{"id":179637,"date":"2020-06-26T07:00:14","date_gmt":"2020-06-26T06:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=179637"},"modified":"2020-06-25T19:50:28","modified_gmt":"2020-06-25T18:50:28","slug":"covid-19-nao-podemos-pensar-que-vivemos-fazendo-as-mesmas-coisas-de-uma-forma-diferente-frei-herminio-araujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covid-19-nao-podemos-pensar-que-vivemos-fazendo-as-mesmas-coisas-de-uma-forma-diferente-frei-herminio-araujo\/","title":{"rendered":"Covid-19: \u00abN\u00e3o podemos pensar que vivemos fazendo as mesmas coisas de uma forma diferente\u00bb &#8211; Frei Herm\u00ednio Ara\u00fajo"},"content":{"rendered":"<p><em>Franciscano, com larga experi\u00eancia em cuidados paliativos, diz que os pol\u00edticos est\u00e3o a \u201cbrincar com coisas s\u00e9rias\u201d e n\u00e3o querem saber do sofrimento das pessoas<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia fala dos desafios da pandemia. Espera que n\u00e3o se desperdice a oportunidade para mudar estilos de vida e de consumo, mas receia que \u201cacabe tudo na mesma\u201d, e seja o dinheiro a falar mais alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: \u00c2ngela Roque<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_179625\" aria-describedby=\"caption-attachment-179625\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-179625 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1512\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-330x260.jpg 330w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-1024x806.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-768x605.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-1536x1210.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-1080x851.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-1280x1008.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-980x772.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2911-480x378.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179625\" class=\"wp-caption-text\">Foto: \u00c2ngela Roque\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>A pandemia que enfrentamos tornou ainda mais atual a enc\u00edclica \u2018Laudato Si\u2019 sobre ecologia integral. Este manual que agora foi publicado pode ser um bom guia para o processo de desconfinamento que estamos a viver?<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria que \u00e9 um excelente guia. Ali\u00e1s, como a pr\u00f3pria enc\u00edclica, que \u00e9 o ponto de partida deste manual, que nos quer p\u00f4r \u2018a caminho\u2019. Logo este conceito inicial, o t\u00edtulo, j\u00e1 nos pode dizer muito: &#8216;A caminho para o cuidado da Casa Comum&#8217;.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 um manual de receitas, mas \u00e9 um conjunto de propostas muito interessantes, muito em linha com a enc\u00edclica &#8216;Laudato Si&#8217; e, diria mesmo, muito em linha com o &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;, de S\u00e3o Francisco de Assis, e ser\u00e1 interessante passamos por l\u00e1, para percebermos de onde \u00e9 que tudo isto parte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma das observa\u00e7\u00f5es que \u00e9 feita neste novo documento \u00e9 a falta de uma adequada Teologia da Cria\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma forma de olhar para aquilo que nos rodeia. Faz falta que essa forma seja mais inspirada pelo &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;, e menos por uma ideia de que vivemos aqui por castigo, porque fomos expulsos do Para\u00edso?<\/strong><\/p>\n<p>Julgo que sim. \u00c0s vezes encontramos algumas rea\u00e7\u00f5es a determinadas posi\u00e7\u00f5es do magist\u00e9rio pontif\u00edcio atual, de pessoas que n\u00e3o est\u00e3o bem informadas, n\u00e3o est\u00e3o por dentro desta Teologia da Cria\u00e7\u00e3o, e corremos o risco de o Papa estar a falar em cebolas, e as pessoas entenderem batatas. A\u00a0Teologia da Cria\u00e7\u00e3o, neste manual &#8216;A Caminho para o cuidado da Casa Comum&#8217;, n\u00e3o est\u00e1 muito expl\u00edcita, evidentemente, s\u00e3o coisas muito pr\u00e1ticas, mas isso tamb\u00e9m \u00e9 importante&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Para que todos entendam.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Mas, \u00e9 muito importante que este manual n\u00e3o seja lido sem a enc\u00edclica, e que a enc\u00edclica n\u00e3o seja lida sem o &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;, porque a pr\u00f3pria enc\u00edclica n\u00e3o integra tudo o que est\u00e1 no &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;, e o que a\u00ed est\u00e1 \u00e9 importante para perceber isto tudo, e concretamente para esta fase de pandemia e p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esta n\u00e3o \u00e9 uma &#8220;enc\u00edclica verde&#8221;, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um documento s\u00f3 para cat\u00f3licos nem s\u00f3 para crentes. Mas, est\u00e1 a chegar \u00e0s pessoas? Cinco ano depois o que \u00e9 que a \u2018Laudato Si\u2019 j\u00e1 fez mudar?<\/strong><\/p>\n<p>Eu julgo que n\u00e3o est\u00e1 a chegar \u00e0s pessoas, tudo somado n\u00e3o est\u00e1. Mas tem chegado a algumas. Felizmente neste manual, quando se fala das boas pr\u00e1ticas, Portugal aparece referido com duas iniciativas (a \u2018Casa Velha \u2013 Ecologia e Espiritualidade\u2019, e a rede Cuidar da Casa Comum), e cita tamb\u00e9m a Confer\u00eancia Episcopal. Portugal aparece bem na enc\u00edclica, mas acho que ainda est\u00e1 muito aqu\u00e9m de um caminho que tem de ser feito\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_179626\" aria-describedby=\"caption-attachment-179626\" style=\"width: 347px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-179626\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-347x260.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-347x260.jpg 347w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-768x576.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-1080x810.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-1280x960.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-980x735.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901-480x360.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/IMG_2901.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 347px) 100vw, 347px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179626\" class=\"wp-caption-text\">Foto: \u00c2ngela Roque\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Ao n\u00edvel da Igreja, ou ao n\u00edvel geral?<\/strong><\/p>\n<p>Eu diria ao n\u00edvel geral e ao n\u00edvel da Igreja, muito em particular, e em realidades muito concretas, como por exemplo nas par\u00f3quias, na catequese, que o pr\u00f3prio manual refere.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Recomenda que se fa\u00e7a esse trabalho de reflex\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Porque este manual \u00e9 uma esp\u00e9cie de dossier.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Um vade mecum, na tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica.<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. N\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 tudo, mas em termos metodol\u00f3gicos est\u00e1 praticamente tudo ali inclu\u00eddo, para que nada fique de fora. O princ\u00edpio da inclus\u00e3o \u00e9 o grande princ\u00edpio da enc\u00edclica, porque tudo est\u00e1 interligado, tudo deve ser inclu\u00eddo, e esse \u00e9 o grande princ\u00edpio inspirador da Teologia da Cria\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Assis &#8211; E voltamos ao &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217;.<\/p>\n<p>Eu diria que esta problem\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 mais um assunto na vida da Igreja, da sociedade e do mundo, \u00e9 o assunto fundamental, porque aborda quest\u00f5es transversais. Por isso \u00e9 que este manual n\u00e3o fala de tudo \u2013 em 200 p\u00e1ginas n\u00e3o se pode falar de tudo, e muitas coisas s\u00e3o complexas -, mas o essencial est\u00e1 aqui dito, abrindo depois perspetivas numa linha de inclus\u00e3o. Por isso \u00e9 que este n\u00e3o \u00e9 mais um assunto entre os diversos assuntos da vida da Igreja e do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nem do pontificado.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9. Ali\u00e1s, o Papa Francisco, logo na celebra\u00e7\u00e3o inaugural do pontificado, disse a que \u00e9 que vinha, que a quest\u00e3o fundamental \u00e9 o \u2018cuidar\u2019: cuidar da Terra e dos pobres, cuidar da vida fr\u00e1gil. Foi logo dito, e est\u00e1 presenta na enc\u00edclica e em tudo o que vem a seguir, at\u00e9 aos dias de hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esta ideia de que est\u00e1 tudo interligado atingiu-nos muito duramente nos \u00faltimos meses, quando percebemos que um v\u00edrus que surge numa ponta do mundo pode atingir a popula\u00e7\u00e3o dos cinco continentes. Este \u00e9 o momento de fazer op\u00e7\u00f5es concretas de vida? Porque a &#8216;Laudato Si&#8217;, os apelos do Papa e da Santa S\u00e9, s\u00e3o no sentido de que cada pequeno gesto pode fazer a diferen\u00e7a. Acha que esta mudan\u00e7a vai acontecer, ou pode ser uma oportunidade perdida?<\/strong><\/p>\n<p>A mudan\u00e7a j\u00e1 est\u00e1 a acontecer, mas vai demorar muito tempo. H\u00e1 oportunidades que j\u00e1 foram perdidas, outras que v\u00e3o ser perdidas, inclusivamente na vida da Igreja, se os respons\u00e1veis mais diretos\u00a0acharem que isto \u00e9 s\u00f3 um tema entre muitos outros, se\u00a0n\u00e3o perceberem que este \u00e9 o tema transversal a todos os temas.\u00a0Se n\u00e3o percebemos isto, se virmos isto como mais um t\u00f3pico, vamos perdendo constantemente oportunidades, e ent\u00e3o o &#8216;grito da Terra&#8217; e o &#8216;grito dos pobres&#8217; n\u00e3o \u00e9 devidamente acolhido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Papa fala-nos desse &#8216;grito da Terra e dos pobres&#8217;, mas apesar desta pandemia ser uma amea\u00e7a global, e de em teoria estarmos todos &#8216;no mesmo barco&#8217;, temos visto que os efeitos colaterais desta mesma pandemia n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos, com as popula\u00e7\u00f5es mais pobres a serem mais afectadas. O &#8216;grito dos pobres&#8217; n\u00e3o est\u00e1 a ser devidamente escutado?<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 a ser escutado, mas precisa de ser mais e mais, porque de facto aquela que foi uma esp\u00e9cie de m\u00e1xima da pandemia naquela fase inicial, o &#8216;vai ficar tudo bem&#8217;, n\u00e3o \u00e9 verdade.\u00a0H\u00e1 muita coisa que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 bem, h\u00e1 muito sofrimento que n\u00e3o est\u00e1 a ser devidamente acolhido, h\u00e1 muito grito que n\u00e3o est\u00e1 a ser escutado e precisa de ser escutado. Imagine-se aquelas pessoas que perderam um ente querido, e nem sequer tiveram oportunidade \u00a0de se despedir dele de uma forma conveniente. S\u00e3o lutos que n\u00e3o est\u00e3o feitos ainda. O luto \u00e9 um processo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 perda que tem de ser feito, portanto, h\u00e1 aqui sofrimentos que precisam de ser devidamente levados a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Eu acho que a chave de leitura do pontificado do Papa Francisco est\u00e1 na palavra &#8216;cuidar&#8217;, no verbo &#8216;cuidar&#8217;. E n\u00e3o \u00e9 algo abstrato, \u00e9 algo operativo, muito concreto. Quando o cuidado visa a experi\u00eancia dos sofredores, isso chama-se compaix\u00e3o. A compaix\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 algo de essencial tamb\u00e9m, por isso o &#8216;grito da Terra&#8217; e o &#8216;grito dos pobres&#8217; s\u00e3o como duas faces da mesma moeda. Claro que alguns at\u00e9 dir\u00e3o &#8216;se calhar agora temos que acolher mais o grito dos pobres, e o grito da Terra tem de esperar um pouco&#8217;. Eu n\u00e3o diria isso, porque se n\u00e3o acolhemos devidamente o &#8216;grito da Terra&#8217;, v\u00e3o aumentar os pobres. O grande desafio \u00e9 perceber que estas duas coisas est\u00e3o interligadas, e nesta fase de pandemia e p\u00f3s-pandemia temos de levar isto muito a s\u00e9rio, at\u00e9 para mostrar \u00e0queles que dizem \u2013 e isto acontece sempre quando a Igreja aborda quest\u00f5es sociais \u2013 que \u2018a Igreja deve estar noutro \u00e2mbito&#8217;. N\u00e3o, vamos todos levar isto muito a s\u00e9rio e pensar nisto.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois textos que s\u00e3o fundamentais para a vida da Igreja, as bem-aventuran\u00e7as e Mateus 25, com as Obras de Miseric\u00f3rdia, e esta express\u00e3o fundamental: &#8216;aquilo que fizeste a um dos meus irm\u00e3os mais pequeninos \u00e9 a mim que o fizeste&#8217;. N\u00f3s s\u00f3 percebemos esse irm\u00e3o mais pequenino numa perspetiva contemplativa, ao jeito das bem-aventuran\u00e7as, quando nos disponibilizamos para acolher Deus na vida. N\u00e3o h\u00e1 uma experi\u00eancia de Deus sem uma experi\u00eancia de contacto directo com aquele que o pr\u00f3prio Jesus Cristo quis identificar.<\/p>\n<p>Outra frase que nos pode ajudar nesta reflex\u00e3o \u00e9 de uma das refer\u00eancias maiores do s\u00e9culo XX, Simone Weil, m\u00edstica de origem judia que se aproximou do cristianismo, e ter-se-\u00e1 at\u00e9 batizado, e que diz isto: &#8216;a prova de que algu\u00e9m encontrou Deus n\u00e3o est\u00e1 no modo como fala de Deus, mas no modo como fala das coisas terrenas&#8217;. \u00c9 uma m\u00edstica a dizer isto&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A \u2018Laudato Si\u2019 \u2013 e isto \u00e9 muito franciscano \u2013 diz que &#8216;a espiritualidade crist\u00e3 prop\u00f5e uma forma alternativa de entender a qualidade de vida, encorajando um estilo de vida prof\u00e9tico e contemplativo, capaz de gerar uma profunda alegria sem estar obsecado pelo consumo&#8217;. Isto \u00e9 um desafio explicitamente cat\u00f3lico, de uma transforma\u00e7\u00e3o interior das pessoas e da sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 profundamente cat\u00f3lico, e n\u00e3o entender isto \u00e9 passar completamente \u00e0 margem da experi\u00eancia cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Sou franciscano, S\u00e3o Francisco de Assis \u00e9 a minha primeira refer\u00eancia depois de Cristo, e acho que \u00e9 dos modelos mais universais, e por isso mais cat\u00f3licos.\u00a0\u00c9 a partir das coisas terrenas que nos aproximamos de Deus, porque quando julgamos que estamos em sintonia com Deus e fugimos do mundo, isso n\u00e3o tem nada de cat\u00f3lico, com todo o respeito pelas pessoas que pensam de outra maneira, mas temos que pensar muito a s\u00e9rio nestas coisas. \u00c9 o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo, e o pr\u00f3ximo s\u00e3o todos os seres. O &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217; \u00e9 o c\u00e2ntico de todos os seres. S\u00e3o Francisco de Assis teve a preocupa\u00e7\u00e3o de incluir tudo e todos, todas as criaturas, simbolicamente nos quatro elementos: o ar, a \u00e1gua, a Terra e o fogo, neste simbolismo da sabedoria antiga. Mais ainda &#8211; o ser humano entra no &#8216;C\u00e2ntico das Criaturas&#8217; de que forma? Os pacificadores e os compassivos, e finalmente aqueles que t\u00eam uma vis\u00e3o da vida e da morte numa perspetiva, num horizonte de generosidade, que \u00e9 a pen\u00faltima estrofe do c\u00e2ntico. De facto, isto \u00e9 muito cat\u00f3lico, isto \u00e9 muito universal, porque n\u00e3o excluimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Continua a haver uma grande atualidade nesta mensagem?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 muitissimo atual. Todas estas coisas de que estamos a falar, n\u00e3o \u00e9 mais um assunto, este \u00e9 que \u00e9 o assunto fundamental. Eu diria:\u00a0este ano &#8216;Laudato Si&#8217; mesmo que n\u00e3o sirva para mais nada, se ao menos houver mais uma pessoa que perceba que isto \u00e9 transversal, que n\u00e3o \u00e9 mais um assunto, mas \u00e9 o assunto de todos os assuntos, j\u00e1 valeu a pena\u00a0o ano &#8216;Laudato Si&#8217;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Uma coisa muito relevante que esta enc\u00edclica tamb\u00e9m traz ao de cima \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de pecado ecol\u00f3gico. \u00c9 uma novidade, que ajuda as pessoas a perceber o que est\u00e1 em causa na rela\u00e7\u00e3o com a natureza e na necessidade de mudar estilos de vida. Isto est\u00e1 a ser devidamente trabalhado pela pr\u00f3pria Igreja?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1. Dentro do que tenho vindo a dizer, o pecado ecol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 mais um na \u201clista\u201d dos pecados, todos os pecados s\u00e3o ecol\u00f3gicos. Levando muito a s\u00e9rio este racioc\u00ednio, esta perspetiva teol\u00f3gica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da ecologia integral\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Dentro da perspetiva da ecologia integral, o pecado ecol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 mais um para somar \u00e0 lista. N\u00e3o: todos os pecados s\u00e3o ecol\u00f3gicos. O conceito teol\u00f3gico de pecado n\u00e3o \u00e9 o de transgress\u00e3o de uma lei, de uma norma, no conceito b\u00edblico \u00e9 uma rutura de rela\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 que\u00a0a quest\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9, sobretudo, rela\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 interligado. E quando n\u00e3o vivemos desta maneira, as coisas n\u00e3o correm bem.<\/p>\n<p>N\u00f3s colocamos este documento no \u00e2mbito da Doutrina Social da Igreja, mas \u00e9 mais do que isso,\u00a0tem a ver com um modo de ser diferente. Pensamos nas quest\u00f5es \u00e9ticas, morais, da pr\u00e1tica, mas isto \u00e9 antes, \u00e9 um modo de ser diferente. No contexto da pandemia, tenho dito que depois de sair disto,\u00a0n\u00e3o podemos pensar que vivemos fazendo as mesmas coisas de uma forma diferente.\u00a0E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 fazendo coisas diferentes, n\u00e3o,\u00a0temos de ser pessoas diferentes. \u00c9 para a\u00ed que temos de caminhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 escolhas pessoais e outras que ter\u00e3o de ser tomadas por quem tem o poder de governar. Considera que os respons\u00e1veis pol\u00edticos est\u00e3o hoje mais atentos e empenhados nas mudan\u00e7as, ou acabar\u00e1 por ficar tudo na mesma?<\/strong><\/p>\n<p>Eu tenho receio de que acabe por ficar tudo na mesma, que o dinheiro continue a falar mais alto. Se nos colocarmos ao n\u00edvel da mera pr\u00e1xis, do jogo pol\u00edtico, por a\u00ed adiante\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma palavra chave que est\u00e1 subjacente \u00e0 enc\u00edclica e pela qual come\u00e7a este manual: a \u2018convers\u00e3o\u2019. Que n\u00e3o \u00e9, essencialmente, uma convers\u00e3o \u00e9tica. Os respons\u00e1veis pol\u00edticos at\u00e9 podem achar: \u201ctemos de introduzir aqui algumas mudan\u00e7as, se n\u00e3o isto n\u00e3o corre bem\u201d\u2026 Mas , se a mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais a fundo, \u00e9 apenas para a gente se \u201cdesenrascar\u201d, as coisas n\u00e3o acontecem.<\/p>\n<figure id=\"attachment_179641\" aria-describedby=\"caption-attachment-179641\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-179641\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/106110573_401452837438152_8968121070849008610_n.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-179641\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/HM<\/figcaption><\/figure>\n<p>As mudan\u00e7as de fundo acontecem \u00e0 medida que n\u00f3s percebermos que tudo isto tem a ver essencialmente com uma mudan\u00e7a ontol\u00f3gica, uma mudan\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o, na linguagem da Igreja.\u00a0N\u00e3o \u00e9 mudar pr\u00e1ticas, \u00e9 mudar atitudes, mudar a forma de ser.\u00a0As pr\u00e1ticas derivam da\u00ed. Isto n\u00e3o tem s\u00f3 a ver com o perceber que os lixos t\u00eam de ser tratados de determinada maneira. Isso \u00e9 muito pr\u00e1tico, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mudar isso, \u00e9 perceber que a mudan\u00e7a tem de ser de fundo, de base, tem de ser interior. Aqui\u00a0a convers\u00e3o ecol\u00f3gica de que se fala \u00e9, sobretudo, uma convers\u00e3o espiritual.\u00a0Sem espiritualidade nada disto funciona. Pode n\u00e3o ser religi\u00e3o, o pr\u00f3prio manual fala para crentes e n\u00e3o-crentes, numa perspetiva ecum\u00e9nica, inter-religiosa, eu at\u00e9 diria tamb\u00e9m para agn\u00f3sticos e ateus.\u00a0Mas, temos de nos entender numa perspetiva de experi\u00eancia espiritual, que \u00e9 essencialmente a experi\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o da pessoa com ela pr\u00f3pria, da pessoa com os outros, da pessoa com tudo, com todos, e, se \u00e9 crente, com Deus.\u00a0E aqui entendemo-nos, crentes e n\u00e3o crentes:\u00a0a convers\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 uma convers\u00e3o para todos, porque tem a ver com a mudan\u00e7a de formas de ser.<\/p>\n<p>Eu sou um homem tamb\u00e9m da \u00e9tica, mas acredito pouco na \u00e9tica, se os comportamentos n\u00e3o brotam de uma forma de ser diferente. Esta convers\u00e3o n\u00e3o pode ser apenas entendida como uma convers\u00e3o moral, \u00e9 uma convers\u00e3o ontol\u00f3gica, do cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 mudar a forma de ser, as nossas atitudes. Essa mudan\u00e7a de ser come\u00e7a at\u00e9 com uma mudan\u00e7a de pensamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O manual tamb\u00e9m cont\u00e9m propostas na \u00e1rea da sa\u00fade e da defesa da vida, considerando que \u201celiminar vidas humanas n\u00e3o \u00e9 uma pr\u00e1tica aceit\u00e1vel\u201d. Com a experi\u00eancia que tem de v\u00e1rios anos a acompanhar doentes na \u00e1rea da sa\u00fade mental e tamb\u00e9m nos cuidados paliativos, como \u00e9 que v\u00ea a inten\u00e7\u00e3o de alguns deputados avan\u00e7arem com a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia?<\/strong><\/p>\n<p>Sou das pessoas \u2013 n\u00e3o sou a \u00fanica \u2013 que em Portugal est\u00e1 mais por dentro desta problem\u00e1tica, porque sou dos padres que est\u00e1 h\u00e1 mais tempo no acompanhamento dos cuidados paliativos, no acompanhamento espiritual em cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Eu acho que\u00a0esta quest\u00e3o da eutan\u00e1sia \u00e9 estar a brincar com coisas s\u00e9rias.\u00a0Com todo o respeito que temos pelos argumentos da liberdade de quem pede para n\u00e3o continuar a viver, essa \u00e9 uma falsa quest\u00e3o. N\u00f3s\u00a0temos de levar as pessoas a s\u00e9rio, levar o sofrimento das pessoas a s\u00e9rio,\u00a0e n\u00e3o andar a brincar.\u00a0Quem est\u00e1 ligado aos cuidados paliativos, quem me est\u00e1 a ouvir e sabe o que s\u00e3o cuidados paliativos \u2013 porque a maior parte das pessoas nem sabe do que est\u00e1 a falar, quando fala de paliativos, nem lhe interessa saber\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E mesmo quem precisa n\u00e3o tem essa possibilidade muitas vezes\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Exatamente. Os nossos respons\u00e1veis pol\u00edticos n\u00e3o querem saber. H\u00e1 alguns que est\u00e3o um bocadinho mais atentos, mas \u00e9 uma minoria.\u00a0A maior parte dos nossos respons\u00e1veis pol\u00edticos n\u00e3o sabe nem quer saber [dos cuidados paliativos]. Mais ainda: faz quest\u00e3o de baralhar as coisas, mistura tudo\u2026<\/p>\n<p>Estar a introduzir o debate da eutan\u00e1sia \u00e9 brincar com coisas muito s\u00e9rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Este contexto de pandemia, em que tantos lutaram e lutam para salvar vidas, n\u00e3o devia ter feito mudar os conceitos de vida e morte?<\/strong><\/p>\n<p>Pelos vistos, alguns continuam a pensar da mesma maneira\u2026 Isto \u00e9 uma quest\u00e3o de espiritualidade, ali\u00e1s os pr\u00f3prios cuidados paliativos levam isso muito a s\u00e9rio.\u00a0Qualquer profissional de cuidados paliativos, mesmo n\u00e3o-crente\u00a0\u2013 e eu conhe\u00e7o muitos agn\u00f3sticos, ateus, anticat\u00f3licos, at\u00e9 \u2013\u00a0tem um profundo respeito por quem est\u00e1 nos cuidados paliativos e leva muito a s\u00e9rio o acompanhamento espiritual das pessoas, leva muito a s\u00e9rio o acompanhamento da ang\u00fastia existencial.\u00a0O argumento de que \u201ctenho o direito de pedir a morte porque n\u00e3o quero sofrer\u201d \u00e9 uma falsa quest\u00e3o.\u00a0Com todo o respeito. Quem sabe o que s\u00e3o cuidados paliativos, sabe que isto n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Os que me est\u00e3o a ouvir podem pensar que isto \u00e9 conversa de padre, mas ou\u00e7am aqueles que n\u00e3o s\u00e3o padres. E n\u00e3o ou\u00e7am s\u00f3 os que est\u00e3o mais ligados \u00e0 religi\u00e3o, ou\u00e7am tantas pessoas.\u00a0H\u00e1 evid\u00eancia cient\u00edfica at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o para perceber que\u00a0a espiritualidade \u00e9 uma mais-valia e o sofrimento existencial pode ser acompanhado.\u00a0Introduzir o debate da eutan\u00e1sia neste contexto \u00e9 falta de seriedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Franciscano, com larga experi\u00eancia em cuidados paliativos, diz que os pol\u00edticos est\u00e3o a \u201cbrincar com coisas s\u00e9rias\u201d e n\u00e3o querem saber do sofrimento das 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