{"id":181346,"date":"2020-07-17T07:00:54","date_gmt":"2020-07-17T06:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=181346"},"modified":"2020-07-16T11:52:00","modified_gmt":"2020-07-16T10:52:00","slug":"covid-19-dificuldades-poderao-vir-a-ser-muito-maiores-eugenio-fonseca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covid-19-dificuldades-poderao-vir-a-ser-muito-maiores-eugenio-fonseca\/","title":{"rendered":"Covid-19: \u00abDificuldades poder\u00e3o vir a ser muito maiores\u00bb &#8211; Eug\u00e9nio Fonseca"},"content":{"rendered":"<p><em>A C\u00e1ritas Portuguesa lan\u00e7ou esta um apelo p\u00fablico de apoio, no qual defendeu uma \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o nacional\u201d para refor\u00e7ar a resposta solid\u00e1ria \u00e0 crise provocada pela pandemia. A Renascen\u00e7a e a ECCLESIA entrevistam o presidente do organismo cat\u00f3lico de solidariedade, Eug\u00e9nio Fonseca, sobre o impacto da crise sanit\u00e1ria e econ\u00f3mica.<\/em><!--more--><\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><a style=\"font-weight: bold;\" href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-164438 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1152\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-400x240.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-768x461.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-1536x922.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-1080x648.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-1280x768.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-980x588.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas05-480x288.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foto: Joana Bougard\/RR<em>A C\u00e1ritas quer inverter a curva da pobreza em Portugal, e foi com esse objetivo que esta semana lan\u00e7ou uma nova campanha, refor\u00e7ando o apelo \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o dos portugueses. Est\u00e1 a ser dif\u00edcil manter a ajuda a quem precisa, sendo certo que h\u00e1 cada vez mais gente a necessitar de apoio?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. J\u00e1 est\u00e1 a ser dif\u00edcil, e seria bom que estas dificuldades se mantivessem no n\u00edvel que est\u00e3o. A preocupa\u00e7\u00e3o que temos, pelos indicadores que s\u00e3o p\u00fablicos, \u00e9 que as dificuldades poder\u00e3o vir a ser muito maiores a partir do \u00faltimo trimestre deste ano, com um agravamento maior no primeiro trimestre (de 2021), porque as pessoas que nos procuram a causa fundamental para os pedidos \u00e9 a perda do trabalho e a baixa significativa que tiveram nos rendimentos. Ora, se \u00e9 verdade que o desemprego pode ter um aumento substancial a curto prazo, essas dificuldades v\u00e3o ser maiores.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E v\u00e3o manter-se no tempo.<\/em><\/p>\n<p>Tudo indica que a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica de que se fala vai ser mais lenta, porque estamos a falar de uma contra\u00e7\u00e3o da economia, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel de alguns pa\u00edses da Europa, mas de toda a Europa e do mundo inteiro. Neste caso a crise n\u00e3o vai com certeza ser igual em todos os pa\u00edses, em termos da sua agressividade, os pa\u00edses com economias mais d\u00e9beis v\u00e3o sofrer mais, e n\u00f3s em Portugal temos este problema estrutural de que a produtividade n\u00e3o \u00e9 suficiente para satisfazer o n\u00edvel de necessidades, sendo a nossa depend\u00eancia externa na ordem dos 60%. Isto \u00e9 uma grande dificuldade.<\/p>\n<p><em>Dos indicadores que j\u00e1 foi poss\u00edvel recolher \u2013 e ainda estamos no in\u00edcio da crise \u2013 em quanto \u00e9 que cresceram os pedidos de ajuda \u00e0 C\u00e1ritas, e \u00e0 rede de C\u00e1ritas diocesanas?<\/em><\/p>\n<p>Confirma-se os 40%, at\u00e9 com um ligeiro aumento, tendo em conta que de maio a junho ajudamos 3371 pessoas, o que representa 49% de casos novos. Claro que o n\u00famero de casos que tem aparecido \u00e0 C\u00e1ritas \u00e9 maior, mas nem sempre as ajudas pretendidas est\u00e3o ao nosso alcance, por falta de meios financeiros dispon\u00edveis. Mas, n\u00e3o quer dizer que as pessoas fiquem sem algum tipo de resposta, nem que seja ajud\u00e1-las a encontrar oportunidades de ajuda atrav\u00e9s dos outros parceiros, encaminhando-as at\u00e9 para as medidas que o governo tem vindo a implementar para aliviar essas mesmas dificuldades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que as pessoas precisam mais? Alimenta\u00e7\u00e3o, pagar contas?<\/em><\/p>\n<p>A alimenta\u00e7\u00e3o\u2026 s\u00f3 para terem uma ideia, entre maio e junho, com a ajuda de v\u00e1rios parceiros &#8211; superf\u00edcies comerciais, Banco Alimentar &#8211; s\u00f3 entre as pessoas que procuram a C\u00e1ritas distribu\u00edmos 132 toneladas de bens, essencialmente alimentos.<\/p>\n<p>Houve uma onda enorme de solidariedade na fase inicial da pandemia, quando se come\u00e7ou a vislumbrar a crise econ\u00f3mica, que assentou predominantemente, para n\u00e3o dizer exclusivamente, no apoio \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de bens alimentares. Porque esta crise teve essa surpreendente novidade: veio de repente, de uma forma abrupta, e logo no primeiro m\u00eas em que as pessoas se viram sem rendimentos &#8211; n\u00e3o quer dizer que foi sem trabalho, porque foi aquele m\u00eas em que houve o impasse entre a solicita\u00e7\u00e3o e a aprova\u00e7\u00e3o do lay-off, e naquelas empresas que n\u00e3o puderam avan\u00e7ar com os vencimentos, as pessoas tiveram um m\u00eas sem vencimento. A\u00ed sentiram-se muito os pedidos de ajuda, e aquilo que pediam era aquilo que n\u00e3o era costume, que era logo para a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Isso n\u00e3o mostra a enorme fragilidade em que as pessoas vivem, em que qualquer surpresa faz com que seja imposs\u00edvel manter a sua vida normal?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um bocadinho o espelho do tipo de economia que temos, que nada tem de sustent\u00e1vel. And\u00e1mos muito tempo estupefactos com a recupera\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds teve em termos econ\u00f3micos, depois de uma crise com consequ\u00eancias bastante adversas para a maioria da popula\u00e7\u00e3o portuguesa. Essa\u00a0 recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica foi feita pela avalancha de turismo, que ningu\u00e9m consegue explicar, de repente aconteceu, descobriu-se como Portugal era &#8211; e \u00e9, de verdade &#8211; uma boa op\u00e7\u00e3o para fazer turismo, o que arrastou consigo a necessidade de alojamentos para um certo tipo de turismo que era mais b\u00e1sico, com menos poder econ\u00f3mico, e da\u00ed surgiram os alojamentos locais. Eu n\u00e3o quero dizer que foram os alojamentos locais que arrastaram este problema, mas o que \u00e9 facto \u00e9 que a falta de habita\u00e7\u00e3o fez com que nas casas dispon\u00edveis os seus propriet\u00e1rios elevassem o pre\u00e7o das rendas de uma forma totalmente desproporcionada dos rendimentos. A recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica tamb\u00e9m aconteceu para al\u00e9m do Turismo, porque as ofertas de trabalho tamb\u00e9m eram, em termos remunerat\u00f3rios, muito baixas. T\u00ednhamos licenciados a ganhar 700 euros\u2026<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a regi\u00e3o do pa\u00eds mais problem\u00e1tica neste momento? Onde \u00e9 que cresceram mais os pedidos de ajuda?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 outra situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m nos deixa com muitas inquieta\u00e7\u00f5es, \u00e9 que ela \u00e9 transversal a todo o pa\u00eds. At\u00e9 nas zonas onde uma certa economia familiar, no sentido da subsist\u00eancia, ia amolecendo aquilo que eram as necessidades mais b\u00e1sicas, at\u00e9 a\u00ed est\u00e3o a chegar pedidos. Porque o pr\u00f3prio confinamento sanit\u00e1rio criou algumas necessidades das pessoas no acesso \u00e0s respostas que existem. N\u00e3o fora um movimento espont\u00e2neo, muito a partir das autarquias e das par\u00f3quias, dos grupos de maior proximidade, que ajudaram as pessoas a resolver o acesso a essas oportunidades que estavam a ser geradas, e o drama teria sido maior.<\/p>\n<p>Eu chamo a aten\u00e7\u00e3o para uma quest\u00e3o que come\u00e7ou a surgir e, por proposta da C\u00e1ritas, gerou-se uma plataforma de apoio psicol\u00f3gico, que est\u00e1 sediada agora no minist\u00e9rio da sa\u00fade. Mas, os problemas est\u00e3o-se a agudizar e agora n\u00e3o basta o apoio psicol\u00f3gico, j\u00e1 nos est\u00e1 a ser pedida ajuda para pessoas que est\u00e3o a ficar com depress\u00f5es ps\u00edquicas, com um certo tipo de obsessividade e com medo, porque no fim de contas tamb\u00e9m se instalou o medo relativamente ao futuro. H\u00e1 que agilizar o apoio no campo da sa\u00fade mental, que tem grandes lacunas no sistema nacional de sa\u00fade, e n\u00e3o aconte\u00e7a o que aconteceu na crise anterior, em que se baixaram significativamente aqueles medicamentos de uso mais habitual, e se elevou o pre\u00e7o dos f\u00e1rmacos relacionados com o tratamento no que diz respeito \u00e0 sa\u00fade mental, alguns at\u00e9 sem comparticipa\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o pode ser, porque esses problemas de ordem mais psiqui\u00e1trica s\u00e3o resultantes dos problemas que as pessoas est\u00e3o enfrentar com muita dificuldade emocional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_164435\" aria-describedby=\"caption-attachment-164435\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-164435\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-400x240.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-400x240.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-768x461.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-1536x922.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-1080x648.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-1280x768.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-980x588.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02-480x288.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas02.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-164435\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joana Bougard\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Esta pandemia provocou dificuldades tamb\u00e9m \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, e no caso de C\u00e1ritas impediu que este ano se realizasse o pedit\u00f3rio p\u00fablico, que \u00e9 uma das principais fontes de receita. Tem dito nas suas entrevistas que j\u00e1 come\u00e7a a n\u00e3o haver meios para ajudar, para al\u00e9m da alimenta\u00e7\u00e3o propriamente dita. \u00c9 nesta linha que surge a nova campanha &#8216;Her\u00f3is Doar&#8217;? H\u00e1 aqui um apelo claro para que os portugueses ajudem?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o digo que estejam satisfeitas todas as necessidades alimentares, agora \u00e9 preciso saber que os g\u00e9neros alimentares t\u00eam de ser cozinhados, e para cozinhar \u00e9 preciso ter g\u00e1s, ter \u00e1gua, ter energia el\u00e9trica.<\/p>\n<p>O governo, logo no in\u00edcio, criou medidas que s\u00e3o muito importantes, como a de ningu\u00e9m ser despejado da sua casa, ningu\u00e9m ter cortes de eletricidade, de g\u00e1s ou de \u00e1gua, mas isto vai durar at\u00e9 dezembro, e n\u00f3s estamos a ajudar as pessoas a perceberem que, ao recorrerem a estas medidas, est\u00e3o a contrair d\u00edvida, e s\u00f3 se apercebem quando acabar a morat\u00f3ria, o que quer dizer que em janeiro as pessoas v\u00e3o ter de acumular parte da d\u00edvida contra\u00edda com as despesas relativas a esse m\u00eas, se entretanto n\u00e3o forem tomadas outras medidas.<\/p>\n<p>H\u00e1 que evitar o endividamento das fam\u00edlias, porque depois \u00e9 uma espiral que leva muito tempo a recuperar. N\u00e3o \u00e9 certo que o trabalho seja devolvido, a curto prazo, e se assim n\u00e3o for as pessoas nunca mais se equilibram, em termos dos or\u00e7amentos pessoais e familiares. H\u00e1 outra dado: grande parte das pessoas, neste pa\u00eds, n\u00e3o t\u00eam g\u00e1s canalizado, t\u00eam de ir comprar a botija e onde a v\u00e3o comprar, t\u00eam de a pagar. Se n\u00e3o a pagam, fica no tal \u201crol\u201d, mas tem de ser paga um dia, portanto, estas ajudas s\u00e3o aquelas que agora nos est\u00e3o a ser pedidas com maior frequ\u00eancia. Al\u00e9m disso, h\u00e1 outra que \u00e9 nova, s\u00e3o os apoios para suportar os gastos com a internet.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que tamb\u00e9m aumentaram, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Aumentaram, por causa dos estudos. Muita gente n\u00e3o tem internet como servi\u00e7o, em casa, tem de comprar pacotes, que t\u00eam uma certa dura\u00e7\u00e3o. Claro que quando se trata de necessidades como o acesso \u00e0 instru\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Este \u00e9 um problema que o pa\u00eds vai ter de resolver, n\u00e3o posso ouvir dizer que h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o que pode estar j\u00e1 com o seu futuro hipotecado s\u00f3 porque houve turbul\u00eancia no sistema de ensino. Isso n\u00e3o pode acontecer. A Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos alicerces fundamentais para a autonomia das pessoas, no acesso \u00e0s oportunidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando \u00e0 campanha: a C\u00e1ritas precisa de ajuda para continuar a ajudar, mas n\u00e3o receia que esta crise tamb\u00e9m a ajuda dos portugueses seja dif\u00edcil?<\/em><\/p>\n<p>Receio. Confesso, \u00e9 ser realista. J\u00e1 disse h\u00e1 pouco: foi grande a generosidade dos portugueses, houve um envolvimento muito grande dos media nessa solidariedade e foi gra\u00e7as a esse envolvimento que se conseguiu gerar uma grande onda de solidariedade. Tamb\u00e9m compreendemos que n\u00e3o se pode andar, atrav\u00e9s dos media, constantemente neste tipo de campanhas, at\u00e9 porque elas t\u00eam a tend\u00eancia de diminu\u00edrem no seu fluxo. O apelo que fa\u00e7o \u00e9 que, aqueles que ainda podem, n\u00e3o fiquem indiferentes. Os que podem ainda, que n\u00e3o fiquem indiferentes.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero que aquilo que vou dizer seja qualquer tipo de chantagem, mas \u00e9 constatar: muita gente chega a dizer-me \u2018tanto ajudei e agora sou eu que preciso\u2019. Isto \u00e9 uma amargura muito grande para as pessoas. Tenhamos presente, nesta din\u00e2mica solid\u00e1ria, vamos provar que do pouco que temos \u2013 essa \u00e9 a experi\u00eancia da C\u00e1ritas \u2013 ainda se partilha, em favor dos outros.<\/p>\n<p>Claro que aqui tamb\u00e9m de entrar a dita responsabilidade social das empresas. Aquelas que est\u00e3o consolidadas, em termos financeiros, t\u00eam de partilhar alguns dos dividendos, n\u00e3o deixando isso para quem j\u00e1 tem muito dinheiro \u2013 administradores e outros, que j\u00e1 t\u00eam sal\u00e1rios significativos.<\/p>\n<p>H\u00e1 um testemunho interessante, que j\u00e1 recebemos de duas embaixadas: em vez de fazerem uma festa, no dia do seu pa\u00eds, distribu\u00edram esses encargos que tinham por algumas institui\u00e7\u00f5es, nomeadamente pela C\u00e1ritas. \u00c9 um exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta campanha vai durar at\u00e9 quando?<\/em><\/p>\n<p>Vai depender do sucesso que tiver, porque chega a um ponto em que a gente percebe que tem de reinventar formas de solidariedade. Enquanto sentirmos que a generosidade do povo est\u00e1 a ser justificativa de se manter a campanha, ela vai manter-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_164436\" aria-describedby=\"caption-attachment-164436\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-164436\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-400x240.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-400x240.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-768x461.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-1536x922.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-1080x648.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-1280x768.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-980x588.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03-480x288.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/caritas03.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-164436\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joana Bougard\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Muitos receiam que se esteja apenas no in\u00edcio de uma crise econ\u00f3mica e social sem precedentes\u2026 Como \u00e9 que avalia as medidas que t\u00eam sido tomadas pelo governo?<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 agora t\u00eam sido medidas avulsas. Em termos de pol\u00edtica, h\u00e1 v\u00e1rios desafios pela frente. O momento que estamos a viver vai obrigar, com certeza, a transforma\u00e7\u00f5es na forma como vivemos e convivemos. Eu acho que tem de haver sinais objetivos de que essa mudan\u00e7a se vai operar, ningu\u00e9m est\u00e1 dispensado de contribuir para essa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A classe pol\u00edtica tem esta oportunidade para demonstrar a sua credibilidade. Efetivamente, \u00e9 uma forma das mais nobres de cidadania, de exercer este dever que cada cidad\u00e3o tem.<\/p>\n<p>H\u00e1 sobre o exerc\u00edcio da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, em termos de governo, direto ou indireto \u2013 o Leonardo Boff diz que h\u00e1 os Pol\u00edticos, que somos todos, e os pol\u00edticos, que praticam a pol\u00edtica, no sentido da governan\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 que seja menor, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 at\u00e9 uma exig\u00eancia muito maior. Mas \u00e9 preciso adquirir uma determinada credibilidade perdida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que quer dizer com isso? A classe pol\u00edtica, no geral, est\u00e1 distanciada das necessidades reais das pessoas?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1. N\u00f3s j\u00e1 temos um grande d\u00e9fice, na dimens\u00e3o representativa da democracia, pela taxa de absten\u00e7\u00e3o, cada vez mais preocupante. Agora, em termos de democracia participativa, h\u00e1 lacunas muito grandes, os deputados n\u00e3o se podem mostrar s\u00f3 enquanto candidatos. T\u00eam de estar pr\u00f3ximo, acho que se devia estar menos tempo em hemiciclo \u2013 sei que t\u00eam as comiss\u00f5es de trabalho, que \u00e0s vezes o povo n\u00e3o v\u00ea \u2013 mas gostaria mais de os ver com algum tempo para estar nos c\u00edrculos eleitorais por que foram eleitos. Muitos deles nem vivem ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Houve alguma situa\u00e7\u00e3o mais gritante, neste tempo?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, pelo contr\u00e1rio. Houve at\u00e9, na pandemia, um sinal daquilo que eu acho que \u00e9 o grande desafio, haver converg\u00eancia pol\u00edtica, apesar da matriz ideol\u00f3gica ser diferente. \u00c9 verdade que n\u00e3o foram todos os grupos parlamentares, mas houve uma base de apoio consensual que permitiu que se tomassem medidas com maior consist\u00eancia na preven\u00e7\u00e3o do cont\u00e1gio. Agora, temos de o demonstrar nesta crise econ\u00f3mica, e eu mais uma vez digo: o verdadeiro pol\u00edtico \u00e9 aquele que pensa no bem comum. Agora passei a dizer isto: as ideologias s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o matam a fome. Portanto, h\u00e1 que criar condi\u00e7\u00f5es para que o povo acredite, de facto, que aqueles que escolheram est\u00e3o mais interessados nos reais problemas da popula\u00e7\u00e3o portuguesa do que em defender ideologias. Sem p\u00f4r de parte o valor que essas ideologias t\u00eam, sobretudo quando elas se dirigem para aquilo que o Papa Francisco chama, sabiamente, de ecologia humana integral. Esta unidade toda do que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a pessoa e o seu ambiente, o cosmos.<\/p>\n<p>Este pacto de regime devia existir, para aquilo que \u00e9 essencial: os Direitos Humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recentemente a C\u00e1ritas Europa e 11 organiza\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias uniram-se para pedir \u00e0 Uni\u00e3o Europeia a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de Emerg\u00eancia Social, destinado a apoiar os servi\u00e7os sociais essenciais, e responder \u00e0 crise provocada pela pandemia. Acredita que ser\u00e1 criado? H\u00e1 sensibilidade para isso na Europa de hoje?<\/em><\/p>\n<p>A esperan\u00e7a grita dentro de mim que isso \u00e9 poss\u00edvel. Todos os pa\u00edses da Europa foram atingidos. Mas receio que tamb\u00e9m grite mais alto do que a minha esperan\u00e7a o poder que alguns pa\u00edses t\u00eam tido no concerto da Uni\u00e3o Europeia, pondo em causa o seu pr\u00f3prio fundamento, que se baseia na solidariedade.<\/p>\n<p>\u00c9 hora de a Uni\u00e3o Europeia mostrar que \u00e9 mesmo uma Uni\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 apenas uma congrega\u00e7\u00e3o da pa\u00edses. Quero crer que isso vai acontecer com solidariedade. Isto quer dizer, sem encargos que venham a pr\u00f3pria sustentabilidade do desenvolvimento dos pa\u00edses que precisam desses fundos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A C\u00e1ritas Portuguesa lan\u00e7ou esta um apelo p\u00fablico de apoio, no qual defendeu uma \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o nacional\u201d para refor\u00e7ar a resposta solid\u00e1ria \u00e0 crise provocada pela pandemia. A Renascen\u00e7a e a ECCLESIA entrevistam o presidente do organismo cat\u00f3lico de solidariedade, Eug\u00e9nio Fonseca, sobre o impacto da crise sanit\u00e1ria e econ\u00f3mica.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":164434,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[125,698],"class_list":["post-181346","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-caritas","tag-covid-19"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=181346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181346\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/164434"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=181346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=181346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=181346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}