{"id":179906,"date":"2020-06-29T10:22:22","date_gmt":"2020-06-29T09:22:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=179906"},"modified":"2020-06-29T10:22:22","modified_gmt":"2020-06-29T09:22:22","slug":"saber-aprender-o-desconforto-que-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-o-desconforto-que-da-vida\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; O desconforto que d\u00e1 vida"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Para que servem os rituais? Uma experi\u00eancia que tive em rela\u00e7\u00e3o a isso levou-me <em>sentir-me em casa.<\/em> Estava numa confer\u00eancia cient\u00edfica em Heidelberg e queria ir \u00e0 missa. Numa tarde antes de come\u00e7ar a confer\u00eancia andei pelas ruas com um mapa na m\u00e3o. \u2014 <em>\u201dEdif\u00edcio grande, uma cruz. Deve ser aqui!\u201d<\/em> \u2014 Apontei o hor\u00e1rio e no Domingo l\u00e1 estava. Entrei e, discretamente, sentei-me no fundo. Sabia que falariam em alem\u00e3o, e eu n\u00e3o sei alem\u00e3o, mas tudo era diferente e estranho. O padre n\u00e3o tinha a habitual estola e n\u00e3o estava a entender os ritmos. Voltei-me para o banco de tr\u00e1s, peguei num livro de c\u00e2nticos e vi que se tratava de uma outra tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que n\u00e3o a minha. Bolas. Sa\u00ed e dirigi \u00e0 Igreja mais pr\u00f3xima indicada no mapa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_179907\" aria-describedby=\"caption-attachment-179907\" style=\"width: 1422px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-179907\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash.jpg\" alt=\"\" width=\"1422\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash.jpg 1422w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-1080x608.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-1280x720.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-980x551.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/k-mitch-hodge-lJyzWxFTV44-unsplash-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1422px) 100vw, 1422px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179907\" class=\"wp-caption-text\">Foto de K. Mitch Hodge em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ao aproximar-me do local comecei a ouvir um c\u00e2ntico a partir de vozes alegres e en\u00e9rgicas. Fiquei contente. Deve ser aqui! Mas, conforme me aproximava, vislumbrava um letreiro em alem\u00e3o onde se distinguia a palavra <em>Luther\u2026<\/em> Bolas. N\u00e3o \u00e9 aqui. Continuei em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3xima Igreja indicada no mapa. Enquanto caminhava, cansado e desiludido, vi uma freira a entrar na terceira igreja. N\u00e3o restava d\u00favida que tinha, finalmente, encontrado a possibilidade de participar na eucaristia.<\/p>\n<p>Senti-me em casa. N\u00e3o percebi uma s\u00f3 palavra, mas sabia perfeitamente em que momento estava e o que significava liturgicamente. Vivi uma experi\u00eancia de Deus atrav\u00e9s do ritual por ser o mesmo em todo o mundo. Atrav\u00e9s dessa experi\u00eancia percebi a import\u00e2ncia dos rituais. Mas, entretanto, chegou a Covid-19.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Novo cen\u00e1rio exige algo mais<\/h3>\n<p>No cen\u00e1rio novo de pandemia, vivemos um longo per\u00edodo de eucaristias <em>online<\/em>. Uma ben\u00e7\u00e3o proporcionada pelas novas tecnologias, e uma experi\u00eancia completamente fora da normalidade dos rituais presenciais. Mas com o tempo, com prud\u00eancia, fomos encontrando um novo normal com missas campais, pessoas de m\u00e1scara, procedimentos de higiene mais rigorosos para os sacerdotes, e outros (ac\u00f3litos, di\u00e1conos, ministros da comunh\u00e3o, etc.), que est\u00e3o ao servi\u00e7o durante a missa. Tudo feito com esfor\u00e7o e sacrif\u00edcio para bem dos mais vulner\u00e1veis a esta doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Pensamos que ser\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o a viver durante pouco tempo, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim. Ed Yong, escritor para o <em>The Atlantic<\/em> exp\u00f5e num <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/health\/archive\/2020\/06\/covid-19-coronavirus-longterm-symptoms-months\/612679\/\">artigo<\/a> interessante como os infectados com o v\u00edrus e s\u00e3o ass\u00edmptom\u00e1ticos, vivem outras dificuldades f\u00edsicas que os debilitam. Fadiga, falta de concentra\u00e7\u00e3o, entre outros, s\u00e3o sintomas aparentemente menores, mas que vividos ao longo do tempo produzem um efeito duro na vida das pessoas. Quer isso dizer que estamos longe de nos encontrarmos em condi\u00e7\u00f5es de voltar ao que era antes.<\/p>\n<p>O uso da m\u00e1scara \u00e9 desconfort\u00e1vel (eu que o diga, n\u00e3o gosto nada), mas enquanto em Portugal o n\u00famero de \u00f3bitos ascendeu a mais de 1500, pa\u00edses muito mais populosos, e pr\u00f3ximos da China, como o Jap\u00e3o, o n\u00famero n\u00e3o chegou aos 1000. Porqu\u00ea? Jeremy Howard da Universidade de S. Francisco nos EUA, que publicou, recentemente, um importante <a href=\"https:\/\/www.preprints.org\/manuscript\/202004.0203\/v2\">estudo<\/a> de revis\u00e3o da literatura sobre o uso das m\u00e1scaras, afirmou ao <em>New York Times<\/em> que \u2014 <em>\u00abO Jap\u00e3o, penso que muitas pessoas concordar\u00e3o, fez muita coisa errada, com o pobre distanciamento social, bares de karaoke aberto e tr\u00e2nsito p\u00fablico concentrado pr\u00f3ximo da zona onde os surtos piores aconteceram. Mas uma coisa que o Jap\u00e3o fez bem foi usar m\u00e1scaras.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Nas eucaristias vemos ainda pessoas que n\u00e3o usam as m\u00e1scaras quando, e como, seria suposto, ou que continuam a querer receber Jesus na boca, ou que n\u00e3o respeitam o distanciamento f\u00edsico que estes tempos exigem. Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil alterar rituais que fazem parte do nosso modo de viver a espiritualidade crist\u00e3, mas ser\u00e1 que Deus estar\u00e1 a pedir-nos um passo em frente diante deste cen\u00e1rio?<\/p>\n<p>Penso que esse passo seja o da <em>profundidade<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Passo da profundidade<\/h3>\n<p>Todos os gestos em rituais s\u00e3o um meio, n\u00e3o um fim em si mesmos. Se os tempos actuais exigem sacrif\u00edcios nesses rituais, vale a pena ponderar que o fazemos pelo outro, n\u00e3o por n\u00f3s mesmos. A origem da palavra sacrif\u00edcio \u00e9 <em>fazer de algo, algo sagrado.<\/em> Neste caso, \u00e9 a sacralidade do outro que importa e a sua sa\u00fade que est\u00e1 em jogo. E contra um v\u00edrus como este, ainda n\u00e3o estamos em vantagem porque a medicina n\u00e3o evoluiu o suficiente para lidarmos com esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Guterres <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2020\/06\/27\/antonio-guterres-diz-que-no-cenario-mais-otimista-o-mundo-voltara-a-normalidade-em-dois-ou-tres-anos\/\">refere<\/a> que o cen\u00e1rio mais optimista de retorno \u00e0 normalidade demorar\u00e1 dois a tr\u00eas anos. E se demorar mais? O que pode significar \u201cvoltar \u00e0 normalidade\u201d? Queremos a normalidade de antes? Ou seremos capazes que ver nesta \u00e9poca uma oportunidade para criar uma normalidade mais profunda. Onde os valores que nos levam a saber aprender cada vez mais e melhor sobre n\u00f3s mesmos, os outros e o mundo que nos rodeia, orientam a nossa vida, em vez de andarmos de entretenimento a entretenimento, imersos em momentos fugazes de distrac\u00e7\u00e3o em distrac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez este seja o momento de nos re-inventarmos e movermos em direc\u00e7\u00e3o a uma vida plena e profunda. Nem que isso nos custe o desconforto de uma m\u00e1scara, de modo a colaborarmos na protec\u00e7\u00e3o dos mais fr\u00e1geis. Se um desconforto favorece a vida do outro. Assim seja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-179906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=179906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179906\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=179906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=179906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=179906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}