{"id":17780,"date":"2006-05-03T15:20:37","date_gmt":"2006-05-03T15:20:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/05\/03\/bento-xvi-a-luz-de-joseph-ratzinger\/"},"modified":"2006-05-03T15:20:37","modified_gmt":"2006-05-03T15:20:37","slug":"bento-xvi-a-luz-de-joseph-ratzinger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bento-xvi-a-luz-de-joseph-ratzinger\/","title":{"rendered":"Bento XVI \u00e0 luz de Joseph Ratzinger"},"content":{"rendered":"<p>H. Noronha Galv\u00e3o  <!--more--> A 19 de Abril de 2005, concluiu-se o conclave convocado para escolher o novo Papa. Ap\u00f3s dia e meio de vota\u00e7\u00f5es e quatro escrut\u00ednios foi eleito o Cardeal Ratzinger. Dos papas mais recentes, s\u00f3 a elei\u00e7\u00e3o de Pio XII demorou menos: dia e meio e tr\u00eas escrut\u00ednios. O in\u00edcio do novo pontificado foi marcado por algumas circunst\u00e2ncias que surpreenderam mas que acabaram por ceder \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o da sua plausibilidade. Logo a elei\u00e7\u00e3o, segundo o testemunho do pr\u00f3prio eleito, foi contra as suas previs\u00f5es, sobretudo devido \u00e0 sua avan\u00e7ada idade. Mas a compara\u00e7\u00e3o deste caso com a elei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o XXIII mostra que tal circunst\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 in\u00e9dita, e a experi\u00eancia hist\u00f3rica desse pontificado acabou por se evidenciar muito positiva. Basta pensarmos na convoca\u00e7\u00e3o do conc\u00edlio ecum\u00e9nico Vaticano II. O pr\u00f3prio nome Bento, escolhido por Ratzinger, n\u00e3o tinha sido geralmente previsto. Mas v\u00e1rias declara\u00e7\u00f5es suas anteriores acerca do significado da obra de S. Bento  mostravam j\u00e1 o sentido dessa escolha que, assim, podia ser vista como indicativa do seu projecto como Papa. \u00c9 certo que tamb\u00e9m evocou a figura do seu antecessor Bento XV, sobretudo o seu empenhamento pela paz ao eclodir a guerra de 1914, mas julgo que prevaleceu na sua escolha a figura do fundador dos beneditinos. A segunda grande entrevista dada por Ratzinger ao jornalista Peter Seewald (depois de Sal da Terra, de 1996) e que foi publicada, em alem\u00e3o, com o t\u00edtulo Deus e o mundo. F\u00e9 e vida no nosso tempo,  decorreu em 2000 no mosteiro beneditino de Monte Cassino, a pedido do entrevistado. Bento de N\u00farcia havia sido, com o grupo de monges que reunira \u00e0 sua volta, o impulsionador da supera\u00e7\u00e3o da crise profunda em que se encontrava a civiliza\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, sobretudo ap\u00f3s a queda de Roma \u00e0 m\u00e3o dos b\u00e1rbaros. J\u00e1 foi notado que no ano 529, quando fechava em Atenas a Academia de Plat\u00e3o, se constru\u00eda no Monte Cassino o grande mosteiro a que Ratzinger chamou a \u201cAcademia do Cristianismo\u201d. Com o ideal beneditino, tornado conhecido pelo lema ora et labora, os in\u00fameros mosteiros que cobriram o espa\u00e7o a que hoje chamamos Europa garantiram n\u00e3o s\u00f3 uma nova pujan\u00e7a civilizacional e cultural, como tamb\u00e9m nela integraram, preservando-as, as principais obras da cultura anterior greco-latina. Foi deste modo que o destino desta cultura n\u00e3o foi o de tantas outras que perderam o seu lugar pr\u00f3prio na Hist\u00f3ria, deixando, quando muito, tra\u00e7os que delas hoje nos recordam. O novo Papa espera que seja poss\u00edvel, atrav\u00e9s de um esfor\u00e7o discreto mas profundo e persistente, superar de modo semelhante a crise contempor\u00e2nea, sob a inspira\u00e7\u00e3o e com a din\u00e2mica da f\u00e9 crist\u00e3. Logo na homilia da missa pela elei\u00e7\u00e3o do novo papa, o ainda cardeal Ratzinger apresentou, como se sabe, os tra\u00e7os dessa crise com a forte express\u00e3o \u201cditadura do relativismo\u201d, explicando: \u201cEstamos a avan\u00e7ar para uma ditadura do relativismo que n\u00e3o reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o pr\u00f3prio ego e os pr\u00f3prios desejos.\u201d E especificou: \u201cQuantos ventos de doutrina conhecemos ao longo dos \u00faltimos dec\u00e9nios, quantas correntes ideol\u00f3gicas, quantas modas de pensamento\u2026 A pequena barca do pensamento de muitos crist\u00e3os foi muito agitada por essas ondas \u2013 atirada de um lado para o outro: do marxismo ao liberalismo, at\u00e9 ao libertinismo; do colectivismo ao individualismo radical; do ate\u00edsmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo.\u201d Se nos reportarmos a escritos anteriores, podemos ver aqui o aflorar de uma convic\u00e7\u00e3o que Ratzinger exp\u00f4s contrapondo a teoria da Hist\u00f3ria de Oswald Spengler \u00e0 de Arnold Toynbee. Enquanto que o primeiro defende uma concep\u00e7\u00e3o biologista afirmando que qualquer civiliza\u00e7\u00e3o, depois de conhecer o seu come\u00e7o e apogeu, acaba por declinar e desaparecer, a concep\u00e7\u00e3o de Toynbee \u00e9 antes a de que \u00e9 poss\u00edvel uma interven\u00e7\u00e3o voluntarista nos ciclos da Hist\u00f3ria, suficiente para impedir o descalabro final de uma civiliza\u00e7\u00e3o. Como diz Ratzinger: \u201cToynbee evidencia a diferen\u00e7a entre o progresso material e t\u00e9cnico, por um lado, e o verdadeiro progresso, por outro, definindo este como espiritualiza\u00e7\u00e3o\u201c. O Papa acredita que isto \u00e9 de novo poss\u00edvel como o foi no tempo de S. Bento, devido \u00e0s virtualidades da f\u00e9 crist\u00e3, nomeadamente a de salvaguardar uma aut\u00eantica racionalidade. Com efeito, o cristianismo optou, desde o seu in\u00edcio, por se aliar \u00e0 filosofia, sobretudo a de Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, pois encontrava nela a afirma\u00e7\u00e3o fundamentada da realidade e verdade de Deus. Esse mesmo Deus que a raz\u00e3o humana pela filosofia procura, e \u00e0 sua maneira conhece, veio at\u00e9 n\u00f3s definitivamente em Jesus Cristo \u2013 a pr\u00f3pria Palavra e Sabedoria de Deus \u2013 para se nos revelar numa rela\u00e7\u00e3o pessoal que a filosofia n\u00e3o conhece. Por isso tem defendido Ratzinger que a f\u00e9 crist\u00e3 sempre sup\u00f4s e completou uma aut\u00eantica Aufkl\u00e4rung, uma aut\u00eantica clarifica\u00e7\u00e3o racional como procura da verdade. E, em tempos de crise em que a raz\u00e3o chegou a duvidar de si mesma pelo cepticismo, como no decl\u00ednio da Idade Antiga, foi a f\u00e9 que reconduziu o pensamento a uma renovada confian\u00e7a no racional.  Tamb\u00e9m o tempo actual \u00e9 de crise, n\u00e3o aceitando que \u201cno princ\u00edpio \u00e9 o Logos\u201d, como afirma S. Jo\u00e3o, e defendendo que tudo prov\u00e9m do acaso. N\u00e3o \u00e9 a teoria da evolu\u00e7\u00e3o como hip\u00f3tese cient\u00edfica para fundamentar uma biologia evolutiva que Ratzinger critica, mas a sua eleva\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie de \u201cfilosofia primeira\u201d universal que faz derivar o racional do irracional \u2013 com consequ\u00eancias no tipo de solu\u00e7\u00f5es propostas para muitos problemas da vida. Ao desligar-se, na modernidade, do pensamento religioso, em geral, e da f\u00e9 crist\u00e3, em particular, a Aufkl\u00e4rung, o ideal de esclarecimento racional, n\u00e3o evoluiu mas, como diz Ratzinger, involuiu, degradou-se. A consequ\u00eancia \u00e9 o relativismo, nihilismo e agnosticismo modernos, uma mentalidade compar\u00e1vel ao cepticismo da Antiguidade decadente.   Este primeiro ano de pontificado do Papa parece-me ter sido o da descoberta do verdadeiro Ratzinger que alguma opini\u00e3o p\u00fablica tinha encoberto com clich\u00e9s ligados \u00e0 sua responsabilidade como Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9. Ao facto de esta fun\u00e7\u00e3o ter os seus pr\u00f3prios limites, acresceu que a sua ac\u00e7\u00e3o foi, frequentemente e por diversas raz\u00f5es, mal apresentada e interpretada. Para alguns, tudo o que vinha do Vaticano, com que n\u00e3o concordavam, era por culpa do cardeal Ratzinger.  A fim de corrigirmos essas distor\u00e7\u00f5es e descobrirmos o verdadeiro sentido dos sinais que o Papa nos foi deixando ao longo deste ano, \u00e9 necess\u00e1rio recorrermos ao pensamento que, algumas vezes pouco tempo antes da sua elei\u00e7\u00e3o, ele pr\u00f3prio exprimiu. Foi o que acabei de fazer, a prop\u00f3sito do nome que escolheu, e que podemos e devemos alargar a outros sinais que se tornaram vis\u00edveis neste primeiro ano de pontificado. Um desses outros sinais foi a declara\u00e7\u00e3o feita pelo rec\u00e9m-eleito Papa Bento XVI, numa missa com os cardeais na capela Sistina, de ter a \u201cambi\u00e7\u00e3o\u201d e o \u201cdever\u201d de promover \u201ca causa fundamental do ecumenismo\u201d, acrescentando: \u201cn\u00e3o bastam as manifesta\u00e7\u00f5es de bons sentimentos, s\u00e3o precisos gestos concretos que entrem nas almas e movam os cora\u00e7\u00f5es\u201d. Reportemo-nos \u00e0 sua li\u00e7\u00e3o inaugural como professor de Teologia Fundamental na Universidade de Bona, em 1959, cujo tema foi a distin\u00e7\u00e3o e o \u00edntimo relacionamento entre o conhecimento filos\u00f3fico de Deus e o seu conhecimento revelado.  Joseph Ratzinger comparou as posi\u00e7\u00f5es de dois te\u00f3logos, um cat\u00f3lico e outro protestante \u2013 ou evang\u00e9lico, como se costuma dizer na Alemanha, S. Tom\u00e1s de Aquino e Emil Brunner. Ap\u00f3s as ter discutido nos seus diversos aspectos, apelou no final para que te\u00f3logos cat\u00f3licos e evang\u00e9licos conjugassem sensibilidades e esfor\u00e7os no sentido de procurarem a verdade. J\u00e1 ent\u00e3o Ratzinger realizava o lema que havia de escolher como arcebispo de Munique e que conservou como Papa: cooperatores veritatis, colaboradores da verdade, uma cita\u00e7\u00e3o da 3\u00aa carta de S. Jo\u00e3o (v. 8). Tal colabora\u00e7\u00e3o sempre a entendeu Ratzinger num largo \u00e2mbito ecum\u00e9nico. Dizia-me, h\u00e1 tempos, um te\u00f3logo protestante, pr\u00f3ximo de Ratzinger, que com ele se pode discutir facilmente pois conhece a fundo a teologia de Lutero e de outros autores da Reforma. Mas tamb\u00e9m do \u00e2mbito ortodoxo oriental t\u00eam chegado sinais de disponibilidade para o di\u00e1logo, nomeadamente do c\u00edrculo pr\u00f3ximo do Patriarca de Moscovo, cuja atitude anterior era muito renitente. O que n\u00e3o admira, sabendo-se da import\u00e2ncia que t\u00eam para a teologia de Ratzinger os Padres da Igreja gregos os quais, para os Orientais, s\u00e3o o pr\u00f3prio fundamento da Ortodoxia. Enquanto frequentei a Faculdade de Teologia Cat\u00f3lica de Regensburg, a\u00ed encontrei estudantes dessa confiss\u00e3o crist\u00e3, por vezes j\u00e1 doutorados, que vinham ouvir os cursos de Ratzinger. V\u00e1rias amizades entre os Ortodoxos lhe ficaram desde ent\u00e3o. S\u00e3o sinais de que o actual Papa poder\u00e1 vir a desenvolver, no futuro, um importante papel de concilia\u00e7\u00e3o entre os cat\u00f3licos e os irm\u00e3os separados, quer ortodoxos quer protestantes. Igualmente no dom\u00ednio mais vasto do di\u00e1logo inter-religioso h\u00e1 fundadas esperan\u00e7as. \u00c9 certo que tem alertado, por vezes, para o perigo do relativismo e sincretismo tamb\u00e9m neste campo. O di\u00e1logo n\u00e3o pode ser feito a qualquer pre\u00e7o. Mas j\u00e1 nos tempos em que foi professor de Teologia Fundamental, particularmente vocacionada para este di\u00e1logo, fez uma profunda investiga\u00e7\u00e3o sobre as religi\u00f5es n\u00e3o crist\u00e3s, de que s\u00e3o testemunho diversos escritos publicados posteriormente. No que respeita ao Juda\u00edsmo, a sua visita \u00e0 sinagoga de Col\u00f3nia em 19 de Agosto de 2005, durante a Jornada Mundial da Juventude, e iniciativas semelhantes que entretanto tomou n\u00e3o constituem algo de ins\u00f3lito no seu percurso. Sob este aspecto pode ter algum interesse referir a sua amizade e di\u00e1logo, ainda que por vezes cr\u00edtico, com o biblista alem\u00e3o Franz Mussner que se tornou conhecido pela sua extensa investiga\u00e7\u00e3o e numerosas publica\u00e7\u00f5es sobre o valor teol\u00f3gico do Israel actual.  Mas a voca\u00e7\u00e3o conciliadora de Bento XVI, embora aliada sempre a uma rigorosa procura da verdade, tem tido outras manifesta\u00e7\u00f5es. Porventura a de maior impacto medi\u00e1tico foi ter recebido Hans K\u00fcng, com quem manteve uma longa conversa de v\u00e1rias horas e da qual o Papa fez quest\u00e3o de redigir, ele pr\u00f3prio, o comunicado \u00e0 imprensa. Mas \u00e9 preciso rectificar, contra aquilo que por vezes se escreveu, n\u00e3o ter sido por iniciativa de Ratzinger que foi negado ao professor de Tubinga o nihil obstat para as suas aulas. Nessa altura Ratzinger n\u00e3o era ainda Prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 e tamb\u00e9m n\u00e3o era o bispo da Diocese em que Hans K\u00fcng ensinava na Alemanha, como j\u00e1 se escreveu. Outra manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito conciliador de Bento XVI, mais recente e em sentido inverso, consistiu na tentativa de ultrapassar o diferendo que op\u00f5e os seguidores de Mons. Lef\u00e8bvre \u00e0 autoridade de Roma por contestarem a legitimidade da reforma iniciada pelo conc\u00edlio Vaticano II. Algu\u00e9m afirmou que \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o identificar a pessoa com os seus actos, pois que estes podem ser revistos e ultrapassados. A pessoa que erra \u00e9 aquela que mais precisa de n\u00e3o ser votada ao ostracismo, mas acompanhada e apoiada. Deste personalismo evang\u00e9lico (pensemos na par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo ou na alegoria da ovelha perdida) foi Ratzinger, j\u00e1 nos seus tempos de professor, um reconhecido exemplo.  Outros sinais da vontade e capacidade conciliadora de Bento XVI t\u00eam vindo a lume, como no que se refere \u00e0s autoridades chinesas. Ultimamente repetiram-se os seus apelos ao di\u00e1logo como forma de superar conflitos. Costuma-se distinguir dois sentidos, ali\u00e1s complementares, do termo cat\u00f3lico que, como se sabe, quer dizer universal. Um sentido \u201cem extens\u00e3o\u201d, enquanto significa a voca\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 para ser anunciada a todos os homens, sem excep\u00e7\u00e3o; e um sentido \u201cem compreens\u00e3o\u201d enquanto \u00e9 pr\u00f3prio da f\u00e9 crist\u00e3 abranger todo o humano, todas as dimens\u00f5es e riquezas que integram a civiliza\u00e7\u00e3o e a cultura. Julgo que se poder\u00e1 dizer que Jo\u00e3o Paulo II se evidenciou sobretudo no primeiro sentido da catolicidade, devido ao seu carisma para acolher a todos e a todos atrair pela for\u00e7a da sua personalidade. Manifestamente Ratzinger n\u00e3o tem o mesmo carisma para as multid\u00f5es. Mas estas n\u00e3o t\u00eam faltado para o ouvir. Isto aconteceu na Jornada Mundial da Juventude, em Col\u00f3nia, embora tenha tido import\u00e2ncia o facto de ocorrer na pr\u00f3pria p\u00e1tria do Papa. Mas mesmo em Roma, a participa\u00e7\u00e3o nas audi\u00eancias gerais tem atingido tais propor\u00e7\u00f5es que houve necessidade, frequentemente, de as transferir para a Pra\u00e7a de S. Pedro, quando isso era poss\u00edvel. O que agora atrai nessa presen\u00e7a, marcada por alguma timidez mas tamb\u00e9m por uma grande simplicidade e abertura, \u00e9 a justeza e profundidade das suas palavras que, simultaneamente, s\u00e3o de uma clareza cristalina. A voca\u00e7\u00e3o de Bento XVI parece-me mais inscrever-se na catolicidade \u201cpor compreens\u00e3o\u201d, enquanto recorre a toda a cultura para, conjugando-a com a luz da f\u00e9, procurar a verdade do homem.  Tendo ainda, em grande parte, o car\u00e1cter de sinal, mas constituindo j\u00e1 uma actua\u00e7\u00e3o concreta deste pontificado, deve mencionar-se a sua primeira enc\u00edclica, Deus \u00e9 Amor.  Tamb\u00e9m o tema desta enc\u00edclica foi uma surpresa. E, no entanto, para quem conhe\u00e7a o pensamento deste grande te\u00f3logo, o tema do Amor e da Caridade \u00e9 o que lhe \u00e9 de mais central e decisivo. De uma maneira muito pessoal, Ratzinger aparece aqui a recolher o melhor legado do conc\u00edlio Vaticano II, em que, ali\u00e1s, colaborou intensamente na qualidade de perito oficial. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, lan\u00e7a pistas para se prosseguir a sua aplica\u00e7\u00e3o e concretiza\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de medidas que tudo indica vai tomar nos pr\u00f3ximos anos. Alguns aspectos poder\u00e3o interessar sobretudo a opini\u00e3o p\u00fablica. Um deles \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o clara de que a pol\u00edtica, toda a pol\u00edtica, se n\u00e3o pode nunca alhear dos valores \u00e9ticos, e isto a um t\u00edtulo pr\u00f3prio e espec\u00edfico pois que a raz\u00e3o de ser \u00faltima da pol\u00edtica \u00e9, precisamente, a de realizar a justi\u00e7a. Recordo a cita\u00e7\u00e3o, muito forte, de St. Agostinho quando este Padre da Igreja, formado na tradi\u00e7\u00e3o jur\u00eddica romana, que ali\u00e1s ensinara aos seus alunos, afirmava que um governo que n\u00e3o actue segundo a justi\u00e7a em nada se distingue de um bando de ladr\u00f5es (n.28c, p.49s). Ratzinger mostra-se, al\u00e9m disso, muito cr\u00edtico perante o recurso a ideologias quando se pretende com elas resolver, perfeita e definitivamente, os problemas humanos, como se o homem pudesse usurpar a Deus o seu poder de governar o mundo (n.36, p.68). A salva\u00e7\u00e3o nunca vir\u00e1 duma ideologia constru\u00edda pelo homem mas da \u00e9tica a que o homem deve obedecer; uma \u00e9tica cuja exig\u00eancia fundamental \u00e9 a do amor de caridade: \u201cA actividade caritativa crist\u00e3 deve ser independente de partidos e ideologias. N\u00e3o \u00e9 um meio para mudar o mundo, de maneira ideol\u00f3gica, nem est\u00e1 ao servi\u00e7o de estrat\u00e9gias mundanas, mas \u00e9 actualiza\u00e7\u00e3o, aqui e agora, daquele amor de que o ser humano sempre tem necessidade.\u201d (n.31b, p.61) Digno de nota \u00e9, ainda, o facto de a Enc\u00edclica recordar a voca\u00e7\u00e3o secular dos leigos (n.29, p.54), e de apelar para uma colabora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica de todas as confiss\u00f5es crist\u00e3s (n.30b, p.58) na \u201ccaridade social\u201d (n.29, p.55). Para a \u201ccaridade social\u201d s\u00e3o mesmo convocados todos os homens, atendendo sobretudo \u00e0s exig\u00eancias da actual globaliza\u00e7\u00e3o (n.27, p.49). Se for certo que est\u00e1 em prepara\u00e7\u00e3o uma nova enc\u00edclica social, \u00e9 bem poss\u00edvel que encontremos j\u00e1 aqui algumas das suas linhas de fundo.   Outros aspectos t\u00eam mais interesse para a vida interna da Igreja. Entre eles pode referir-se o modo como fala do minist\u00e9rio dos di\u00e1conos e dos bispos. At\u00e9 ao Vaticano II prevalecia a ideia de que o constitutivo de todo o minist\u00e9rio decorrente de uma ordena\u00e7\u00e3o sacramental se definia pelo poder sacerdotal de celebrar a Eucaristia, ou em rela\u00e7\u00e3o a ele. O conc\u00edlio alargou esta concep\u00e7\u00e3o \u00e0s tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es do minist\u00e9rio ordenado: al\u00e9m da sacerdotal ligada \u00e0 Eucaristia e a toda a celebra\u00e7\u00e3o sacramental e lit\u00fargica, tamb\u00e9m a prof\u00e9tica como an\u00fancio da Palavra de Deus, e a diaconal como servi\u00e7o de amor aos mais carenciados. A doutrina exposta pela Enc\u00edclica implica que o espec\u00edfico do minist\u00e9rio ordenado dos di\u00e1conos se situa neste servi\u00e7o aos mais carenciados, lembrando ao mesmo tempo que \u00e9 como colaboradores do bispo que eles exercem esse minist\u00e9rio. Consequentemente, insiste o Papa, a fun\u00e7\u00e3o caritativa integra, primariamente, o pr\u00f3prio minist\u00e9rio episcopal. O facto de notar que o C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico o n\u00e3o menciona expressamente, leva a crer que a modifica\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo sob este aspecto, j\u00e1 anunciada no respeitante ao minist\u00e9rio dos di\u00e1conos, se estender\u00e1, provavelmente, ao minist\u00e9rio dos bispos. Mencionei este ponto particular porque me parece indicativo de que esta enc\u00edclica \u00e9 mais program\u00e1tica do que parecer\u00e1 \u00e0 primeira vista. Podemos concluir que, a meu ver, o que principalmente caracterizou este primeiro ano do pontificado de Bento XVI, foi a descoberta pelo p\u00fablico em geral da verdadeira personalidade de Joseph Ratzinger. As suas primeiras realiza\u00e7\u00f5es e os sinais que deu n\u00e3o s\u00e3o inova\u00e7\u00f5es motivadas pela circunst\u00e2ncia de se ter tornado Papa, mas v\u00eam na continuidade de toda a sua vida e actividade anteriores. \u00c9 \u00e0 luz dessa sua vida e actua\u00e7\u00e3o que se pode perceber o verdadeiro significado e alcance deste primeiro ano de pontificado, encontrando nele uma fundada esperan\u00e7a. O minist\u00e9rio petrino do novo Papa est\u00e1 no seu in\u00edcio, mas \u00e9 l\u00edcito supor que se desenvolver\u00e1 na fidelidade mais rigorosa ao conc\u00edlio Vaticano II. Bento XVI conhece-o em primeira-m\u00e3o, e, al\u00e9m disso, j\u00e1 mostrou sab\u00ea-lo aplicar de forma criativa \u00e0 situa\u00e7\u00e3o actual. N\u00e3o foram apenas as suas anteriores responsabilidades na c\u00faria romana que lhe facultaram um conhecimento exaustivo dos problemas da Igreja e da humanidade; \u00e9 tamb\u00e9m a sua compet\u00eancia teol\u00f3gica, filos\u00f3fica e human\u00edstica que lhe permite fazer deles um diagn\u00f3stico l\u00facido e, consequentemente, conceber um projecto seguro de ac\u00e7\u00e3o.   28 Abril 2006, Col\u00f3quio com Jornalistas &#8211;  Mosteiro de S. Vicente de Fora<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H. 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