{"id":18362,"date":"2006-06-02T16:35:13","date_gmt":"2006-06-02T16:35:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/06\/02\/o-profeta-da-beira\/"},"modified":"2006-06-02T16:35:13","modified_gmt":"2006-06-02T16:35:13","slug":"o-profeta-da-beira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-profeta-da-beira\/","title":{"rendered":"\u00abO Profeta da Beira\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende nos 100 anos do seu nascimento <!--more--> A 14 de Junho de 2006 perfazem-se cem anos sobre a data de nascimento de D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende. Este cidad\u00e3o ilustre, natural de Milheir\u00f3s de Poiares, (Santa Maria da Feira), foi o primeiro bispo da Beira (Mo\u00e7ambique) e \u201ctemos dele uma mem\u00f3ria inapag\u00e1vel\u201d \u2013 salienta D. Jaime Pedro Gon\u00e7alves, arcebispo da Beira, no livro de homenagem a este \u201cgrande pastor que evangelizou uma \u00e1rea que deu at\u00e9 hoje cinco dioceses (Beira, Quelimane, Chimoio, Tete e Guru\u00e9)\u201d. Defensor da Justi\u00e7a em favor dos \u201cmais fracos e oprimidos\u201d, D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende promoveu a \u201ceduca\u00e7\u00e3o da juventude das miss\u00f5es com milhares de escolas prim\u00e1rias\u201d e idealizou para aquele pa\u00eds lus\u00f3fono uma sociedade \u201cintegrada de ra\u00e7as e cidad\u00e3os iguais, perante a lei, apesar das diferen\u00e7as\u201d. Atitudes que mereceram reac\u00e7\u00f5es de \u201cpersegui\u00e7\u00e3o por parte do regime pol\u00edtico de ent\u00e3o\u201d \u2013 sublinha D. Jaime Gon\u00e7alves no seu artigo \u00abD. Sebasti\u00e3o Soares de Resende nosso primeiro bispo\u00bb.  Foi pai do seman\u00e1rio \u00abA Voz Africana\u00bb, da revista \u00abEconomia\u00bb e do famoso \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb. \u00d3rg\u00e3os de Comunica\u00e7\u00e3o Social que ele utilizava para a evangeliza\u00e7\u00e3o, mormente nas palestras quaresmais. D. Jaime Gon\u00e7alves refere mesmo que a \u201ccensura do Estado Novo maltratou o \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb e chegou, como puni\u00e7\u00e3o, a ser proibido durante 30 dias\u201d. Depois deste e outros epis\u00f3dios tornou-se \u201cextremamente dif\u00edcil a manuten\u00e7\u00e3o financeira do jornal\u201d. D. Sebasti\u00e3o morreu em Janeiro de 1967 e aquele di\u00e1rio de refer\u00eancia foi vendido pelo sucessor em 1970. \u201cA Santa S\u00e9 autorizou a sua venda\u201d e um dos mais renhidos advers\u00e1rios do 1\u00ba bispo da Beira \u2013 o detentor do \u00abNot\u00edcias\u00bb &#8211; comprou-o.   <b>Evangelizar atrav\u00e9s da Comunica\u00e7\u00e3o Social<\/b> O \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb nasceu na v\u00e9spera do Natal de 1950. Deu \u00e0 luz depois de D. Sebasti\u00e3o visualizar o \u201cquotidiano violento da explora\u00e7\u00e3o colonial patente nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o\u201d (Capela, Jos\u00e9; \u201cD. Sebasti\u00e3o e o \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb\u201d; in: Revista \u00abS\u00edntese\u00bb). Antes de fundar aquele \u00f3rg\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o Social (em 1944), o 1\u00ba bispo da Beira teve este coment\u00e1rio depois de observar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho numa serra\u00e7\u00e3o de madeira: \u201cimpera na Beira a escravatura\u201d. E acrescentou: \u201cuma vez que conhe\u00e7a abusos hei-de empregar todos os meios para os debelar ainda que seja a imprensa\u201d.  O documento \u00abAetatis Novae\u00bb &#8211; Instru\u00e7\u00e3o Pastoral sobre as Comunica\u00e7\u00f5es Sociais no 20\u00ba Anivers\u00e1rio da \u00abCommunio et Progressio\u00bb &#8211; salienta que os crist\u00e3os \u201ct\u00eam efectivamente o dever de fazer ouvir a sua voz no seio de todos os mass media\u201d. E avan\u00e7a: \u201ca tarefa deles n\u00e3o se limita unicamente \u00e0 transmiss\u00e3o de not\u00edcias eclesi\u00e1sticas\u201d. Alguns anos antes da publica\u00e7\u00e3o deste documento, este precursor da import\u00e2ncia dos meios de Comunica\u00e7\u00e3o Social na evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se intimidou com as amea\u00e7as e denunciou as injusti\u00e7as por isso foi considerado \u2013 \u201cpela craveira apost\u00f3lica e intelectual, coragem e persist\u00eancia\u201d \u2013 o \u201cmaior \u00abresistente\u00bb\u201d (Freire, Jos\u00e9 Geraldes; in: \u201cResist\u00eancia Cat\u00f3lica ao Salazarismo &#8211; Marcelismo).  <b>Denunciar as injusti\u00e7as e defici\u00eancias<\/b> Sagrado bispo da Beira em 1943, no anivers\u00e1rio da sua tomada de posse na diocese mo\u00e7ambicana (8 de Dezembro) dirigia uma pastoral ao seu rebanho \u201csempre repleta de conte\u00fados doutrin\u00e1rios e incidindo muitas vezes em aspectos concretos que denunciavam injusti\u00e7as e defici\u00eancias\u201d &#8211; (in: \u201cResist\u00eancia Cat\u00f3lica ao Salazarismo &#8211; Marcelismo). Na Pastoral de 1946 sobre \u201cColoniza\u00e7\u00e3o Portuguesa\u201d, D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende condena o \u201ctrabalho compelido\u201d dos ind\u00edgenas. E acrescenta: \u201cquando observo o que se passa, principalmente com trabalhadores ind\u00edgenas, e entre estes, com os que labutam junto da maior parte das nossas empresas, vejo-me for\u00e7ado a reconhecer que n\u00e3o somos crist\u00e3os nem humanos\u201d. Nesta e noutras conjunturas, o prelado natural de Santa Maria da Feira agia exclusivamente na convic\u00e7\u00e3o de estar na defesa de \u201cdireitos inamov\u00edveis da pessoa humana e totalmente alheio, como sempre se manteve, relativamente a qualquer vincula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d &#8211; (Capela, Jos\u00e9; \u201cD. Sebasti\u00e3o e o \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb\u201d; in: Revista \u00abS\u00edntese\u00bb). O desenvolvimento do ensino naquela diocese foi tamb\u00e9m um dos grandes feitos de D. Sebasti\u00e3o. \u201c\u00c9 a ele que se deve o lan\u00e7amento do Ensino Secund\u00e1rio na Beira, come\u00e7ando pela Funda\u00e7\u00e3o do Instituto Liceal D. Gon\u00e7alo da Silveira e posteriormente os Col\u00e9gios de Vila Pery e de Tete\u201d \u2013 (Brand\u00e3o, Pedro Ramos; \u201cO primeiro bispo da Beira\u201d; in: Revista \u00abHist\u00f3ria\u00bb de Novembro de 2004). O bispo da Beira sabia que a utiliza\u00e7\u00e3o que o Estado Portugu\u00eas estava a dar \u00e0 Igreja, em Mo\u00e7ambique, poderia criar \u201cuma perniciosa confus\u00e3o nos ind\u00edgenas e lev\u00e1-los a ver a Igreja Cat\u00f3lica como uma extens\u00e3o administrativa do Estado Portugu\u00eas\u201d \u2013 (In: Revista \u00abHist\u00f3ria\u00bb). Perante esta previs\u00edvel situa\u00e7\u00e3o, D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende fez sempre um esfor\u00e7o de tornar p\u00fablica a diferen\u00e7a entre a evangeliza\u00e7\u00e3o e o ensino ministrado. \u201cO professor era uma coisa, o catequista era outra. Esta posi\u00e7\u00e3o dentro da Igreja Cat\u00f3lica mo\u00e7ambicana n\u00e3o era de todo aceite; a maioria dos padres portugueses acomodara-se ao facto de ser vista pelo Governo como funcionalismo p\u00fablico, com o seu ordenado mensal\u201d \u2013 (In: Revista \u00abHist\u00f3ria\u00bb). No entanto, o primeiro bispo da Beira tudo tentou para esclarecer a opini\u00e3o p\u00fablica e os habitantes ind\u00edgenas sobre as diferen\u00e7as: \u201ca ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria n\u00e3o pode terminar nas escolas. H\u00e1 que se exercer tamb\u00e9m nos postos catequ\u00e9ticos\u201d. (In: Revista \u00abHist\u00f3ria\u00bb). Na sua Pastoral de Dezembro de 1951 \u2013 \u201cO problema da Educa\u00e7\u00e3o em \u00c1frica\u201d \u2013, D. Sebasti\u00e3o alerta para o problema \u201cdos professores assassinos\u201d e da educa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas. Um documento incomodativo que foi \u201cproibido de circular\u201d porque o Governo \u00e9 \u201claico, mesmo quando se proclama crist\u00e3o, e n\u00e3o aceita, na pr\u00e1tica, a doutrina da Igreja\u201d &#8211;  (in: \u201cResist\u00eancia Cat\u00f3lica ao Salazarismo &#8211; Marcelismo).   <b>A revolu\u00e7\u00e3o interior no Santu\u00e1rio de Lourdes<\/b> Recebeu a ordena\u00e7\u00e3o presbiteral a 21 de Outubro de 1928 quando tinha apenas 22 anos de idade. No m\u00eas seguinte foi enviado para Roma para prosseguir os estudos na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana onde se doutorou em Filosofia. O doutoramento em Teologia sofreu um rev\u00e9s devido ao in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial. Aquando da viagem para Roma parou no Santu\u00e1rio de Lourdes (Fran\u00e7a) e escreveu uma carta ao Pe. Jos\u00e9 Leite Dias Pinho, conterr\u00e2neo do ainda Pe. Sebasti\u00e3o Soares de Resende. Na missiva relata que atravessou \u201cHespanha com esp\u00edrito de touriste, mas em, Lourdes operou-se uma revolu\u00e7\u00e3o em mim para tudo fazer com \u00e2nimo crist\u00e3o, mais, eclesi\u00e1stico\u201d (Azevedo, Carlos Moreira; \u201cO car\u00e1cter do bispo da Beira atrav\u00e9s da correspond\u00eancia com dois padres milheiroenses\u201d, in: Revista \u00abVilla da Feira \u2013 Terra de Santa Maria\u00bb de Fevereiro de 2006). A grandeza desta experi\u00eancia interior vivida em Lourdes impulsionou-o e avivou-lhe o sentido harm\u00f3nico do ser crist\u00e3o.  Em Roma assiste \u00e0 assinatura (11 de Fevereiro de 1929) dos Pactos de Latr\u00e3o entre o Cardeal Gasparri e Benito Mussolini. Numa carta enviada (2 de Maio de 1929) ao Pe. Jos\u00e9 Leite Dias Pinho, o estudante romano utiliza um humor refinado para descrever a assinatura do acordo: \u201ccom certeza, Garibaldi nesse dia chorou mais uma l\u00e1grima\u201d. Esta express\u00e3o cheia de ironia sobre \u201ca figura anticlerical de Garibaldi, iniciador do diss\u00eddio entre Igreja e Estado Italiano, que durou sessenta anos, transmite a simplicidade jubilosa do amor \u00e0 Igreja, alimentado por Sebasti\u00e3o\u201d &#8211;  (Azevedo, Carlos Moreira; \u201cO car\u00e1cter do bispo da Beira atrav\u00e9s da correspond\u00eancia com dois padres milheiroenses\u201d, in: Revista \u00abVilla da Feira \u2013 Terra de Santa Maria\u00bb de Fevereiro de 2006).  <b>Um tomista que n\u00e3o foi ouvido<\/b> Ap\u00f3s o ciclo formativo na \u00abcidade eterna\u00bb \u00e9 convidado para professor no Semin\u00e1rio Maior do Porto. A\u00ed, lecciona as cadeiras de Teologia Sacramental e Filosofia. Aos 28 anos foi convidado para vice-reitor do referido semin\u00e1rio e dois anos mais tarde (1936) o bispo do Porto nomeia-o membro do cabido. Um antigo aluno do homenageado, o Pe. Manuel Le\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m natural de Milheir\u00f3s de Poiares \u2013 sublinha no artigo \u201cD. Sebasti\u00e3o Resende \u2013 Uma Evoca\u00e7\u00e3o, no seu Centen\u00e1rio\u201d que o prelado era um \u201cferrenho tomista\u201d. A filosofia de Arist\u00f3teles passando \u201cpelos trabalhos de S. Tom\u00e1s de Aquino entusiasmou D. Sebasti\u00e3o\u201d \u2013 (in: Revista \u00abVilla da Feira \u2013 Terra de Santa Maria\u00bb de Fevereiro de 2006). O \u00faltimo ano do agora Pe. Manuel Le\u00e3o no Semin\u00e1rio Teol\u00f3gico foi tamb\u00e9m o \u00faltimo ano do vice-reitor, que, entretanto, foi nomeado (21 de Abril de 1943) bispo da Beira. Deixou a metr\u00f3pole e foi evangelizar \u201cum laborat\u00f3rio de problemas novos que entusiasma as intelig\u00eancias mais vigorosas\u201d \u2013 (In: Carta ao Pe. Manuel Valente de Pinho Le\u00e3o \u2013 datada de 19 de Mar\u00e7o de 1946). Esta troca de correspond\u00eancia entre estes dois filhos de Milheir\u00f3s de Poiares d\u00e1 autoridade ao Pe. Manuel Le\u00e3o para afirmar que \u201cpude acompanhar as iniciativas extraordin\u00e1rias pr\u00f3prias dum homem de ideias, com uma actividade incans\u00e1vel que marcou um lugar paradigm\u00e1tico nas miss\u00f5es pastorais, na educa\u00e7\u00e3o e imprensa. O vasto horizonte em que esteve situada a sua vida apost\u00f3lica f\u00ea-lo deixar para tr\u00e1s certas vis\u00f5es acanhadas que os muros do Semin\u00e1rio continham\u201d &#8211; (in: D. Sebasti\u00e3o Resende \u2013 Uma Evoca\u00e7\u00e3o, no seu centen\u00e1rio). Num artigo para a referida revista Vila da Feira, Ant\u00f3nio Almeida Santos, Presidente da Assembleia da Rep\u00fablica de Novembro de 1995 a Abril de 2002, sublinha que \u201cfoi pena, muita pena, e uma grande perda para Portugal, que a sua voz n\u00e3o pudesse ter sido ouvida. Se o fora, o desastre que foi o fim da nossa saga colonial, teria sido evitado\u201d. Em 26 de Janeiro de 1967 (morreu no dia anterior) podia ler-se no \u00abDi\u00e1rio de Mo\u00e7ambique\u00bb: \u201c\u2026 Homem voltado para a realidade do seu tempo, o Senhor Bispo da Beira foi, sob muitos aspectos, um precursor do avan\u00e7o social verificado na \u00c1frica Portuguesa\u2026 algumas das suas pastorais e muitas pe\u00e7as da sua prega\u00e7\u00e3o constitu\u00edram gritos de aut\u00eantico profeta\u2026\u201d.   Lu\u00eds Filipe Santos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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