{"id":179360,"date":"2020-06-22T15:42:17","date_gmt":"2020-06-22T14:42:17","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=179360"},"modified":"2020-06-22T15:42:17","modified_gmt":"2020-06-22T14:42:17","slug":"saber-aprender-deixar-de-ser-ruido-para-apreciar-o-canto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-deixar-de-ser-ruido-para-apreciar-o-canto\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; Deixar de ser ru\u00eddo para apreciar o canto"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O confinamento em muitos pa\u00edses levou a uma altera\u00e7\u00e3o sem precedentes do som das nossas cidades. Nesse contexto, um grupo de investigadores brit\u00e2nicos realizaram uma iniciativa intitulada <em><a href=\"https:\/\/www.thequietproject.co.uk\">Projecto Quietude<\/a><\/em> em que procuraram medir a ac\u00fastica das cidades durante o confinamento. Os resultados foram surpreendentes.<\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_12862\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sWjbvZdzwkI?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p>Diversos estudos evidenciaram ao longo dos anos o <em>stress<\/em> gerado pelos ritmos urbanos. O tr\u00e1fego, as multid\u00f5es nos transportes p\u00fablicos, as sirenes. H\u00e1 quem goste desse movimento e, dificilmente, suportaria uma ambiente mais tranquilo, mas a Covid-19 obrigou-nos a fazer essa experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Stephen Dance, professor de ac\u00fastica da Universidade de Londres South Bank, diz que o equil\u00edbrio est\u00e1 em acordar na quietude e sentir o vibrar urbano no final do dia, mas, depois do confinamento, o ru\u00eddo urbano desceu em m\u00e9dia 5dB, correspondendo a uma diminui\u00e7\u00e3o de 60% dos n\u00edveis normais (ver <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/interactive\/2020\/05\/22\/upshot\/coronavirus-quiet-city-noise.html\">aqui<\/a>; o efeito). Seguramente que muitos de n\u00f3s experiment\u00e1mos esta diminui\u00e7\u00e3o ao darmo-nos conta do canto dos p\u00e1ssaros e o folhear das \u00e1rvores em dan\u00e7a ao som da brisa matinal. De certo modo, estamos a fazer uma experi\u00eancia daquilo que poder\u00e1 acontecer com o aumento do n\u00famero de ve\u00edculos el\u00e9ctricos. Uma mudan\u00e7a o virar da esquina no percurso de evolu\u00e7\u00e3o da mobilidade nas nossas cidades. Mas n\u00e3o foram s\u00f3 os carros.<\/p>\n<p>Existem muitas vibra\u00e7\u00f5es com uma baixa frequ\u00eancia, como as que se geram por comboios, constru\u00e7\u00f5es, que apenas os aparelhos de ondas s\u00edsmicas conseguem detectar. Esse \u00e9 o ru\u00eddo antropog\u00e9nico de fundo que tornava obscuro os sinais naturais que o planeta nos oferecia e que a nossa actividade n\u00e3o permitia escutar. Nos \u00faltimos meses tiv\u00e9mos essa oportunidade.<\/p>\n<p>As multid\u00f5es a caminhar pelas ruas geram frequ\u00eancias de 1 a 8Hz, ao passo que as frequ\u00eancias dos comboios v\u00e3o de 10 a 30Hz. \u00c9 a aus\u00eancia destes ru\u00eddos que nos pode ensinar alguma coisa sobre o comportamento humano. Ali\u00e1s, medindo o ru\u00eddo s\u00edsmico podemos ter uma ideia daquilo que estamos a fazer. Por isso, no confinamento, imagino os animais a experimentarem o sil\u00eancio humano. Mas n\u00e3o apenas em terra se notou a diferen\u00e7a, tamb\u00e9m no mar.<\/p>\n<p>Os bi\u00f3logos marinhos h\u00e1 muito que haviam correlacionado o tr\u00e1fego mar\u00edtimo dos barcos com o aumento do ru\u00eddo nos mares e oceanos, cujos n\u00edveis poderiam atingir valores que afectavam ou mesmo matavam os animais marinhos, causando perda da audi\u00e7\u00e3o, tempor\u00e1ria e permanente, ou induzir nesses animais um comportamento de fuga, stress e malnutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem tinha uma vis\u00e3o negativa da presen\u00e7a humana na Terra dizia sermos um v\u00edrus para o planeta. Sempre tive dificuldade com essa vis\u00e3o. Mas sermos ru\u00eddo para o planeta parece ser uma realidade. No momento em que escrevo estas palavras, tenho a m\u00e1quina de lavar roupa a centrifugar. Apesar de n\u00e3o estar pr\u00f3ximo, o ru\u00eddo \u00e9 ensurdecedor e estendendo esta experi\u00eancia ao efeito antropog\u00e9nico do som sobre a natureza, fico a pensar se n\u00e3o dever\u00edamos ter isso em conta em futuros desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>O ru\u00eddo exterior \u00e9, por vezes, um sinal e reflexo do ru\u00eddo interior. Da nossa gradual diminui\u00e7\u00e3o da capacidade para a quietude e de estar mais tempo junto com os nossos pensamentos. O momento em que vivemos obriga-nos a um exame de consci\u00eancia. Mas quantas vezes nos encontramos com a nossa consci\u00eancia em momentos de quietude? O que nos obriga a parar, induz-nos a pensar.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abO sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de algo, mas <strong>a presen\u00e7a de tudo.<\/strong>\u00bb (Gordon Hempton, One square inch of silence, Free Press, 2009)<\/p><\/blockquote>\n<p>O convite deste sil\u00eancio urbano inesperado consiste em aproveitar o som natural exterior para aprendermos a escutar o canto silencioso interior. Um canto que mostra o caminho que percorremos, o que podemos corrigir, e nos inspira a dar o pr\u00f3ximo passo a seguir. Um canto que nos convida a escutar coisas novas exteriores para que a sua frequ\u00eancia ressoe e transforme o nosso interior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-179360","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=179360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/179360\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/166774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=179360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=179360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=179360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}