{"id":18351,"date":"2006-06-02T12:50:02","date_gmt":"2006-06-02T12:50:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/06\/02\/familia-projecto-de-deus\/"},"modified":"2006-06-02T12:50:02","modified_gmt":"2006-06-02T12:50:02","slug":"familia-projecto-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/familia-projecto-de-deus\/","title":{"rendered":"<i>Fam\u00edlia, projecto de Deus<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Carta Pastoral do Arcebispo de \u00c9vora <!--more--> Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, a Arquidiocese de \u00c9vora dedicou uma particular aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia, atrav\u00e9s do plano pastoral, que teve in\u00edcio no ano 2003-2004. Este plano pretendeu dar resposta a uma aspira\u00e7\u00e3o profunda da comunidade diocesana, sobretudo dos respons\u00e1veis por este sector pastoral: casais, sacerdotes, catequistas e movimentos familiares. A fam\u00edlia est\u00e1 a enfrentar, na verdade, problemas novos neste per\u00edodo hist\u00f3rico da entrada no novo mil\u00e9nio, marcado por muta\u00e7\u00f5es culturais que est\u00e3o a afectar a sua natureza, miss\u00e3o e estabilidade. Conscientes de que existe um projecto de Deus Criador acerca da institui\u00e7\u00e3o familiar, a nossa comunidade diocesana sentiu que era urgente fazer uma reflex\u00e3o s\u00e9ria \u00e0 luz da f\u00e9 sobre esta realidade, e estabelecer grandes linhas de ac\u00e7\u00e3o para o futuro, que, na fidelidade ao que \u00e9 essencial e perene, respondam aos novos desafios. O plano pastoral desenvolveu-se em tr\u00eas etapas. A primeira, sob o tema \u201cFam\u00edlia, que dizes de ti?\u201d, correspondeu ao ano 2003-2004 e pretendeu olhar para a realidade concreta.  Seguiu-se, no ano 2004-2005, o tema \u201cFam\u00edlia, torna-te aquilo que \u00e9s\u201d. A finalidade desta segunda etapa consistia em p\u00f4r em evid\u00eancia, no meio das diversas correntes de pensamento e de ac\u00e7\u00e3o actuais, a concep\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da fam\u00edlia. Estamos a chegar ao termo do terceiro ano. Com a escolha do tema \u201cFam\u00edlia, comunidade insubstitu\u00edvel\u201d, n\u00e3o s\u00f3 se afirma a certeza de que este \u00e9 um tempo de formar fam\u00edlias novas \u00e0 luz do Evangelho, e de promover a sua dignidade e miss\u00e3o, mas tamb\u00e9m se pretende apresentar algumas linhas orientadoras para o futuro. N\u00e3o deixar\u00e1 de ser \u00fatil enquadrar este trabalho diocesano numa perspectiva mais completa, que abranja a doutrina do Magist\u00e9rio e as iniciativas universais da Igreja, no campo do matrim\u00f3nio.  De facto, sobretudo a partir do Conc\u00edlio Vaticano II, desenvolveu-se uma intensa actividade eclesial em favor da fam\u00edlia, no campo do ensinamento do Magist\u00e9rio, da reflex\u00e3o teol\u00f3gica e das ac\u00e7\u00f5es concretas. Um marco de particular relevo naquele per\u00edodo foi o S\u00ednodo dos Bispos de 1980, consagrado \u00e0 fam\u00edlia, do qual resultou a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cFamiliaris Consortio\u201d, do Papa Jo\u00e3o Paulo II. O actual Pont\u00edfice, Bento XVI, em diversas ocasi\u00f5es, n\u00e3o tem deixado de iluminar com os seus ensinamentos, a natureza e o papel da fam\u00edlia, como c\u00e9lula da sociedade e da Igreja. Assim, no discurso que proferiu para a Diocese de Roma, logo em 6.06.2005, afirmou: \u201cMatrim\u00f3nio e fam\u00edlia n\u00e3o s\u00e3o, na realidade, uma constru\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica casual, fruto de particulares situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e econ\u00f3micas. Pelo contr\u00e1rio, a quest\u00e3o da justa rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a mulher mergulha as suas ra\u00edzes na ess\u00eancia mais profunda do ser humano, e s\u00f3 a partir daqui pode encontrar a sua resposta\u201d. Prova deste interesse do Santo Padre \u00e9 a sua presen\u00e7a no V Encontro Mundial das Fam\u00edlias, em Val\u00eancia, Espanha, de 1 a 9 de Julho pr\u00f3ximo. Aproveitando este momento da vida da diocese, no que se refere \u00e0 pastoral familiar, pareceu-me oportuno extrair da riqueza das reflex\u00f5es efectuadas e das ac\u00e7\u00f5es empreendidas, algumas linhas de orienta\u00e7\u00e3o para o futuro, o que pretendo fazer atrav\u00e9s da presente carta pastoral.  <b>Situa\u00e7\u00e3o nova<\/b> Elemento essencial de qualquer ac\u00e7\u00e3o pastoral \u00e9 que ela deve responder \u00e0s situa\u00e7\u00f5es concretas em que se realiza. Esta exig\u00eancia assume particular relevo, quando se trata da fam\u00edlia. A fam\u00edlia tem sido um dos campos mais afectados pelas mudan\u00e7as operadas na sociedade, nos dom\u00ednios cultural, tecnol\u00f3gico, moral e religioso. Da\u00ed, a necessidade de uma reflex\u00e3o actualizada, que, sem preju\u00edzo do que j\u00e1 foi alcan\u00e7ado, permita um novo impulso pastoral que responda aos desafios do presente. Ao definir o quadro actual da fam\u00edlia, o Papa Jo\u00e3o Paulo II, na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cFamiliaris Consortio\u201d, de 22 de Novembro de 1981, que retomava as conclus\u00f5es do S\u00ednodo dos Bispos de 1980, deixou esta s\u00edntese que merece ser recordada: \u201cPor um lado existe uma consci\u00eancia mais viva da liberdade pessoal e uma maior aten\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade das rela\u00e7\u00f5es interpessoais no matrim\u00f3nio, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da dignidade da mulher, \u00e0 procria\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos filhos (\u2026) Por outro lado, contudo, n\u00e3o faltam sinais de degrada\u00e7\u00e3o preocupante de alguns valores fundamentais: uma errada concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica da independ\u00eancia dos c\u00f4njuges entre si: as graves ambiguidades acerca da rela\u00e7\u00e3o de autoridade entre pais e filhos; as dificuldades concretas, que a fam\u00edlia muitas vezes experimenta na transmiss\u00e3o dos valores; o n\u00famero crescente de div\u00f3rcios; a praga do aborto; o n\u00famero cada vez mais frequente da esteriliza\u00e7\u00e3o; a instaura\u00e7\u00e3o de uma verdadeira e pr\u00f3pria mentalidade contraceptiva\u201d. Este quadro tra\u00e7ado sobre a situa\u00e7\u00e3o mundial da fam\u00edlia, embora apresente acentua\u00e7\u00f5es e graus diversos nas diferentes regi\u00f5es do mundo, n\u00e3o deixa, entretanto, de observar-se mesmo em lugares at\u00e9 h\u00e1 pouco isolados dos grandes meios, a demonstrar que, na verdade, o mundo se transformou numa aldeia global. A fam\u00edlia v\u00ea-se confrontada neste momento com novos desafios: no campo das mentalidades e das culturas, do trabalho e da educa\u00e7\u00e3o dos filhos, da descristianiza\u00e7\u00e3o e dos padr\u00f5es morais. \u00c9 esta realidade nova que obriga a uma revis\u00e3o e actualiza\u00e7\u00e3o da pastoral familiar. N\u00e3o podemos deixar de reconhecer que, nos \u00faltimos anos, surgiram iniciativas positivas em resposta aos novos problemas. Salientemos, entre outras, pelo seu especial significado: o incremento dos CPM (Centro de Prepara\u00e7\u00e3o para o Matrim\u00f3nio) e o crescente dinamismo dos movimentos familiares e dos grupos de casais. S\u00e3o experi\u00eancias que se v\u00eam consolidando e dando fruto, mas que representam as primeiras etapas dum processo que deve ir mais longe.  <b>Projecto inscrito na Cria\u00e7\u00e3o<\/b> S\u00f3 se pode estabelecer uma pastoral familiar devidamente fundamentada, se partirmos do princ\u00edpio de que existe um projecto de Deus para a fam\u00edlia. Projecto inscrito na mensagem b\u00edblica, e anunciado pela Igreja em todos os tempos. Segundo a f\u00e9 crist\u00e3, a fam\u00edlia n\u00e3o tem a sua origem na vontade humana. O Conc\u00edlio Vaticano II afirmou: \u201cO pr\u00f3prio Deus \u00e9 o autor do matrim\u00f3nio, dotado de diversos bens e fins, sendo todos eles de m\u00e1xima import\u00e2ncia para a continuidade do g\u00e9nero humano, para o aperfei\u00e7oamento pessoal e destino eterno de cada um dos membros da fam\u00edlia e para a dignidade, estabilidade, paz e prosperidade da mesma fam\u00edlia e de toda a sociedade humana (GSp. 48) A fam\u00edlia \u00e9, por conseguinte, um projecto de Deus Criador; faz parte integrante do plano criador. O livro dos G\u00e9nesis assim exprime este des\u00edgnio divino. \u201cDeus criou o homem \u00e0 Sua imagem, criou-o \u00e0 imagem de Deus. Ele os criou homem e mulher. Aben\u00e7oando-os, Deus disse-lhe: \u201cCrescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra\u201d (Gen. 1, 27-28). O matrim\u00f3nio e a fam\u00edlia devem pois ser vistos como sa\u00eddos do Cora\u00e7\u00e3o de Deus. O amor conjugal entre o homem e a mulher s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o do amor entre Deus e a humanidade. A sexualidade humana n\u00e3o \u00e9 um dado puramente biol\u00f3gico, mas integra-se na pessoa humana, e nesta integra\u00e7\u00e3o encontra o seu sentido mais profundo e a sua total verdade. No matrim\u00f3nio, o homem e a mulher, tornam-se \u201cuma s\u00f3 carne\u201d numa aut\u00eantica comunh\u00e3o de pessoas, e abrem-se \u00e0 transmiss\u00e3o da vida, colaborando com Deus na obra da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que os filhos devem ser vistos \u201ccomo reflexo vivo do Seu amor, sinal permanente da unidade conjugal e s\u00edntese viva e indissoci\u00e1vel do ser pai e m\u00e3e\u201d (Jo\u00e3o Paulo II). Jesus Cristo, que veio ao mundo, como reflexo l\u00edmpido do amor infinito e misericordioso de Deus Pai pelos homens e culminou a sua miss\u00e3o salv\u00edfica no sacrif\u00edcio da cruz, restituiu \u00e0 fam\u00edlia a sua verdade e dignidade originais (Cf. Mt.19,5) que o pecado desfigurara no decurso dos tempos e das civiliza\u00e7\u00f5es. E foi mais longe: inseriu o matrim\u00f3nio na ordem nova da gra\u00e7a. O matrim\u00f3nio \u00e9 um sacramento, ou seja, um sinal, um s\u00edmbolo da nova e eterna alian\u00e7a entre Cristo e a humanidade resgatada. O homem e a mulher crist\u00e3os recebem do Esp\u00edrito Santo pelo sacramento do matrim\u00f3nio, a for\u00e7a e a gra\u00e7a de se amarem um ao outro como Cristo amou e se entregou \u00e0 Sua Igreja. Assim se compreende que o Conc\u00edlio Vaticano II, retomando uma imagem utilizada j\u00e1 nos primeiros s\u00e9culos do cristianismo, tenha chamado \u00e0 fam\u00edlia a \u2018Igreja dom\u00e9stica\u2019 (cf. LG 11; AA 11). \u00c9 este projecto criador de Deus, a que Jesus Cristo veio dar nova dimens\u00e3o, que a Igreja \u00e9 chamada a anunciar e a dar realiza\u00e7\u00e3o no nosso tempo, apesar das enormes dificuldades que contra ele se levantam.  <b>Sector indispens\u00e1vel da pastoral<\/b> Faz parte da miss\u00e3o da Igreja contribuir, atrav\u00e9s duma ac\u00e7\u00e3o empenhada e organizada, para que se realize, ao longo dos tempos, o projecto de Deus acerca da fam\u00edlia. A esta ac\u00e7\u00e3o se d\u00e1 o nome de pastoral familiar. A pastoral familiar n\u00e3o \u00e9 uma simples t\u00e9cnica, uma ac\u00e7\u00e3o puramente humana; nela interv\u00e9m, como agente principal, o Esp\u00edrito Santo, que Cristo Ressuscitado enviou \u00e0 Igreja para ser o seu Santificador e princ\u00edpio din\u00e2mico. Os membros da Igreja s\u00e3o seus colaboradores e instrumentos.  Isto mais se evidencia, se atendermos ao car\u00e1cter sacramental do matrim\u00f3nio e da fam\u00edlia. Toda a ac\u00e7\u00e3o pastoral em prol da fam\u00edlia, as suas estruturas, organiza\u00e7\u00e3o, ac\u00e7\u00f5es formativas, t\u00eam por objectivo a forma\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias crist\u00e3s, de modo que nelas se expresse o plano de Deus. \u00c9 um trabalho que se deve inserir na pastoral normal das comunidades crist\u00e3s. Por vezes, poder-se-\u00e1 pensar que ele diz respeito apenas a alguns grupos ou movimentos especializados. Se atendermos \u00e0s m\u00faltiplas iniciativas que, por inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, foram surgindo na Igreja, poder\u00edamos assim pensar. Tais iniciativas foram, de facto, surgindo de forma, por vezes, espont\u00e2nea, como \u00e9, ali\u00e1s, pr\u00e1tica normal da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que \u201csopra onde quer\u201d. N\u00e3o devem, por\u00e9m, ser vistas como realidades isoladas, mas sim destinadas a infundir nova vida no pr\u00f3prio organismo da Igreja. Importa, por isso, que tais iniciativas e institui\u00e7\u00f5es sejam introduzidas na vida das comunidades e se articulem com elas. Deste modo, no respeito pelo princ\u00edpio da comunh\u00e3o na diversidade, que deve orientar qualquer comunidade eclesial, a pastoral familiar tornar-se-\u00e1 mais eficaz. Entre os agentes desta pastoral merecem particular destaque os casais e os sacerdotes. Ambos s\u00e3o indispens\u00e1veis, na sua complementaridade e converg\u00eancia. Referindo-se \u00e0 miss\u00e3o das fam\u00edlias, escreve o Papa Jo\u00e3o Paulo II: \u201cDeve sobretudo reconhecer-se o lugar especial que, neste campo, compete \u00e0 miss\u00e3o dos c\u00f4njuges e das fam\u00edlias crist\u00e3s em virtude da gra\u00e7a recebida no sacramento\u201d (cf. CT 71). H\u00e1, portanto, uma miss\u00e3o insubstitu\u00edvel a desenvolver pelos pais. \u00c9 sua miss\u00e3o criar uma verdadeira \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d. Os casais s\u00e3o ainda chamados, por for\u00e7a da sua f\u00e9, a participar quer na forma\u00e7\u00e3o, quer no acompanhamento das fam\u00edlias. Compete-lhes transmitir aos noivos, em termos de testemunho, o sentido concreto e espiritual da vida familiar, nas suas diversas dimens\u00f5es, em toda a sua complexidade e riqueza. Numa linha convergente, o sacerdote incumbir-se-\u00e1 de apresentar \u00e0 luz da f\u00e9, o significado do amor humano e do sacramento do matrim\u00f3nio e preparar a viv\u00eancia da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica.  <b>Uma prepara\u00e7\u00e3o cuidada<\/b> Para a exist\u00eancia de fam\u00edlias crist\u00e3s, devidamente esclarecidas \u00e0 luz da f\u00e9, prontas a realizar a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o no dia a dia, \u00e9 obviamente necess\u00e1rio que se comece  pelo per\u00edodo de prepara\u00e7\u00e3o. \tTem-se verificado, nos \u00faltimos anos, um louv\u00e1vel esfor\u00e7o no que respeita \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima. Uma tarefa que tem sido desempenhada pelos Centros de Prepara\u00e7\u00e3o para o Matrim\u00f3nio (CPM), com assinal\u00e1veis resultados. Mas, enquanto todos nos congratulamos com os frutos j\u00e1 alcan\u00e7ados, tomamos, igualmente consci\u00eancia de que \u00e9 necess\u00e1rio ampliar o tempo de prepara\u00e7\u00e3o; \u00e9 necess\u00e1rio organizar uma prepara\u00e7\u00e3o remota. Esta prepara\u00e7\u00e3o remota h\u00e1-de ser encarada no \u00e2mbito duma s\u00f3lida educa\u00e7\u00e3o da f\u00e9 dos jovens e deve incluir educa\u00e7\u00e3o concreta do amor e da sexualidade. A educa\u00e7\u00e3o para o amor e para a sexualidade reveste-se da maior urg\u00eancia no nosso mundo hedonista, devendo ser realizada \u00e0 luz duma segura antropologia crist\u00e3, n\u00e3o se podendo nunca confundir com certas concep\u00e7\u00f5es materialistas em voga que desvirtuam o verdadeiro conceito da sexualidade e do amor humano, e, longe de formar personalidades abertas \u00e0 verdade e ao bem, as encaminham para pr\u00e1ticas e situa\u00e7\u00f5es que acabar\u00e3o por criar frustra\u00e7\u00f5es existenciais. Nunca poder\u00e3o proporcionar a cria\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias como verdadeiras comunidades de amor e de vida.  <b>Uma Celebra\u00e7\u00e3o da F\u00e9<\/b> A prepara\u00e7\u00e3o, remota e pr\u00f3xima, para o matrim\u00f3nio, h\u00e1-de conduzir a uma celebra\u00e7\u00e3o do sacramento que seja uma aut\u00eantica celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9. \tSabemos como a mentalidade secularista actual conduz facilmente a que se tome a celebra\u00e7\u00e3o do casamento crist\u00e3o como um simples acto de cariz social e familiar, onde a festa civil se sobrep\u00f5e ao seu car\u00e1cter religioso. \tPara obviar a esta mentalidade, importa que os pr\u00f3prios noivos se empenhem na prepara\u00e7\u00e3o do matrim\u00f3nio com uma atitude de f\u00e9: prepara\u00e7\u00e3o espiritual, escolha das leituras, estudo e interioriza\u00e7\u00e3o da liturgia. \tO acto lit\u00fargico deve revestir-se de dignidade, sobriedade e tom festivo, sem exibicionismos mundanos, o que se h\u00e1-de traduzir nas atitudes dos participantes, na m\u00fasica e na decora\u00e7\u00e3o da igreja. \tTamb\u00e9m se h\u00e1-de prestar aten\u00e7\u00e3o ao lugar da celebra\u00e7\u00e3o, o qual ser\u00e1, como regra, segundo o esp\u00edrito das leis eclesiais, a igreja paroquial, quer pelo seu significado, quer por favorecer uma participa\u00e7\u00e3o mais intensa da comunidade. A celebra\u00e7\u00e3o em outro templo \u00e9, por vezes, leg\u00edtima e justific\u00e1vel, devendo para isso obter-se a respectiva licen\u00e7a da autoridade eclesi\u00e1stica. Neste caso, evitar-se-\u00e1 ceder \u00e0 press\u00e3o da sociedade consumista, que procura explorar a circunst\u00e2ncia do lugar da celebra\u00e7\u00e3o religiosa para atrair os participantes para a festa civil, esvaziando-se, assim, pouco a pouco, o car\u00e1cter sagrado do acontecimento.  <b>Igreja Dom\u00e9stica<\/b> A celebra\u00e7\u00e3o do sacramento do matrim\u00f3nio n\u00e3o \u00e9 um termo, mas o in\u00edcio duma realidade nova: a fam\u00edlia crist\u00e3. Esta nova fam\u00edlia, constitu\u00edda pelo acto sacramental, \u00e9 uma c\u00e9lula da Igreja e da sociedade. Tem uma grande miss\u00e3o a cumprir. Ela \u00e9, antes de mais, numa perspectiva crist\u00e3, o reflexo, manifestado na comunh\u00e3o \u00edntima entre o marido e a mulher, da profunda uni\u00e3o de Cristo com a Igreja e a humanidade. A fam\u00edlia \u00e9 ainda o ber\u00e7o das novas gera\u00e7\u00f5es de homens e mulheres, no qual estas nascem e desenvolvem a sua personalidade humana e crist\u00e3. No interior do lar crist\u00e3o vive-se o mist\u00e9rio da \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d, ou seja, o mist\u00e9rio do amor m\u00fatuo, que tem em Deus a fonte e o modelo. \u00c9 neste sentido que a pastoral familiar possui o seu quadro fundamental de refer\u00eancia no interior da pr\u00f3pria fam\u00edlia, e os primeiros agentes s\u00e3o os seus pr\u00f3prios membros. Como \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d, a fam\u00edlia \u00e9 chamada a ser casa de ora\u00e7\u00e3o, de transmiss\u00e3o da f\u00e9, da leitura da Palavra de Deus, e da viv\u00eancia dos sacramentos, escola de esperan\u00e7a e de amor. Nela os filhos aprendem a conhecer e a amar a Jesus, a Deus Pai e a Deus Esp\u00edrito Santo; a conhecer e a amar a Virgem Maria, M\u00e3e de Cristo e nossa m\u00e3e; e amar a todos os homens como irm\u00e3os, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a, cor ou situa\u00e7\u00e3o social. Para que a fam\u00edlia crist\u00e3 possa realizar a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio inseri-la devidamente na par\u00f3quia a pertence. A par\u00f3quia, como escreve o Papa Jo\u00e3o Paulo II \u00e9 \u201ca pr\u00f3pria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e filhas\u201d (\u201cChristifidelis Laici n\u00ba 26. Mais do que uma comunidade dos crist\u00e3os individualmente considerados, a par\u00f3quia deve ser vista como a comunidade das fam\u00edlias crist\u00e3s. No interior da comunidade paroquial, as crian\u00e7as e os jovens aprendem a abrir-se a todo o povo de Deus, fazem a experi\u00eancia, em companhia dos pais, da celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica dominical. Esta rela\u00e7\u00e3o estreita entre a fam\u00edlia e a par\u00f3quia sugere que em cada par\u00f3quia se constitua um casal ou um grupo de casais respons\u00e1vel por promover, em colabora\u00e7\u00e3o com o p\u00e1roco, uma s\u00f3lida pastoral familiar. Com tal estrutura a par\u00f3quia pode mais facilmente dar apoio \u00e0s fam\u00edlias em necessidade, seja ele de natureza econ\u00f3mica, psicol\u00f3gica ou moral. Outra \u00e1rea importante da pastoral familiar reside nos movimentos e nos grupos de casais. Eles s\u00e3o j\u00e1 uma consoladora realidade no interior da comunidade eclesial nos nossos dias e conhecem uma significativa express\u00e3o na nossa diocese. Tais movimentos representam uma grande riqueza espiritual e pastoral; s\u00e3o eficazes escolas de forma\u00e7\u00e3o e permitem uma inter-ajuda e di\u00e1logo frutuoso entre as pr\u00f3prias fam\u00edlias. A plena efic\u00e1cia destes movimentos alcan\u00e7a-se quando eles articulam devidamente a sua ac\u00e7\u00e3o com a par\u00f3quia e a diocese.  <b>Situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis<\/b> Na pastoral familiar merece lugar relevante o apoio \u00e0s fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, no plano econ\u00f3mico, social e moral. Felizmente existem j\u00e1 institui\u00e7\u00f5es e movimentos que realizam neste \u00e2mbito uma not\u00e1vel ac\u00e7\u00e3o, quantas vezes de forma discreta, mas nem por isso menos significativa. Seja-me permitido sublinhar, a este respeito, o trabalho desenvolvido pela C\u00e1ritas Diocesana em m\u00faltiplos dom\u00ednios. \tAtendendo \u00e0s novas situa\u00e7\u00f5es criadas, algumas delas de grande complexidade, \u00e0s quais nem sempre a sociedade e o Estado correspondem com a efic\u00e1cia necess\u00e1ria, imp\u00f5e-se \u00e0 comunidade crist\u00e3 testemunhar o amor crist\u00e3o pelas fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia. Um meio especial de apoio a casais que passam por dificuldades, nomeadamente morais, que podem inclusive p\u00f4r em risco a sua pr\u00f3pria estabilidade, reside nos consult\u00f3rios familiares. \u00c9 desej\u00e1vel que se concretizem projectos j\u00e1 em curso ou em perspectiva da cria\u00e7\u00e3o destes consult\u00f3rios que, sem d\u00favida, levar\u00e3o a paz e a tranquilidade a muitas fam\u00edlias. \tTratando dos casos familiares dif\u00edceis e das situa\u00e7\u00f5es irregulares, a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cFamiliaris Consortio\u201d dedica-lhes uma aten\u00e7\u00e3o especial nos nn.77-85. S\u00e3o, entre muitos outros, os casais dos emigrantes, dos presos, das fam\u00edlias com filhos deficientes ou drogados, ou sem casa, dos idosos que vivem na solid\u00e3o. \tA solicitude da Igreja deve estender-se a todos estes casos, e ainda aos lares que se encontram em situa\u00e7\u00f5es irregulares, os quais se v\u00e3o difundindo um pouco por toda a parte, como consequ\u00eancia, em larga medida, das novas mentalidades e circunst\u00e2ncias sociais. Referimo-nos \u00e0s uni\u00f5es de facto, aos matrim\u00f3nios \u00e0 experi\u00eancia, aos cat\u00f3licos casados pelo civil, aos divorciados e recasados pelo civil e outros. \tO documento pontif\u00edcio estabelece normas e orienta\u00e7\u00f5es, reveladoras da bondade e humanidade da Igreja, e, ao mesmo tempo, do seu respeito pela verdade do matrim\u00f3nio, as quais devem merecer o acolhimento de todos.  <b>Caminho de santifica\u00e7\u00e3o<\/b> O projecto crist\u00e3o da fam\u00edlia \u00e9 um projecto de santidade. As fam\u00edlias crist\u00e3s s\u00e3o chamadas a crescer no amor de Deus e no amor entre os seus membros e a manifestar este amor a todos os que necessitam da sua ajuda: nisto consiste a santidade. Para este projecto se deve orientar a pastoral familiar. \tPor este caminho de santifica\u00e7\u00e3o, as fam\u00edlias realizam o seu ideal de \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d. Como \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d, o lar crist\u00e3o procura acolher no seu interior Jesus Cristo e sua M\u00e3e, a Virgem Maria, como aconteceu em Can\u00e1 da Galileia (cf Jo.2, 1-11). Isto consegue-se, se, decididamente, a Eucaristia for colocada no centro da vida do lar. Neste sentido, podemos dizer que o momento alto da comunidade familiar reside na Eucaristia dominical, onde, em comunh\u00e3o de amor, pais e filhos louvam a Deus Pai e se alimentam da sua Palavra e do Corpo e Sangue de Jesus Cristo. \tA fam\u00edlia crist\u00e3 \u00e9 um santu\u00e1rio de ora\u00e7\u00e3o, onde as alegrias e os sofrimentos, os projectos e os fracassos s\u00e3o vividos em comunh\u00e3o com Deus na ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, na esperan\u00e7a e na comunh\u00e3o. Como express\u00e3o do amor \u00e0 Virgem Maria, merece aten\u00e7\u00e3o particular a recita\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o em fam\u00edlia. \tUm tal clima de f\u00e9, uma tal atmosfera espiritual que envolve a fam\u00edlia, constitu\u00edda junto do altar de Deus, acaba por iluminar os diversos aspectos da sua exist\u00eancia: o trabalho, o lazer, a doen\u00e7a,os \u00eaxitos e os fracassos, infundindo-lhe paz e levando-a a ser no mundo um testemunho forte de felicidade. \tPara este aspecto da santifica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias h\u00e1-de estar orientada toda a actividade pastoral familiar. Os seus agentes encontrar\u00e3o sempre na ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo a luz e a for\u00e7a para o desempenho da sua nobre e fundamental miss\u00e3o  <b>Conclus\u00e3o<\/b> Dois acontecimentos cheios de significado assinalam o termo do projecto diocesano trienal sobre a pastoral familiar. O primeiro diz respeito \u00e0 peregrina\u00e7\u00e3o diocesana das fam\u00edlias a F\u00e1tima, ocorrida no dia 1 de Maio. Milhares de peregrinos foram agradecer a Nossa Senhora as gra\u00e7as concedidas ao longo destes tr\u00eas anos e fazer-lhe a sua consagra\u00e7\u00e3o, implorando, ao mesmo tempo, um novo impulso evangelizador neste campo. O segundo acontecimento \u00e9 o encontro das fam\u00edlias na vig\u00edlia do Pentecostes, isto \u00e9 da Festa do Esp\u00edrito Santo, no dia 3 de Junho, marcado para o audit\u00f3rio da igreja da Sagrada Fam\u00edlia, em \u00c9vora. Com estes gestos, pretende-se colocar nas m\u00e3os de Maria as grandes linhas futuras de orienta\u00e7\u00e3o pastoral familiar e implorar os dons do Esp\u00edrito Santo para serem postas em pr\u00e1tica com efic\u00e1cia apost\u00f3lica.  <i>+ Maur\u00edlio de Gouveia, Arcebispo de \u00c9vora<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Pastoral do Arcebispo de \u00c9vora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,120,125,144,154,175,193,206,207,237,246,294,311,316],"class_list":["post-18351","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-bento-xvi","tag-caritas","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-diocese-de-evora","tag-educacao","tag-familia","tag-fatima","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-sacramentos","tag-sinodo-dos-bispos","tag-terco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18351","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18351"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18351\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18351"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18351"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18351"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}