{"id":183830,"date":"2020-09-02T09:00:45","date_gmt":"2020-09-02T08:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=183830"},"modified":"2020-09-01T16:24:52","modified_gmt":"2020-09-01T15:24:52","slug":"saber-aprender-a-envelhecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-envelhecer\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A envelhecer"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u2014 <em>\u201cO que \u00e9 que \u00e9 ser velho?\u201d<\/em> \u2014 pergunta Miguel Sousa Tavares a Agostinho da Silva numa entrevista em 1988. Nunca pensei que a sua resposta pudesse ser t\u00e3o actual, mais de 30 anos depois. Ser velho para Agostinho da Silva possui tr\u00eas pontos de vista: o tempo, a utilidade e a vida.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-183831 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva-387x260.jpg\" alt=\"\" width=\"387\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva-387x260.jpg 387w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva-768x516.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva-980x658.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva-480x323.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/AgostinhoDaSilva.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 387px) 100vw, 387px\" \/><\/a>O tempo \u00e9 relativo porque 82 anos em 1000 n\u00e3o \u00e9 o mesmo do que em 100 anos. Por isso, comparado com a hist\u00f3ria da presen\u00e7a humana, cada um de n\u00f3s \u00e9 um fen\u00f3meno recente. Depois, a perspectiva de futuro do planeta \u00e9 ainda mais interessante. Pois, para o futuro, n\u00e3o nascemos enquanto esse n\u00e3o fizer parte do nosso presente. S\u00f3 envelhecemos no tempo se a vis\u00e3o do mesmo for curta, pelo que, o primeiro convite de Agostinho da Silva \u00e9 a alargar o nosso ponto de vista sobre a idade que temos a uma no\u00e7\u00e3o ampla de tempo. N\u00e3o era bem este o sentido da pergunta de Miguel Sousa Tavares. Por\u00e9m, Agostinho avan\u00e7a um pouco mais pensando na utilidade.<\/p>\n<p>Velho do ponto de vista da utilidade \u00e9 ter deixado de ser uma for\u00e7a trabalhadora e \u00fatil \u00e0 sociedade porque j\u00e1 n\u00e3o produz. \u00c9 uma vis\u00e3o de quem vive para trabalhar e faz do trabalho a raz\u00e3o de viver. \u00c9 uma ideia que contraria muito a imagem vendida, hoje, de uma vida realizada. Isto \u00e9, uma vida espelhada nas <em>selfies<\/em> que d\u00e3o a entender passarmos mais tempo com os que mais amamos, quando, na realidade, aqueles com quem passamos mais tempo s\u00e3o os nossos dispositivos ao dedicar-lhes a maior parte da nossa aten\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o foi o confinamento social que acabou por nos obrigar a passar mais tempo com os que mais amamos? Com tristeza soube de algumas fam\u00edlias que n\u00e3o conseguiram suportar-se. E talvez isso seja um sinal de haver muitas pessoas com uma vis\u00e3o pragm\u00e1tica da vida mais associada \u00e0 sua utilidade pelo trabalho do que uma vis\u00e3o mais profunda. Diz Agostinho da Silva que no hemisf\u00e9rio sul a vida \u00e9 vivida de outro modo \u2014 <em>\u201cfeita para viver.\u201d<\/em> Depois, refere algo que me parece muito actual.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nos anos 1980 era pautada pela concep\u00e7\u00e3o de que as m\u00e1quinas estariam a fazer o que antes nos tornava aut\u00eanticos artes\u00e3os. De tal modo que, diz Agostinho da Silva, o mundo tem de mudar porque \u2014 <em>\u201dmilh\u00f5es de meninos est\u00e3o nascendo neste mundo j\u00e1 reformados.\u201d<\/em> Pois, se o trabalho \u00e9 realizado pelas m\u00e1quinas, n\u00e3o ter\u00e3o trabalho para fazer. Agostinho da Silva faleceu em 1994, ou seja, antes da emerg\u00eancia em larga escala da internet e da gera\u00e7\u00e3o de YouTubers. N\u00e3o se poderia ele imaginar como a era da informa\u00e7\u00e3o seria o g\u00e9rmen da era da imagina\u00e7\u00e3o que actualmente define novos conceitos de trabalho.<\/p>\n<p>Para mim, o curioso \u00e9 que n\u00e3o considero \u00fateis muitos dos v\u00eddeos de pessoas a comer grandes quantidades de comida, como na Coreia do Sul, uma tend\u00eancia viral no YouTube, cujas visualiza\u00e7\u00f5es chegaram j\u00e1 a render a alguns 10000 d\u00f3lares por m\u00eas. Sim. N\u00e3o estou a gozar. Se envelhecer \u00e9 deixar de ser \u00fatil, existem pessoas que envelhecem bem cedo, mas ganham mais do que o leitor e eu juntos durante um ano. E isto para n\u00e3o continuar referindo as in\u00fameras visualiza\u00e7\u00f5es de videos de gatinhos e marmotas a comer pizza. Ser\u00e3o as iniciativas virais que prendem tantas pessoas ao seu ecr\u00e3 um elogio ao envelhecimento precoce? Isto \u00e9, n\u00e3o estaremos todos a envelhecer mais cedo com o consumo exacerbado de futilidades digitais?<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o imaginar como poderia ser o mundo 30 anos depois, Agostinho da Silva cedo se apercebeu de algo essencial e que pode explicar a raz\u00e3o pela qual tantos perdem tanto tempo com t\u00e3o pouco. Diz ele \u2014 <em>\u201dquando a pessoa sente que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na idade de trabalho, come\u00e7a a n\u00e3o ter nada que fazer, e o tempo livre cai sobre ela. Esmaga-a.\u201d<\/em> \u2014 e aqui toca na ferida dos tempos modernos, pr\u00e9- e p\u00f3s-Covid19, cuja cura merece uma nova atitude mental: <em>o tempo livre precisa de ser vivido com sabedoria.<\/em><\/p>\n<p>Quando nos sentimos esmagados pelos tempos de solitude, incapazes de escutar o sil\u00eancio (melodia que n\u00e3o desafina), e de estar junto com os nossos pensamentos, procuramos aliviar essa dor interior com a aliena\u00e7\u00e3o. De tal modo que nem nos apercebemos de que a dopamina libertada pelos v\u00edcios das redes sociais, e entertenimento imediatos, nos vai envelhecendo e, gradualmente, minando a paix\u00e3o pelas coisas mais simples da vida. Mas como termina Agostinho da Silva \u2014 com sabedoria \u2014 <em>\u201dse uma pessoa (\u2026) fosse um apaixonado da vida, nunca se sentiria velho para coisa nenhuma.\u201d<\/em> Pois, parafraseando Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, <em>a vida tem mais imagina\u00e7\u00e3o do que os nossos sonhos<\/em>, e qual melhor sabedoria do que a daquele que est\u00e1 sempre disposto a aprender coisas novas? Aquele que procura saber aprender a envelhecer pelo bem viver.<\/p>\n<hr \/>\n<p>P.S. &#8211; Agrade\u00e7o ao meu pai a partilha da entrevista que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para este texto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-183830","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183830","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183830"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183830\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183830"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183830"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183830"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}