{"id":178065,"date":"2020-06-12T07:01:06","date_gmt":"2020-06-12T06:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=178065"},"modified":"2020-06-10T00:47:10","modified_gmt":"2020-06-09T23:47:10","slug":"temos-de-assumir-que-o-racismo-estrutural-e-institucional-existe-carla-marina-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/temos-de-assumir-que-o-racismo-estrutural-e-institucional-existe-carla-marina-santos\/","title":{"rendered":"\u00abTemos de assumir que o racismo estrutural e institucional existe\u00bb &#8211; Carla Marina Santos"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Carla Santos, diretora-executiva da \u2018Capacitare\u2019, mediadora sociocultural no Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, fala em entrevista conjunta \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ecclesia sobre o racismo que encontra &#8220;todos os dias&#8221;<\/p>\n<p>Licenciada em antropologia Social e habitual colabora da Obra Cat\u00f3lica das Migra\u00e7\u00f5es, Carla Santos n\u00e3o concorda com o l\u00edder do PSD que no in\u00edcio da semana defendeu que n\u00e3o existe racismo na sociedade portuguesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/59650032_2577069639034358_7285604619646926848_o.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178066 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/59650032_2577069639034358_7285604619646926848_o-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/59650032_2577069639034358_7285604619646926848_o-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/59650032_2577069639034358_7285604619646926848_o-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/59650032_2577069639034358_7285604619646926848_o.jpg 644w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Como se tem desenvolvido o trabalho da Capacitare, de que forma promove a integra\u00e7\u00e3o e como est\u00e1 a ser o trabalho em pa\u00edses como Angola, Mo\u00e7ambique ou Cabo Verde?<\/em><\/p>\n<p>A Capacitare \u00e9 uma empresa social, que emerge de uma experi\u00eancia, desde 1996, junto das comunidades migrantes em Portugal, maioritariamente cabo-verdianos, num bairro, \u00e1reas urbanas consideradas ilegais. Constru\u00e7\u00f5es clandestinas, em que as pessoas se v\u00e3o fixando e onde foram construindo a sua vida, com alargamento familiar. Foi nesse processo que fui trabalhando, como volunt\u00e1ria, e me fui profissionalizando cada vez mais nestas tem\u00e1ticas. Senti que era uma miss\u00e3o que tinha de cumprir, ajudar outros irm\u00e3os, afrodescendentes, como eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 sobretudo um trabalho de integra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, essencialmente ao n\u00edvel da integra\u00e7\u00e3o. Surge desta experi\u00eancia, de muito jovem: eu comecei nestes trabalhos com 16 anos, a construir uma estrada comunit\u00e1ria, a colocar instala\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e luz em casa das pessoas. Ao contr\u00e1rio do que as pessoas imaginam, que as comunidades querem viver dos subs\u00eddios e que querem estar \u00e0 margem, essa nunca foi a nossa experi\u00eancia. Cada um tem de ter o seu contador de \u00e1gua luz, cada um vai pagar os seus consumos. Foi esse processo que n\u00f3s fomos fazendo, ao longo dos anos. Acima de tudo, nunca alimentar esta ideia do assistencialismo, que somos uns coitadinhos, nunca foi esse o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que olha para fen\u00f3menos como o Bairro da Jamaica?<\/em><\/p>\n<p>Esta muito relacionado com vulnerabilidades, clandestinidades, desde o processo migrat\u00f3rio, as dificuldades que as pessoas j\u00e1 t\u00eam nos seus pa\u00edses de origem e procuram melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, por causa da guerra, quest\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o, econ\u00f3micas. Muitas vezes, esses processos come\u00e7am de uma forma inquinada e depois teremos problemas sociais graves nos pa\u00edses de destino. A\u00ed vamos falar sobre a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a justi\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas se n\u00e3o t\u00eam muitas possibilidades v\u00e3o fixar-se em locais mais acess\u00edveis e quando isto acontece \u2013 n\u00e3o estamos a falar de uma ou duas pessoas, estamos a falar de massas -, come\u00e7amos a construir vulnerabilidades e barris de p\u00f3lvora, concentrados. Por isso temos a Jamaica e temos muitos outros, como no Porto \u2013 n\u00e3o estamos apenas a falar de comunidades africanas, h\u00e1 outros bairros municipais, que s\u00e3o necess\u00e1rios, mas em que n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o integrada e concertada. Tiram-se as pessoas de um determinado s\u00edtio e colocam-se na vertical, sem ser feito um trabalho de base.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estas quest\u00f5es criam sempre grandes tens\u00f5es a n\u00edvel social, pol\u00edtico. O tema do racismo tem sido negligenciado em Portugal, \u00e9 um fator de preocupa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9. Gostaria de comparar com outro fen\u00f3meno social, como o alcoolismo: um alco\u00f3lico que n\u00e3o se assuma como tal, n\u00e3o h\u00e1 terapia, n\u00e3o h\u00e1 tratamento. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Quando estamos a falar dos fen\u00f3menos do racismo, se n\u00e3o assumirmos, se n\u00e3o aceitarmos que existe \u2013 a n\u00edvel estrutural e institucional -, que temos um preconceito que vai sendo alimentado, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, estamos simplesmente a n\u00e3o admitir que \u00e9 preciso fazer alguma coisa.<\/p>\n<p>Tivemos a apresenta\u00e7\u00e3o na Assembleia da Rep\u00fablica sobre o racismo em Portugal, temos um instrumento, cient\u00edfico, que valida e vem confirmar que isto n\u00e3o \u00e9 alguma coisa de jovens ou de loucos\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 nalguns setores a ideia de que existe um certo exagero ou dramatiza\u00e7\u00e3o do problema\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um assunto sens\u00edvel, porque temos de encarar a verdade, tocar na ferida, dizer: \u201cSim, n\u00f3s somos [racistas]\u201d. E quando o fazemos, temos dois caminhos a seguir: manter-nos assim, n\u00e3o fazendo nada; ou ent\u00e3o, realmente, pensar em pol\u00edticas p\u00fablicas diferenciadas para que se possa resolver um problema estrutural, nomeadamente ao n\u00edvel da falta de representatividade de comunidades que s\u00e3o fortemente violentadas.<\/p>\n<p>Alguns poder\u00e3o dizer que as pessoas se \u201cp\u00f5em a jeito\u201d, mas temos de separar: h\u00e1 maus cidad\u00e3os, maus profissionais, e h\u00e1 outros que n\u00e3o s\u00e3o. Vivemos num pa\u00eds democr\u00e1tico, tem de haver san\u00e7\u00f5es para uma situa\u00e7\u00e3o, mas nunca deve ser feito pela minha cor da pele, ou porque eu vivo num determinado bairro. Agora, obviamente, quando se concentram muitas vulnerabilidades e muitos fatores de risco, tudo \u00e9 empolado. N\u00e3o podemos negar que isso existe, que h\u00e1 bons e maus profissionais, bons e maus cidad\u00e3os, o que \u00e9 importante \u00e9 pensar numa forma diferenciada.<\/p>\n<p>Pensemos no que aconteceu agora na pandemia, quando os alunos tiveram de ficar confinados, com aulas \u00e0 dist\u00e2ncia. N\u00e3o estou a dizer que n\u00e3o foi uma boa medida, mas quando pensamos em medidas \u201cstandard\u201d, partimos do pressuposto que toda a gente tem um computador em casa, uma fam\u00edlia estruturada, mas esse padr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a realidade de toda a sociedade portuguesa. Este \u00e9 um pequeno exemplo, porque a partir daqui estamos a limitar grupos, fam\u00edlias, de ter acesso a bens e servi\u00e7os que s\u00e3o fundamentais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_178036\" aria-describedby=\"caption-attachment-178036\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-178036\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024-980x654.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/doc2020060628965082_nf4282225942759defaultlarge_1024.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-178036\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Se lhe perguntar, de forma direta, se em Portugal, na sociedade portuguesa, existe racismo, a resposta \u00e9 sim?<\/em><\/p>\n<p>Claro, claramente que sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que coment\u00e1rios lhe merecem os coment\u00e1rios do principal partido da oposi\u00e7\u00e3o [Rui Rio], segundo o qual n\u00e3o h\u00e1 racismo na sociedade portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei onde vive nem por onde anda quem tece essas considera\u00e7\u00f5es. Respeito essa posi\u00e7\u00e3o, provavelmente fruto de um contexto muito fechado, mas n\u00e3o \u00e9 verdade: todos os dias, n\u00f3s os interventores sociais, t\u00e9cnicos, lidamos com estas realidades. Pior: temos uma mutila\u00e7\u00e3o emocional tamb\u00e9m das nossas comunidades, a n\u00edvel da autoestima, da inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Muitas vezes os jovens vivem um hist\u00f3rico, diria, de alguma opress\u00e3o, de ju\u00edzos de valor, e a condi\u00e7\u00e3o humana faz com que nunca nos queiramos colocar em situa\u00e7\u00f5es nas quais temos de lidar com um \u201cn\u00e3o\u201d, com a rejei\u00e7\u00e3o. A partir do momento em que isso acontece, vou alimentar o querer-me demitir, o n\u00e3o estar, porque participar e reivindicar, muitas vezes, vai expor-me \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o. Alguns protegem-se, outros n\u00e3o, da\u00ed que n\u00f3s chamemos a alguns movimentos radicais, a outros conservadores, moderados. Todas estas s\u00e3o formas de luta, o fundamental \u00e9 este apelo: temos de assumir que o racismo estrutural e institucional existe, existe preconceito, e a partir da\u00ed come\u00e7ar a pensar em medidas cir\u00fargicas. Quem \u00e9 interventor social sabe o que \u00e9 a \u201c\u00e1rvore dos problemas\u201d: para cada problema, tem de haver uma solu\u00e7\u00e3o e uma a\u00e7\u00e3o concreta. N\u00e3o meter tudo no mesmo saco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em Portugal tivemos, nos \u00faltimos tempos, a morte em Bragan\u00e7a do jovem cabo-verdiano Giovani Rodrigues; neste momento h\u00e1 oito detidos no \u00e2mbito deste processo. No in\u00edcio de abril, tr\u00eas inspetores do SEF (Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras) foram detidos por suspeita de homic\u00eddio de cidad\u00e3o Ucraniano no aeroporto de Lisboa. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es muito diferentes ou encontra semelhan\u00e7as, nestes dois casos?<\/em><\/p>\n<p>Encontro semelhan\u00e7as naquilo que importa falar, que \u00e9 a v\u00edtima. Estamos a falar aqui de dois cidad\u00e3os estrangeiros, migrantes, esse \u00e9 o denominador comum. N\u00e3o quero comentar as convic\u00e7\u00f5es, as causas, o que pode ter levado a esses desfechos, porque existe a Justi\u00e7a, vivo num pa\u00eds democr\u00e1tico e acredito nela. Sinto \u00e9 que \u00e9 muito morosa para alguns e a\u00ed ficamos com alguma sensa\u00e7\u00e3o de impunidade.<\/p>\n<p>Os corporativismos tamb\u00e9m existem e h\u00e1 algumas profiss\u00f5es que acabam por ser cada vez mais corporativas, e isto \u00e9 um problema estrutural que tem de ser revisto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 preocupa\u00e7\u00e3o, por exemplo, com a influ\u00eancia da extrema-direita na Pol\u00edcia?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma das preocupa\u00e7\u00f5es, pode ser uma realidade, mas eu diria que, como em todas as profiss\u00f5es, quando, por sistema, tenho sempre um perfil de pessoas que surgem quando sou chamado a intervir \u2013 pol\u00edcia, m\u00e9dico, o que for -, acabo por criar uma cren\u00e7a de que aqueles grupos s\u00e3o todos daquela forma. A Pol\u00edcia, as for\u00e7as de interven\u00e7\u00e3o, de seguran\u00e7a p\u00fablica, quando s\u00e3o chamadas, s\u00e3o-no em situa\u00e7\u00e3o de crise. Estamos a falar de seres humanos, que acabam por criar e alimentar esta cren\u00e7a de que aquelas pessoas s\u00e3o todas daquela forma, rotulando-as. Isto \u00e9 um problema, tamb\u00e9m nos estabelecimentos prisionais, nas penas que s\u00e3o aplicadas a determinados grupos, que s\u00e3o sempre mais pesadas. \u00c9 interessante olharmos, avaliarmos, porque isto existe. Que cren\u00e7a \u00e9 que est\u00e1 a ser instalada na Justi\u00e7a, que requer repara\u00e7\u00e3o, para que realmente se exer\u00e7a Justi\u00e7a?<\/p>\n<p>A n\u00edvel mundial, a extrema-direita come\u00e7a a ganhar espa\u00e7o, e isto \u00e9 preocupante, porque ganha espa\u00e7o em todas as frentes. Nesse aspeto, considero que \u00e9 urgente tomar provid\u00eancias. Tamb\u00e9m a n\u00f3s, jovens afrodescendentes, \u00e9 exigida uma compet\u00eancia e uma habilidade para podermos fazer frente a este flagelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 este ano tivemos um caso que gerou grande como\u00e7\u00e3o, envolvendo um jogador do Futebol Clube do Porto, Marega. Continuamos a olhar para este debate sobre o racismo a partir de vagas, de acontecimentos, de crises, de momentos muito fortes de como\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m passam muito depressa?<\/em><\/p>\n<p>Concordo, s\u00e3o vagas, diria quase incendi\u00e1rias, e depois parece que tudo se esquece, durante um per\u00edodo de tempo. Este \u00e9 um problema fundamental, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma luta que possa ser feita se n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o fizermos parte desse processo, com a nossa agenda pr\u00f3pria, a todos os n\u00edveis. Precisamos de representatividade efetiva. Nas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, por exemplo, muitas vezes acabamos por ser marionetes, os l\u00edderes das comunidades convidam estes jovens para fazer parte de grupos, mas por um per\u00edodo de tempo muito espec\u00edfico, depois as coisas esquecem-se.<\/p>\n<p>Neste aspeto, em Munic\u00edpios com uma forte presen\u00e7a africana \u2013 Amadora, Loures, Lisboa \u2013 n\u00e3o temos essa representatividade. E quando n\u00e3o temos essa representatividade, \u00e9 dif\u00edcil colocar na agenda estes temas, para que sejam debatidos. Para muitos l\u00edderes partid\u00e1rios, n\u00e3o existe racismo, n\u00e3o faz parte do seu contexto, esses t\u00f3picos nunca s\u00e3o trabalhados de forma s\u00e9ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-178067\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/21992885_1826490334330065_7934437915053721517_o.jpg 1149w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>A legisla\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 suficientemente robusta para enfrentar o fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s somos considerados o segundo melhor pa\u00eds da Europa, a n\u00edvel das pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que temos as melhores leis, mas depois a operacionalidade n\u00e3o funciona. Dando um exemplo concreto, com as medidas da Covid-19, relativas ao lay-off: temos muitas comunidades estrangeiras que tinham processos pendentes no SEF e n\u00e3o tinham t\u00edtulo de resid\u00eancia. Essas pessoas ficariam exclu\u00eddas automaticamente, n\u00e3o poderiam aceder ao subs\u00eddio de desemprego, a medidas sociais para responder a esta situa\u00e7\u00e3o que assolou todas as fam\u00edlias residentes em Portugal.<\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias, n\u00f3s, v\u00e1rios movimentos, tivemos de chamar a aten\u00e7\u00e3o mais do que uma vez, porque os nossos governantes n\u00e3o t\u00eam no\u00e7\u00e3o do pa\u00eds em que vivemos. Temos um SEF estrangulado, com processos que demoram um ano ou mais; pessoas que estavam a desempenhar fun\u00e7\u00f5es e se viram impedidas de o fazer n\u00e3o iriam ter direito a nada, mas ningu\u00e9m pensou nisto. Tivemos de chamar a aten\u00e7\u00e3o, porque ir\u00edamos ter muitas fam\u00edlias numa situa\u00e7\u00e3o ainda mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>A nossa lei n\u00e3o \u00e9 o suficiente. Temos alguma legisla\u00e7\u00e3o que vem evoluindo, de forma favor\u00e1vel, mas o problema n\u00e3o est\u00e1 na lei, est\u00e1 na base. Os Centros de Sa\u00fade vedavam-nos, n\u00e3o nos deixavam tirar cart\u00e3o de utente, mas t\u00ednhamos orienta\u00e7\u00f5es que eram o oposto. Isto parece quase um pa\u00eds insano, em que se diz uma coisa e se faz de outra forma. \u00c9 perturbador, noutro aspeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Igreja Cat\u00f3lica, o Papa em particular, t\u00eam um discurso contra o populismo e a xenofobia: esse discurso tem tradu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica nas comunidades ou \u00e9 visto como um tema estranho \u00e0 viv\u00eancia da f\u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que j\u00e1 n\u00e3o passa a ser um tema estranho. Estamos a viver uma \u00e9poca muito mais espiritual e o Papa Francisco veio trazer isto a todos \u2013 crentes e n\u00e3o crentes \u2013 e tem vindo a ganhar cada vez mais express\u00e3o. As comunidades africanas s\u00e3o, muitas delas, cat\u00f3licas, e tem havido este processo da reconcilia\u00e7\u00e3o, de vermos as nossas pr\u00f3prias sombras, as nossas periferias, como diz o Papa, aquilo que nos provoca o desconforto, alguma repulsa. Eu fa\u00e7o este caminho, de integra\u00e7\u00e3o espiritual, de encontrarmos paz. N\u00e3o vivemos num pa\u00eds de luta armada, mas n\u00e3o estamos em paz, h\u00e1 quem viva estas dificuldades de forma di\u00e1ria, permanente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar-se em integra\u00e7\u00e3o enquanto tivermos pessoas indocumentadas. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, n\u00e3o se consegue ajudar a encontrar emprego, habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fen\u00f3menos como esta pandemia podem alimentar a ideia de que \u00e9 necess\u00e1rio criar pa\u00edses-fortaleza, capazes de se defender das amea\u00e7as do exterior, levando a uma atitude de desconfian\u00e7a e de rejei\u00e7\u00e3o por quem chega de outros territ\u00f3rios?<\/em><\/p>\n<p>Sim, infelizmente. Fui acompanhando as not\u00edcias, e tamb\u00e9m no exerc\u00edcio das minhas fun\u00e7\u00f5es, e vemos que o medo provoca isto: quando olhamos para o pr\u00f3prio umbigo e sentimos que estamos numa situa\u00e7\u00e3o de alguma defici\u00eancia econ\u00f3mica, social, isso faz com que haja uma ala em que as pessoas preferem fechar-se e criar esta fortaleza, pensar s\u00f3 em si, e n\u00e3o pensar no global.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a esta pandemia, acho que quando n\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o aos sinais, o universo depois encarrega-se de nos mostrar isto. Sempre houve grupos muito vulner\u00e1veis, a viver com muita limita\u00e7\u00e3o, muita priva\u00e7\u00e3o, e este v\u00edrus foi muito \u201cdemocr\u00e1tico\u201d, de pessoas mais abastadas a menos abastadas. Veio fazer com que as pessoas sentissem o que \u00e9 a priva\u00e7\u00e3o di\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso haver um trabalho, das confiss\u00f5es religiosas, interventores sociais, todos, para convocar as pessoas a esta reflex\u00e3o mais profunda, de perceber como \u00e9 que queremos come\u00e7ar a viver. Costumo dizer que quem \u00e9 crente, quem acredita, conseguir\u00e1 viver de uma forma mais equilibrada, mais serena, ent\u00e3o acho que \u00e9 preciso tamb\u00e9m trazer esta cren\u00e7a positiva e expansiva de que \u00e9 poss\u00edvel construir algo melhor, fazendo a diferen\u00e7a dentro do nosso contexto, do nosso ambiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":178067,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-178065","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=178065"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/178065\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/178067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=178065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=178065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=178065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}