{"id":18005,"date":"2006-05-16T12:51:07","date_gmt":"2006-05-16T12:51:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/16\/nunes-pereira-homem-artista-e-padre\/"},"modified":"2006-05-16T12:51:07","modified_gmt":"2006-05-16T12:51:07","slug":"nunes-pereira-homem-artista-e-padre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nunes-pereira-homem-artista-e-padre\/","title":{"rendered":"Nunes Pereira: homem, artista e padre"},"content":{"rendered":"<p>Cinco anos ap\u00f3s a sua morte e no ano do centen\u00e1rio de nascimento de Mons. Nunes Pereira, a mem\u00f3ria ganha vitalidade com as \u00abpegadas de Deus\u00bb na sua arte. <!--more--> A povoa\u00e7\u00e3o, rodeada de montanhas, \u00e9 abra\u00e7ada e protegida, na sua \u201cesp\u00e9cie de concha, pelos tel\u00faricos rochedos da Penalva e do Cabe\u00e7o da Mata, continuados pela Serra da Rocha, Serra Amarela e Picoto da Cebola\u201d. Foi assim que M\u00e1rio Nunes, Vereador da Cultura da C\u00e2mara Municipal de Coimbra definiu a aldeia de Faj\u00e3o (Concelho da Pampilhosa da Serra) e terra natal de Monsenhor Nunes Pereira, falecido a 1 de Junho de 2001. Cinco anos depois do desaparecimento deste \u201chomem simples\u2026 e alma rural\u201d &#8211; (Marques, Jos\u00e9 Augusto; \u201cUma Vida com sentido\u201d; In: Revista \u00abMensageiro de Santo Ant\u00f3nio\u00bb de Julho\/Agosto de 2001), a candura e a sabedoria profunda \u201cdesta alma portuguesa\u201d n\u00e3o foram esquecidas. Tinha 94 anos e mais de quarenta vividos na cidade universit\u00e1ria onde deixou a \u00faltima obra: um vitral no altar-mor da Igreja de S. Jos\u00e9 (Coimbra). A obra de arte foi inaugurada a 16 de Junho por D. Albino Mamede Cleto, bispo das terras do Mondego, mas os participantes na Missa do 7\u00ba dia puderam apreci\u00e1-la antecipadamente. Homem multifacetado, Mons. Nunes Pereira tanto utilizava as frases simples e profundas como a \u00abpedra bruta\u00bb para dar a conhecer o Criador. Ao longo de muitos anos, a sua pena mostrou na revista \u00abMensageiro de Santo Ant\u00f3nio\u00bb a interpreta\u00e7\u00e3o fiel do nosso sentir colectivo, \u201cda hist\u00f3ria comum, das nossas ra\u00edzes de na\u00e7\u00e3o multissecular\u201d \u2013 (Marques, Jos\u00e9 Augusto). As p\u00e1ginas da rubrica \u00abCalhau Rolado\u00bb do \u00abMensageiro de S. Ant\u00f3nio\u00bb estavam acompanhadas por gravuras que a sua arte colocava no papel. Nelas colocava \u00abN. P\u00bb (Nunes Pereira) mas a sua humildade vinha ao topo da pir\u00e2mide e gostava de sublinhar: \u00abN.P\u00bb significa \u00abN\u00e3o Presta\u00bb. Qualidades que Frei Eliseu Moroni (na altura Chefe de Redac\u00e7\u00e3o do \u00abMensageiro de Santo Ant\u00f3nio) referiu: \u201cfoi devido a esta sua humildade que encontrei um \u00abamigo\u00bb, fui amparado por um \u00abpai\u00bb, animado por um \u00absacerdote\u00bb, ensinado a olhar os horizontes da vida por um verdadeiro \u00abhomem s\u00e1bio\u00bb\u201d. E acrescenta: \u201cna minha mem\u00f3ria fica uma verdadeira heran\u00e7a espiritual\u201d.  <b>\u00abPerdemos uma j\u00f3ia\u00bb<\/b> Na homilia da missa exequial, D. Albino Cleto sublinhou as qualidades sacerdotais e art\u00edsticas de Monsenhor Nunes Pereira ao afirmar que \u201cn\u00f3s, os padres de Coimbra, perdemos uma j\u00f3ia\u201d. Era um homem da Igreja e \u201cna Igreja aprendeu tudo o que nos deixa como legado\u201d. \u00c9 que \u2013 acrescentou o prelado \u2013 \u201cser artista como ele foi \u00e9 ser pregador e padre. Os seus tra\u00e7os pict\u00f3ricos s\u00e3o uma verdadeira prega\u00e7\u00e3o porque o artista aponta-nos sempre as pegadas de Deus\u201d.  Nascido a 3 de Dezembro de 1906, na pequena povoa\u00e7\u00e3o da Mata (freguesia de Faj\u00e3o), Monsenhor Nunes Pereira aprendeu com o pai as primeiras letras, depois do falecimento deste, 1915, foi para o Semin\u00e1rio de Coimbra. Ordenado em 1929, a primeira par\u00f3quia onde exerceu o seu m\u00fanus pastoral foi em Montemor-o-Velho de onde transitou, em 1935, para Coja. Foi p\u00e1roco de S. Bartolomeu, Vig\u00e1rio Geral da diocese, membro da Comiss\u00e3o Diocesana de Arte Sacra, professor no Instituto Superior de Estudos Teol\u00f3gicos de Coimbra e chefe de redac\u00e7\u00e3o do \u00abCorreio de Coimbra\u00bb cerca de 20 anos.  Com um olhar luminoso e uma postura cativante, Mons. Nunes Pereira trazia sempre consigo um papel e uma esferogr\u00e1fica. \u201cFazer retratos \u00e0s escondidas, para em seguida os oferecer aos amigos, era o que lhe dava mais prazer\u201d &#8211; (Moroni, Eliseu; \u201cHomem S\u00e1bio\u201d; In: Revista \u00abMensageiro de Santo Ant\u00f3nio\u00bb de Julho\/Agosto de 2001). O C\u00f3n. Ant\u00f3nio Rego, Director do Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais da Igreja, testemunhou este epis\u00f3dio: \u201cDe repente olha-me mais fixamente, interrompe a narrativa, sorri e lan\u00e7a-se outra vez por inteiro sobre o postal amarelecido. Entrega-me, por fim, j\u00e1 com as linhas percept\u00edveis. L\u00e1 estou eu, com o que sou, nos tra\u00e7os essenciais que ele percebeu e transmitiu\u201d (Rego, Ant\u00f3nio; Editorial da \u00abAg\u00eancia ECCLESIA\u00bb de 5 de Junho de 2001).  <b>O desenho das viagens<\/b> Nos finais da d\u00e9cada de cinquenta e ap\u00f3s viagens a Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Alemanha e Holanda, Nunes Pereira dedicou-se \u00e0 aguarela. Desenhava com uma rapidez fulminante, esculpia e pintava de igual modo e, dados os seus conhecimentos na \u00e1rea da madeira, aprendeu numa simples tarde, a t\u00e9cnica da gravura em metal, com Jos\u00e9 Contente. Por isso dizia: \u201cNa base de todos os meus trabalhos est\u00e1, sem d\u00favida, o desenho. Desenho em casa, na rua, nos caf\u00e9s, nas reuni\u00f5es, nos almo\u00e7os. O meu desenho, salvo o que fa\u00e7o no gabinete, \u00e9 um desenho de viagem, aproveitando ocasi\u00f5es e \u00e0s vezes escassos minutos\u201d. Dominava igualmente a t\u00e9cnica do vitral, tendo executado o seu primeiro trabalho na capela da Casa de Sa\u00fade de Santa Filomena, em Coimbra; seguiram-se outros em Vila de Rei, na capela de Montalto, em Arganil, nas Igrejas de Santa Maria de Celorico da Beira, de Manteigas, de Ponte S\u00f3t\u00e3o (G\u00f3is), Ponte da Barca, Cardigos, Guarda-Gare, Pale\u00e3o (Soure) e Carnide (Pombal). Para al\u00e9m deste cunho pessoal nos vitrais deixou tamb\u00e9m pain\u00e9is de madeira na Igreja da Tocha, de Bustos, de Coja e no Semin\u00e1rio de Coimbra. A forma peculiar como comunicava com os outros e o saber polivalente fizeram deste sacerdote, jornalista, escritor, artista, poeta, professor e humanista um \u00abex-libris\u00bb do seu Faj\u00e3o. Para tornar viva a sua mem\u00f3ria foi inaugurado, a 13 de Setembro de 1997, um museu cujo nome deram \u201cMonsenhor Nunes Pereira\u201d. Este guarda as ra\u00edzes dos habitantes da terra \u2013 utens\u00edlios, artefactos, literatura, contos, tradi\u00e7\u00f5es, maneiras de criar e dizer poesia, de cantar e rezar, formas de vestir, de trabalhar, de agradecer a Deus e aos santos, de amar os animais e as aves, de dizer a lenga-lenga e chamar o gado \u2013 e est\u00e1 enriquecido com uma parte significativa do esp\u00f3lio art\u00edstico criado pelo homenageado. Nesta casa de xisto (um dos materiais utilizados para as suas obras de arte) o visitante encontra retalhos da vida e riquezas de ontem para apreciar hoje. Li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que questionam a rapidez do homem contempor\u00e2neo.   <b>Personalidade \u00edmpar no reino do Mondego<\/b> Palavras pict\u00f3ricas que tocam e alertam o cora\u00e7\u00e3o do homens. \u201cO pobre L\u00e1zaro do Evangelho bem desejaria comer as migalhas que ca\u00edam da mesa do rico, mas ningu\u00e9m lhas dava. As pessoas avarentas \u00abcomem de gaveta\u00bb; se vem algu\u00e9m fecham a gaveta, para n\u00e3o terem de oferecer\u201d \u2013 afirmou Mons. Nunes Pereira na sess\u00e3o solene da inaugura\u00e7\u00e3o do Monumento ao Padeiro em Meda de Mouros. E acrescentou: \u201cuma das broas que ficasse mais perto da porta do forno era esmagada\u2026 depois de cozida era migada em bocadinhos para uma bacia e regada com vinho, para todos comerem. Eram \u00abSopas de cavalo cansado\u00bb\u201d. Tempos da escassez que merecem o seguinte coment\u00e1rio de Mons. Nunes Pereira em \u00abTudo, muito, pouco ou nada\u00bb &#8211; rubrica \u00abCalhau rolado\u00bb na Revista \u00abMensageiro de Santo Ant\u00f3nio\u00bb de Maio de 2000 \u2013 \u201cO pouco que Deus me deu \/ Cabe numa m\u00e3o fechada; \/ O pouco com Deus \u00e9 tudo, \/ O muito sem Deus \u00e9 nada\u201d. A sua arte ia para al\u00e9m da seiva das palavras e uma das formas de a transmitir era atrav\u00e9s da xilogravura. Esta cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica \u2013 contida e austera \u2013 com recurso a materiais \u00abpobres\u00bb e imediatos era exigente. Condi\u00e7\u00f5es que ele aceitava apesar do risco de uma golpe menos feliz. \u201cA mod\u00e9stia da modalidade d\u00e1 uma ideia do perfil de quem a cultiva. Polifacetado como sempre foi, Nunes Pereira dedicou-se igualmente a outras modalidades. Mas era a grava\u00e7\u00e3o em madeira e em xisto \u2013 ou \u00abcalhau rolado\u00bb &#8211; que melhor retratava a sua sobriedade expressiva\u201d \u2013 (Branco, J. Oliveira). Um s\u00edmbolo do seu pr\u00f3prio batalhar na vida. Como as suas virtudes iam para al\u00e9m do \u00e2mbito eclesial, a divis\u00e3o de ac\u00e7\u00e3o cultural do munic\u00edpio de Coimbra formulou a seguinte informa\u00e7\u00e3o, de 24\/04\/2002: \u201cPersonalidade \u00edmpar na sociedade de Coimbra, figura destacada no panorama art\u00edstico regional, Monsenhor Nunes Pereira soube conciliar, de forma not\u00e1vel, o exerc\u00edcio da sua actividade pastoral a uma velha paix\u00e3o \u2013 o cultivo das artes\u201d: E acrescenta: a cidade do Mondego \u201cdever\u00e1 manter viva a sua mem\u00f3ria e promover a divulga\u00e7\u00e3o da sua vasta obra\u201d.   Ao longo da sua vida, Nunes Pereira personificou a pluralidade de conceitos e de valores. Deus e os homens, uma dualidade indestrut\u00edvel e inapag\u00e1vel, \u201cconstituem uma unidade e autenticam um princ\u00edpio eterno (Nunes, M\u00e1rio; In: Revista \u00abMunda\u00bb de Novembro de 1992). Nunes Pereira comunga e evidencia esta eternidade: amar a Deus sobre todas as coisas e os homens como a n\u00f3s mesmo.      Lu\u00eds Filipe Santos  <B>Not\u00edcias relacionadas<\/B> <a href=\"noticia.asp?noticiaid=31277\">\u2022 Nunes Pereira: A voz de Deus na voz do povo <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinco anos ap\u00f3s a sua morte e no ano do centen\u00e1rio de nascimento de Mons. 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