{"id":17833,"date":"2006-05-06T10:41:05","date_gmt":"2006-05-06T10:41:05","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/06\/maes-na-sociedade-hodierna\/"},"modified":"2006-05-06T10:41:05","modified_gmt":"2006-05-06T10:41:05","slug":"maes-na-sociedade-hodierna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/maes-na-sociedade-hodierna\/","title":{"rendered":"M\u00e3es na sociedade hodierna"},"content":{"rendered":"<p>A associa\u00e7\u00e3o do dia da M\u00e3e ao m\u00eas de Maio surge nos como inevit\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 mas tamb\u00e9m, devido \u00e0 ampla e tentacular matraca publicit\u00e1ria. Viajar s\u00f3, em percursos mais ou menos longos, em transportes p\u00fablicos, permite nos observar e reflectir sobre molduras familiares dignas de reparo. Estou no comboio alfa pendular. Aqui, ouve se uma gr\u00e1vida a lamentar se, longamente, pelo facto de se sentir deformada, por ter perdido linhas esbeltas e a possibilidade de vestir jeans provocadores. Vai maldizendo o seu estado de gra\u00e7a, por ser um empecilho ao seu desenvolvimento acad\u00e9mico profissional, por um sem n\u00famero de raz\u00f5es que n\u00e3o passam de um arrazoado absurdo de enunciados il\u00f3gicos e ego\u00edstas. Al\u00e9m, uma m\u00e3e viaja, desesperada e exasperada, com uma filha de uns cinco anos e um beb\u00e9 de escassos meses. Denuncia falta de paci\u00eancia e uma exaust\u00e3o depressiva face \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es da mais velha, que dificilmente angaria aten\u00e7\u00e3o e desvelos em rela\u00e7\u00e3o ao beb\u00e9, que tosse imparavelmente. Est\u00e1 farta e amaldi\u00e7oa, muito provavelmente, em segredo, a cruz da maternidade. Eu viajo s\u00f3 e sinto, naturalmente, saudades do meu filho. Aproveito, num intervalo do trabalho que tenho em m\u00e3os, para reflectir sobre a quest\u00e3o da dist\u00e2ncia f\u00edsica entre pais e filhos e nas suas implica\u00e7\u00f5es em situa\u00e7\u00f5es de longas aus\u00eancias motivadas, por exemplo, por raz\u00f5es profissionais. Penso nas consequ\u00eancias v\u00e1rias, quando n\u00e3o nefastas, em termos de estrutura\u00e7\u00e3o da personalidade dos pequenos, obrigados a gerir as saudades dos pais. Anoto a necessidade de acompanhamento afectivo ou refor\u00e7o do mesmo, por parte de outros familiares\/educadores. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o posso obliterar a quest\u00e3o da dist\u00e2ncia afectiva que constato, decorrente do cansa\u00e7o geral que corr\u00f3i rela\u00e7\u00f5es, minando a paci\u00eancia, virtude em vias de extin\u00e7\u00e3o. Com efeito, num mundo dominado por workshops a prop\u00f3sito de tudo e de nada, estranho n\u00e3o ter not\u00edcias de momentos formativos dedicados a agilizar e desenvolver a nossa capacidade de sermos pacientes connosco, com os outros, com os nossos filhos, com a nossa fam\u00edlia. De repente, evoco um fen\u00f3meno que li, por acaso, num peri\u00f3dico microfilmado do s\u00e9culo XIX (A Revolu\u00e7\u00e3o de Setembro, de 30 de Maio de 1889, n\u00ba14.026). A acreditar no jornal em quest\u00e3o, tinha morrido uma senhora (que aparece identificada no texto), em Viana do Castelo, que vivera vinte anos com um feto de sete meses na ilharga esquerda, facto que ficou atestado com a sua aut\u00f3psia. Neste momento, n\u00e3o considero relevante a veracidade da not\u00edcia. Ocorre-me somente que a situa\u00e7\u00e3o daquela mulher n\u00e3o \u00e9 muito diferente da de tantas m\u00e3es que evidentemente n\u00e3o t\u00eam os filhos dentro delas, mas dentro dos seus limites f\u00edsicos, coabitando com eles num mesmo espa\u00e7o supostamente afectivo. E ainda assim agem como se eles n\u00e3o estivessem l\u00e1, exluindo-os do seu amor, da sua paci\u00eancia, da sua aten\u00e7\u00e3o. Claro que esta situa\u00e7\u00e3o traz igualmente a lume, nos ant\u00edpodas, o caso das m\u00e3es que enclausuram os filhos cultivando liga\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia, n\u00e3o lhes permitindo crescer, emanciparem-se como pessoas capazes de sobreviverem nestes tempos hostis. Entretanto, aquela m\u00e3e com os dois filhos sossegou, por breves instantes, ao v\u00ea-los dormirem momentaneamente. A menina ficou sem a hist\u00f3ria e foram-lhe adiadas todas as solicita\u00e7\u00f5es, tendo sido protelado o carinho para outro momento igualmente complicado em termos de gest\u00e3o do tempo familiar. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser m\u00e3e nestes dias c\u00e9leres, frios, stressantes, profissionais, crivados de crises. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser m\u00e3e quando eles adoecem, quando precisam da disponibilidade de que n\u00e3o dispomos. Continuo a reafirmar convictamente que ser m\u00e3e \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, um privil\u00e9gio, mas tamb\u00e9m uma proeza her\u00f3ica, um acto de coragem e de for\u00e7a fara\u00f3nica, uma postura de amor incondicional e a actualiza\u00e7\u00e3o de uma paci\u00eancia ilimitada. Da\u00ed, a minha veemente admira\u00e7\u00e3o pelas m\u00e3es que o s\u00e3o de facto. Acredito que ter\u00e3o alento nos momentos dif\u00edceis e dolorosos, que os ultrapassar\u00e3o, tal como superaram (e superar\u00e3o) as dores do parto e do p\u00f3s-parto, as noites de intensa vig\u00edlia sem direito a repouso, os choros intermin\u00e1veis de c\u00f3licas e patologias diversas, as birras dos pequenos e os confrontos dos que ainda n\u00e3o s\u00e3o adultos, etc. Para elas (e incluo-me nelas), os meus parab\u00e9ns pelo que s\u00e3o, pelo que lutam, pelos filhos que t\u00eam, pela fam\u00edlia que unem e consolidam. Bem hajam!   <i>Helena Guimar\u00e3es<\/i> Departamento Arquidiocesano da Pastoral Familiar de Braga<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A associa\u00e7\u00e3o do dia da M\u00e3e ao m\u00eas de Maio surge nos como inevit\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 mas tamb\u00e9m, devido \u00e0 ampla e tentacular matraca publicit\u00e1ria. 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