","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185104","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185104"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185104\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185104"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185104"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185104"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}