{"id":18188,"date":"2006-05-25T12:21:05","date_gmt":"2006-05-25T12:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/25\/a-biblia-tem-de-chegar-as-maos-de-todos-os-cristaos\/"},"modified":"2006-05-25T12:21:05","modified_gmt":"2006-05-25T12:21:05","slug":"a-biblia-tem-de-chegar-as-maos-de-todos-os-cristaos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-biblia-tem-de-chegar-as-maos-de-todos-os-cristaos\/","title":{"rendered":"A B\u00edblia tem de chegar \u00e0s m\u00e3os de todos os crist\u00e3os"},"content":{"rendered":"<p>O Pe. Manuel Abreu trabalha h\u00e1 nove anos em Mo\u00e7ambique. Este mission\u00e1rio do Verbo divino \u00e9 natural de Boi Vivo (Vila Verde) e foi ordenado sacerdote em 1967. Antes de ir para Mo\u00e7ambique trabalhou em Portugal e Angola.  O ano passado concluiu o seu termo de superior da miss\u00e3o SVD mo\u00e7ambicana, dedicando-se agora a tempo inteiro ao apostolado b\u00edblico.  <b>Contacto SVD: O Pe. Manuel vai agora dedicar-se a tempo inteiro ao apostolado b\u00edblico. Todavia, j\u00e1 h\u00e1 muitos anos que trabalha nesta \u00e1rea. Pode dizer-nos o que \u00e9 que a SVD tem feito nesta \u00e1rea em Mo\u00e7ambique? <\/b> Pe. Manuel Abreu: Logo ao chegarmos a Mo\u00e7ambique, n\u00f3s tivemos a sorte de nos convidarem para pregar um retiro b\u00edblico aos mission\u00e1rios de Nampula. Aceitei. Depois, o pr\u00f3prio Centro Catequ\u00e9tico de Nampula tamb\u00e9m nos chamou para uns cursos de B\u00edblia. Aceit\u00e1mos fazer esses cursos atingindo todas as par\u00f3quias da diocese Nampula. Na nossa pr\u00f3pria miss\u00e3o, em Monapo, tamb\u00e9m organiz\u00e1mos logo um curso que durou seis meses, nos fins de semana. E depois no Liupo e Quixaxe. Tamb\u00e9m orient\u00e1mos, em 2003, um semin\u00e1rio b\u00edblico para todas as dioceses do pa\u00eds. Foi um marco. Conseguimos igualmente que os nossos bispos se inscrevessem como membros da Federa\u00e7\u00e3o B\u00edblica Cat\u00f3lica. Mo\u00e7ambique era o \u00fanico pa\u00eds da \u00c1frica Austral sem qualquer contacto com a Federa\u00e7\u00e3o. Pouco a pouco a Igreja de Mo\u00e7ambique entendeu-nos como Mission\u00e1rios da Palavra de Deus. Os pr\u00f3prios crist\u00e3os tamb\u00e9m nos come\u00e7aram a chamar os trabalhadores da Palavra de Deus. Ent\u00e3o, considerando isso uma prioridade, lan\u00e7\u00e1mos m\u00e3o da Verbum Bible, de Kinshasa. Os padres Profiro e Lesch vieram a Monapo e deram muito apoio na prepara\u00e7\u00e3o de apostolado b\u00edblico, principalmente na aquisi\u00e7\u00e3o de materiais.   <b>Em que l\u00ednguas fazem esse apostolado? <\/b> Em v\u00e1rias l\u00ednguas. N\u00f3s recebemos a B\u00edblia do Jovem, em macua atrav\u00e9s da Editorial Verbo Divino, mas subsidiada pela Verbum Bible. A Verbum Bible tamb\u00e9m est\u00e1 a subsidiar tradu\u00e7\u00f5es em ronga, shangana e xicopi. H\u00e1 uma necessidade de ter a B\u00edblia nas l\u00ednguas locais. Algumas tradu\u00e7\u00f5es chegam incompletas e, pior do que isso, muitas B\u00edblias que andam nas m\u00e3os dos nossos crist\u00e3os v\u00eam das seitas. Ao lado do material em l\u00ednguas nativas n\u00f3s temos a preocupa\u00e7\u00e3o de ter em portugu\u00eas uma boa tradu\u00e7\u00e3o. E como nas comunidades h\u00e1 sempre algu\u00e9m que sabe portugu\u00eas, pedimos aos crist\u00e3os, que leiam a B\u00edblia n\u00e3o s\u00f3 na l\u00edngua local mas tamb\u00e9m em portugu\u00eas e comparem as tradu\u00e7\u00f5es e consultem as notas para ver se com esse m\u00e9todo de ler v\u00e1rias tradu\u00e7\u00f5es nas comunidades chegamos a melhorar as tradu\u00e7\u00f5es locais. Existe uma preocupa\u00e7\u00e3o de melhorar, pois o que est\u00e1 nas m\u00e3os do povo n\u00e3o satisfaz.  <b>No passado recente, a Igreja em Mo\u00e7ambique viveu \u00e9pocas de sofrimento. Hoje numa nova situa\u00e7\u00e3o qual o papel que ela pode desempenhar? <\/b> \u00c9 uma pergunta complicada, porque aquela aur\u00e9ola do tempo da guerra civil em que a Igreja era salvadora da situa\u00e7\u00e3o, aquela que trazia a comida e o rem\u00e9dio, j\u00e1 passou. Foi uma ac\u00e7\u00e3o \u00f3ptima na situa\u00e7\u00e3o de guerra, n\u00e3o havia outra possibilidade na assist\u00eancia m\u00e9dica. A Igreja foi benfeitora, mas de maneira de bastante assistencialista, como a situa\u00e7\u00e3o exigia. Depois a Igreja foi a mediadora dos acordos de paz. Foi tamb\u00e9m um tempo \u00f3ptimo para a Igreja. At\u00e9 nas estat\u00edsticas se v\u00ea como aumentaram os candidatos ao baptismo.  Depois dessa aur\u00e9ola \u2013 e espero n\u00e3o ser injusto, quero salvaguardar os bons trabalhadores \u2013 no seu conjunto a Igreja hoje est\u00e1 olhando quase s\u00f3 para si mesma, entretida nas pr\u00f3prias estruturas. H\u00e1 algumas cartas pastorais sobre problemas sociais e pol\u00edticos, mas n\u00e3o h\u00e1 a meu ver uma ac\u00e7\u00e3o decidida e coordenada para enfrentar a nova situa\u00e7\u00e3o. Os pobres aumentam, a inseguran\u00e7a n\u00e3o diminui. As elei\u00e7\u00f5es foram sempre questionadas e algumas vezes com muita raz\u00e3o. Mo\u00e7ambique, para ir numa linha pol\u00edtica justa social, tem muito caminho pela frente. N\u00f3s, Igreja, n\u00e3o estamos fazendo evangeliza\u00e7\u00e3o, estamos numa de sacramentaliza\u00e7\u00e3o. As Igrejas enchem e desenchem. Elas enchem com centenas de candidatos, mas ap\u00f3s o baptismo muitos deles n\u00e3o voltam mais. Chegam ao baptismo, chegam onde queriam e depois desaparecem.   <b>Ent\u00e3o o que querem \u00e9 s\u00f3 o baptismo? <\/b> Talvez a culpa seja nossa. Talvez tenhamos passado a ideia de que o que interessa \u00e9 chegar ao baptismo. Uma vez baptizados desaparecem; muitos v\u00e3o para as seitas. Este \u00e9 um problema muito grande na Igreja em Mo\u00e7ambique. Temos que mudar o acento da sacramentaliza\u00e7\u00e3o para a verdadeira evangeliza\u00e7\u00e3o. Eu sempre me lembro de S. Paulo que escreve: \u201cEu n\u00e3o vim para baptizar, eu vim para evangelizar.\u201d Est\u00e1 na hora de termos a coragem de n\u00e3o dar sacramentos quando n\u00e3o temos a certeza de que a pessoa est\u00e1 mesmo com a ideia e quer ser mesmo crist\u00e3o. Eu tenho-me servido dos Actos dos Ap\u00f3stolos para esclarecer os nossos crist\u00e3os. Pedro, no dia de Pentecostes, anuncia o Messias, Jesus, e os ouvintes fazem uma pergunta: \u201cO devemos fazer?\u201d Pedro responde: \u201cConvertei-vos e recebei o baptismo\u201d. Nesse dia s\u00e3o baptizados uns tr\u00eas mil, diz o texto. Mas n\u00f3s paramos a\u00ed a leitura. Por\u00e9m, se a gente l\u00ea o relato que vem quase a seguir vemos como os que foram baptizados eram ass\u00edduos ao ensino dos Ap\u00f3stolos, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 partilha fraterna, tinham aquela alegria de viver em comunh\u00e3o. \u00c9 isso que est\u00e1 a faltar. Os nossos que s\u00e3o baptizados ainda n\u00e3o passaram a formar uma comunidade activa e viva.  <b>Em Mo\u00e7ambique, sobretudo no Norte, h\u00e1 muitos mu\u00e7ulmanos. Como \u00e9 o vosso relacionamento com eles? <\/b>Em Mo\u00e7ambique n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma grande evangeliza\u00e7\u00e3o sem levar a s\u00e9rio os mu\u00e7ulmanos. Temos de contar com eles. Como eles chegaram l\u00e1 antes do cristianismo t\u00eam ra\u00edzes na pr\u00f3pria cultura africana. \u00c9 f\u00e1cil conviver com eles, sobretudo com os antigos que n\u00e3o t\u00eam a tend\u00eancia fundamentalista. H\u00e1, portanto, uma distin\u00e7\u00e3o a fazer entre aqueles que s\u00e3o tradicionais e acostumados a conviver e aqueles que chegaram mais recentemente. Agora claro, \u00e9 dif\u00edcil haver uma mistura. Por exemplo se uma mulher casa com um mu\u00e7ulmano fica tamb\u00e9m obrigada a participar no islamismo. A\u00ed a toler\u00e2ncia \u00e9 pequena no sentido de deixar cada um na sua e respeitar o outro.    <b>Qual \u00e9 o papel dos mission\u00e1rios que v\u00e3o de fora? Ainda h\u00e1 espa\u00e7o para eles? Como \u00e9 que eles s\u00e3o vistos pela Igreja mo\u00e7ambicana e pelo povo? <\/b> Se n\u00f3s olharmos para as estat\u00edsticas, vemos que a maioria ainda n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o nem \u00e9 isl\u00e2mico, segue a religi\u00e3o tradicional. Ent\u00e3o os mission\u00e1rios s\u00e3o necess\u00e1rios. Olhando para o povo de Deus, esse povo nas aldeias e at\u00e9 nas cidades, creio que eles n\u00e3o duvidam que n\u00f3s somos necess\u00e1rios para o trabalho da primeira evangeliza\u00e7\u00e3o.  A n\u00edvel ideol\u00f3gico j\u00e1 \u00e9 outra conversa. A\u00ed temos tido experi\u00eancias ambivalentes que n\u00e3o satisfazem porque h\u00e1 uma tend\u00eancia bastante nacionalista na Igreja. H\u00e1 tend\u00eancia nacionalista, que \u00e9 compreens\u00edvel e justa at\u00e9 certo ponto. Por exemplo, em Angola \u00e9 diferente. Eu trabalhei 14 anos em Angola e umas das coisas mais agrad\u00e1veis foi constatar que o povo de Deus sempre soube distinguir o que era um mission\u00e1rio e um colono. Nunca me chamaram de colono, sempre me receberam como mission\u00e1rio. Mas aqui os mission\u00e1rios foram vistos como colonos.   <b>Estamos a celebrar o Ano Verbita da Leitura da B\u00edblia. O Pe. Manuel tem uma grande experi\u00eancia no apostolado b\u00edblico. O que gostaria que nascesse deste desta iniciativa da SVD? <\/b> Neste Ano Verbita da Leitura da B\u00edblia temos procurado levar a Palavra de Deus \u00e0s nossas comunidades crist\u00e3s de Mo\u00e7ambique. Penso que esta iniciativa da SVD foi uma coisa boa, que tem que dar um fruto bom. Eu gostaria que o pr\u00f3ximo Cap\u00edtulo Geral fizesse uma avalia\u00e7\u00e3o deste Ano da Leitura B\u00edblica e colocasse a B\u00edblia em evid\u00eancia para a nossa miss\u00e3o. No Conc\u00edlio Vaticano II foi dito que a B\u00edblia tem que chegar \u00e0 m\u00e3o de todo o crist\u00e3o. Ent\u00e3o, como verbitas, vamos ver se executamos aquilo que h\u00e1 40 anos a Igreja pediu e que o S\u00ednodo da Igreja em \u00c1frica tamb\u00e9m pediu. Eu gostaria imenso que n\u00f3s, depois deste ano, f\u00f4ssemos para um trabalho com precis\u00e3o. Podemos colaborar com os bispos do pa\u00eds e com outros mission\u00e1rios. N\u00f3s dev\u00edamos criar uma chama destacando a import\u00e2ncia da Palavra de Deus.    <b>A SVD tem no mundo v\u00e1rias editoriais e Institutos que trabalham directamente no campo do Apostolado B\u00edblico. Pode falar-nos de alguns desses meios? <\/b> Pessoalmente fiquei muito contente quando pude visitar o Centro B\u00edblico de S\u00e3o Paulo, no Brasil, e o Centro B\u00edblico de Quito, no Equador. Por exemplo, o Centro B\u00edblico do Verbo Divino, em Quito, atinge todo o pa\u00eds com as suas actividades. \u00c9 um Centro que foi crescendo e caminhando, passando por v\u00e1rias etapas. Houve uma primeira etapa em que se acentuou mais a forma\u00e7\u00e3o popular, com cursos para povo sobre a Palavra de Deus. A seguir veio uma etapa mais acad\u00e9mica em que os respons\u00e1veis deram mais destaque \u00e0s aulas e abertura de livrarias. Foi uma etapa que ainda hoje subsiste. Por\u00e9m, agora voltaram a direccionar as ac\u00e7\u00f5es para o povo simples.    <b>De certa forma isso pode ser um modelo a inspirar o apostolado b\u00edblico verbita em Mo\u00e7ambique e em Portugal ? <\/b> Sim, para n\u00e3o ficarmos s\u00f3 n\u00f3s pr\u00f3prios a ler a B\u00edblia, mas para atingir as dioceses do pa\u00eds. Temos de ter consci\u00eancia de que ao falar da B\u00edblia n\u00e3o estamos a vender uma mercadoria ou a promover uma devo\u00e7\u00e3o em particular. N\u00e3o \u00e9 nada disso; \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou morte, \u00e9 uma quest\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o ou perdi\u00e7\u00e3o. B\u00edblia \u00e9 que nos orienta, porque \u00e9 um caminho. Se aprendes a escutar Deus e levas isso a s\u00e9rio, n\u00e3o vais ter medo, vais bem. Mas se tu n\u00e3o levas a s\u00e9rio essa voz est\u00e1s perdido, est\u00e1s na confus\u00e3o. Ora bem, isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de cren\u00e7as, \u00e9 uma quest\u00e3o de f\u00e9. A B\u00edblia cont\u00e9m a Palavra de Deus. Ent\u00e3o n\u00f3s dev\u00edamos pegar nesse tesouro e dizer, como diz o Conc\u00edlio Vaticano II, que a B\u00edblia \u00e9 a norma fundamental para toda a vida crist\u00e3, \u00e9 a alma de toda a pastoral e de toda a teologia. N\u00e3o \u00e9 mais uma pastoral que vamos fazendo, \u00e9 a alma de todas as pastorais.    <b>Ou seja, a pastoral b\u00edblica n\u00e3o deveria ser uma moda passageira&#8230;<\/b> N\u00e3o \u00e9 moda, nem \u00e9 devo\u00e7\u00e3o; \u00e9 algo de fundamental que n\u00e3o pode faltar. \u00c9 algo que est\u00e1 no centro da vida da Igreja como disse S\u00e3o Jer\u00f3nimo e o Conc\u00edlio repetiu. Num Congresso B\u00edblico, um representante da Igreja Ortodoxa disse mais ou menos isto: \u201cN\u00f3s, os ortodoxos, nem movimento b\u00edblico temos apesar do destaque que a B\u00edblia tem na liturgia. N\u00f3s temos que recuperar a B\u00edblia. Os cat\u00f3licos demoraram 500 anos a reconhecer que a B\u00edblia \u00e9 indispens\u00e1vel, que s\u00f3 a h\u00f3stia (Eucaristia) n\u00e3o basta. A B\u00edblia tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel. Agora \u2013 dizia ele \u2013 esperamos que os nossos irm\u00e3os protestantes tamb\u00e9m n\u00e3o demorem outros 500 anos a reconhecer que s\u00f3 a B\u00edblia tamb\u00e9m n\u00e3o basta. Ora eu penso que h\u00e1 aqui uma palavra muita clara a dizer: A B\u00edblia \u00e9 indispens\u00e1vel.  <i>Entrevista: Contacto SVD<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pe. Manuel Abreu trabalha h\u00e1 nove anos em Mo\u00e7ambique. Este mission\u00e1rio do Verbo divino \u00e9 natural de Boi Vivo (Vila Verde) e foi ordenado sacerdote em 1967. Antes de ir para Mo\u00e7ambique trabalhou em Portugal e Angola. 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