{"id":183638,"date":"2020-08-26T23:00:03","date_gmt":"2020-08-26T22:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=183638"},"modified":"2020-08-26T23:00:03","modified_gmt":"2020-08-26T22:00:03","slug":"saber-aprender-a-viver-na-incerteza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-a-viver-na-incerteza\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; A viver na incerteza"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Uma das maiores fontes de receio na nossa vida \u00e9 a incerteza dos tempos em que vivemos. A incerteza faz-nos experimentar como n\u00e3o temos o controlo sobre tudo o que se passa \u00e0 nossa volta e isso desconforta-nos. Por isso, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil viver num tempo onde o que \u00e9 certo \u00e9 a presen\u00e7a do incerto. Como podemos viver na incerteza? A incerteza \u00e9 algo a eliminar, a aceitar ou ser\u00e1 poss\u00edvel extrair dessa um algo mais inesperado? Ser\u00e1 que Deus experimenta a incerteza ou isso n\u00e3o faz parte da no\u00e7\u00e3o que temos de omnisci\u00eancia, isto \u00e9, de um Deus que tudo sabe?<\/p>\n<figure id=\"attachment_183639\" aria-describedby=\"caption-attachment-183639\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-183639\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza.jpg 800w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza-384x260.jpg 384w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza-768x520.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Incerteza-480x325.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-183639\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Vladislav Babienko em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>A vis\u00e3o de um mundo bem definido, com leis que regulam tudo num tempo e espa\u00e7o absolutos n\u00e3o \u00e9 real. Einstein desenvolveu a teoria da relatividade que procura descrever o que acontece com sistemas infinitamente grandes. Planck avan\u00e7ou com a hip\u00f3tese dos <em>quanta<\/em> e abriu caminho para a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica que procura descrever o infinitamente pequeno. Enquanto o infinitamente grande levou-nos a questionar a no\u00e7\u00e3o de tempo, a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica levou-nos a questionar a no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, pois, \u00e9 o acto de observar que torna algo espacialmente presente. At\u00e9 essa observa\u00e7\u00e3o acontecer, tudo \u00e9 <em>incerto<\/em>. Mas entre o que \u00e9 infinitamente grande, e o que \u00e9 infinitamente pequeno, encontra-se o que \u00e9 infinitamente complexo.<\/p>\n<h3>A incerteza nos sistemas complexos<\/h3>\n<p>Os sistemas complexos possuem muitos agentes, cada um com a sua hist\u00f3ria, e o comportamento colectivo \u00e9 dif\u00edcil de prever pelo entrela\u00e7ar sem fim dessas hist\u00f3rias. Imaginem uma pessoa que vira para a direita, em vez de virar para a esquerda. A sua hist\u00f3ria influenciar\u00e1 a hist\u00f3ria das pessoas com quem se cruzou \u00e0 direita. Por\u00e9m, se tivesse virado \u00e0 esquerda, iria alterar a hist\u00f3ria da vida das pessoas da esquerda. Quer isso dizer que o mundo est\u00e1 numa mudan\u00e7a permanente e essa \u00e9 a raiz da incerteza que vivemos nos sistemas complexos.<\/p>\n<p>Em sistemas simples existe uma rela\u00e7\u00e3o linear entre causa e efeito, mas como vivemos em sistemas complexos, n\u00e3o temos outra hip\u00f3tese sen\u00e3o abra\u00e7ar a incerteza proveniente das imensidade de causas e efeitos a interagirem entre si. Por outro lado, o entrela\u00e7ar das hist\u00f3rias em sistemas complexos faz-nos, tamb\u00e9m, compreender como o todo n\u00e3o \u00e9 igual \u00e0 soma das partes, uma vez que o comportamento dessas depende do todo. Como afirma diversas vezes o Papa Francisco na <em>Laudato Si\u2019<\/em> \u2014 <em>tudo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com tudo<\/em> \u2014 e, por essa raz\u00e3o, as sociedades humanas fazem parte de um <em>colectivo acoplado<\/em>. Por exemplo, quando a m\u00e1scara fazia apenas parte da cultura chinesa, nos aeorportos, o uso da m\u00e1scara era estranho. Mas depois da Covid-19, todos os nossos vizinhos usam e, por isso, usamos tamb\u00e9m. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 estranho, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de moda, mas o resultado do comportamento da parte que se conforma ao todo. Mais ainda, existem exemplos de organiza\u00e7\u00e3o que nascem a partir das incertezas, como no caso dos peixes.<\/p>\n<p>Os cicl\u00eddeos s\u00e3o uma esp\u00e9cie de peixes de \u00e1gua doce cuja din\u00e2mica de alinhamento quando se movem em cardume \u00e9 induzida por <em>ru\u00eddo<\/em> (que neste contexto quer se iguala a movimentos casuais, aleat\u00f3rios) proveniente de um n\u00famero finito de interac\u00e7\u00f5es entre os peixes. Um <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41567-020-0787-y\">estudo<\/a> publicado na <em>Nature Physics<\/em> mostra como a organiza\u00e7\u00e3o do movimento destes peixes nasce de encontros casuais, por assim dizer, incertos.<\/p>\n<h3>A incerteza \u00e9 a \u00fanica certeza<\/h3>\n<p>A incerteza abre-nos a mente \u00e0 possibilidade de aprender coisas novas e mudar o nosso comportamento, o que, por sua vez, muda o comportamento do sistema. Da\u00ed as dificuldades que sentimos, por exemplo, com a transi\u00e7\u00e3o dos estudantes do meio secund\u00e1rio para o meio universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Neste momento, muitos jovens preparam-se para fazer os exames da segunda fase, e ao gastarem muito do seu tempo a estudar para obter uma certa nota num exame, importante para entrar na universidade, acabam por desperdi\u00e7ar a oportunidade de gastarem esse tempo a desenvolver as capacidades de aprendizagem que o exame pretende avaliar. A nota incerta quando um estudante foca-se mais na aprendizagem que no exame \u00e9 uma cultura fundamental para o ensino universit\u00e1rio. Ao focar-se somente no exame para ter uma certa nota, subverte todo o sistema de aprendizagem para n\u00e3o correr o risco da nota incerta. Mas existem outras fontes paradoxais de incerteza, como \u00e9 o caso dos fluxos de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um sistema pode n\u00e3o estar a mudar, mas os fluxos de informa\u00e7\u00e3o mudam cada vez mais, aumentando a quantidade de informa\u00e7\u00e3o. A ideia que temos \u00e9 a de que isso diminui a incerteza sentida em rela\u00e7\u00e3o ao que se passa no mundo e pode influenciar as nossas hist\u00f3rias porque sabemos mais sobre tudo e sobre qualquer coisa. Mas se n\u00e3o aprendermos a avaliar a informa\u00e7\u00e3o que temos dispon\u00edvel, o excesso de informa\u00e7\u00e3o acaba por introduzir mais <em>ru\u00eddo<\/em> e desordem \u00e0s nossas ideias, do que esclarecimento das ideias que temos. Ou seja, o contr\u00e1rio do que acontece com os peixes cicl\u00eddeos.<\/p>\n<p>O matem\u00e1tico John Allen Paulos dizia sobre os sistemas complexos que \u2014 <em>\u00aba incerteza \u00e9 a \u00fanica certeza que existe. E saber como viver com a inseguran\u00e7a \u00e9 a \u00fanica seguran\u00e7a.\u00bb<\/em> \u00c9 necess\u00e1rio come\u00e7ar a abra\u00e7ar a incerteza com um facto da nossa vida e explorar o seu potencial construtivo. Tal como a B\u00edblia sempre nos inspirou.<\/p>\n<h3>A incerteza que Deus compreende<\/h3>\n<p>A 21 de agosto, dia do meu baptismo, estive em F\u00e1tima com a fam\u00edlia e fomos \u00e0 missa na Bas\u00edlica da Sant\u00edssima Trindade. A primeira leitura era de Ezequiel e a um certo momento est\u00e1 escrito \u2014 <em>\u00abO Senhor disse-me: \u201cFilho de homem, estes ossos poder\u00e3o voltar \u00e0 vida?\u201d Eu respondi: \u201cSenhor Deus, s\u00f3 Tu o sabes\u201d\u00bb<\/em> (Ez 37, 3). O Profeta mant\u00e9m a sua mente aberta \u00e0 sabedoria do n\u00e3o-saber por reconhecer e confiar naquilo que Deus sabe. E o que sabe Deus? Tudo?<\/p>\n<p>O que sabemos n\u00f3s daquilo que Deus sabe? E o que significa bem \u201cDeus sabe\u201d? Talvez Deus n\u00e3o saiba tudo, como n\u00e3o \u00e9 suposto um estudante saber tudo para exame. O que \u00e9 suposto \u00e9 que o estudante <em>compreenda<\/em> tudo, precisamente, por n\u00e3o saber sobre o que ser\u00e1 objecto de avalia\u00e7\u00e3o. Talvez seja mais pr\u00f3ximo da realidade a ideia de que <em>Deus compreende tudo<\/em>. Isto \u00e9, compreende o que sabe, e o que n\u00e3o sabe, por este \u00faltimo fazer parte da incerteza que confere ao mundo a sua liberdade e a n\u00f3s, o livre arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>A incerteza \u00e9 a g\u00e9nese da liberdade do mundo. A \u00fanica certeza que, realmente, temos neste mundo incerto \u00e9 a de que <em>Deus ama.<\/em>Quem n\u00e3o gostaria de ser como Deus? Ent\u00e3o, podemos sempre amar e, no tempo, iremos compreender. O amor precede e sucede o que compreendemos daquilo que sabemos e n\u00e3o sabemos. Talvez o amor seja a forma mais segura para saber aprender a viver na incerteza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-183638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183638"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183638\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}