{"id":181204,"date":"2020-07-15T09:00:17","date_gmt":"2020-07-15T08:00:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=181204"},"modified":"2020-07-15T10:13:39","modified_gmt":"2020-07-15T09:13:39","slug":"saber-aprender-e-se-deixassemos-de-lado-as-instrucoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-e-se-deixassemos-de-lado-as-instrucoes\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; E se deix\u00e1ssemos de lado as instru\u00e7\u00f5es?"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Recordam-se do 5\u00ba planeta visitado pelo <em>Principezinho<\/em> de Saint-Exup\u00e9ry?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/5oPlaneta.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-181206 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/5oPlaneta.jpg\" alt=\"\" width=\"371\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/5oPlaneta.jpg 496w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/5oPlaneta-229x260.jpg 229w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/5oPlaneta-480x546.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 371px) 100vw, 371px\" \/><\/a><em>\u00abO quinto planeta era extremamente curioso. Era o mais pequeno de todos. S\u00f3 l\u00e1 havia espa\u00e7o, \u00e0 justa, para um candeeiro e um acendedor de candeeiros. (&#8230;)<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>Quando acende o candeeiro, \u00e9 como se fizesse nascer mais uma estrela. Ou ent\u00e3o mais uma flor. Quando apaga o candeeiro, \u00e9 o mesmo que p\u00f4r a flor ou a estrela a dormir. \u00c9 uma ocupa\u00e7\u00e3o muito bonita. E porque \u00e9 bonita, \u00e9 \u00fatil.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>Quando chegou ao planeta, cumprimentou respeitosamente o acendedor:<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Ol\u00e1, bom dia! Porque \u00e9 que apagaste mesmo agora o teu candeeiro?<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Obede\u00e7o a instru\u00e7\u00f5es &#8211; respondeu o acendedor. &#8211; Ol\u00e1, bom dia!<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Instru\u00e7\u00f5es? O que \u00e9 isso?<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 S\u00e3o instru\u00e7\u00f5es de apagar o candeeiro. Boa noite!<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>E voltou a acend\u00ea-lo.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Mas porque \u00e9 que o voltaste a acender?<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 S\u00e3o as instru\u00e7\u00f5es que tenho &#8211; respondeu o acendedor.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 N\u00e3o percebo &#8211; disse o principezinho.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 N\u00e3o h\u00e1 nada que perceber. Instru\u00e7\u00f5es s\u00e3o instru\u00e7\u00f5es. Bom dia!<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>E apagou o candeeiro. Depois enxugou a testa com um len\u00e7o aos quadrados vermelhos.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Tenho uma profiss\u00e3o terr\u00edvel. Dantes, ainda v\u00e1 l\u00e1&#8230; Apagava o candeeiro de manh\u00e3 e acendia-o \u00e0 noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto da noite para dormir&#8230;<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 Mas as instru\u00e7\u00f5es mudaram?<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em> \u2014 N\u00e3o, n\u00e3o mudaram &#8211; disse o acendedor. &#8211; E essa \u00e9 precisamente a minha desgra\u00e7a! Imagina que, de ano para ano, o planeta gira cada vez mais depressa e as instru\u00e7\u00f5es nunca mudam!\u00bb<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>O g\u00e9nio humano est\u00e1 ligado \u00e0 capacidade de criar, imaginar, compreender, relacionar e, sobretudo, aprender. Mas durante este tempo de pandemia surgiram v\u00e1rios desafios aos nossos ritmos que ditavam os ritmos do planeta. E uma das facetas da vida humana mais afectadas foi o sistema de ensino, sobretudo quanto ao modo de ensinar.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de muitas crian\u00e7as, independentemente de terem ou n\u00e3o computador em casa, modificou o modo como um jovem acede ao conhecimento. Uma das maiores cr\u00edticas feitas ao ensino \u00e9 a de que tudo se alterou no \u00faltimo s\u00e9culo, excepto o ensino. Desde a Grande Acelera\u00e7\u00e3o em meados do S\u00e9c. XX que a humanidade se impulsionou numa inimagin\u00e1vel viagem digital que transformou profundamente a cultura. Mas o ensino continuou ao estilo fabril. Crian\u00e7as alinhadas. Professores a dizerem o que devem fazer, como se devem comportar, que mat\u00e9ria devem estudar e saber. Isto \u00e9, instru\u00e7\u00f5es associadas aos programas a cumprir, e queixas a crescer de que as crian\u00e7as est\u00e3o cada vez mais irrequietas. Onde estar\u00e1 a origem do aumento da press\u00e3o que pode levar a que o sistema rebente?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia bem o que fazer diante do novo cen\u00e1rio pand\u00e9mico que obrigou os professores a interagirem com as crian\u00e7as, cada uma em sua casa. As horas passadas na escola ou universidade reflectiram-se num tempo imenso diante dos ecr\u00e3s a ouvir professores, em sil\u00eancio, com o som e\/ou imagem desligados (estariam realmente em aula?), in\u00fameros trabalhos para fazer, instru\u00e7\u00f5es e mais instru\u00e7\u00f5es a cumprir. Por vezes via como os professores se esfor\u00e7avam por captar o interesse dos alunos (atrav\u00e9s das aulas s\u00edncronas dos meus filhos), mas quantas vezes mais os ouvia a chamar alguns \u00e0 aten\u00e7\u00e3o como se estivessem em sala de aula?<\/p>\n<p>No ensino universit\u00e1rio n\u00e3o foi diferente. Semanalmente, dei aulas s\u00edncronas com quase 100 alunos, todos de c\u00e2mera desligada, apesar de serem 200 os inscritos \u00e0 disciplina. Fiz exames online e as notas n\u00e3o foram melhores apesar de ter acesso a tudo e mais alguma coisa, incluindo os colegas. Sentia-me disposto a mudar o modo de ensinar, mas n\u00e3o senti vontade de os alunos mudarem o modo de aprender. Continuam a perguntar o que sai para o exame, o que devem estudar e como. Parece que cumprem as instru\u00e7\u00f5es do guia-para-passar-\u00e0-disciplina, perdendo a oportunidade de tomarem as r\u00e9deas da sua aprendizagem. Raro foi o momento em que algu\u00e9m demonstrava interesse em aprender. O que fazer?<\/p>\n<p>O nosso planeta continua a girar em 24h, mas devido \u00e0 internet e electricidade, podemos ter luz o dia todo, estar sempre online, sempre activos, com ritmos que levam a um planeta virtual que gira a uma velocidade diferente. E, ou mudamos as instru\u00e7\u00f5es, ou passamos a vida a acender e a apagar candeeiros, sem o menor sentido e significado, perdendo, gradualmente, a no\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o a que um dia nos sentimos chamados. Ser\u00e1 dif\u00edcil de ver no tempo presente a oportunidade de re-inventar o modo de ensinar que o novo ritmo imposto por este v\u00edrus nos abre? Ser\u00e1 que ensin\u00e1vamos ou instru\u00edamos?<\/p>\n<p>E se coloc\u00e1ssemos de lado as <em>instru\u00e7\u00f5es<\/em> e aproveit\u00e1ssemos a oportunidade que a pandemia nos proporciona para desenvolver a capacidade de <em>ensinar a aprender<\/em>?<\/p>\n<p>O convite a olhar o mundo com olhos novos \u00e9 claro. At\u00e9 agora sent\u00edamo-nos confort\u00e1veis a dizer \u2014 <em>\u201cisto \u00e9 assim\u201d<\/em> \u2014 mas os novos ritmos e maneiras de estar em sociedade para proteger os mais fr\u00e1geis desta pandemia, ensinaram-nos a dizer antes \u2014 <em>\u201disto <strong>pode ser<\/strong> assim\u201d<\/em>. A convers\u00e3o do que <em>\u00e9<\/em> a <em>pode ser<\/em>, abre um espa\u00e7o de liberdade, risco, vulnerabilidade, com o qual podemos aprender muito mais do que imaginamos.<\/p>\n<p>As pandemias n\u00e3o trazem livro de instru\u00e7\u00f5es, mas convidam-nos a colocar os nossos livros de instru\u00e7\u00f5es de lado e a criar modos novos e ousados de aprender, e ir em frente. N\u00e3o \u00e9 assim que acontece com cada crian\u00e7a que nasce? Os pais n\u00e3o seguem instru\u00e7\u00f5es para lidar com a unicidade de cada filho, mas aprendem a ser pais em cada dia e momento que passam com ele. Tamb\u00e9m os professores s\u00e3o convidados a aprender a serem professores com esta nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Creio estarmos diante de um cen\u00e1rio revolucion\u00e1rio quanto ao modo de educar, com a oportunidade de erradicar do presente, o passado que nos aprisiona a um modo de instruir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-181204","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=181204"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/181204\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=181204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=181204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=181204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}