{"id":179282,"date":"2020-06-21T06:00:35","date_gmt":"2020-06-21T05:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=179282"},"modified":"2020-06-21T03:54:50","modified_gmt":"2020-06-21T02:54:50","slug":"so-os-ideais-debeis-e-que-tem-medo-e-se-fecham-d-jose-ornelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/so-os-ideais-debeis-e-que-tem-medo-e-se-fecham-d-jose-ornelas\/","title":{"rendered":"\u00abS\u00f3 os ideais d\u00e9beis \u00e9 que t\u00eam medo e se fecham\u00bb &#8211; D. Jos\u00e9 Ornelas"},"content":{"rendered":"<p><em>O novo presidente da Confer\u00eancia Episcopal aponta para um trabalho em rede na Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, diz que \u00abbispos sem trabalho n\u00e3o existem\u00bb, recorda as suas ra\u00edzes na Ilha da Madeira e os caminhos abertos pelo \u00abmar imenso\u00bb que partiu do desejo de ser mission\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>(Entrevista conduzida por Paulo Rocha)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_178710\" aria-describedby=\"caption-attachment-178710\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-178710 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelasa-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178710\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia &#8211;\u00a0 D. Jos\u00e9 Ornelas foi mission\u00e1rio antes de ser padre, pertenceu a uma congrega\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, queria ser mission\u00e1rio depois de ter sido respons\u00e1vel pelos Sacerdotes do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (Dehonianos) em todo o mundo. Esta responsabilidade de ser presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa que miss\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>D. Jos\u00e9 Ornelas \u2013 Ser enviado n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o que se escolhe! \u00c9 a que vai sendo necess\u00e1ria e que se recebe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E foi nesse esp\u00edrito que a aceitou?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Eu n\u00e3o escolhi ser bispo e, sendo bispo de Set\u00fabal, \u00e9 inerente a essa fun\u00e7\u00e3o ser parte da Igreja em Portugal e estar ao seu servi\u00e7o para o que for preciso. Dessa responsabilidade faz parte ter o cuidado, juntamente com os outros bispos, da Igreja em Portugal.<\/p>\n<p>Bispos sem trabalho n\u00e3o existem. Todos tinham as mesmas obje\u00e7\u00f5es que eu tenho: uma diocese para cuidar, todos bem ocupados e uma miss\u00e3o destas, que agora \u00e9 proposta, tem de se equacionar juntamente com outras responsabilidades e \u00e9 isso que vamos fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Perspetiva-se um trabalho a dobrar? Em que consiste ser presidente da Confer\u00eancia Episcopal?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Tenho de aprender&#8230; N\u00e3o sei!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas h\u00e1 ocupa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas da Confer\u00eancia Episcopal&#8230;?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 \u00c9 evidente que h\u00e1! H\u00e1 ocupa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 preocupa\u00e7\u00f5es, aten\u00e7\u00f5es especiais a ter que se v\u00e3o conjugar com as que agora tenho.<\/p>\n<p>Antes de ser bispo, eu sabia o que era ser bispo, sabia tudo! Depois quando fui eleito bispo de Set\u00fabal, perdi as certezas e comecei a aprender&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E foi muito diferente do que tinha pensado?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 N\u00e3o, foi real. Acho que se n\u00e3o tivermos algum sonho quando come\u00e7amos uma miss\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 bom. Mas tamb\u00e9m levar as perspetivas todas j\u00e1 feitas \u00e9 muito mau!<\/p>\n<p>Lembro-me que, quando cheguei a Set\u00fabal, chegou tamb\u00e9m a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de F\u00e1tima, na prepara\u00e7\u00e3o do jubileu. Chegou \u00e0 S\u00e9 no mesmo dia em que eu fui ordenado. E quando come\u00e7amos a programar, o primeiro pensamento foi \u201cvai ser uma grande confus\u00e3o\u201d. Mas depois comecei a pensar: n\u00e3o, \u00e9 uma grand\u00edssima oportunidade.<\/p>\n<p>Nos 15 dias seguintes em que a Imagem Peregrina ficou na diocese, todas as noites acompanhei a imagem numa prociss\u00e3o. Fiz mais quil\u00f3metros de prociss\u00e3o nesses dias do que tinha feito na vida toda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E ficou a conhecer a diocese&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 \u201cWith Mary, by night&#8230;!\u201d Porque era sempre \u00e0 noite! De dia havia mais coisas para fazer.<\/p>\n<p>Eu ia pondo os p\u00e9s no ch\u00e3o e dizia: \u201cP\u00f5e os p\u00e9s nesta terra&#8230; P\u00f5e os p\u00e9s nesta terra!\u201d<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria ideia de miss\u00e3o \u00e9 essa: n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o simplesmente de geografia, mas tem de ser p\u00f4r os p\u00e9s no terreno onde se est\u00e1! A grande mensagem de miss\u00e3o da Igreja \u00e9 ir ao encontro do mundo, onde ele est\u00e1 e como est\u00e1.<\/p>\n<p>A Igreja foi mudando com a sua miss\u00e3o: nasceu dentro de um ambiente judaico e, quando come\u00e7a a confrontar-se com aquilo que n\u00e3o \u00e9 judaico, tem de mudar o seu \u201ccart\u00e3o de identidade\u201d. N\u00e3o aquilo que cr\u00ea ou aquilo que leva, mas a sua forma de estar: vai fixar resid\u00eancia pelo mundo inteiro, o que significa assumir as cores e os crit\u00e9rios do lugar e amass\u00e1-los com o fundamento do Evangelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Estudos b\u00edblicos na presid\u00eancia da CEP<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 E esse \u00e9 um perfil que vai levar para a presid\u00eancia da CEP, tanto mais que o vice-presidente, D. Virg\u00edlio Antunes, tamb\u00e9m \u00e9 da \u00e1rea da B\u00edblia como o D. Jos\u00e9 Ornelas?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Isso \u00e9 muito interessante porque, quando se diz que \u00e9 preciso adaptar, n\u00e3o significa que n\u00e3o temos uma identidade a preservar. Temos! As nossas ra\u00edzes s\u00e3o bem claras.<\/p>\n<figure id=\"attachment_178708\" aria-describedby=\"caption-attachment-178708\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178708\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/jose-ornelas_manchete2a.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178708\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR<\/figcaption><\/figure>\n<p>O Papa diz que o crist\u00e3o \u00e9 um homem de mem\u00f3ria e isso significa que n\u00f3s vivemos assentes em realidades que s\u00e3o fundamentais ao ser humano: a centralidade de Cristo no meio da Hist\u00f3ria. Esse \u00e9 sempre um ponto de retorno, de ra\u00edzes. Mas essas ra\u00edzes n\u00e3o s\u00e3o simplesmente um regresso ao passado, antes se refazem constantemente. E isso, na Igreja em Portugal, n\u00e3o \u00e9 algo de novo! A Igreja esteve sempre em contacto com o mundo.<\/p>\n<p>Eu venho da Madeira, que celebrou h\u00e1 pouco os 500 anos da diocese que se fez por todo o mundo. E \u00e9 como o ser madeirense: de raiz, de afetos e de tudo&#8230; Mas a ilha \u00e9 um ponto de partida para o mar imenso! H\u00e1 gente que fica aflita quando chega \u00e0 Madeira porque v\u00ea \u00e1gua por todo o lado. N\u00f3s vemos caminhos que se abrem para todo o mundo, sem muros!<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 algo assim: \u00e9 um caminho donde se parte, que se leva no cora\u00e7\u00e3o e se conjuga e se amassa com tantas coisas. E \u00e9 por isso que criamos mesti\u00e7agem em todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A fundamenta\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 o ponto de partida&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 \u00c9, porque tudo come\u00e7a na Palavra, onde \u00e9 preciso voltar nos momentos de grande mudan\u00e7a, como os que vivemos agora. \u00c9 fundamental saber a identidade que se tem, n\u00e3o como algo de intoc\u00e1vel e de regresso saudosista, mas como uma riqueza din\u00e2mica que se recria constantemente. <u>S\u00f3 os ideais d\u00e9beis<\/u> \u00e9 que t\u00eam medo e se fecham.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de seita que se vive em determinadas realidades da Igreja \u00e9 precisamente isso: o medo do desconhecido, o medo do novo e o fechar-se em realidades fetichistas do passado que n\u00e3o t\u00eam coragem de se amassar com o mundo como ele se apresenta. \u00a0Isso \u00e9 um regresso bafiento ao passado! E a Palavra de Deus n\u00e3o tem nada de bafiento!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Um regresso bafiento que o presidente da CEP rejeita por completo&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 N\u00e3o se rejeita! Isso faz parte&#8230;<\/p>\n<p>Uma pessoa que gosta muito da sua terra, que me fala da Madeira, de Portugal&#8230; Eu gosto muito do meu pa\u00eds, mas se ficar sempre nessa realidade estou a limitar o pa\u00eds e a limitar a Madeira, porque o esp\u00edrito donde a gente sai \u00e9 o esp\u00edrito de nos recriarmos constantemente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O ber\u00e7o e o mundo da Vida Religiosa <\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Para al\u00e9m desta fundamenta\u00e7\u00e3o na B\u00edblia, no percurso de vida de D. Jos\u00e9 Ornelas, h\u00e1 uma outra que o marcou profundamente: a perten\u00e7a a uma congrega\u00e7\u00e3o religiosa e o facto de ter sido o superior-geral, o respons\u00e1vel dos dehonianos em todo o mundo. H\u00e1 uma dimens\u00e3o internacional no seu percurso de vida que ajuda a olhar o mundo, a globaliza\u00e7\u00e3o e a responder aos desafios que se nos colocam e n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 da nossa porta, mas de todo o mundo, como nos mostra esta pandemia?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Isso foi uma das coisas que aprendi ao entrar na congrega\u00e7\u00e3o dos Sacerdotes do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tinha dois irm\u00e3os no semin\u00e1rio, quando era crian\u00e7a, nos meus 10 anos, e os mission\u00e1rios dehonianos passaram na minha escola. Eu disse que queria ir para o semin\u00e1rio, mas queria ficar na Madeira porque gostava muito da Madeira.<\/p>\n<p>E foi no semin\u00e1rio, na Igreja madeirense que comecei a ler as revistas mission\u00e1rias \u2013 Aud\u00e1cia, Al\u00e9m-Mar, etc \u2013 e comecei a pensar que esse era o meu caminho e est\u00e1 muito ligado ao sonho de todos os madeirenses: n\u00e3o abandonar a ilha para fugir, mas meter-se ao mar!<\/p>\n<p>Foi no local, na ilha, que eu aprendi a conhecer o mundo e a desejar conhecer o mundo. Lembro-me do meu primeiro encontro com alguns que j\u00e1 estavam na congrega\u00e7\u00e3o que diziam: uma das coisas interessantes que tem a Congrega\u00e7\u00e3o \u00e9 que nunca estamos num lugar s\u00f3. E como gostava de Geografia e de Hist\u00f3ria, as coisas aliaram-se&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211;\u00a0 E depois experimentou-o \u00e0 m\u00e1xima escala&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC &#8211;\u00a0 Sim.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m n\u00e3o existe para mim uma contradi\u00e7\u00e3o: eu tenho um irm\u00e3o padre da Diocese do Funchal, o c\u00f3nego Agostinho, de quem tive todo o apoio quando disse que queria ser mission\u00e1rio. E o discernimento foi muito simples: estes eram os que estavam mais \u00e0 m\u00e3o, que tinham chegado \u00e0 Madeira h\u00e1 poucos anos.<\/p>\n<p>O meu sonho de ser mission\u00e1rio foi sempre constante e continua a ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tamb\u00e9m na Diocese de Set\u00fabal e agora como presidente da CEP?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Evidentemente!<\/p>\n<p>Para ser honesto, eu n\u00e3o escolhi a Congrega\u00e7\u00e3o do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus por causa do seu carisma&#8230; Eu s\u00f3 sabia que eram mission\u00e1rios e que queria ser mission\u00e1rio. N\u00e3o foi uma escolha pela Vida Religiosa, foi uma escolha por ser mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>O ser mission\u00e1rio em comunidade fascinou-me \u00e0 medida que fui conhecendo. O fasc\u00ednio da vida \u00e9 assim; tem a ver com a realidade, com o p\u00f4r os p\u00e9s na realidade e saber como a\u00ed vive o sonho que se tem. A congrega\u00e7\u00e3o passou a ser uma das p\u00e1trias que me caraterizam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O conhecimento da Igreja Cat\u00f3lica em todo o mundo que mais valia constitui para o presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Antes de mais, um fator de grande admira\u00e7\u00e3o, por encontrar igrejas diferentes.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia que eu fiz em Mo\u00e7ambique foi muito interessante. Quando fui para l\u00e1, em agosto de 1974 e estavam em curso os primeiros contactos com os guerrilheiros da Frelimo, fui visitar algumas bases no mato e entusiasmei-me muito com aquela revolu\u00e7\u00e3o, assim como a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa de 74. Vivi a independ\u00eancia l\u00e1 com uma grand\u00edssima alegria e fui experimentando tamb\u00e9m o que se foi seguindo, que n\u00e3o foi t\u00e3o simp\u00e1tico e acabou na guerra civil que durou 15 anos. Vivi aquele drama todo, n\u00e3o l\u00e1, mas c\u00e1, e lembro-me o que era o refazer o meu ser portugu\u00eas. Quando fui para Mo\u00e7ambique j\u00e1 era muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao regime e \u00e0 situa\u00e7\u00e3o das col\u00f3nias, particularmente da guerra em \u00c1frica. Mas, viver esta realidade l\u00e1, ter de reinventar a hist\u00f3ria (porque em Mo\u00e7ambique estudava-se a mesma hist\u00f3ria, os mesmos rios e os mesmos caminhos de ferro que se estudavam aqui), e, quando eu falava da escravatura, sentia as cadeiras dos alunos estremecerem. Tamb\u00e9m nunca poupei nada, porque \u00e9 muito importante viver a realidade, tamb\u00e9m a prop\u00f3sito das discuss\u00f5es de hoje sobre racismo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E \u00e9 um desafio do presente&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 \u00c9 um desafio de todos, que n\u00e3o se faz simplesmente com recrimina\u00e7\u00f5es. Eu n\u00e3o me sinto culpado dos desajustes que se fizeram na Hist\u00f3ria de Portugal. Mas sinto-me correspons\u00e1vel por aquilo que foi a nossa hist\u00f3ria, no sentido em que assumo a Hist\u00f3ria do meu pa\u00eds como me assumo a mim mesmo, como uma pessoa que se engana, que foi adaptando percursos e libertando-se dos pr\u00f3prios esquemas. E este pa\u00eds n\u00e3o precisa de ter vergonhas pelas asneiras do passado. Ai f\u00ea-las!&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas tamb\u00e9m n\u00e3o precisa de tapar est\u00e1tuas por causa disso&#8230;<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 E n\u00e3o vou amputar as minhas pernas pelos passos mal dados! Tenho \u00e9 de saber que lugar dou a essa realidade na constru\u00e7\u00e3o da minha vida e para construir a vida que eu quero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ser presidente da CEP<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_178853\" aria-describedby=\"caption-attachment-178853\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178853\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Jose_Ornelas_CEP.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178853\" class=\"wp-caption-text\">Foto Lusa, D. Jos\u00e9 Ornelas, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>AE \u2013 H\u00e1 uma marca na Vida Religiosa que \u00e9 a comunidade e na sua experi\u00eancia de superior-geral de uma congrega\u00e7\u00e3o, feita de contactos, de di\u00e1logo, de respeito pelas diferen\u00e7as. Essa marca passar\u00e1 para o presidente da Confer\u00eancia Episcopal?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Devagar! Uma das coisas que disse quando cheguei a Set\u00fabal foi que a experi\u00eancia de governo, de 12 anos como superior geral, n\u00e3o serve. \u00c9 um falso semelhante. Tem os mesmos valores, mas modos de ser diferente. Eu disse a mim mesmo: n\u00e3o vais transformar a diocese numa congrega\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E o mesmo se aplica \u00e0 Confer\u00eancia Episcopal?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 \u00c0 Confer\u00eancia Episcopal, aplica-se mais ainda!<\/p>\n<p>Falar de governo na Confer\u00eancia Episcopal \u00e9 completamente desajustado&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 N\u00e3o \u00e9 uma assembleia legislativa ou governativa?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Tem faculdades de dar orienta\u00e7\u00f5es, mas a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 de igrejas locais, desafiadas a trabalhar em rede e em subsidiariedade. A Igreja vive na fam\u00edlia, na par\u00f3quia, na diocese, em conjuntos de dioceses que caraterizam a Igreja num pa\u00eds. Mas \u00e9 nas dioceses, em rede de comunh\u00e3o atrav\u00e9s da figura do Papa, que se realiza a unidade da Igreja.<\/p>\n<p>Os bispos s\u00e3o a express\u00e3o de cada igreja local. Encontrarem-se juntos \u00e9 fundamental para realizar a unidade da Igreja, o que se chama a colegialidade, e \u00e9 muito semelhante ao que existe na Vida Religiosa onde em qualquer n\u00edvel de decis\u00e3o h\u00e1 sempre um conselho, uma forma colegial de analisar as coisas. Depois, quem governa, atua!<\/p>\n<p>A Confer\u00eancia Episcopal \u00e9 a reuni\u00e3o dos representantes das v\u00e1rias dioceses. N\u00e3o tem um papel propriamente de governo, mas de coordena\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o apost\u00f3lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E quando em causa est\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o de uma voz para o di\u00e1logo entre a Igreja e a restante sociedade? \u00c9 dif\u00edcil que os v\u00e1rios setores da sociedade tenham 20 vozes de di\u00e1logo, de 20 dioceses&#8230; A Confer\u00eancia Episcopal n\u00e3o tem de funcionar como voz de di\u00e1logo?<\/em><\/p>\n<p>OC &#8211;\u00a0 Funciona e tem de funcionar cada vez melhor, nesse sentido! Trabalhamos em rede, como igrejas fraternas, que se juntam para serem a Igreja em Portugal, o contexto sociol\u00f3gico onde n\u00f3s nos inserimos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E as dioceses e o Vaticano: a CEP<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Falemos do papel das confer\u00eancias episcopais: que sinal foi dado pelo Papa Francisco ao chamar delegados das confer\u00eancias episcopais para a cimeira sobre a prote\u00e7\u00e3o de menores? E o que significa o facto do Papa ter confiado \u00e0s confer\u00eancias episcopais, quando assinalou os 50 anos da cria\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo dos Bispos, um espa\u00e7o de sinodalidade, uma inst\u00e2ncia interm\u00e9dia entre o Vaticano e cada diocese? Que renova\u00e7\u00e3o pode estar em curso para dar uma nova configura\u00e7\u00e3o \u00e0s confer\u00eancia episcopais?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Trata-se de uma forma inteligente de viver a eclesialidade. O Conc\u00edlio Vaticano II veio dizer que o fundamental da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma estrutura piramidal de poder, mas uma estrutura circular. A grande imagem da Igreja \u00e9 a que est\u00e1 no Evangelho: quando v\u00e3o perguntar a Jesus onde est\u00e1 a sua irm\u00e3 e os seus irm\u00e3os ele diz para olhar \u00e0 sua volta (estrutura circular) e diz que as irm\u00e3s e os irm\u00e3os s\u00e3o os que escutam a Palavra de Deus e a p\u00f5em em pr\u00e1tica. E isto cria comunh\u00e3o, que se tem de organizar. Mas no centro est\u00e1 Cristo.<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos desta sinodalidade, de fazer caminhos juntos. E essa circularidade n\u00e3o anula a necessidade de estruturar.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio que a refer\u00eancia apost\u00f3lica (os que \u201cdesde o princ\u00edpio estiveram connosco\u201d, como diz Pedro no momento de completar o grupo dos 12 com a elei\u00e7\u00e3o de Matias), \u00e9 o que se perpetua nas dioceses na figura do bispo. N\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio da autoridade, mas de testemunho. Porque a autoridade baseia no testemunho de Cristo, que re\u00fane circularmente os irm\u00e3os e est\u00e1 ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o, da unidade, da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>A Igreja universal est\u00e1 em todo o mundo e nos representantes, numa circularidade, torna-se sinodal, faz caminho em conjunto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tri\u00e9nio 2020-2023<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Gravamos esta conversa na sala onde foi eleito e um dia depois da elei\u00e7\u00e3o para presidente da CEP. O que espera para este tri\u00e9nio da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 Sempre admirei a CEP! N\u00e3o somos bons no sentido de ser perfeitos, mas quando \u00e0s vezes se especula sobre as divis\u00f5es entre bispos, n\u00e3o tenho notado isso. Somos diferente e temos opini\u00f5es diferentes, sim. Mas os pronunciamentos da confer\u00eancia s\u00e3o praticamente un\u00e2nimes.<\/p>\n<p>Que precisamos de mudar e de melhorar a articula\u00e7\u00e3o, de nos aproximarmos em conjunto \u00e0 realidade, de repensar tudo isso, de estabelecer novos la\u00e7os de coopera\u00e7\u00e3o e de trabalhar em conjunto dentro da Igreja, sim! E precisamos de dinamizar o esp\u00edrito de miss\u00e3o, o que significa amassar o Evangelho com a realidade em que vivemos e encontrar linguagens novas para o mundo de hoje.<\/p>\n<p>A pandemia, por exemplo, veio-nos ajudar a descobrir muitas coisas, como noutros setores da sociedade portuguesa. E as coisas novas, algumas delas, v\u00e3o ser importantes, v\u00e3o ser grandes utens\u00edlios para o futuro.<\/p>\n<p>Na \u00faltima Assembleia Plen\u00e1ria aprov\u00e1mos um documento sobre o nosso olhar sobre a sociedade durante e a que vai saindo da pandemia, mas temos agendado um discurso semelhante sobre a Igreja. N\u00e3o foi feito ainda, porque tudo isto est\u00e1 numa evolu\u00e7\u00e3o muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A Igreja p\u00f3s-pandemia?<\/em><\/p>\n<p>OC \u2013 A Igreja p\u00f3s-pandemia!<\/p>\n<p>Isto \u00e9 muito dram\u00e1tico. Mas das pandemias nascem sempre mundos novos. E eu espero que esta experi\u00eancia nos fa\u00e7a entender muitas coisas: uma Igreja que precisa de estar mais em rede, pr\u00f3xima daqueles que est\u00e3o mais nas periferias e na aten\u00e7\u00e3o aos mais fr\u00e1geis, porque nos pobres decide-se a civiliza\u00e7\u00e3o que queremos criar. As empresas, com mais ou menos desenvolvimento tecnol\u00f3gico, s\u00e3o mais ou menos pr\u00f3speras. Mas \u00e9 necess\u00e1rio saber se as empresas geram verdadeira riqueza e humaniza\u00e7\u00e3o ou pobreza e explorados. E \u00e9 ao n\u00edvel dos pobres que se v\u00ea se a \u201ctemperatura\u201d passou os limites do razo\u00e1vel e come\u00e7amos a ter uma pandemia.<\/p>\n<p>Diz-nos o Evangelho e confirma-o uma pandemia: os pobres t\u00eam de ser o fulcro da aten\u00e7\u00e3o porque \u00e9 por a\u00ed que constru\u00edmos uma sociedade mais justa e melhor.<\/p>\n<p>A Igreja tem um papel importante, n\u00e3o para se substituir a ningu\u00e9m nem para se p\u00f4r em bicos de p\u00e9s, mas porque traz para a constru\u00e7\u00e3o desse mundo uma experi\u00eancia, uma mem\u00f3ria de humanismo, e procura um futuro que vai para al\u00e9m de todas as pandemias e de tudo o resto: a presen\u00e7a de Cristo vivo e presente que n\u00e3o se esgota no momento da Hist\u00f3ria. \u00c9 com Ele que n\u00f3s olhamos, com responsabilidade, esfor\u00e7o e otimismo, este mundo em que vivemos, porque \u00e9 poss\u00edvel fazer um mundo melhor.<\/p>\n<p><em>(Entrevista emitida no programa 70&#215;7 do dia 21 de junho, na RTP2)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo presidente da Confer\u00eancia Episcopal aponta para um trabalho em rede na Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, diz que \u00abbispos sem trabalho n\u00e3o existem\u00bb, recorda as suas ra\u00edzes na Ilha da Madeira e os caminhos abertos pelo \u00abmar imenso\u00bb que partiu do desejo de ser 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