{"id":17894,"date":"2006-05-09T12:52:37","date_gmt":"2006-05-09T12:52:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/09\/memorias-de-um-sobrinho\/"},"modified":"2006-05-09T12:52:37","modified_gmt":"2006-05-09T12:52:37","slug":"memorias-de-um-sobrinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memorias-de-um-sobrinho\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de um sobrinho"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ferreira Gomes <!--more--> Regresso a casa depois do passeio de Domingo, de uma tarde quente de Domingo por volta de 1980. Com os meus irm\u00e3os, fora explorar a plan\u00edcie da Aveleda, nas margens do rio Sousa. O meu tio j\u00e1 n\u00e3o liderava os longos passeios em explora\u00e7\u00e3o de algum recanto desconhecido ou para reencontrar algum ponto da sua j\u00e1 distante inf\u00e2ncia. Ficara em casa em animada conversa com os irm\u00e3os, conversa que provavelmente oscilava entre as pequenas not\u00edcias da fam\u00edlia e dos vizinhos da velha casa do Carreiro, em Melhundos e os grandes problemas nacionais ou mundiais. Em ambos traria um ponto de vista novo e surpreendente. Para ambos mostraria o mesmo interesse, quer fosse o pequeno sucesso de um filho de algum velho trabalhador da casa quer fosse alguma not\u00edcia do jornal do dia.  Regresso e conto que encontrara a pequena capela do Senhor do Monte aberta por estar em prepara\u00e7\u00e3o a festa anual, que l\u00e1 estava a placa referindo a constru\u00e7\u00e3o da capela em 1621 por ordem de um tal Miguel Barbosa. Corrige-me! A minha data estaria errada. A minha mem\u00f3ria de uma hora enganava-me. A data gravada na pedra era sim de 1612. N\u00e3o me valia a pena duvidar da sua mem\u00f3ria de alguns dec\u00e9nios. O tal Miguel Barbosa mandara de facto construir a capela em 1612! Era assim o seu rigor, o mesmo que lhe permitia manter uma longa conversa repleta de cita\u00e7\u00f5es, desde os autores cl\u00e1ssicos ou medievais at\u00e9 aos contempor\u00e2neos, mesmo aparentemente afastados da sua esfera; o mesmo que lhe permitiu escrever longos textos no ex\u00edlio sem acesso a uma biblioteca nem \u00e0 Internet que hoje alimenta a nossa pregui\u00e7a. Eram assim as tardes de Domingo na minha inf\u00e2ncia, no Carreiro. Conversas que s\u00f3 mais tarde pude acompanhar; passeios pelos campos e pelos lugarejos dispersos pela imensa serra entre Melhundos e Vila Boa. Pelos campos que os nossos ascendentes tinham trabalhado ao longo de muitas gera\u00e7\u00f5es, pelo menos desde que os registos paroquiais come\u00e7aram com o Conc\u00edlio de Trento em finais do s\u00e9culo XVI. Foi assim aquele Domingo de Julho de 1959 em que, j\u00e1 noite, toda a fam\u00edlia se despediu dele j\u00e1 com a amea\u00e7a bem firme de que as f\u00e9rias para que partia no estrangeiro n\u00e3o seriam como as outras. A sua velha M\u00e3e ter-se-\u00e1 retirado mais cedo e s\u00f3 os irm\u00e3os discutiam toda a controv\u00e9rsia p\u00fablica e o que poderia suceder. Dele vinha apenas a palavra serena de quem estava bem consciente do seu papel numa Hist\u00f3ria em cujo progresso sempre acreditou. E s\u00f3 voltaria dez longos anos mais tarde para reencontrar a M\u00e3e, numa sentida ora\u00e7\u00e3o frente ao jazigo. Pelo meio ficou um longo peregrinar por essa Europa. Desse per\u00edodo fica-me a mem\u00f3ria da visita anual; fica a recorda\u00e7\u00e3o do seu nome impronunci\u00e1vel e impublic\u00e1vel; ficam as cartas que chegavam com sinais claros de j\u00e1 terem sido lidas; fica o fotograma que a Pide esqueceu de censurar na not\u00edcia da RTP relativa ao Conc\u00edlio e que o fot\u00f3grafo Ant\u00f3nio Guimar\u00e3es soube registar e colocar na sua montra durante muitos meses.  Foi doloroso mas a Primavera de 1969 trouxe a excita\u00e7\u00e3o do regresso e, depois, depois trouxe-nos as Homilias da Paz e tantas outras. Homilias na mesma S\u00e9 em que ainda recordo a minha surpresa com todo o reboli\u00e7o da primeira entrada solene, espreitando do varandim que a minha tia inventou que deveria ter sido reservado para a fam\u00edlia. Desta primeira Homilia aos seus diocesanos do Porto n\u00e3o guardaram os meus cinco anos qualquer mem\u00f3ria. Das \u00faltimas sim, mas essas foram lidas na S\u00e9 mas ouvidas e avidamente seguidas por todo o pa\u00eds.  Dos \u00faltimos anos na M\u00e3o Poderosa, em Ermesinde, fica a mem\u00f3ria dos olhos falhos que corrigiram as provas das Cartas ao Papa em amplia\u00e7\u00e3o m\u00e1xima. Sempre a mesma perspic\u00e1cia para comentar a not\u00edcia do dia ou algum pormenor da pequena hist\u00f3ria do seu Melhundos. Sempre o mesmo rigor de uma mem\u00f3ria viv\u00edssima. Uma maior prud\u00eancia do meu lado para n\u00e3o ser apanhado em falso.  <i>Jos\u00e9 Ferreira Gomes<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ferreira Gomes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[168,187,203,206,211],"class_list":["post-17894","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-familia","tag-ferias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17894","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17894"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17894\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}