{"id":17896,"date":"2006-05-09T12:59:04","date_gmt":"2006-05-09T12:59:04","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/09\/centenario-do-homem-da-coragem\/"},"modified":"2006-05-09T12:59:04","modified_gmt":"2006-05-09T12:59:04","slug":"centenario-do-homem-da-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/centenario-do-homem-da-coragem\/","title":{"rendered":"Centen\u00e1rio do homem da coragem"},"content":{"rendered":"<p>No dia 10 de Maio de 1906 nasceu D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, &#8220;Homem livre&#8221; que sempre aspirou &#8220;a oferecer esta liberdade a uma causa que superasse a minha vida&#8230;&#8221;. <!--more--> \u201cFixei demoradamente o meu olhar sobre o rosto de D. Ant\u00f3nio imobilizado pela morte. Era um rosto emagrecido, mas belo e sereno. Creio que era este o rosto do seu mundo interior. Mesmo, nas horas mais dif\u00edceis, nunca perdeu a serenidade, mesmo quando as suas palavras tinham o sabor de uma viol\u00eancia. A viol\u00eancia de D. Ant\u00f3nio era a viol\u00eancia dos pac\u00edficos. E uma tal viol\u00eancia \u00e9 o apan\u00e1gio dos homens interiormente livres\u201d. Foi deste modo que D. Manuel de Almeida Trindade, bispo resignat\u00e1rio de Aveiro, descreveu a \u00faltima imagem de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, o c\u00e9lebre \u00abbispo do Porto\u00bb, que completaria um s\u00e9culo de vida no pr\u00f3ximo dia 10 de Maio. Este cidad\u00e3o, natural de Milhundos (Penafiel), nascido no seio duma fam\u00edlia de Entre Douro e Minho foi \u201cnesta terra dos homens, um grande portugu\u00eas, um grande crist\u00e3o e um grande bispo da Igreja no Porto. Ficar\u00e1 na mem\u00f3ria das gera\u00e7\u00f5es, como grande refer\u00eancia e apelo para a coragem, na liberdade e na justi\u00e7a\u201d \u2013 sublinhou D. J\u00falio Tavares Rebimbas na Homilia das Ex\u00e9quias de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, no dia 15 de Abril de 1989. A morte n\u00e3o \u00e9 um simples diagn\u00f3stico biol\u00f3gico, nem o oposto da vida, porque est\u00e1 inclu\u00edda em todo o nascimento. \u00c9 t\u00e3o decisiva que n\u00e3o se pode entender uma interpreta\u00e7\u00e3o do homem que n\u00e3o inclua o problema da morte. Para o crist\u00e3o, esta \u00e9 a passagem do provis\u00f3rio ao definitivo. D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes abandonou a vida terrena mas deixou \u00e0s gera\u00e7\u00f5es vindouras o seu testemunho que \u201cjamais se apagar\u00e1 do imagin\u00e1rio desta imensa comunidade de homens e mulheres que d\u00e3o rosto \u00e0 Na\u00e7\u00e3o Portuguesa\u201d. (Teixeira, Manuel Pinto; in: Editorial de \u00abO Comercio do Porto\u00bb de 14 de Abril de 1989).  <b>Em Portalegre tentou implementar a Reforma Agr\u00e1ria<\/b> Recebeu a ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal a 22 de Setembro de 1928 e passados vinte anos (15 de Janeiro de 1948) \u00e9 eleito bispo coadjutor da diocese de Portalegre \u2013 Castelo Branco onde se manteve at\u00e9 1952. O ano da ida para a diocese alentejana, raiana e beir\u00e3, est\u00e1 intimamente ligado ao seu m\u00fanus pastoral: Ano da Proclama\u00e7\u00e3o da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do homem \u2013 \u201cdos quais foi insistente defensor\u201d \u2013 e no dia da ordena\u00e7\u00e3o episcopal (2 de Maio de 1948) celebra-se Santo Atan\u00e1sio de Alexandria. \u201cCoincid\u00eancia imprevis\u00edvel de exilados\u201d. (cf. Azevedo, Carlos Moreira; In: \u201cAnt\u00f3nio Ferreira Gomes (1906-1989) \u2013 Bispo ao Servi\u00e7o da Liberdade\u201d \u2013 Fotobiografia e Testemunhos). Durante o per\u00edodo passado em Portalegre, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes revela uma posi\u00e7\u00e3o \u201cdoutrinal discreta mas abundante e indiscutivelmente promissora da inova\u00e7\u00e3o que s\u00f3 mais tarde se lhe conheceu\u201d (In: \u201cD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes \u2013 Cerim\u00f3nias evocativas da sua mem\u00f3ria\u201d). Numa entrevista concedida ao Jornal \u00abO Com\u00e9rcio do Porto\u00bb, de 2 de Junho de 1986, o prelado real\u00e7a que, em grande parte, quem \u201cfaz o bispo \u00e9 a sua pr\u00f3pria diocese. Eu fui para Portalegre e, com surpresa minha, encontrei-me a falar de democracia e coisas parecidas\u201d. Em Castelo Branco, na Festa de Jesus Oper\u00e1rio, \u201csem o ter pensado, sem o ter projectado, encontrei-me a dizer: em democracia, o n\u00famero \u00e9 a for\u00e7a e v\u00f3s sois o n\u00famero; portanto, em democracia, sois a for\u00e7a. Pensai bem nas responsabilidades que isto acarreta\u201d. (In: \u00abD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes \u2013 Antologia do seu pensamento\u00bb; I Volume).  <b>O interesse pelo mundo rural<\/b> Nestes quatro anos, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes deixou marcas e a sua marca naquele territ\u00f3rio eclesial. Depressa se deu conta da grande chaga que grassava aquela Igreja particular. Aqueles latif\u00fandios geravam um vast\u00edssimo proletariado campesino \u201ccondenado \u00e0 prec\u00e1ria exist\u00eancia da m\u00e3o-de-obra sazonal\u201d (Cf. Gomes, Ant\u00f3nio Ferreira; In: Revista \u00abLumen\u00bb n.\u00ba 16 de 1952.) O mundo rural \u201csempre me interessou muito\u201d e \u201cdevo dizer que, muito antes do 25 de Abril, j\u00e1 eu falava da reforma agr\u00e1ria\u201d. E acrescenta: \u201cEm Portalegre, eu convocava um certo n\u00famero de propriet\u00e1rios e t\u00ednhamos uma conversa sobre a situa\u00e7\u00e3o criada \u00e0 Igreja pela propriedade no Alentejo\u201d (In: Gomes, Ant. Ferreira; na entrevista ao Jornal \u00abO Com\u00e9rcio do Porto\u00bb). Urgia um eficaz programa de recupera\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o de todos os valores humanos que D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes caracterizava de \u201cvaloriza\u00e7\u00e3o do escol e desproletariza\u00e7\u00e3o de massas\u201d. (Cf. Revista \u00abLumen\u00bb n.\u00ba 16 de 1952). Ao procurar dar cumprimento a tal programa reconhecido como priorit\u00e1rio numa obra de evangeliza\u00e7\u00e3o, o prelado entregou-se \u00e0 tarefa de organizar a Associa\u00e7\u00e3o Social Agr\u00e1ria (ASA) que reunisse os grandes propriet\u00e1rios diocesanos e cujas finalidades estatut\u00e1rias se resumiam \u201cao estudo da Doutrina Social da Igreja, as possibilidades da sua aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o portalegrense e elabora\u00e7\u00e3o de um projecto de reforma agr\u00e1ria a prop\u00f4r \u00e0s entidades competentes\u201d (Cf. Revista \u00abLumen\u00bb n.\u00ba 16 de 1952.). A personalidade firme do bispo e, por outro lado, o car\u00e1cter de Salazar e a sua ideologia no que respeitava \u00e0s rela\u00e7\u00f5es Igreja-Sociedade a vigorar no regime, \u201ccom a agravante de estar em curso a organiza\u00e7\u00e3o do corporativismo autorit\u00e1rio do Estado Novo, afigura-se altamente prov\u00e1vel ter vindo a eclodir um \u00abcaso do Bispo de Portalegre\u00bb antes do \u00abcaso do Bispo do Porto\u00bb sucedido mais tarde se, entretanto, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes n\u00e3o tivesse sido nomeado para presidir \u00e0 S\u00e9 Portucalense\u201d (Ferreira, Manuel Pinho; \u00abA Igreja e o Estado Novo na Obra de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes; In. Revista \u00abEstudos Teol\u00f3gicos\u00bb de Julho\/Dezembro de 2004). Na entrevista concedida ao referido jornal, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes aponta as raz\u00f5es para o insucesso do projecto. \u201cQuem demoliu o projecto n\u00e3o foram os alentejanos, foram os deputados em geral. Por isso, eu creio que a reforma se poderia ter feito duma maneira autorizada, uma maneira forte; exactamente o que eles tinham dito antes: um governo forte podia ter feito a reforma agr\u00e1ria sem viol\u00eancias\u201d. No artigo (n\u00e3o assinado) \u00abDepois do aguaceiro\u00bb &#8211; publicado no jornal \u00abO Distrito de Portalegre\u00bb, de 19 de Fevereiro de 1949 \u2013 o prelado aponta duas defici\u00eancias da \u00absitua\u00e7\u00e3o\u00bb que dever\u00e3o \u201cser encaradas a s\u00e9rio e com toda a objectividade: a educa\u00e7\u00e3o da juventude e a situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores rurais que, particularmente neste Alentejo, assume aspectos graves\u201d.  <b>Lan\u00e7ou sementes para al\u00e9m dos latif\u00fandios<\/b> As \u00absementes\u00bb lan\u00e7adas nas terras de Portalegre e Castelo Branco n\u00e3o se destinavam apenas aos latif\u00fandios. Nesta diocese pensa tamb\u00e9m na funda\u00e7\u00e3o de um Semin\u00e1rio Maior e cria a Obra das Voca\u00e7\u00f5es Eclesi\u00e1sticas e Semin\u00e1rios (O.V.E.S), \u201ccom capilaridade paroquial, fundamental para aumentar o n\u00famero dos candidatos ao minist\u00e9rio presbiteral. Outra forma foi o apostolado das classes dirigentes. A elevada cultura do bispo permitia marcar a transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades\u201d (cf. Azevedo, Carlos Moreira; In: \u201cAnt\u00f3nio Ferreira Gomes (1906-1989) \u2013 Bispo ao Servi\u00e7o da Liberdade\u201d \u2013 Fotobiografia e Testemunhos). No primeiro ano do seu m\u00fanus episcopal organiza tamb\u00e9m um Curso Superior de Cultural Cat\u00f3lica, a funcionar at\u00e9 1951, e aproveitou o Congresso do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, realizado em Outubro de 1949 na localidade e Castelo de Vide, para a anima\u00e7\u00e3o do Alto Alentejo, \u201crenovando par\u00f3quias deca\u00eddas desde a Implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica\u201d (Cf. Azevedo, Carlos Moreira). O n\u00famero especial do \u00abO Distrito de Portalegre\u00bb, de 4 de Outubro de 1952 (8 dias antes de tomar posse na diocese do Porto) relata, atrav\u00e9s de numerosos colaboradores, o impacto da sua ac\u00e7\u00e3o pastoral nos quatro anos que esteve naquela diocese.  <b>No Porto com a aud\u00e1cia dos grandes lutadores<\/b> O jornal \u00abNovidades\u00bb, de 13 de Julho de 1952, noticiava que o bispo de Portalegre tinha sido nomeado para a diocese do Porto no dia anterior. Na sua apresenta\u00e7\u00e3o aquele \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o salientava que D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes era \u201cum bispo moderno, no mais puro sentido da palavra, que soube ter, por vezes, a aud\u00e1cia dos grandes lutadores, defendendo, por todos os meios, os tesouros do patrim\u00f3nio crist\u00e3o, o direito e a honra do rebanho ao seus cuidados confiado\u201d. A nomea\u00e7\u00e3o para bispo do Porto \u201cfoi bastante pressionada por Salazar que se sentia incomodado pelas suas reac\u00e7\u00f5es de inconformismo face \u00e0 \u00absitua\u00e7\u00e3o\u00bb, no intuito que a dimens\u00e3o da diocese e as preocupa\u00e7\u00f5es pastorais o absorvessem, impedindo-o de se tornar um opositor ao regime, o que acabaria por n\u00e3o acontecer\u201d (In: Revista \u00abAtrium\u00bb, n\u00fameros 25\/26 de 1999). Na primeira sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 diocese (12 de Outubro) deixou logo ind\u00edcios que seria um defensor e promotor ac\u00e9rrimo dos direitos da pessoa humana: \u201cn\u00f3s, pessoalmente, esperamos recolher a heran\u00e7a dos Maiores e n\u00e3o deixar perder dela, ao menos por cobardia ou comodismo, alguma migalha, quaisquer que possam ser as consequ\u00eancias. Assim Deus nos ajude\u201d (In: Revista \u00abLumen\u00bb n.\u00ba 17 de 1953). De 1952 a 1958, o bispo do Porto notabilizou-se pela aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mis\u00e9ria social do povo portugu\u00eas. Denunciando, principalmente, o car\u00e1cter fascista e ditatorial do regime salazarista; a dimens\u00e3o reduzida dos cidad\u00e3os; a aus\u00eancia de liberdade e o pluralismo partid\u00e1rio; o corporativismo e o n\u00e3o respeito pelos direitos do homem. \u201cA pr\u00f3pria e superior miss\u00e3o da sociedade crist\u00e3 \u00e9 realizar verdadeiramente a sociedade melhor, sem preju\u00edzo mas antes com a promo\u00e7\u00e3o da pessoa humana. Uma com a outra: auxiliam-se e completam-se. Foi o homem crist\u00e3o que fez a exig\u00eancia duma sociedade crist\u00e3, isto \u00e9 da verdadeira sociedade, assente sobre a igualdade essencial dos homens, sem distin\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as, na\u00e7\u00f5es, bens de fortuna ou condi\u00e7\u00e3o de nascimento\u201d (Gomes, Ant\u00f3nio Ferreira; In: \u00abEndireitai as Veredas do Senhor\u00bb).   <b>N\u00e3o calar certas coisas<\/b> O seu olhar n\u00e3o se fixava somente no burgo lusitano e a 25 de Janeiro de 1954 incentivou a organiza\u00e7\u00e3o de uma marcha de sil\u00eancio em protesto contra as persegui\u00e7\u00f5es aos crist\u00e3os da Europa de Leste e da China. Num discurso feito aos jornalistas em 1957, disse-lhes que \u201cem mat\u00e9ria de doutrina, a quest\u00e3o, para a Igreja, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tanto se tem ou n\u00e3o o direito de falar, mas sim se tem j\u00e1 ou n\u00e3o o direito de calar\u201d. Ele n\u00e3o se calou e denunciou o que o seu \u00absentido crist\u00e3o\u00bb n\u00e3o concordava. \u201cConsiderei que era obriga\u00e7\u00e3o dum bispo n\u00e3o calar certas coisas\u201d (In: Entrevista ao \u00abCom\u00e9rcio do Porto\u00bb). No discurso de encerramento da 1.\u00aa Semana de Estudos Rurais (F\u00e1tima, 26 de Mar\u00e7o de 1957), intitulado \u201cA mis\u00e9ria imerecida do nosso Mundo Rural\u201d, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes n\u00e3o cala a sua indigna\u00e7\u00e3o. \u201cO agricultor, que dantes era enfiteuta e tinha um vago senhorio a quem devia foros, depois de ser lavrador por uns tempos, vai passando \u00e0 humilhante situa\u00e7\u00e3o de caseiro de um patr\u00e3o a quem paga rendas, e que, alheio aos seus problemas e anseios, o trata brutalmente como a um oper\u00e1rio ou m\u00e1quina da sua f\u00e1brica\u201d.  <b>Do \u00abpro-mem\u00f3ria\u00bb ao ex\u00edlio<\/b> A 13 de Julho de 1958, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes escreve um \u00abpro mem\u00f3ria\u00bb a Salazar. Neste documento, o prelado elencava os assuntos que queria abordar com o Presidente do Conselho. \u201cOs problemas que eu sinto da minha responsabilidade para com os fi\u00e9is\u2026 E foi essa a raz\u00e3o de eu escrever aquele \u00abpro-mem\u00f3ria\u00bb que lhe mandei, e que mandei s\u00f3 a ele com o objectivo de nos entendermos sobre o que seria a nossa conversa\u201d &#8211; (Entrevista ao Jornal \u00abCom\u00e9rcio do Porto). No m\u00eas seguinte a carta come\u00e7ou a circular devido a \u201cinconfid\u00eancias de um amigo de D. Ant\u00f3nio e de um ministro de Salazar\u201d (Azevedo, Carlos Moreira). Esta \u00e9 a raz\u00e3o de ser do que chamam \u00abcarta aberta\u00bb e que, na verdade, era um memorandum para uma entrevista que estava marcada e que depois \u201cpraticamente foi anulada\u201d (In: \u00abCom\u00e9rcio do Porto\u00bb) A deslealdade foi uma das causas do seu ex\u00edlio, para onde partiu a 24 de Julho de 1959. Este prolongou-se at\u00e9 19 de Junho de 1969. Ap\u00f3s uma breve estadia na Galiza, onde foi acolhido pelo bispo de Santiago de Compostela, passou a residir em Val\u00eancia, por ser mais longe da fronteira portuguesa. A\u00ed trabalhou com o bispo D. Marcelino Olaechea. Naquela cidade espanhola esteve at\u00e9 1963, data de encerramento da segunda sess\u00e3o do II Conc\u00edlio Vaticano. Neste grande acontecimento eclesial, o bispo exilado participou activamente e as actas publicadas testemunham as suas interven\u00e7\u00f5es, sobretudo em mat\u00e9ria de liberdade religiosa e fun\u00e7\u00e3o dos bispos. Terminado o Conc\u00edlio, D. Ant\u00f3nio fixou resid\u00eancia em Lourdes (Fran\u00e7a); Cidade Rodrigo e Alba Tormes. Nestes locais de desterro recebe frequentes visitas de amigos e apoio da diocese do Porto, que \u201csoube ser fiel e digna do seu bispo\u201d, (Azevedo, Carlos Moreira) e aproveita o tempo para saborear a solid\u00e3o e construir no sil\u00eancio. A obra \u201cIgreja na vida p\u00fablica: catolicismo portugu\u00eas e historicidade\u201d resulta deste per\u00edodo.   Depois da subida de Marcelo Caetano ao poder, um grupo de leigos e sacerdotes das terras do Douro movimenta-se para que D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes regresse ao Porto.  <b>A paz \u00e9 poss\u00edvel<\/b> Em 1967, por voto expresso no II Conc\u00edlio Vaticano, o Papa Paulo VI instituiu o Dia Mundial da Paz, a ser celebrado todos os anos, a 1 de Janeiro. Na altura deste an\u00fancio, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes encontrava-se no ex\u00edlio (s\u00f3 entrou na diocese a 5 de Julho de 1969). A primeira celebra\u00e7\u00e3o deste dia fez-se em 1968 mas a primeira \u00abhomilia da paz\u00bb proferida pelo prelado foi em 1970. O que ele fez ininterruptamente at\u00e9 1982, data da sua resigna\u00e7\u00e3o, a 2 de Maio. Falar de paz naquele tempo era inevitavelmente confrontar-se com as raz\u00f5es ou sem raz\u00f5es de \u201cuma guerra colonial, ideologicamente mantida sob a invoca\u00e7\u00e3o da f\u00e9, do imp\u00e9rio (ou mem\u00f3ria dos antepassados) e dos valores da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, guerra essa que mutilava ou conduzia ao cemit\u00e9rio uma parte da nossa juventude, que consumia as riquezas da na\u00e7\u00e3o, que atirava brancos contra negros e negros contra brancos, num racismo at\u00e9 essa altura desconhecido, que isolava cada vez mais Portugal do concerto das na\u00e7\u00f5es, enfim, que concedia ao povo portugu\u00eas o triste palmar\u00e9s de derradeiro representante da mentalidade arcaica do colonialismo\u201d (Linda, Manuel; \u201cD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes e a discuss\u00e3o sobre a guerra colonial\u201d; In: Revista \u00abAtrium\u00bb, Tomo XXIV, Fasc. I de 2003). Para D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes a paz \u00e9 poss\u00edvel. \u201c\u00c9 um poss\u00edvel! Com afirmar isto n\u00e3o se diz se ela existe ou n\u00e3o existe, se \u00e9 real ou n\u00e3o; mas j\u00e1 se diz muito, nega-se que a paz seja imposs\u00edvel, que ela seja um imposs\u00edvel\u201d (\u2026.) Se n\u00e3o estamos diante de um imposs\u00edvel, ent\u00e3o estaremos certamente diante, pr\u00f3xima remotamente, conscientemente ou n\u00e3o, dum mal desnecess\u00e1rio; duma imoralidade, dum pecado individual ou colectivo, finalmente do \u00abpecado do mundo\u00bb\u201d (Gomes, Ant\u00f3nio Ferreira Gomes; \u201cPaz da vit\u00f3ria ou Paz da Justi\u00e7a\u201d \u2013 Homilia de 1 de Janeiro de 1973; In: \u00abHomilias da Paz (1970-1982)\u00bb).  <b>Eliminar este \u00abpecado do mundo\u00bb<\/b> Evidentemente, o caminho ser\u00e1 longo, h\u00e1 enormes dificuldades a vencer, para dar a seguran\u00e7a do direito e da liberdade a todos, homens e povos. Mas, o mais importante, \u201c\u00e9 crer que isso \u00e9 poss\u00edvel e fazer todo o poss\u00edvel por que se comece a realizar. No meio da noite, \u00e9 cantando o sol e o dia que se faz aurora\u201d \u2013 sublinha na \u00abHom\u00edlia da paz\u00bb de 1970 e intitulada \u201cA Paz \u00e9 obra e fruto da justi\u00e7a e da verdade\u201d. Esta aurora aparecer\u00e1 se os homens conseguirem eliminar as causas que provocam este \u00abpecado do mundo\u00bb: \u201ca ambi\u00e7\u00e3o, a vangl\u00f3ria, os interesses, os ressentimentos, as fobias, o medo, o fanatismo, o manique\u00edsmo, etc, etc\u201d \u2013 aponta na homilia \u201cAceitar o pre\u00e7o da paz\u201d pronunciada a 1 de Janeiro de 1971. E acrescenta: \u201ca \u00faltima e universal raz\u00e3o \u00e9 a falta de amor \u00e0 verdade ou a falta de coragem da verdade e das suas consequ\u00eancias\u201d. As suas reflex\u00f5es sobre a paz v\u00e3o crescendo de dramatismo de ano para ano, at\u00e9 desembocarem num cl\u00edmax que \u00e9 a homilia de 1974, a pouco mais de quatro meses da \u00abRevolu\u00e7\u00e3o de Abril\u00bb. Ao dirigir-se aos crist\u00e3os da diocese do Porto \u2013 o pastor portucalense gostava de dizer que a miss\u00e3o do bispo \u00e9 falar aos de dentro da sua Igreja e que, no mais, quem tiver ouvidos para ouvir, que ou\u00e7a \u2013 confronta-os com uma quest\u00e3o provocat\u00f3ria: \u201cSomos crist\u00e3os, n\u00f3s, os portugueses?\u201d (Gomes, Ant\u00f3nio Ferreira, \u201cA Paz depende de ti\u201d \u2013 Homilia de 1 de Janeiro de 1974; In: \u00abHomilias da Paz (1970-1982)\u00bb). A pergunta \u00e9 tudo menos ret\u00f3rica. E a resposta n\u00e3o se pode obter por palavras, mas somente pela observa\u00e7\u00e3o das atitudes. Ora, ao invocar a defesa da f\u00e9 para justificar as guerras coloniais, em boa verdade \u201cos portugueses mais n\u00e3o faziam que paganizar a sua cren\u00e7a\u201d (Linda, Manuel; \u201cD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes e a discuss\u00e3o sobre a guerra colonial\u201d). D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes faz mesmo um elenco de interpela\u00e7\u00f5es sobre a problem\u00e1tica da Paz: \u201cA Paz \u2013 e portanto a guerra \u2013 depende de ti, crist\u00e3o, se instrumentalizas o Evangelho, se mediatizas o Reino de Deus aos reinados dos C\u00e9sares, se condicionas o Verbo de Deus \u00e0 raz\u00e3o ou raz\u00f5es humanas, se p\u00f5es a F\u00e9 ao servi\u00e7o dos interesses, individuais ou colectivos, se fazes da Moral crist\u00e3 universal uma moral limitada pelas fronteiras da na\u00e7\u00e3o, ou do estado ou da classe, se voltas ao deus da tribo ou do imp\u00e9rio, em suma e para hoje, se fazes do Evangelho instrumento ao servi\u00e7o quer da revolu\u00e7\u00e3o social quer da conserva\u00e7\u00e3o social\u201d.  <b>Depois do 25 de Abril um apelo \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o<\/b> Nestas \u00abeduca\u00e7\u00f5es\u00bb sobre a paz, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes revelava o seu contra a guerra colonial. F\u00ea-lo, por\u00e9m, de uma forma \u201cabsolutamente original e \u00fanica: orientando o ethos nacional por um novo rumo que passava por tarefas bem mais nobres e gratificantes do que a opress\u00e3o alheia\u201d (Linda, Manuel; \u201cD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes e a discuss\u00e3o sobre a guerra colonial\u201d). Chegado o momento da liberdade, o bispo faz um repto aos portugueses: \u201cgrande e solene apelo \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o entre todos\u201d para que possam \u201cassegurar as condi\u00e7\u00f5es da paz em Portugal\u201d (Gomes, Ant\u00f3nio Ferreira, \u201cPaz em Portugal pela Reconcilia\u00e7\u00e3o entre os portugueses\u201d \u2013 Homilia de 1 de Janeiro de 1975; In: \u00abHomilias da Paz (1970-1982)\u00bb). Quatro meses depois &#8211; na homilia do Domingo de P\u00e1scoa de 1975 (5 de Abril) &#8211; o bispo do Porto, ao falar do \u00abamor social\u00bb, aponta mais condi\u00e7\u00f5es para que a sociedade seja mais humana e fraterna: \u201cliberdade, justi\u00e7a, igualdade de oportunidades, amizade c\u00edvica, generosidade e esp\u00edrito de servi\u00e7o\u201d (Cf. \u201cOs bispos e a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril\u201d; In: Dicion\u00e1rio Pol\u00edtico).  <b>Aproxima-se o fim<\/b> Antes de completar os 75 anos, escreve ao Papa (12\/3\/81) a pedir a dispensa da jurisdi\u00e7\u00e3o e responsabilidade sobre a diocese do Porto. Passados trinta e quatro anos (2 de Maio de 1982) despede-se do seu rebanho e vai viver numa casa de campo perto da cidade do Porto (Quinta da M\u00e3o Poderosa). A\u00ed escreve as \u00abCartas ao Papa\u00bb &#8211; \u201cfino reposit\u00f3rio de ideias e s\u00famula do seu pensamento\u201d (In: \u201cD. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes \u2013 Cerim\u00f3nias evocativas da sua mem\u00f3ria\u201d). O Pe. Manuel Mota que o acompanhou nos \u00faltimos dias da sua vida terrena testemunhou ao jornal \u00abVoz Portucalense\u00bb que, na \u00faltima noite, o prelado conversou at\u00e9 \u00e0s 23 horas e manifestou o seu regozijo pela conclus\u00e3o da Igreja de Aldoar, \u201ccujas obras suspensas tanto o tinham inquietado\u201d. \u201cCerca das duas e trinta da madrugada levantou-se com a minha ajuda, mas logo a seguir perdeu todas as for\u00e7as. Disse-me sentir que o fim se aproximava\u201d. Terminou a grande luta pelas 4,30 horas mas deixou obra e seguidores. \u00c9 nesta casa que morre a 13 de Abril de 1989. No seu testamento pode ler-se esta frase, resumo de toda uma vida: \u201cHomem livre, sempre aspirei a oferecer esta liberdade a uma causa que superasse a minha vida\u2026\u201d  Lu\u00eds Filipe Santos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 10 de Maio de 1906 nasceu D. 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