{"id":17893,"date":"2006-05-09T12:51:06","date_gmt":"2006-05-09T12:51:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/09\/d-antonio-como-ele-era\/"},"modified":"2006-05-09T12:51:06","modified_gmt":"2006-05-09T12:51:06","slug":"d-antonio-como-ele-era","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-antonio-como-ele-era\/","title":{"rendered":"D. Ant\u00f3nio: como ele era\u2026"},"content":{"rendered":"<p>Conheci D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes como reitor do Semin\u00e1rio de Vilar, no Porto. A sua austeridade brit\u00e2nica era isso mesmo. Uma epiderme de frieza que escondia o que nele havia de atento aos seus seminaristas. Seguia-nos o percurso, mesmo nos cuidados com a nossa sa\u00fade, sem que d\u00e9ssemos por isso.  Lembro-me do dia em que ali entrei como aluno interno. \u00c9ramos duzentos, alguns dos quais iam pela primeira vez. Ao jantar, quando nos distribuiu os lugares no refeit\u00f3rio, chamou cada um pelo nome, o nome completo, e isso, tinha eu dez anos, deixou-me admirado, pois ele mal me tinha visto, assim como aos que ent\u00e3o come\u00e7avam. Essa mem\u00f3ria visual exteriori-zou-a ao longo do tempo nas mais diversas circunst\u00e2ncias. O que me espantava, e que ele manteve, mesmo atrav\u00e9s do seu episcopado, foi essa capacidade de memorizar o que lia e que depois espraiava no seu ensino. As suas aulas ultrapassavam o conte\u00fado dos programas e resvalavam sempre para um enciclopedismo que ent\u00e3o me fascinava. Mais tarde, como bispo do Porto, tive oportunidade de apreciar nele uma cultura omn\u00edmoda que aglutinava extens\u00e3o e profundidade, coisas que, e para citar o nosso Cam\u00f5es, &#8220;juntas se acham raramente&#8221;. Como resumiu lapidarmente M\u00e1rio Pinto, &#8220;cult\u00edssimo, a sua cultura era, simultaneamente, de erudi\u00e7\u00e3o (tudo sabia); de sabedoria (tudo superava); e de originalidade genial (de tudo tirava uma luz surpreendente e mais brilhante). Foi um homem invulgar e n\u00e3o lhe regatearia a classifica\u00e7\u00e3o de genialidade&#8221;.  Foi, naturalmente, uma pessoa de princ\u00edpios. Nele, o sentido da honra e da palavra dada eram sagrados, e pude pessoalmente confirmar que a dignifica\u00e7\u00e3o de um compromisso se sobrepunha mesmo a uma conveni\u00eancia eclesi\u00e1stica. E o mesmo se diga da dignidade de ser pessoa, o que estava patente no \u00e1trio do semin\u00e1rio onde fizera inscrever este roteiro de vida: De joelhos diante de Deus; de p\u00e9 diante dos homens. Foi de p\u00e9 que esteve sempre como homem. N\u00e3o s\u00f3 diante do poder pol\u00edtico, como perante qualquer autoridade da Igreja, por mais suprema que fosse (Cartas ao Papa). No primeiro caso, ficou c\u00e9lebre a sua carta a Salazar. Mas ap\u00f3s o 25 de Abril, em face dos descarrilamentos que amea\u00e7avam a democracia como o voto de bra\u00e7o no ar, os saneamentos selvagens de que resultaram, como ele referiu, &#8220;as vi\u00favas dos vivos&#8221;, e algumas distor\u00e7\u00f5es da liberdade, foi frontal e fiel a si mesmo, como j\u00e1 o tinha sido quando bispo de Portalegre e Castelo Branco ao defender a exist\u00eancia de partidos. S\u00f3 no Porto, onde teve uma projec\u00e7\u00e3o maior, a pol\u00edtica o descobriu como consci\u00eancia do regime. O grande desgosto e desilus\u00e3o que o amarguraram n\u00e3o lhe vieram da pol\u00edtica. Vieram-lhe de dentro, da pr\u00f3pria Igreja, sobretudo dos seus colegas no episcopado. O sil\u00eancio de gelo com que os seus pares o isolaram e a indiferen\u00e7a com que, estando todos em F\u00e1tima, o viram regressar ali, vindo do ex\u00edlio, foram m\u00e1goas de que n\u00e3o tirou depois qualquer desfor\u00e7o. Pelo contr\u00e1rio, defendeu sempre, e nas horas convulsas do PREC, aqueles que, numa hora dif\u00edcil, o tinham ignorado.  Como nota final ocorre perguntar, ao vermo-lo assim como pessoa aparentemente t\u00e3o hirta, se D. Ant\u00f3nio era alheio a qualquer sentido de humor. Ent\u00e3o, valer\u00e1 a pena terminar com este fait-divers que, h\u00e1 dias, me contaram: Um dia, ao ir do Pa\u00e7o Episcopal para a S\u00e9, que era em frente, com a ventania que estava voou-lhe da cabe\u00e7a o solid\u00e9u que uma crian\u00e7a correu a apanhar, explicando: &#8220;isto caiu-lhe&#8221;. Ao que D. Ant\u00f3nio, depois de lhe agradecer, retorquiu: &#8220;Sabes, meu menino, isto \u00e9 pra cair.&#8221;   <i>Pacheco de Andrade<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes como reitor do Semin\u00e1rio de Vilar, no Porto. A sua austeridade brit\u00e2nica era isso mesmo. Uma epiderme de frieza que escondia o que nele havia de atento aos seus seminaristas. Seguia-nos o percurso, mesmo nos cuidados com a nossa sa\u00fade, sem que d\u00e9ssemos por isso. 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