{"id":18441,"date":"2006-06-07T14:11:32","date_gmt":"2006-06-07T14:11:32","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/06\/07\/pilares-da-identidade-timorense-serao-o-catolicismo-e-a-lingua-portuguesa\/"},"modified":"2006-06-07T14:11:32","modified_gmt":"2006-06-07T14:11:32","slug":"pilares-da-identidade-timorense-serao-o-catolicismo-e-a-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pilares-da-identidade-timorense-serao-o-catolicismo-e-a-lingua-portuguesa\/","title":{"rendered":"Pilares da identidade timorense ser\u00e3o o catolicismo e a l\u00edngua portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista de D. Bas\u00edlio do Nascimento ao Di\u00e1rio do Minho <!--more--> <i>Di\u00e1rio do Minho \u2014 Os conflitos ocorridos em Timor- Leste p\u00f5em em causa a independ\u00eancia do pa\u00eds? D. Bas\u00edlio do Nascimento \u2014<\/i> Eu espero que n\u00e3o, embora a dureza e a viol\u00eancia dos acontecimentos fa\u00e7a temer isso. Tamb\u00e9m n\u00e3o se pode generalizar as coisas, isto \u00e9, como as not\u00edcias aqui chegam apenas pelo ecr\u00e3 da tv, parece que Timor todo limita- se apenas ao rect\u00e2ngulo da TV. \u00c9 verdade que h\u00e1 conflitos, mas neste momento toda a viol\u00eancia limita-se \u00e0 cidade de D\u00edli. No interior, excepto em Ermera, n\u00e3o h\u00e1 mais s\u00edtio nenhum onde haja viol\u00eancia. Agora, que estas coisas podem p\u00f4r em risco a independ\u00eancia, penso que n\u00e3o, porque o povo tem consci\u00eancia de que isto custou muito a ganhar. H\u00e1, de facto, um descontentamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, sobretudo em rela\u00e7\u00e3o ao governo, mas penso que agora, sobretudo com a chegada das for\u00e7as internacionais, especialmente da GNR em quem a popula\u00e7\u00e3o de D\u00edli e toda a popula\u00e7\u00e3o de Timor t\u00eam bastante confian\u00e7a, espero que as coisas comecem a serenar, para depois dar tempo a que todos os timorenses possam pensar naquilo que aconteceu, naquilo que originou esta situa\u00e7\u00e3o\u2026   <I>DM &#8211;  A demiss\u00e3o do Primeiro-ministro, que \u00e9 mu\u00e7ulmano, embora isto n\u00e3o seja factor decisivo, pode resolver a situa\u00e7\u00e3o? BN &#8211;<\/i> Eu penso que h\u00e1, de facto, um descontentamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa do Primeiro- ministro [M\u00e1rio Alkatiri], n\u00e3o pelo facto de ele ser mu\u00e7ulmano ou n\u00e3o \u2014 acho que isto n\u00e3o tem grande import\u00e2ncia. Ali\u00e1s, \u00e9 justo real\u00e7ar que o Primeiro-ministro timorense \u00e9 bem intencionado, \u00e9 competente, s\u00f3 que no relacionamento com o povo \u2013 e \u00e9 isso que tem causado estas fric\u00e7\u00f5es todas \u2013, n\u00e3o tem tido facilidade. Por vezes, as suas interven\u00e7\u00f5es, em vez de contribuirem para limar as arestas, chocam profundamente as pessoas, quer a n\u00edvel religioso, quer a n\u00edvel da administra\u00e7\u00e3o, quer a n\u00edvel do reconhecimento pelo passado de muita gente com papel decisivo na independ\u00eancia do pa\u00eds. H\u00e1 uma insensibilidade do Primeiro- -ministro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade timorense que faz com que haja um fosso e uma enorme reac\u00e7\u00e3o, uma reac\u00e7\u00e3o que tem sido um descontentamento que nos \u00faltimos tempos descambou em conflito.  <i>DM &#8211; Que tem feito a Igreja? BN &#8211;<\/i> Nesta fase, t\u00ednhamos que contribuir para a pacifica\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. Porque a Igreja em Timor tem sido sempre acusada de ser muito poderosa ou muito influente, n\u00f3s, os bispos, achamos que neste momento a influ\u00eancia que a Igreja deveria ter n\u00e3o deveria ser ao n\u00edvel da pol\u00edtica como foi no passado, mas ter um papel de apaziguamento, de reconcilia\u00e7\u00e3o. Optou- se por n\u00e3o ser protagonista, porque creio que \u00e9 tempo de p\u00f4r as coisas nos seus devidos lugares. A Igreja teve um papel de aproxima\u00e7\u00e3o dos focos de poss\u00edvel conflito, de poss\u00edvel viol\u00eancia. Tratamos de segurar as pessoas, de acalm\u00e1-las\u2026   <i> DM &#8211; As institui\u00e7\u00f5es da Igreja t\u00eam sido lugares de acolhimento, de ref\u00fagio\u2026 BN &#8211; <\/i>  Acho que \u00e9 vis\u00edvel que a Igreja tem sido uma esp\u00e9cie de bombeiro. Nestas situa\u00e7\u00f5es, em Timor e noutros pa\u00edses, cada vez que h\u00e1 um conflito \u00e9 sempre \u00e0 porta da Igreja que as pessoas v\u00e3o bater, sobretudo os mais diminu\u00eddos. O pouco que tiveram em tempo de paz, perderam- no\u2026 E agora, a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que tende a dar as m\u00e3os \u00e9 a Igreja.   <I>DM &#8211;  O que \u00e9 que Timor e a Igreja de Timor esperam de Portugal, da Igreja em Portugal, da comunidade internacional, para repor a normalidade? BN &#8211;<\/i>  Receio que as pessoas olhem para n\u00f3s e que digam: n\u00f3s temos ajudado os timorenses, mas ser\u00e1 que vale a pena? Ajud\u00e1mo-los em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, vivemos com eles, sofremos com eles e agora voltam a n\u00e3o entender-se, voltam a criar situa\u00e7\u00f5es de conflitos entre eles \u2014 antes era por causa da Indon\u00e9sia, agora viram-se uns contra os outros\u2026 \u00c9 leg\u00edtimo pensar-se assim, mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ter a benevol\u00eancia de considerar que as pessoas que mais precisam n\u00e3o s\u00e3o aquelas que geraram os conflitos; as pessoas que mais precisam s\u00e3o aquelas que sofreram as consequ\u00eancias desse conflito, de maneira que o que espero \u00e9 que, pelo menos, essa ideia n\u00e3o se concretize. Em 1999, acompanhei muito de perto o sofrimento das pessoas: as casas foram incendiadas, n\u00e3o tiveram comida nem roupa, as crian\u00e7as ficaram sem alimenta\u00e7\u00e3o, as fam\u00edlias ficaram sem o m\u00ednimo. Hoje, felizmente, n\u00e3o estamos naquela situa\u00e7\u00e3o, as ajudas s\u00e3o mais f\u00e1ceis, vai havendo comida, mas sou realista: a minha preocupa\u00e7\u00e3o e o meu apelo \u00e9 que Timor precisar\u00e1 mais, quando j\u00e1 n\u00e3o fizer parte das parangonas di\u00e1rias, quando n\u00e3o for not\u00edcia&#8230;   <I>DM &#8211;  Est\u00e1 em Portugal para exames m\u00e9dicos, amanh\u00e3 [hoje] apresenta, em Paredes, uma campanha de solidariedade. A sua estada no nosso pa\u00eds tem tamb\u00e9m esta finalidade\u2026  BN &#8211;<\/i> Exacto. A minha presen\u00e7a aqui, em Braga, este encontro com o senhor D. Jorge [Ortiga] como presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, visa sensibilizar e pedir \u00e0 Igreja portuguesa que, mais uma vez, abra o seu cora\u00e7\u00e3o para as necessidades que a Igreja de Timor faz chegar.   <I>DM &#8211;  Veio fazer um pedido concreto? BN &#8211;<\/i>  N\u00e3o. \u00c9 verdade que a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema, a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema, mas eu quero olhar para o futuro. Quando vejo jovens a queimar casas, interrogo-me: onde \u00e9 que falhamos, o que \u00e9 que falhou, o que \u00e9 que faltou a esta juventude? Jovens que, tendo consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o pela qual n\u00f3s passamos, voltaram \u00e0 viol\u00eancia\u2026 A resposta est\u00e1 na educa\u00e7\u00e3o e na forma\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o important\u00edssimas, e isso \u00e9, sem d\u00favida, a aposta que a Igreja timorense deve fazer e o maior contributo que deve dar \u00e0 sociedade, nesta fase. Mas h\u00e1 outra preocupa\u00e7\u00e3o. Para mim, os dois pilares da identidade timorense ser\u00e3o o cristianismo, particularmente o catolicismo, e a l\u00edngua portuguesa como factor de unidade entre o povo timorense; factor de unidade e tamb\u00e9m factor de afirma\u00e7\u00e3o, de tradi\u00e7\u00e3o, etc. Timor e a l\u00edngua tetum s\u00f3 beneficiam \u2014 e isto foi dito por um lingu\u00edsta australiano, por isso insuspeito \u2014 se tiverem a l\u00edngua portuguesa como base. Se se adoptou a l\u00edngua portuguesa como l\u00edngua oficial, penso que a Igreja timorense tamb\u00e9m deve dar um contributo enorme para a difus\u00e3o, para a aprendizagem da l\u00edngua portuguesa, que, repito, deve ser, e ser\u00e1 sem d\u00favida, um factor de identidade e de unidade dos timorenses. Neste momento, por\u00e9m, a Igreja timorense n\u00e3o tem capacidade para implementar e desenvolver esta ideia. N\u00e3o temos capacidade nem a n\u00edvel humano nem a n\u00edvel de recursos financeiros. Temos algum recurso estrutural, mas as duas coisas mais importantes, que s\u00e3o os recursos humanos e financeiros, n\u00e3o os temos e, por isso, o grande desafio para a Igreja timorense como contributo que pode dar \u00e0 sociedade \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m ao n\u00edvel da l\u00edngua. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de D. 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