{"id":181375,"date":"2020-07-17T00:01:24","date_gmt":"2020-07-16T23:01:24","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=181375"},"modified":"2020-07-16T16:13:04","modified_gmt":"2020-07-16T15:13:04","slug":"rodrigo-leao-e-a-musica-para-um-caminho-espiritual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/rodrigo-leao-e-a-musica-para-um-caminho-espiritual\/","title":{"rendered":"Rodrigo Le\u00e3o e a m\u00fasica para um caminho espiritual"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abAvis 2020\u00bb \u00e9 lan\u00e7ado esta sexta-feira e resulta dos dias de confinamento de Rodrigo Le\u00e3o numa vila alentejana, que d\u00e1 nome ao EP. Nos passeios que podia fazer pelos campos foi testemunhando as nuvens, o canto dos p\u00e1ssaros, as \u00e1rvores e a natureza a dar lugar \u00e0 primavera e, dentro de si, a tens\u00e3o a dar lugar \u00e0 esperan\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_181378\" aria-describedby=\"caption-attachment-181378\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-181378 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"681\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1-980x652.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Rodrigo_Leao1-480x319.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-181378\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Augusto Br\u00e1zio, www.rodrigoleao.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p><em><br \/>\n<\/em>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, Rodrigo Le\u00e3o afirma que os sons deste EP sairiam de qualquer forma, noutros trabalhos, mas neste, o som est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do original que captou e assim o pretendia apresentar.<br \/>\nA m\u00fasica que comp\u00f5e poderia ser uma banda sonora para um caminho espiritual e diz que as perguntas chaves da vida est\u00e3o, \u201cde forma inconsciente\u201d, presentes nas ideias que procura desenvolver e, de forma mais intensa, nos \u00faltimos trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia &#8211; O que significa Avis? \u00c9 o seu ref\u00fagio, a sua casa, \u00e9 tamb\u00e9m um contexto neste tempo, mas \u00e9 tamb\u00e9m um abra\u00e7o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Rodrigo Le\u00e3o \u2013 \u00c9 o s\u00edtio especial para n\u00f3s. Eu e a Ana Carolina cas\u00e1mos aqui h\u00e1 20 anos nesta casa, no meio do campo, a dois quil\u00f3metros de Avis, no meio das oliveiras. \u00c9 uma casa que n\u00f3s, a pouco e pouco, fomos construindo: coisas que eram necess\u00e1rias fazer que n\u00e3o conseguimos durante o ano e fomos fazendo ao longo do tempo como a veda\u00e7\u00e3o do terreno, plantar mais \u00e1rvores, pintar, fazer os alpendres.<\/p>\n<p>\u00c9 um s\u00edtio onde acabamos por passar muito tempo, o tempo dispon\u00edvel que temos para vir para aqui, seja ao fim-de-semana ou durante as f\u00e9rias, onde passamos com muitos amigos, que convidamos, para passar dias connosco. E as pessoas mais chegadas da nossa fam\u00edlia.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tem sido um contexto sonhado, constru\u00eddo a par?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 \u00c9 quase a concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho porque \u00e9 um privil\u00e9gio podermos ter este s\u00edtio no meio do campo com este sossego que existe aqui e n\u00e3o existe nos grandes centros urbanos.<\/p>\n<p>Tem a barragem do Maranh\u00e3o que \u00e9 a dois ou tr\u00eas quil\u00f3metros e um s\u00edtio para onde tivemos a possibilidade de vir em mar\u00e7o, quando come\u00e7ou a situa\u00e7\u00e3o do Covid-19. Nunca t\u00ednhamos estado tanto tempo. Estamos c\u00e1 h\u00e1 mais de quatro meses, raramente vamos a Lisboa, e quando vamos regressamos no pr\u00f3prio dia.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estar em Avis ajudou-o a lidar com o confinamento?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Acho que sim: \u00e9 um s\u00edtio muito calmo, que ajuda a pensar mais sobre tudo: as nossas rela\u00e7\u00f5es, as nossas vidas e \u00e9 um s\u00edtio onde, claro, muitas vezes tento trabalhar, procurar ideias com um sintetizador, temos tamb\u00e9m um piano vertical, tenho uma guitarra baixo e uma guitarra ac\u00fastica\u2026 alguns instrumentos que me d\u00e3o jeito ter por perto quando estou a procurar encontrar ideias.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E como foi compor no confinamento? Foi uma necessidade, um processo de descoberta, foi o permitir lidar com esta situa\u00e7\u00e3o, compondo?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Acaba por ser uma necessidade que tenho mesmo em situa\u00e7\u00f5es normais. Durante o primeiro m\u00eas, o facto de estarmos a viver t\u00e3o intensamente tudo isto, n\u00e3o foi algo que me ajudasse ou que me permitisse encontrar ideias boas ou estar inspirado e mais focado.<\/p>\n<p>As poucas vezes que me sentei para tentar fazer alguma coisa durante o primeiro m\u00eas n\u00e3o aconteceu praticamente nada. Mas a verdade \u00e9 que ao fim de um m\u00eas e pouco, apanh\u00e1mos a transi\u00e7\u00e3o do inverno para a primavera, e comecei a fazer alguns filmes com o meu telem\u00f3vel, filmes curtos, das nuvens do c\u00e9u, das \u00e1rvores, do canto, das plan\u00edcies, filmes de 50 segundos; e chegava a casa e tentava, muito espontaneamente e intuitivamente, encontrar uma ideia de uma m\u00fasica para essas filmagens.<\/p>\n<p>E isso come\u00e7ou por fazer com que tivesse mais algum entusiasmo com essas pequenas ideias e assim surgiu este novo EP, que s\u00e3o nove faixas de pequenas m\u00fasicas, de cerca de dois minutos, e se chama \u00abAvis 2020\u00bb.<\/p>\n<p>Pensei que seria interessante poder registar essas m\u00fasicas, que acabei por fazer quase sozinho aqui no Alentejo, mas fui dois dias a Lisboa para, num est\u00fadio caseiro, juntamente com o Jo\u00e3o Eleut\u00e9rio e o Pedro Oliveira, grandes amigos de longa data e companheiros que me ajudam a produzir a concretizar as minhas ideias, e acabamos por misturar estas ideias em dois dias. E assim nasceu este trabalho.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Que momentos t\u00eam o \u00abAvis 2020\u00bb? A transi\u00e7\u00e3o do inverno para a primavera, algumas faixas ter\u00e3o um tom mais de esperan\u00e7a outras mais tensas\u2026 como explicar estes momentos que comp\u00f5em o EP?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Estou a lembrar-me da primeira ideia: uma m\u00fasica com nuvens ao fim do dia e que acho que reflete aquilo que est\u00e1vamos a viver, o que eu sentia, apesar de estarmos aqui com a fam\u00edlia e dois amigos chegados e podermos fazer caminhadas e passear. \u00c9 evidente que est\u00e1vamos preocupados, como ainda hoje estamos preocupados.<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 algumas ideias onde j\u00e1 se nota alguma esperan\u00e7a, seja nas imagens onde j\u00e1 aparece mais luz, onde se nota que a primavera est\u00e1 a come\u00e7ar e isso est\u00e1 tudo muito presente nestes trechos. Acabaram por estar ligados, n\u00e3o s\u00f3 com as pessoas \u00e0 minha volta, como com este s\u00edtio onde estamos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que \u00e9 que o \u00abAvis 2020\u00bb reflete do percurso do Rodrigo Le\u00e3o? Se olharmos para este trabalho, ele \u00e9 fruto deste contexto ou vem na linha de composi\u00e7\u00e3o do Rodrigo Le\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Vem na linha do que tenho vindo a fazer. Mas claro que est\u00e1 tamb\u00e9m marcado pelo facto de estarmos a viver este momento de confinamento. Diria que seriam temas que eu poderia ter feito h\u00e1 dois ou tr\u00eas anos mas que depois estariam durante uns meses a ser trabalhados. Aqui est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da sua originalidade.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E era importante mostrar essa originalidade?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Sim, porque seria muito complicado irmos para est\u00fadio com muitos m\u00fasicos, com um quarteto de cordas, cantores\u2026 isto \u00e9 muito semelhante \u00e0s ideias que normalmente tento construir para outros discos. Por vezes essas ideias, algumas delas levam muitas voltas, arranjos diferentes ao longo de meses, n\u00e3o s\u00f3 com sugest\u00f5es dos produtores que trabalham comigo, dos pr\u00f3prios m\u00fasicos, dos arranjos que o Carlos Tony Gomes faz por vezes para as cordas, e tudo isso tornaria estas m\u00fasicas diferentes.<\/p>\n<p>Apesar de poderem ser as mesmas harmonias e melodias, mas a escolha de sons, arranjos, instrumentos, daria um som diferente deste. Era tamb\u00e9m importante manter o som o mais perto poss\u00edvel do original.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ouvi um poeta falar sobre a sua necessidade de escrever poesia, nem que fosse para a enterrar logo a seguir, sem mostrar a ningu\u00e9m. Sente o mesmo? Compor \u00e9 uma necessidade vital ou precisa dela para depois dialogar com o p\u00fablico?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 \u00c9 uma necessidade que eu penso estar dentro de mim desde h\u00e1 muito tempo. Ao contr\u00e1rio de muitas pessoas que s\u00f3 gostam de mostrar as coisas quando est\u00e3o acabadas, e t\u00eam dificuldade em mostrar o que fazem, eu mostro tudo \u00e0s pessoas que est\u00e3o pr\u00f3ximas de mim, coisas que v\u00e3o depois para o lixo e que eu penso \u00abComo \u00e9 poss\u00edvel ter perdido o tempo que perdi com uma ideia que, afinal n\u00e3o parece nada de especial\u00bb.<\/p>\n<p>S\u00e3o momentos com altos e baixos que fazem parte do processo de tentar descobrir ideias e concretiz\u00e1-las.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Este trabalho vai ser apresentado, fruto do contexto da pandemia, em locais mais pequenos e intimistas. Pergunto-lhe se o intimista, e o \u00edntimo, lhe interessa?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 N\u00f3s temos forma\u00e7\u00f5es diferentes, temos pelo menos tr\u00eas projetos neste momento: \u00abO M\u00e9todo\u00bb resulta mais em salas intimistas, teatros e salas mais pequenas. O outro projeto, \u00abOs Portugueses\u00bb, s\u00e3o can\u00e7\u00f5es cantadas em portugu\u00eas e muitos temas que compus para \u00abPortugal, um retrato social\u00bb, 2007, document\u00e1rio do professor Ant\u00f3nio Barreto. H\u00e1 um projeto que se chama \u00abO Mundo\u00bb e a\u00ed sim, tocamos em espa\u00e7os maiores, porque \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o com mais m\u00fasicos, com bateria e baixo, e \u00e9 nesse espet\u00e1culo que tocamos can\u00e7\u00f5es de quase todos os meus trabalhos.<\/p>\n<p>Este disco, \u00abO M\u00e9todo\u00bb, e as m\u00fasicas deste novo EP \u00abAvis 2020\u00bb, s\u00e3o m\u00fasicas mais intimistas que eu penso que resultam melhor em salas e teatros e vamos ter a oportunidade de apresentar dia 15 de agosto, no Casino Estoril, e vai ser o primeiro concerto em que vamos fazer um esfor\u00e7o muito grande para fazer um <em>streeming<\/em> com condi\u00e7\u00f5es para as pessoas, que est\u00e3o em casa, poderem assistir com um bom som, bom imagem e isso \u00e9 um lado importante do meu trabalho.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Pergunto-lhe isto porque a sua m\u00fasica acompanha um caminho espiritual das pessoas, quase uma banda sonora espiritual. Como reage a essa recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 A minha m\u00fasica acaba por transmitir alguma paz, sossego. \u00c9 uma m\u00fasica que faz pensar, que podemos ouvir em espa\u00e7os, como dizia, mais fechados. Acredito que todos n\u00f3s temos um lado espiritual de viver, de encarar a vida: porque \u00e9 que existimos, para onde vamos quando morrermos, porque nascemos?<\/p>\n<p>Tudo isto acaba por, de uma forma inconsciente, estar presente em muitas ideias que tento fazer.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A sua m\u00fasica procura fazer perguntas, n\u00e3o encontrar respostas\u2026<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 H\u00e1 quase uma esp\u00e9cie de filosofia que est\u00e1 muito presente nos meus trabalhos. Fazemos muitas perguntas para as quais n\u00e3o temos respostas e muitas dessas perguntas at\u00e9 fazem sentido precisamente porque n\u00e3o t\u00eam resposta e h\u00e1 algo de misterioso, de espiritual, muito mais intenso nestes \u00faltimos trabalhos.<\/p>\n<p><em>AE \u2013N\u00e3o posso deixar de focar o trabalho de 2015, \u00abO retiro\u00bb. Li que era um trabalho que h\u00e1 muito estava consigo, no seu pensamento. Gostava de perceber porqu\u00ea. Para quem \u00e9 crente ou para quem procura, s\u00f3 a palavra em si, tem um significado grande.<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Foi um trabalho um pouco diferente dos meus trabalhos habituais. Era um disco com a participa\u00e7\u00e3o da Orquestra e coro da Gulbenkian, e s\u00f3 isto j\u00e1 me deixava um pouco nervoso e tenso. Mas estive seis meses a compor, a procurar ideias, como costumo fazer para qualquer trabalho. Tivemos, nesse disco, a oportunidade de gravar na sala da Gulbenkian, que tem condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias para som, um produtor alem\u00e3o que veio com uma s\u00e9rie de material e microfones para captar a orquestra e o coro e foi, no fundo, apesar de j\u00e1 ter trabalhado at\u00e9 2015, com outras orquestras, como a Sinfonieta e ter feito alguns trabalhos, a maioria ao vivo, este foi talvez o primeiro disco pensado para orquestra e coro.<\/p>\n<p>Era um disco mais elaborado, tinha arranjos feitos para orquestra pelo Carlos Tony Gomes, pelo Steve Bartek, porque, eu sozinho, n\u00e3o conseguiria fazer arranjos para orquestra. Eu dou as primeiras ideias para um violoncelo, violino ou viola, mas deixei essa parte para pessoas que eu admiro muito com quem gosto de trabalhar.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sente que o seu trabalho fica incompleto sem a ajuda de outros?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 N\u00e3o sei se ser\u00e1 a palavra \u00abincompleto\u00bb, fica diferente. \u00c9 o caso do \u00abAvis 2020\u00bb que n\u00e3o tem as participa\u00e7\u00f5es habituais que costumo ter. A minha m\u00fasica tem uma simplicidade, mesmo com colabora\u00e7\u00f5es e que est\u00e1, umas vezes mais presente do que outras.<\/p>\n<p>\u00c9 uma maneira de estar perante a m\u00fasica que gostava de manter, esta oportunidade de descobrir ideias. Eu n\u00e3o procuro a perfei\u00e7\u00e3o, tenho momentos que sou mais pregui\u00e7oso que outros, tenho de trabalhar mais, mas n\u00e3o h\u00e1 uma obsess\u00e3o em procurar a perfei\u00e7\u00e3o, acho que n\u00e3o existe. Sei distinguir m\u00fasicas que ficaram melhor conseguidas que outras, n\u00e3o s\u00f3 pelos arranjos, mas \u00e9 algo com que vivo bem.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No processo criativo, que lugar tem o sil\u00eancio? No ensaio, na procura, no perceber se resulta\u2026<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 O sil\u00eancio \u00e9 muito importante. Eu trabalho mais durante a noite, ent\u00e3o aqui no Alentejo h\u00e1 um sil\u00eancio fant\u00e1stico. Para al\u00e9m das horas em que estou a trabalhar com o computador e o sintetizador em que vou gravando as minhas ideias, revejo o que eu fiz no dia anterior e vejo se est\u00e1 no bom caminho\u2026 tenho muitas d\u00favidas durante o processo, pe\u00e7o sempre ajuda mesmo quando estou no in\u00edcio, gosto de mostrar um bocadinho da ideia que estou a trabalhar para perceber a rea\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A m\u00fasica vai revelando a sua passagem pelo tempo? Vai cruzando os trabalhos com o seu crescimento pessoal?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 \u00c9 imposs\u00edvel conseguir desligar aquilo que estamos a fazer em determinado momento da realidade de tudo que est\u00e1 \u00e0 nossa volta. Se estamos mais tristes ou alegres, as viagens que fazemos muitas vezes s\u00e3o tamb\u00e9m uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o grande para fazer m\u00fasica. Mas sempre de forma intuitiva. N\u00e3o creio que as m\u00fasicas que tento fazer sejam demasiadamente pensadas, surgem naturalmente e v\u00e3o ressurgindo.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E \u00e9 dessa forma que quer entregar \u00e0s pessoas que acompanham o seu trabalho.<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Claro. As pessoas acabam por perceber a minha maneira de trabalhar e a m\u00fasica que eu tento fazer e dar a conhecer \u00e0s pessoas. Grande parte das pessoas sabe que eu sou um autodidata, aprendi a tocar com os amigos, n\u00e3o tenho em mente fazer coisas que n\u00e3o sei fazer.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas h\u00e1 fez tanto, bandas sonoras\u2026<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Tenho tido muita sorte. Poder cruzar estilos musicais muito diferentes que eu comecei a ouvir desde a minha inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia, em casa dos meus pais, desde a m\u00fasica cl\u00e1ssica, \u00e0 m\u00fasica pop brit\u00e2nica, tango, m\u00fasica brasileira. Foi importante para o meu percurso, n\u00e3o estar preso s\u00f3 a um estilo musical mas poder abordar v\u00e1rios estilos musicais que est\u00e3o muito presentes na minha m\u00fasica.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Em \u00abO M\u00e9todo\u00bb descobrimos que gosta de desenhar. \u00c9 um repouso, uma procura interior\u2026 como surge o desenho?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 Ao longo dos \u00faltimos tr\u00eas, quatro anos, havia momentos em que estava a tentar fazer m\u00fasica e n\u00e3o saia nada. Comecei a pegar numas canetas e a fazer desenhos abstratos, quase por brincadeira. Tirava uma hora e estava entretido a desenhar. Foi acontecendo com mais frequ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00abO M\u00e9todo\u00bb acabou por ficar muito marcado por alguns desenhos que fui fazendo aos longos dos \u00faltimos anos. \u00abO M\u00e9todo\u00bb, ao contr\u00e1rio de outros trabalhos, ter\u00e1 sido o disco que demorou mais tempo a fazer. Eu tinha muitas ideias reunidas, mais de 50 ideias, e acabaram por ficar 11 ou 12, ou 13. Houve muita procura n\u00e3o s\u00f3 de sons, mas de report\u00f3rio: o que faz sentido ficar ou sair.<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos anos houve desenhos que estavam muito ligados a estes momentos em que procurei encontrar m\u00fasicas para este trabalho.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando preparava esta nossa conversa deparei-me com uma cita\u00e7\u00e3o do compositor Ennio Morricone, que faleceu recentemente, e ele dizia: \u00abA m\u00fasica certamente est\u00e1 pr\u00f3xima de Deus. Ao mesmo tempo a m\u00fasica est\u00e1 projetada na alma e no c\u00e9rebro do homem, porque o ajuda a meditar\u00bb. Consegue perceber isso na sua m\u00fasica?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013Na m\u00fasica que tento fazer h\u00e1, sem d\u00favida, um espa\u00e7o para meditar e para pensarmos concerteza, na exist\u00eancia de um Deus, provavelmente de maneiras diferentes, mas claro que a m\u00fasica pode servir como ponte, penso eu, para um pensamento mais abstrato, mais espiritual.<\/p>\n<p>O Ennio Morricone era um grande compositor.<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que espera que este tempo de confinamento possa provocar em n\u00f3s, enquanto sociedade que olha para a cultura, e enquanto homens que se relacionam?<\/em><\/p>\n<p>RL \u2013 J\u00e1 est\u00e1 a provocar e vai provocar mais ainda. Gostava de acreditar que no meio de tudo isto possa acontecer alguma coisa de boa \u00e0s pessoas, na maneira de olharmos para o mundo, de olharmos para as outras pessoas.<\/p>\n<p>Vivemos momentos de uma incerteza t\u00e3o grande que n\u00e3o nos deixa fazer planos.<\/p>\n<p>Espero que as pessoas possam, acima de tudo, ajudar-se umas \u00e0s outras, serem mais humanas, ter mais aten\u00e7\u00e3o com tudo o que est\u00e1 \u00e0 nossa volta, com o clima, com tudo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abAvis 2020\u00bb \u00e9 lan\u00e7ado esta sexta-feira e resulta dos dias de confinamento de Rodrigo Le\u00e3o numa vila alentejana, que d\u00e1 nome ao EP. Nos passeios que podia fazer pelos campos foi testemunhando as nuvens, o canto dos p\u00e1ssaros, as \u00e1rvores e a natureza a dar lugar \u00e0 primavera e, dentro de si, a tens\u00e3o a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":181378,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,3],"tags":[359],"class_list":["post-181375","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-nacional","tag-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=181375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181375\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/181378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=181375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=181375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=181375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}