{"id":17992,"date":"2006-05-16T10:29:22","date_gmt":"2006-05-16T10:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/16\/visao-teologica-das-cartas-ao-papa\/"},"modified":"2006-05-16T10:29:22","modified_gmt":"2006-05-16T10:29:22","slug":"visao-teologica-das-cartas-ao-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/visao-teologica-das-cartas-ao-papa\/","title":{"rendered":"Vis\u00e3o teol\u00f3gica das \u00abCartas ao Papa\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Centen\u00e1rio do nascimento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes <!--more--> Desejo, antes de mais, exprimir a minha gratid\u00e3o por ter recebido o convite para intervir neste Congresso Internacional que se celebra por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio do nascimento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes. Estou grato, por tamb\u00e9m este convite me ter proporcionado a ocasi\u00e3o de entrar em contacto com um personagem de estatura humana e crist\u00e3 pouco comum, uma verdadeira \u2018auctoritas\u2019, que v\u00f3s, aqui em Portugal, conheceis muito bem, mas que \u00e9 oportuno seja conhecida por um p\u00fablico mais vasto, por crentes e n\u00e3o crentes, a quantos est\u00e3o \u00e0 procura da verdade que ilumine as suas vidas, de testemunhos que ajudem a conservar a esperan\u00e7a, de figuras que suscitem um compromisso corajoso. Encontrei, gra\u00e7as a este convite, um filho dign\u00edssimo desta nobre terra que hoje me recebe, e desta gloriosa Igreja do Porto, que hoje tributa a homenagem a um seu pastor singular, que continua a iluminar o caminho dos seus filhos, ainda que n\u00e3o esteja j\u00e1 presente materialmente entre os seus.  \u201cO vosso falar seja sim sim, n\u00e3o n\u00e3o\u201d (Mt 5, 37). O convite evang\u00e9lico a uma vida sem compromissos, \u00e0 clareza moral, \u00e0 linearidade que se requer a todos aqueles que se colocam no seguimento de Cristo, o qual a sua vida n\u00e3o foi um n\u00e3o, mas um sim (2Cor 1, 19), foi certamente uma refer\u00eancia (impl\u00edcita ou expl\u00edcita) da exist\u00eancia e do pensamento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes. Este dado emerge com uma evid\u00eancia indiscut\u00edvel do epistol\u00e1rio que aqui apresentamos e que recolhe uma s\u00e9rie de escritos, elaborados num per\u00edodo que vai de 1982 a 1985, quando o bispo em\u00e9rito do Porto j\u00e1 se encontra avan\u00e7ado na idade, mas na posse da habitual lucidez, enriquecida por uma singular experi\u00eancia de vida, que o torna protagonista de uma das p\u00e1ginas mais gloriosas da hist\u00f3ria eclesial e civil da na\u00e7\u00e3o portuguesa. Tais Cartas ao Papa constituem um pequeno tesouro de vida, de pensamento, de reflex\u00e3o teol\u00f3gica e de ensinamentos, dignos de ser apreciados, n\u00e3o s\u00f3 por uma igreja local e de quantos o conheceram, directamente ou n\u00e3o. Estes textos repercorrem v\u00e1rias tem\u00e1ticas, algumas ligadas \u00e0 experi\u00eancia pastoral ou \u00e0 complexa vida de D. Ant\u00f3nio; outras dizem respeito a assuntos de interesse geral para os crentes ou para quem exerce o minist\u00e9rio sacerdotal ou episcopal na Igreja. Com estas cartas, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, ent\u00e3o j\u00e1 liberto do exerc\u00edcio imediato e directo da actividade pastoral numa diocese, mant\u00e9m uma esp\u00e9cie de col\u00f3quio e de troca de reflex\u00f5es com o Papa, e, atrav\u00e9s deste especial interlocutor, com os outros Bispos e com toda a comunidade eclesial. Convencido que o minist\u00e9rio episcopal n\u00e3o pode cessar com o fim do governo de uma igreja local, ret\u00e9m que a experi\u00eancia acumulada e o estar vinculado a problemas \u2018locais\u2019 possa conceder a um Bispo novas energias e oferecer-lhe uma compreens\u00e3o mais l\u00facida dos problemas gerais e uma maior liberdade para exprimir ju\u00edzos e no apontar de solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m de ter em aten\u00e7\u00e3o o \u2018animus\u2019 com que estas Cartas foram escritas. D. Ant\u00f3nio pensou-as e redigiu-as \u201cpor amor \u00e0 verdade, \u00e0 hist\u00f3ria e ao futuro da Igreja\u201d 1 . Elas testemunham com clareza uma personagem vibrante, um amor indiscut\u00edvel por Cristo, pelo Evangelho e por quem fez destes o fundamento da sua vida. Nota-se ao longo de todas o epistol\u00e1rio que o autor \u00e9 um homem e um pastor cordial, com um temperamento apaixonado que, por\u00e9m, jamais perde o rigor e o equil\u00edbrio da raz\u00e3o, a lucidez da an\u00e1lise, a arg\u00facia em individuar o cora\u00e7\u00e3o dos problemas, a intelig\u00eancia aberta e a mestria no apresenta\u00e7\u00e3o de s\u00ednteses. Estes escritos apresentam-se com uma indiscut\u00edvel qualidade liter\u00e1ria, que torna agrad\u00e1vel a leitura, capturando a aten\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o e a mente do leitor. Neles, a fineza da argumenta\u00e7\u00e3o acompanha o justo equil\u00edbrio entre o conceptual e as imagens ou met\u00e1foras que facilitam a compreens\u00e3o. As Cartas deixam perceber que o autor \u00e9 uma personalidade franca, mas sem ser indelicada; que possui uma fisionomia psicol\u00f3gica madura e decidida, que simultaneamente se deixa envolver, sem perder a capacidade de valorizar com equil\u00edbrio as situa\u00e7\u00f5es e as pessoas. Os interesses de D. Ant\u00f3nio, nestas Cartas, oscilam de modo s\u00e1bio entre uma forte aten\u00e7\u00e3o ao contexto no qual o autor vive e ao qual est\u00e1 ligado, e um olhar que ultrapassa os confins da pr\u00f3pria diocese e da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o, para se situar no vasto campo da Igreja universal e do mundo. \u00c9 de notar a abertura e profundidade da intelig\u00eancia de D. Ant\u00f3nio. Disso temos muitos testemunhos, nestes escritos. Por exemplo, quando se fala do conceito de cultura, o Bispo do Porto diz que esta \u201cou \u00e9 universal ou tende ao universalismo\u201d2 , de outra maneira n\u00e3o \u00e9 cultura. A verdadeira cultura leva a uma justa rela\u00e7\u00e3o entre autonomia e teonomia. Na medida em que ajuda a compreender a humanidade, esta presta um servi\u00e7o \u00e0 causa do evangelho, cujo destinat\u00e1rio \u00e9 o homem. Por outro lado, parecia dizer D. Ant\u00f3nio, que \u00e9 necess\u00e1rio, como crentes, dar uma grande aten\u00e7\u00e3o ao pensamento ateu, porque frequentemente este vem a ocupar zonas inexploradas ou abandonadas pelo cristianismo. Em cada caso, \u201cat\u00e9 nos sistemas mais aberrantes existem geralmente mais verdades que erros\u201d3 . E exprime uma extraordin\u00e1ria convic\u00e7\u00e3o, que merece ser testemunhada com as suas pr\u00f3prias palavras: \u201c\u00e0queles que se perderam no caminho dos ma\u00eetres du soup\u00e7on, caminhos do humanismo ateu, era necess\u00e1rio dizer que n\u00e3o parassem ou andassem para tr\u00e1s nestes caminhos, mas que avancem sempre mais pelos caminhos do humanismo, que procurem sondar at\u00e9 ao fundo os mist\u00e9rios do homem, e que se arriscam a alcan\u00e7ar o fim do percurso, encontrar\u00e3o finalmente o Mist\u00e9rio absoluto e pessoal a que chamamos Deus e que \u00e9, segundo as palavras de S. Agostinho, intimior intimo meo, superior summo meo\u201d4 . Permanecendo no \u00e2mbito da cultura laica, parece-me pouco destacado o equil\u00edbrio, a intelig\u00eancia, a lucidez, a liberdade com que D. Ant\u00f3nio examina e avalia o pensamento de fil\u00f3sofos e pensadores abertamente distantes ou mesmo em oposi\u00e7\u00e3o ao evangelho e \u00e0 comunidade dos crentes. Antes de mais, a\u00ed recolhe com dist\u00e2ncia e sem preconceitos a posi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica; e depois de desimpedir o terreno dos falsos obst\u00e1culos, preocupa-se de colocar \u00e0 vista o potencial positivo que tais autores oferecem ao pensamento crist\u00e3o. Como acontece na experi\u00eancia dos Padres da Igreja e dos melhores te\u00f3logos da comunidade crist\u00e3, o Bispo do Porto sabe captar a verdade presente \u2013 gra\u00e7as ao Esp\u00edrito \u2013 mesmo onde pareceria extinta ou ausente a luz do evangelho. Ele tem olhos e cora\u00e7\u00e3o de tal maneira l\u00edmpidos e abertos, que \u00e9 sens\u00edvel e capaz de perceber qualquer que seja o raio de verdade, de qualquer direc\u00e7\u00e3o que ele venha. Esta sua atitude denota uma personalidade profundamente livre e amante da liberdade como valor fundamental do ser e viver do homem. D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes tem uma alt\u00edssima percep\u00e7\u00e3o da liberdade do homem e do necess\u00e1rio respeito que a ela \u00e9 devido. Isto se manifesta muitas vezes, ao longo das cartas, na refer\u00eancia a v\u00e1rios assuntos ou \u00e2mbitos de reflex\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil imaginar que a sensibilidade e as convic\u00e7\u00f5es sobre esta fundamental dimens\u00e3o da identidade e do existir do homem sejam o fruto n\u00e3o s\u00f3 de tomadas de posi\u00e7\u00e3o te\u00f3ricas, mas tamb\u00e9m o resultado da sua complexa exist\u00eancia pessoal. \u201cA liberdade \u00e9 sem d\u00favida um direito inerente \u00e0 pessoa humana, mas \u00e9, antes de mais, uma obriga\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia e uma virtude a cultivar; virtude dif\u00edcil, por vezes her\u00f3ica, que pode levar \u00e0 estrada do Calv\u00e1rio\u201d5 . A sua convic\u00e7\u00e3o sobre a sacralidade da liberdade, leva-o a afirma\u00e7\u00f5es fortes, como aquela que encontramos na Carta VIII e que, mais uma vez, \u00e9 um eco da sua experi\u00eancia: \u201cCreio que, na medida em que os homens da Igreja n\u00e3o colocaram na devida evid\u00eancia e relevo a realidade e o valor da liberdade humana, nesta mesma medida se devem reconhecer respons\u00e1veis de um grande factor, talvez o maior factor do ate\u00edsmo contempor\u00e2neo. A liberdade humana que \u00e9, antes de mais liberdade interior, mas que n\u00e3o \u00e9 somente isto; se (\u2026) falamos de liberdade, de liberdade da alma e deixamos entre par\u00eantesis a liberdade exterior, social e pol\u00edtica, de consci\u00eancia e de express\u00e3o, etc., expomo-nos \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de incoer\u00eancia, de hipocrisia ou de c\u00e1lculo maquiav\u00e9lico. Liberdade humana como direito fundamental, em primeiro lugar; em segundo lugar, como dever e virtude, virtude muitas vezes dif\u00edcil que exige grandeza de esp\u00edrito ou mesmo hero\u00edsmo. S\u00f3 assim podemos e devemos pregar que Deus criou o homem como ser de salva\u00e7\u00e3o, dotado de liberdade, para se fazer a si mesmo e construir o mundo: melhor ainda, que Deus criou o homem como Liberdade, cada homem como a \u00fanica liberdade sobre a terra\u201d6 .  A profundidade destas afirma\u00e7\u00f5es sobre a import\u00e2ncia da liberdade, unida \u00e0 frontalidade do seu car\u00e1cter e a um adequado conhecimento da hist\u00f3ria do pensamento e da Igreja, levam D. Ant\u00f3nio a afirma\u00e7\u00f5es de grande vigor, como, por exemplo, quando denuncia, sem meios termos, que por muito tempo, e para muitos crentes \u201ca lei de Cristo deixava de ser lei de amor e de liberta\u00e7\u00e3o para aparecer como mera lei e a sua san\u00e7\u00e3o. De tal mentalidade resultava a suspens\u00e3o do discernimento crist\u00e3o, a obedi\u00eancia como virtude m\u00e1xima e quase \u00fanica da profiss\u00e3o crist\u00e3 (e civil)\u201d7 . Ou quando escreve que \u201c\u00e9 tempo de os homens da Igreja se convencerem plenamente e eficazmente que combater, desprezar ou desvalorizar a Liberdade \u00e9, para al\u00e9m de uma agress\u00e3o \u00e0 ess\u00eancia do homem, tornar completamente incompreens\u00edvel e inexplic\u00e1vel a exist\u00eancia do mal no mundo, e como tal, meter em causa a exist\u00eancia mesma ou os atributos de Deus. \u00c9 nega\u00e7\u00e3o frontal da \u2018linguagem da cruz\u2019, pela qual Cristo nos libertou para a Liberdade de filhos de Deus e irm\u00e3os do Homem, realizando-se em todos os homens. (\u2026) Na medida em que os homens da Igreja esquecem os desvalorizam a causa da Liberdade, colocam em discuss\u00e3o a causa mesma de Deus, na Sua exist\u00eancia ou na Sua justi\u00e7a, bondade ou omnipot\u00eancia\u201d8 . Relacionado com a liberdade, existe o tema do respeito das pessoas e da sua consci\u00eancia. D. Ant\u00f3nio fala disso em termos abertos e claros na Carta II, onde, com evidentes refer\u00eancias \u00e0 situa\u00e7\u00e3o eclesial e pol\u00edtica de Portugal do p\u00f3s-guerra, reivindica ainda uma vez mais a necessidade de n\u00e3o calar diante de qualquer tentativa de impor opini\u00f5es ou escolhas de vida, da parte de quem quer que seja. Com a costumada franqueza e lucidez, ele afirma: \u201cJ\u00e1 h\u00e1 alguns anos escrevi textos em que tomava posi\u00e7\u00e3o sobre o problema da Inquisi\u00e7\u00e3o. Estava no exerc\u00edcio do servi\u00e7o episcopal e fi-lo, n\u00e3o apesar de ser bispo, mas precisamente porque o era. (\u2026) O erro e o v\u00edcio de fundo do processo da Inquisi\u00e7\u00e3o tem muito em comum com aqueles das actuais pol\u00edcias pol\u00edticas, se n\u00e3o forem limitadas pelo Estado de direito: pretendem entrar na consci\u00eancia das pessoas, for\u00e7ar esta consci\u00eancia a aceitar a \u2018verdade\u2019 e a \u2018bondade\u2019 de uma determinada pol\u00edtica; em suma, realizar uma convers\u00e3o for\u00e7ada, talvez oferecendo pr\u00e9mios pela \u2018convers\u00e3o\u2019 \u201c9 . O respeito que D. Ant\u00f3nio sente por cada homem, coloca-o em pr\u00e1tica sobretudo em rela\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria pessoa e da pr\u00f3pria dignidade inalien\u00e1vel e irrenunci\u00e1vel. \u00c9 este o sentimento que tomou como premissa a algumas das suas tomadas de posi\u00e7\u00e3o, te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas, no decurso da sua vida de Pastor. A esta luz se compreende a altivez com a qual sustenta as suas convic\u00e7\u00f5es; esta n\u00e3o tem nada a ver com a soberba obtusa dos ignorantes, mas exprime uma forma de obedi\u00eancia \u00e0 verdade, \u00e0 qual sente n\u00e3o poder subtrair-se. A prop\u00f3sito de dignidade, \u00e9 not\u00e1vel a recusa que o Bispo do Porto op\u00f5e \u00e0 cultura do \u201cdobrar a cabe\u00e7a\u201d. As palavras que dentro em breve referirei, proferidas nos anos 80, s\u00e3o comprovadas por uma vida gasta com uma coer\u00eancia que n\u00e3o foi dobrada, nem mesmo por poderes pol\u00edticos fortes, com os quais D. Ant\u00f3nio se desencontrou durante a sua vida: \u201cNesta \u2018nova era da hist\u00f3ria humana\u2019 na qual nos encontramos, neste \u2018novo humanismo\u2019 que devemos viver, \u00e9 tempo de abandonar a velha f\u00f3rmula de \u2018convers\u00e3o\u2019: \u2018dobra a tua cabe\u00e7a, \u00f3 Sicambro; adora aquilo que queimaste, queima aquilo que adoraste\u2019. Certamente hoje ningu\u00e9m pensa em imposi\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas em mat\u00e9ria de religi\u00e3o. Existem, contudo, press\u00f5es sobretudo da parte de estruturas pol\u00edticas que, no fundo, seguem a mesma estrada, seja a favor de te\u00edsmos ou ate\u00edsmos de qualquer tipo. Sobretudo no mundo cat\u00f3lico devemos evitar qualquer reminisc\u00eancia ou equival\u00eancia a este tipo de tend\u00eancias no campo da cultura\u201d10 . Existe uma express\u00e3o de D. Ant\u00f3nio que sintetiza e exprime um aspecto fundamental da sua personalidade e da sua estatura moral. \u00c9 uma palavra que se inspira em 1Cor 7, 23 e que, em certo sentido, constitui uma esp\u00e9cie de manifesto de uma vida: \u201cDe joelhos diante de Deus, de p\u00e9 diante dos homens\u201d11 .  Esta \u00faltima express\u00e3o ajuda o leitor a perceber o modo como o Bispo do Porto entende as rela\u00e7\u00f5es entre a Igreja, como institui\u00e7\u00e3o, e as institui\u00e7\u00f5es civis. As afirma\u00e7\u00f5es de D. Ant\u00f3nio poderiam parecer t\u00edpicas de uma pessoa ing\u00e9nua ou desprovida, se n\u00e3o record\u00e1ssemos que foram escritas por um Bispo j\u00e1 n\u00e3o jovem, que tem uma profunda cultura filos\u00f3fica e teol\u00f3gica, que foi protagonista directo de uma exist\u00eancia complexa e, sobretudo, que pagou na sua pessoa a coer\u00eancia com as pr\u00f3prias ideias. \u00c0 luz de tais premissas, aparecem mais luminosas as seguintes reflex\u00f5es, que encontramos na Carta X: \u201cN\u00e3o me parece que contribua para o bem da Igreja aumentar o seu aparato diplom\u00e1tico, nem acentuar o car\u00e1cter diplom\u00e1tico da sua actua\u00e7\u00e3o. A diplomacia dos Estados, al\u00e9m do seu aparato mundano, baseia-se na ast\u00facia \u2013 a arte de ocultar o pensamento \u2013 ou na amea\u00e7a, velada ou aberta, por meios violentos. A Igreja n\u00e3o pode situar-se \u00e0 sua vontade neste mundo, mas dever\u00e1 a todo o momento recordar-se da transpar\u00eancia evang\u00e9lica: seja a vossa palavra, sim, sim, e n\u00e3o, n\u00e3o. No actual momento da hist\u00f3ria parece-me que a norma desej\u00e1vel seja qualquer coisa deste g\u00e9nero: na vida e na ac\u00e7\u00e3o da Igreja tanta diplomacia quanta seja ainda necess\u00e1ria ou \u00fatil e t\u00e3o pouca quanto seja poss\u00edvel\u201d12 . Sempre no \u00e2mbito do correcto modo de exercitar o minist\u00e9rio episcopal no contexto e na rela\u00e7\u00e3o com a sociedade civil, parece de grande interesse quanto D. Ant\u00f3nio escreve na Carta V, na qual v\u00eaem articulados com mestria argumentos e reflex\u00f5es que se inspiram nas Escrituras, na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, na filosofia, na hist\u00f3ria, nas preocupa\u00e7\u00f5es pastorais e nas indica\u00e7\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II. Nesta, como nas outras cartas, o Bispo do Porto manifesta-se tamb\u00e9m excelente conhecedor da literatura e da reflex\u00e3o teol\u00f3gica contempor\u00e2nea. E manifesta uma grande sensibilidade na rela\u00e7\u00e3o com as tem\u00e1ticas e perspectivas t\u00edpicas do pensamento crente p\u00f3s-conciliar, como, por exemplo, a necessidade de educar para os direitos, al\u00e9m dos deveres, ou a pol\u00e9mica sobre a guerra leg\u00edtima e sobre o direito ilimitado ao armamento13 , ou quando afirma a necessidade da coragem civil, associada a uma leg\u00edtima prud\u00eancia. Sempre a prop\u00f3sito do Conc\u00edlio Vaticano II, D. Ant\u00f3nio n\u00e3o perde ocasi\u00e3o, nas suas Cartas, para manifestar o seu apre\u00e7o, o seu entusiasmo, e a sua admira\u00e7\u00e3o. O Conc\u00edlio foi um acontecimento de alcance extraordin\u00e1rio, realizando uma mudan\u00e7a de \u00e9poca, da qual o Bispo do Porto foi ao mesmo tempo testemunha e protagonista. Eis um testemunho: \u201cTudo aqui que pensei e tenho inten\u00e7\u00e3o de escrever prov\u00e9m directa ou indirectamente, de modo mais imediato ou remoto, do \u00faltimo Conc\u00edlio. Foi, para mim, como para outros, uma revela\u00e7\u00e3o e uma vertigem: uma vis\u00e3o da Igreja na sua apostolicidade e actualidade. Direi mais: da Comiss\u00e3o Preparat\u00f3ria da qual participei, at\u00e9 \u00e0s sess\u00f5es decisivas in aula de S. Pedro, \u2018vi\u2019 o Esp\u00edrito Santo que trabalhava com os homens, mas trabalhava n\u00e3o obstante estes, e muitas vezes parecia brincar com eles, ou mesmo parecia fazer pouco deles\u201d14 . A uma dist\u00e2ncia de vinte anos, enquanto elabora os escritos sobre os quais nos debru\u00e7amos, o grande bispo portugu\u00eas, por um lado, continua a declarar uma aberta tomada de dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos opositores do Conc\u00edlio, por outro lado sublinha todas as extraordin\u00e1rias potencialidades ainda n\u00e3o actualizadas que o grande acontecimento possui em si mesmo. Do Conc\u00edlio Vaticano II se inspira para o forte sentido da colegialidade episcopal, que possui, seja para a defesa convicta do papel do Bispo na Igreja local. \u00c9 sobre esta base que se fundam, por um lado, a desilus\u00e3o que D. Ant\u00f3nio manifesta diante de decis\u00f5es ou praxis que n\u00e3o lhe parecem em sintonia com o esp\u00edrito do Conc\u00edlio; por outro lado, as palavras francas e fortes com que exprime por vezes o seu pensamento, como por exemplo, quando diz que a miss\u00e3o episcopal n\u00e3o tem raz\u00e3o de existir, se n\u00e3o for em fun\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o ao povo de Deus. Quem leia com serenidade as Cartas n\u00e3o deixar\u00e1 de chamar a aten\u00e7\u00e3o o grande amor \u00e0 Igreja que o Bispo do Porto sempre nutriu. Deste amor e do ensinamento do Vaticano II nasce tamb\u00e9m a sensibilidade de D. Ant\u00f3nio em rela\u00e7\u00e3o ao di\u00e1logo ecum\u00e9nico e nas dificuldades do caminho das Igrejas em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade15 . Um outro fruto do Conc\u00edlio, al\u00e9m da pessoal abertura de mente e de cora\u00e7\u00e3o, constitui a disposi\u00e7\u00e3o ben\u00e9vola que D. Ant\u00f3nio teve em rela\u00e7\u00e3o a algumas formas novas de exerc\u00edcio de apostolado, como, por exemplo, a do movimento \u2018Mundo melhor\u2019, fundado pelo Jesu\u00edta P. Riccardo Lombardi. O apre\u00e7o do Bispo do Porto era, no seu tempo, fundado, como ele testemunha na Carta VI, na convic\u00e7\u00e3o que tal movimento constitu\u00edsse uma proposta adaptada ao crescimento e ao bem da comunidade eclesial da segunda metade do s\u00e9culo XX. A transpar\u00eancia da intelig\u00eancia e das inten\u00e7\u00f5es de D. Ant\u00f3nio emerge quando reclama, como te\u00f3logo, a necessidade de conservar um conceito crist\u00e3o de Deus, ou seja, correspondente ao ensinamento e \u00e0 praxis de Jesus de Nazar\u00e9. \u00c9 necess\u00e1rio que a Igreja, diz o Bispo do Porto, apresente o rosto de Deus com a frescura que emerge das p\u00e1ginas do evangelho, sem o desfigurar entre as malhas de uma conceptualidade soberba ou fria, como \u00e9 a do ate\u00edsmo. Este \u00faltimo fala de um Deus que \u201cn\u00e3o vale mais que o sem-Deus de um qualquer ate\u00edsmo militante\u201d16 ; aquele do te\u00edsmo \u00e9 um Deus sup\u00e9rfluo e mudo; n\u00e3o admira que os \u2018mestres da suspeita\u2019 (K. Marx \u2013 S. Freud- F. Nietzsche) o tenham expulsado do pensamento e da vida! Ou melhor, segundo o te\u00f3logo Ferreira Gomes, o protesto dirigido contra Deus e a favor do homem da parte da \u2018modernidade\u2019 \u00e9 considerado com aten\u00e7\u00e3o e estima; porque nesse protesto existe como que um reflexo do amor de Deus pelo homem. Constitui um convite indirecto a redescobrir o necess\u00e1rio, obrigat\u00f3rio antropocentrismo que resulta de uma correcta valoriza\u00e7\u00e3o do an\u00fancio de Cristo e da religi\u00e3o crist\u00e3. Uma Igreja que se fechasse em rela\u00e7\u00e3o a estas exig\u00eancias, uma comunidade crist\u00e3 que continuasse a ver na \u2018modernidade\u2019 somente um perigo ou uma amea\u00e7a \u00e0 Boa Nova, seria uma infiel disc\u00edpula daquele que, por amor do homem, \u201cse despojou a si mesmo, assumindo a condi\u00e7\u00e3o de servo, (\u2026) humilhou-se a si mesmo tornando-se obediente at\u00e9 \u00e0 morte, e morte de cruz\u201d (Fil 2,7-8).  A atitude demonstrada ao valorizar o pensamento ateu volta a ser proposta tamb\u00e9m em outros momentos e outras ocasi\u00f5es das Cartas. Ou melhor, podem-se encontrar aqui uma verdadeira e pr\u00f3pria teologia da hist\u00f3ria. D. Ant\u00f3nio olha a realidade, o mundo, a hist\u00f3ria, a humanidade com um \u201cs\u00e3o optimismo\u201d17 ; dizendo que este optimismo seja uma \u201catitude da f\u00e9 teologal\u201d18  e recorda que a agape crist\u00e3 deve ser sustentada \u201cpor aquele princ\u00edpio escol\u00e1stico pelo qual ningu\u00e9m ama o mal como mal, mas pelo bem, imediato ou n\u00e3o, f\u00e1cil ou \u00e1rduo, positivo ou relativo, que atrav\u00e9s de um acto objectivamente mau, se pressente\u201d19 . O Bispo do Porto olha mais al\u00e9m, abre-se ao futuro, com optimismo e esperan\u00e7a, sem choros ou lamentos. Ele escreve: \u201c Estamos na estrada do terceiro mil\u00e9nio, n\u00e3o estamos de regresso ao primeiro\u201d20 . Se olha para o passado, que conhece bem, \u00e9 s\u00f3 para encontrar a\u00ed indica\u00e7\u00f5es (de tipo propositivo ou deduz\u00edveis de experi\u00eancias negativas) que possam iluminar o presente e o orientar para o futuro. N\u00e3o obstante as dificuldades sentidas no decurso da sua vida, ele permanece uma alegre e iluminada sentinela, que sonha e espera o nascer de um amanh\u00e3 melhor, certo como est\u00e1 da presen\u00e7a e da ac\u00e7\u00e3o do Deus trino ma hist\u00f3ria dos homens e da Igreja. Concluindo esta apresenta\u00e7\u00e3o, pode-se dizer que este epistol\u00e1rio nos coloca defronte a um personagem que \u00e9 um verdadeiro profeta, no tr\u00edplice sentido que este \u00faltimo termo possui. Antes de mais no sentido de falar de quem vai beber \u00e0 fonte divina, para anunciar um discurso que n\u00e3o nasce \u201cda carne ou do sangue\u201d, mas vem do alto. D. Ant\u00f3nio, durante toda a sua vida, n\u00e3o procurou outra coisa que n\u00e3o fosse proclamar a verbum Dei, que se aproximou da humanidade num modo \u00fanico e definitivo na pessoa de Jesus Cristo. N\u00e3o possui outros interesses, sen\u00e3o aqueles de Deus e do Seu Reino, nas palavras sempre vibrantes e densas do Bispo do Porto. A limpidez das suas palavras, das suas inten\u00e7\u00f5es, do seu dizer e \u2013 por vezes \u2013 do seu acusar se inspiram exclusivamente no amor de Deus e no seu projecto, na paix\u00e3o pela humanidade e pela sua salva\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as suas palavras s\u00e3o prof\u00e9ticas porque se realizam diante de todos, publicamente, sem temor, sem compromissos ou condicionantes, ou subordina\u00e7\u00e3o aos poderosos. D. Ant\u00f3nio, com o seu empenhamento de formador e de docente, num primeiro momento, e no seu minist\u00e9rio episcopal, depois, alcan\u00e7ou os seus contempor\u00e2neos com uma autoridade bem conhecida em Portugal e \u2013 frequentemente \u2013 tamb\u00e9m para l\u00e1 dos seus confins. \u00c0 dist\u00e2ncia de cerca de vinte anos do seu desaparecimento, as reflex\u00f5es e o carisma deste Bispo podem ainda exercer um influxo ben\u00e9fico na vida da comunidade eclesial cat\u00f3lica, porque \u00e9 um aut\u00eantico mestre, cujo ensinamento \u00e9, simultaneamente, \u2018filho do tempo\u2019, incarnado, contextualizado, mas tamb\u00e9m capaz de \u2018dizer\u2019 a qualquer tempo e a qualquer lugar, enquanto possui uma carga de verdade que ultrapassa o hic et nunc e pode fecundar qualquer hora da hist\u00f3ria e iluminar qualquer momento da vida da comunidade eclesial. Em terceiro lugar, o falar do grande Bispo do Porto \u00e9 prof\u00e9tico no sentido que possui uma capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o do futuro, ou seja, uma capacidade de pre-ver, iluminado pela nascente da verdade, as direc\u00e7\u00f5es a tomar e as escolhas que, por uma parte, mais fielmente e de uma forma plena exprimem o des\u00edgnio de Deus, e por outra, favorecem o verdadeiro bem da Igreja e da humanidade. A tal prop\u00f3sito, s\u00e3o simplesmente surpreendentes n\u00e3o s\u00f3 a agudeza com a qual D. Ant\u00f3nio capta o essencial, o cora\u00e7\u00e3o de muitos problemas relativos \u00e0 vida, \u00e0 f\u00e9, ao pensamento crist\u00e3o, ao exerc\u00edcio do minist\u00e9rio episcopal, mas tamb\u00e9m a clarivid\u00eancia com que indica solu\u00e7\u00f5es que, no decorrer de alguns anos, se tornaram aquelas adoptadas por toda a comunidade eclesial. Se \u00e9 verdade que a Igreja e a humanidade t\u00eam necessidade de testemunhas, mais do que mestres, D. Ant\u00f3nio coloca-se como personagem de estatura muito elevada, sob uma e outra veste, diante de n\u00f3s que vivemos o in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio. O nosso empenhamento, civil ou religioso, na qualidade de cidad\u00e3os ou enquanto pertencendo \u00e0 comunidade eclesial, pode seguramente inspirar-se neste bispo de uma estatura intelectual, moral e humana pouco comum. A quem n\u00e3o agradar\u00e1 a coer\u00eancia, pagada tamb\u00e9m com o ex\u00edlio e a marginaliza\u00e7\u00e3o, com a qual este Pastor exerceu o seu minist\u00e9rio preocupando-se somente com a fidelidade ao Evangelho, \u00e0 Igreja de Cristo, \u00e0 humanidade? Quem pode permanecer indiferente diante da transpar\u00eancia e do rigor dos quais D. Ant\u00f3nio retira as consequ\u00eancias mais l\u00facidas das premissas constitu\u00eddas pela f\u00e9 crist\u00e3 e pela perten\u00e7a \u00e0 Igreja? Como n\u00e3o admirar o equil\u00edbrio com que ultrapassa, com o cora\u00e7\u00e3o e com a raz\u00e3o, preconceitos consolidados e barreiras culturais (verdadeiras ou presumidas) com a pura inten\u00e7\u00e3o de procurar a verdade e o bem? Devemos augurar que Deus conceda \u00e0 Igreja e ao mundo muitos homens, crentes e pastores que, como D. Ant\u00f3nio, saibam estar no cen\u00e1rio da hist\u00f3ria, de joelhos e com a cabe\u00e7a inclinada diante do Alt\u00edssimo e de p\u00e9, com a cabe\u00e7a levantada, diante de si mesmos e dos homens.  <i>G. M. Salvati O.P. Pontif\u00edcia Universidade S\u00e3o Tom\u00e1s, Roma<\/i>  NOTAS  1 Lettera Prefazione, (p.4 dell\u2019attuale traduzione italiana).  2 Lettera III (p. 13).  3 Ib. (p. 17).  4 Ib.  5 Lettera V (p. 39).  6 Lettera VIII (p.67).  7 Ib., 68.  8 Ib.  9 Lettera II (p. 9).  10 Lettera III (pp. 13-14).  11 Lettera VIII, (p.72).  12 Lettera 10 (p.86).  13 Cf Lettera IX.  14 Lettera Prefazione, (p. 6 dell\u2019attuale traduzione)  15 Cf Lettera XII  16 Lettera IV (p. 32).  17 Lettera VII (p. 58).  18 Ib.  19 Ib, p. 59..  20 Lettera colofon (?) (p.122)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Centen\u00e1rio do nascimento de D. 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