{"id":17895,"date":"2006-05-09T12:55:21","date_gmt":"2006-05-09T12:55:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/09\/atitude-profetica-de-d-antonio-e-o-seu-maior-legado\/"},"modified":"2006-05-09T12:55:21","modified_gmt":"2006-05-09T12:55:21","slug":"atitude-profetica-de-d-antonio-e-o-seu-maior-legado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/atitude-profetica-de-d-antonio-e-o-seu-maior-legado\/","title":{"rendered":"Atitude prof\u00e9tica de D. Ant\u00f3nio \u00e9 o seu maior legado"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a D. Carlos Azevedo <!--more--> D. Carlos Azevedo explica \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA quais as dimens\u00f5es principais em que a vida e obra de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes continuam actuais, para a Igreja e a sociedade portuguesas.  <i>Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes continua presente na vida da Igreja em Portugal? D. Carlos Azevedo \u2013<\/i> A figura marcante que D. Ant\u00f3nio foi para a hist\u00f3ria da Igreja portuguesa na segunda metade do s\u00e9culo XX n\u00e3o se circunscreve a esse arco de tempo, mas n\u00f3s temos geralmente pouca capacidade para aprender as li\u00e7\u00f5es do mestres. Em Portugal, desdenhamos muito daqueles que foram verdadeiros mestres, porque estiveram um pouco acima do seu tempo&#8230;  <i>AE \u2013 Est\u00e1 esquecido? CA \u2013<\/i> O pensamento de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes tem merecido estudo, n\u00e3o s\u00f3 publica\u00e7\u00f5es de obras in\u00e9ditas. Ele foi, fundamentalmente, um Bispo, em tudo e sempre, tudo o resto parte da\u00ed. Foi como Bispo e homem da Igreja que ele tomou posi\u00e7\u00e3o perante o Estado Novo, n\u00e3o como pol\u00edtico, como alguns denegriram e acusaram e alguns Bispos incompreenderam.  Como homem da Igreja, pensava o mundo e as realidades segundo princ\u00edpios crist\u00e3os, ele que era fil\u00f3sofo de forma\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, antes de ser Bispo ningu\u00e9m falava dele e n\u00e3o publicou nada, a n\u00e3o ser um pe\u00e7a sobre a vida do Beato Nuno \u00c1lvares Pereira, porque achava que ele se tinha destacado por uma posi\u00e7\u00e3o nova em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas do tempo, para Portugal. D. Ant\u00f3nio disse que nunca ningu\u00e9m pegou na sua vis\u00e3o do Beato Nuno, tinha desgosto por isso.   <i>AE \u2013 Como compreender o pensamento deste Bispo? CA \u2013<\/i> A sua vis\u00e3o do papel da Igreja assenta na comunh\u00e3o episcopal. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as \u201cCartas ao Papa\u201d (um g\u00e9nero liter\u00e1rio que utilizou muitas vezes), o seu testamento espiritual, s\u00e3o um texto desafiador, porque ele passou o drama de ser acusado de n\u00e3o respeitar a comunh\u00e3o na Confer\u00eancia Episcopal. Quando em 1956, ele prop\u00f4s uma carta pastoral colectiva do episcopado sobre a quest\u00e3o do Estado Novo, os Bispos n\u00e3o acolheram a ideia. Fruto dessa recusa em tomar uma posi\u00e7\u00e3o colectiva, ele viu-se obrigado a tomar uma posi\u00e7\u00e3o individual, pela obriga\u00e7\u00e3o de ser Bispo. Ele soube distinguir entre comunh\u00e3o colegial e uniformidade calada. Isso \u00e9 fundamental: um Bispo est\u00e1 em comunh\u00e3o com o Evangelho, est\u00e1 em comunh\u00e3o com Cristo, est\u00e1 em comunh\u00e3o com a Igreja e, por isso, n\u00e3o pode deixar de falar em determinadas circunst\u00e2ncias e fazer a den\u00fancia cr\u00edtica daquilo que, dizendo-se cat\u00f3lico, n\u00e3o \u00e9 segundo a Doutrina Social da Igreja (DSI). Ora, o corporativismo do Estado Novo, apesar de ser considerado por muitos como de influ\u00eancia cat\u00f3lica, foi denunciado por D. Ant\u00f3nio como contr\u00e1rio \u00e0 DSI, a sua grande luta nos anos 50, at\u00e9 ao ex\u00edlio.  <i>AE \u2013 E depois do ex\u00edlio? CA &#8211;<\/I> Depois d\u00e1-se o Conc\u00edlio, no qual ele tem interven\u00e7\u00f5es sobre a liberdade religiosa e a dignidade da pessoa humana, que ser\u00e3o editadas brevemente. As suas interven\u00e7\u00f5es, com as de D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende, foram as \u00fanicas de interesse dos nossos Bispos, no Conc\u00edlio, sinal de uma reflex\u00e3o que era feita. Na altura n\u00e3o t\u00ednhamos te\u00f3logos capazes &#8211; a Faculdade de Teologia s\u00f3 come\u00e7ou a funcionar de pois do Conc\u00edlio \u2013 e n\u00e3o havia pessoas preparadas para acompanhar os nossos Bispos. H\u00e1 uma fase de magist\u00e9rio rico e abundante, entre 1969 e 1989, ano da sua morte, em que ele tenta, fundamentalmente, aplicar o Conc\u00edlio \u00e0 Diocese. A\u00ed com \u00f3rg\u00e3os de co-responsabilidade pioneiros em Portugal: criou o Conselho dos Leigos, que depois foi extinto; criou o Conselho Presbiteral; o seman\u00e1rio \u201cVoz do Pastor\u201d passou a ser \u201cVoz Portucalense\u201d \u2013 uma atitude nova em rela\u00e7\u00e3o a um \u00f3rg\u00e3o que n\u00e3o deve ser a voz do Bispo, mas a voz da Igreja; criou a Comiss\u00e3o Diocesana Justi\u00e7a e Paz mesmo antes de haver uma Comiss\u00e3o Nacional. Destaco ainda a sua concep\u00e7\u00e3o do papel da Igreja na sociedade, como uma proposta de educa\u00e7\u00e3o da liberdade e para a paz. As suas homilias para a paz, que est\u00e3o reunidas num volume, s\u00e3o uma doutrina larga sobre a paz, que foi estudada j\u00e1 em tr\u00eas teses de doutoramento. Ap\u00f3s o 25 de Abril, ele reflecte sobre o valor da democracia e os limites para a liberdade. Essa reflex\u00e3o merecer\u00e1 ser lida e revisitada, ainda hoje.  <i>AE \u2013 H\u00e1 disc\u00edpulos deste mestre nos nossos dias? CA \u2013<\/i> Penso que aqui, como ele n\u00e3o se preocupou por ter um pensamento inovador \u2013 ele teve foi uma intui\u00e7\u00e3o, para ser capaz de aplicar os princ\u00edpios para aplicar \u00e0 realidade do presente \u2013 aqueles que ele formou, os que ficaram marcados por ele, lembram a sua atitude de homem de Igreja. Essa \u00e9 a sua maior heran\u00e7a e o maior legado que ele deixou: n\u00e3o tanto as suas ideias, mas a atitude com que ele foi Bispo, a atitude com que ele foi homem de Igreja.  Esta atitude prof\u00e9tica, corajosa, de liberdade com ra\u00edzes profundas, conquistada, constru\u00edda e pensada, de um homem que se obriga a pensar os problemas da Igreja, \u00e9 aquela atitude com que alguns, certamente, ficam marcados e procuram seguir o caminho aberto por ele, de frontalidade, de verticalidade gran\u00edtica, como gosto de dizer, que n\u00e3o se deixa torcer pelos mecanismos do poder, por favores e compromissos facilitadores dos princ\u00edpios.  \u00c9 essa energia vigorosa na defesa dos valores e dos princ\u00edpios do Evangelho e da vida crist\u00e3 que transparece da sua vida, tendo consci\u00eancia da complexidade humana e estando muito atentos  &#8211; algo que era muito pr\u00f3prio de D. Ant\u00f3nio, que procurava sempre ler a realidade e os sinais do tempo, n\u00e3o no vago, mas procurando responder \u00e0s quest\u00f5es. Quem tem princ\u00edpios orientadores bem radicados, n\u00e3o tem medo de certas express\u00f5es e ele dizia mesmo que n\u00e3o tinha medo, sequer, de quem n\u00e3o acredita, mas procura a verdade, porque se a procura, estamos no mesmo caminho.  <i>AE \u2013 Uma abertura de esp\u00edrito que apaixona&#8230; CA \u2013<\/i> Esta confian\u00e7a no ser humano, como capaz da verdade, de sinceramente a procurar, fez com que muitos se aproximassem dele. Foi gra\u00e7as \u00e0 sua inteireza de car\u00e1cter que antes e depois do 25 de Abril que muitos n\u00e3o entenderam. Alguns apoiaram-no porque parecia que ele era contr\u00e1rio ao regime de Salazar, mas quando D. Ant\u00f3nio disse ao regime do p\u00f3s-25 de Abril que havia limites \u00e0s atrocidades, parecia que era do antigo regime. A\u00ed se viu que era homem de um s\u00f3 parecer, que n\u00e3o fazia ced\u00eancia \u00e0s cores da \u00e9poca, mas mantinha sempre a sua fidelidade \u00e0 Igreja.  <i>AE \u2013 E se vivesse hoje? CA \u2013<\/i> O seguimento que podemos ver nalgumas pessoas que admiram D. Ant\u00f3nio \u00e9 sobretudo o da atitude de abertura ao mundo, de acompanhamento do que se passa, sendo capaz de pensar o pa\u00eds, de problematizar as quest\u00f5es e de as iluminar com reflex\u00e3o, para que n\u00e3o andemos continuamente a reboque da realidade, mas orientemos e influenciemos os diferentes poderes para que eles actuem de modo mais correcto. Esta sua atitude \u00e9 que continua a ser provocante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a D. 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