{"id":18281,"date":"2006-05-30T13:17:13","date_gmt":"2006-05-30T13:17:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/30\/licoes-de-bento-xvi-em-auschwitz-discutidas-por-todo-o-mundo\/"},"modified":"2006-05-30T13:17:13","modified_gmt":"2006-05-30T13:17:13","slug":"licoes-de-bento-xvi-em-auschwitz-discutidas-por-todo-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/licoes-de-bento-xvi-em-auschwitz-discutidas-por-todo-o-mundo\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de Bento XVI em Auschwitz discutidas por todo o mundo"},"content":{"rendered":"<p>Dois dias depois da passagem de Bento XVI pelo campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi de Auschwitz, continuam vivas as discuss\u00f5es sobre as suas palavras no local de morte, onde procurou a reconcilia\u00e7\u00e3o com todos os que sofreram os horrores do regime de Hitler. A visita do Papa ao antigo campo de exterm\u00ednio de Auschwitz-Birkenau foi saudada pelo grande rabino da Pol\u00f3nia, Michael Schudrich, descrevendo-a como \u201cum grande momento no processo de reconcilia\u00e7\u00e3o\u201d entre crist\u00e3os e judeus. Bento XVI denunciou a Shoah (Holocausto), n\u00e3o deixando de confessar que, \u201cpara um crist\u00e3o e para um Papa alem\u00e3o\u201d, era dif\u00edcil exprimir-se no cen\u00e1rio central do genoc\u00eddio dos judeus da Europa.  Mais de um milh\u00e3o e 100 mil pessoas foram mortas em Auschwitz-Birkenau entre 1940 e 1945. Apesar de, como lembrava o jornal cat\u00f3lico franc\u00eas \u201cLa Croix\u201d, Bento XVI ter sido bastante mais expl\u00edcito na condena\u00e7\u00e3o da Shoah do que Jo\u00e3o Paulo II, jornalistas e analistas esperavam do Papa uma palavra mais forte sobre as responsabilidades dos alem\u00e3es \u2013 tendo atribu\u00eddo o genoc\u00eddio a um \u201cgrupo de criminosos\u201d que utilizou o povo alem\u00e3o como \u201cinstrumento da sua sede de destrui\u00e7\u00e3o e de poder\u201d. Para entender estas palavras, \u00e9 preciso levar em conta que o Papa falou para muitas pessoas: o povo polaco, os judeus, os ciganos e os pr\u00f3prios alem\u00e3es. Uma das li\u00e7\u00f5es da sua passagem por Auschwitz \u00e9 que a reconcilia\u00e7\u00e3o se faz com todos. O Pe. Peter Stilwell, director da Faculdade de Teologia da UCP e respons\u00e1vel pelo Departamento das rela\u00e7\u00f5es ecum\u00e9nicas e do di\u00e1logo inter-religioso do Patriarcado de Lisboa, destaca a presen\u00e7a de representantes de v\u00e1rias comunidades, em Auschwitz, lembrando os v\u00e1rios grupos que sofreram os horrores do nazismo. \u201cEle n\u00e3o reduziu Auschwitz \u00e0 comunidade judaica, evocou a comunidade dos ciganos, os polacos \u2013 um povo que foi dizimado -, os russos e os pr\u00f3prios alem\u00e3es que morreram ali, considerados como lixo\u201d, lembra. A refer\u00eancia \u00e0 comunidade judaica, em especial, ficou marcada pela &#8220;dimens\u00e3o teol\u00f3gica&#8221; que esteve presente na persegui\u00e7\u00e3o, que tinha em vista &#8220;eliminar aquilo que o Juda\u00edsmo representa como testemunho de uma revela\u00e7\u00e3o, de uma exig\u00eancia \u00e9tica que permanece nos nossos tempos&#8221;. A quest\u00e3o do \u201csil\u00eancio de Deus\u201d durante o genoc\u00eddio foi particularmente destacada. O director da FT lembra que esta \u00e9 \u201cuma quest\u00e3o cl\u00e1ssica na discuss\u00e3o teol\u00f3gica\u201d, \u00e0 qual Bento XVI d\u00e1 uma resposta particular: \u201cessa interroga\u00e7\u00e3o, dirigida a Deus, deve incidir tamb\u00e9m no nosso cora\u00e7\u00e3o, para despertar a\u00ed essa presen\u00e7a divina no \u00edntimo de cada um\u201d. \u201cA resposta, de certo modo, come\u00e7ou a ser dada, na medida em que tem surgido, sobre as trevas deste horror, a estrela da reconcilia\u00e7\u00e3o\u201d, acrescenta o Pe. Peter Stilwell. Bento XVI quis deixar, assim, &#8220;um desafio \u00e0 actual Europa, para que n\u00e3o esque\u00e7am que os grandes valores humanos s\u00e3o essenciais \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o&#8221; e para as consequ\u00eancias dram\u00e1ticas desse esquecimento, como se pode ver em Auschwitz.  <b>Discurso papal<\/b> Se Jo\u00e3o Paulo II visitou Auschwitz \u201ccomo filho do povo polaco\u201d, o Papa Ratzinger afirmou deslocar-se ali \u201ccomo filho do povo alem\u00e3o\u201d, como \u201cfilho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcan\u00e7ou o poder atrav\u00e9s de falsas promessas, em nome de perspectivas de grandeza, de recupera\u00e7\u00e3o da honra da na\u00e7\u00e3o e da sua import\u00e2ncia, com previs\u00f5es de bem-estar e tamb\u00e9m com a for\u00e7a do terror e da intimida\u00e7\u00e3o, de tal modo que o nosso povo pode ser usado e abusado como instrumento das suas pretens\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o e de dom\u00ednio\u201d. \u201cEncontro-me hoje aqui \u2013 declarou Bento XVI \u2013 para implorar a gra\u00e7a da reconcilia\u00e7\u00e3o \u2013 antes de mais nada de Deus, o \u00fanico que pode abrir e purificar os cora\u00e7\u00f5es; e depois tamb\u00e9m dos homens que aqui sofreram; e finalmente a gra\u00e7a da reconcilia\u00e7\u00e3o para todos os que nesta hora da nossa hist\u00f3ria sofrem de modo novo sob o poder do \u00f3dio e sob a viol\u00eancia fomentada pelo \u00f3dio\u201d.  Evocando as l\u00e1pides das v\u00edtimas que pereceram neste campo de horror, o Papa sublinhou que elas \u201cabalam a nossa mem\u00f3ria, abalam o nosso cora\u00e7\u00e3o\u201d, mas n\u00e3o devem suscitar o \u00f3dio, mas sim a coragem do bem, da resist\u00eancia contra o mal, o amor: \u201cN\u00e3o querem provocar em n\u00f3s o \u00f3dio: ao contr\u00e1rio, demonstram-nos at\u00e9 que ponto \u00e9 terr\u00edvel a obra do \u00f3dio. Querem levar a raz\u00e3o a reconhecer o mal como mal e a recus\u00e1-lo; querem suscitar em n\u00f3s a coragem do bem, da resist\u00eancia contra o mal. Querem levar-nos \u00e0queles sentimentos que se exprimem nas palavras que S\u00f3focles coloca nos l\u00e1bios de Ant\u00edgona perante o horror que a circunda: Estou aqui n\u00e3o para odiar conjuntamente, mas para juntos amar\u201d.  A grande pergunta que sempre emerge neste lugar \u2013 observou o Papa \u2013 \u00e9: \u201cOnde estava Deus naqueles dias? Por que \u00e9 que se calou? Como p\u00f4de tolerar aquele excesso de destrui\u00e7\u00e3o, este triunfo do mal?\u201d. Evocando o Salmo 44, lamento de Israel no meio da tribula\u00e7\u00e3o suprema, Bento XVI alargou o seu horizonte a todo o que sofre de modo desamparado e grita para Deus, sem pretender ser seu juiz: \u201cEste grito de ang\u00fastia que Israel sofredor eleva a Deus em per\u00edodos de extrema ang\u00fastia \u00e9 ao mesmo tempo o grito de todos os que no decurso da hist\u00f3ria \u2013 ontem, hoje e amanh\u00e3 \u2013 sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e muitos s\u00e3o, tamb\u00e9m hoje. \u201cN\u00f3s n\u00e3o podemos perscrutar o segredo de Deus \u2013 vemos apenas fragmentos e erramos se queremos tornar-nos juizes de Deus e da hist\u00f3ria. N\u00e3o defenderemos assim o homem, contribuiremos apenas para a sua destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, em \u00faltima an\u00e1lise, temos que continuar a gritar para Deus, com humildade e insist\u00eancia: Desperta! N\u00e3o esque\u00e7as a tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ser ao mesmo tempo um grito que penetra no nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o para que desperte em n\u00f3s a sua presen\u00e7a escondida\u2013 para que aquele poder que Ele depositou nos nossos cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o fique coberto e sufocado em n\u00f3s pela lama do ego\u00edsmo, do medo dos homens, da indiferen\u00e7a, do oportunismo\u201d.  \u201cN\u00f3s gritamos para Deus &#8211; acrescentou ainda Bento XVI &#8211; para que leve os homens a emendar-se, reconhecendo que a viol\u00eancia n\u00e3o cria a paz, mas suscita apenas outra viol\u00eancia \u2013 uma espiral de destrui\u00e7\u00f5es\u201d. \u201cO Deus em que n\u00f3s acreditamos \u00e9 um Deus da raz\u00e3o, mas que n\u00e3o \u00e9, est\u00e1 claro, uma neutra matem\u00e1tica do universo, pois que \u00e9 insepar\u00e1vel do bem, do amor. N\u00f3s rezamos a Deus e gritamos aos homens para que esta raz\u00e3o, a raz\u00e3o do amor e do reconhecimento da for\u00e7a da reconcilia\u00e7\u00e3o e da paz, prevale\u00e7a sobre as amea\u00e7as da irracionalidade ou de uma falsa raz\u00e3o, separada de Deus\u201d.  Classificando Auschwitz como \u201cum lugar da mem\u00f3ria\u201d, Bento XVI observou que \u201co passado nunca \u00e9 apenas passado\u201d, pois que \u201cnos diz respeito e nos indica os caminhos a n\u00e3o seguir e os caminhos a percorrer\u201d. Evocando (como fez a seu tempo, em id\u00eantica visita, Jo\u00e3o Paulo II), a variedade de l\u00ednguas das l\u00e1pides que recordam as v\u00edtimas deste campo de concentra\u00e7\u00e3o, o Papa recordou de modo especial a l\u00edngua hebraica, polaca, russa, alem\u00e3 e a dos Sinti e Rom (ciganos).  A prop\u00f3sito do holocausto dos judeus, afirmou textualmente: \u201cOs potentados do Terceiro Reich queriam esmagar o povo hebraico na sua totalidade; elimin\u00e1-lo do elenco dos povos da terra\u2026 No fundo, com a aniquila\u00e7\u00e3o deste povo, aqueles criminosos violentos pretendiam matar aquele Deus que chamou Abra\u00e3o, (aquele Deus) que, falando no Sinai, estabeleceu os crit\u00e9rios orientadores da humanidade, que permanecem eternamente v\u00e1lidos\u2026 Com a destrui\u00e7\u00e3o de Israel queriam, ao fim e ao cabo, arrancar tamb\u00e9m a raiz em que se baseia a f\u00e9 crist\u00e3, substituindo-a definitivamente pela f\u00e9 por eles criada, a f\u00e9 no dom\u00ednio do homem, do poderoso\u201d. Uma refer\u00eancia quase final reservou-a ainda o Papa alem\u00e3o \u00e0 l\u00e1pide que evoca \u201cEdith Stein, Teresa Benedita da Cruz, judia e alem\u00e3\u201d. Os alem\u00e3es levados \u00e0quele campo de concentra\u00e7\u00e3o e ali eliminados (observou) eram considerados \u201co refugo da na\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cAgora, por\u00e9m, n\u00f3s os reconhecemos com gratid\u00e3o como testemunhas da verdade e do bem, que tamb\u00e9m no nosso povo (alem\u00e3o) n\u00e3o tinha desaparecido\u201d. \u201cAgradecemos a estas pessoas, porque n\u00e3o se submeteram ao poder do mal e agora se apresentam diante de n\u00f3s como luzes numa noite obscura\u201d, merecendo \u201cprofundo respeito e gratid\u00e3o\u201d. Uma sentida evoca\u00e7\u00e3o dos milh\u00f5es de v\u00edtimas do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz (\u201clugar de horror, de c\u00famulo de crimes contra Deus e contra o homem\u201d) e ao mesmo tempo um \u201cgrito ao Deus vivo para que nunca mais permite semelhante coisa\u201d: nas palavras de Bento XVI, domingo \u00e0 tarde, na \u00faltima etapa da sua \u201cperegrina <i>Redac\u00e7\u00e3o\/R\u00e1dio Vaticano<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois dias depois da passagem de Bento XVI pelo campo de concentra\u00e7\u00e3o nazi de Auschwitz, continuam vivas as discuss\u00f5es sobre as suas palavras no local de morte, onde procurou a reconcilia\u00e7\u00e3o com todos os que sofreram os horrores do regime de Hitler. 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