{"id":177166,"date":"2020-06-01T11:42:56","date_gmt":"2020-06-01T10:42:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=177166"},"modified":"2020-06-01T11:42:56","modified_gmt":"2020-06-01T10:42:56","slug":"saber-aprender-queres-o-que-a-tecnologia-quer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saber-aprender-queres-o-que-a-tecnologia-quer\/","title":{"rendered":"SABER APRENDER &#8211; Queres o que a tecnologia quer?"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Nos parques naturais de todo o mundo, os animais come\u00e7aram a alargar o seu territ\u00f3rio devido \u00e0 aus\u00eancia da presen\u00e7a humana. Depois existem as suas crias p\u00f3s-covid que n\u00e3o conhecem ainda a nossa esp\u00e9cie e que ter\u00e3o de se reajustar quando os parques voltarem a abrir aos turistas. Nessa altura caber\u00e1 aos seus pais progenitores a responsabilidade de lhes traduzir o que era o mundo antes da aus\u00eancia humana. Tradutores culturais. Uma necessidade que temos h\u00e1 mais tempo do que imaginamos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_177168\" aria-describedby=\"caption-attachment-177168\" style=\"width: 389px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-177168 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-1024x875.jpg\" alt=\"\" width=\"389\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-1024x875.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-304x260.jpg 304w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-768x656.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-1080x923.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-980x837.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet-480x410.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/ReadingBeforeInternet.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 389px) 100vw, 389px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-177168\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Dollar Gill em Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n<p>Consegues imaginar um mundo sem internet?<\/p>\n<p>Como seria superar este distanciamento social sem a possibilidade de nos conectarmos?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, apenas alguns de n\u00f3s conseguimos imaginar um mundo sem internet por sermos a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o que viveu esse tempo. Nesse sentido, temos a miss\u00e3o de traduzir os valores desse tempo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>C\u00e9rebro Alterado<\/h3>\n<p>Gary Small, professor de psiquiatria e pioneiro da neuroplasticidade cerebral diz que <em>\u00abn\u00f3s sabemos que a tecnologia est\u00e1 a mudar as nossas vidas. [Mas] est\u00e1, tamb\u00e9m, a mudar os nossos c\u00e9rebros.\u00bb<\/em> Por um lado, a neuroplasticidade d\u00e1 uma grande esperan\u00e7a \u00e0s pessoas mais idosas que v\u00eaem recuperada a possibilidade de n\u00e3o perder capacidades cognitivas com o avan\u00e7o da idade, sabendo que o c\u00e9rebro se adapta. Mas no que diz respeito \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, imersas horas sem fim em tempo de ecr\u00e3, e permanentemente ligadas \u00e0 internet, acabam por ficar mais bem preparadas para lidar com a realidade digital, mas, gradualmente, perdem a capacidade de lidar com a dura, aborrecida, serena, e fonte do g\u00e9nio humano, isto \u00e9, a realidade material do mundo.<\/p>\n<p>Em <em>\u201cOs Superficiais,\u201d<\/em> o jornalista Nicholas Carr explica como a internet trabalha a plasticidade dos nossos c\u00e9rebros de tal modo que, o pensar tem-se tornado mais \u201csuperficial,\u201d ou o mesmo que dizer, cada vez menos \u201cprofundo.\u201d Esta \u00e9 uma realidade s\u00e9ria por nos afastar da <em>vida profunda<\/em> sem que nos demos conta disso. Poder\u00edamos estar a falar de algo cultural, como os <em>memes<\/em> introduzidos por Richard Dawkins como unidades fundamentais de transmiss\u00e3o da cultura, e se alteram com o tempo. Mas referimo-nos antes a uma <em>altera\u00e7\u00e3o f\u00edsica<\/em> do nosso c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u00c9 como algu\u00e9m que faz uma opera\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica ao seu corpo e arrisca-se a desgostar do resultado final. Ou pessoas que se tatuam em jovens e dificilmente conseguem ver a beleza do seu corpo envelhecido com tatuagens deformadas com o tempo e a pele. Por outro lado, sendo o c\u00e9rebro fisicamente transformado pelo modo como usamos a tecnologia atrav\u00e9s da internet, ser\u00e1 que acabaremos por ficar \u00e0 merc\u00ea dessa?<\/p>\n<h3><em>Temes<\/em> para al\u00e9m dos <em>memes<\/em><\/h3>\n<p>A escritora Susan Blackmore tem-se debru\u00e7ado sobre a quest\u00e3o dos <em>memes<\/em>, avan\u00e7ado uma outra ideia, a dos <em>temes.<\/em><\/p>\n<p>Os <em>temes<\/em> s\u00e3o unidades de informa\u00e7\u00e3o replicadas pela tecnologia que diferem dos <em>memes<\/em> pela fidelidade de 100% na replica\u00e7\u00e3o. No caso dos <em>memes<\/em>, quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto, e existe uma evolu\u00e7\u00e3o cultural que se enriquece com a diversidade de pensamentos, \u00e9pocas, e cruzamento entre culturas. Nos <em>temes<\/em> \u2014 por exemplo, partilhas nas redes sociais de imagens, GIFs, etc. \u2014 a sua replica\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita, e enquanto de propaga atrav\u00e9s das culturas, e ra\u00e7as, uniformizando-as, vai-nos tornando viciados no tempo de ecr\u00e3 atrav\u00e9s da necessidade de valida\u00e7\u00e3o criada de cada vez que recebemos dos outros uma reac\u00e7\u00e3o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o digital partilhada.<\/p>\n<p>Blackmore explica que esta fidelidade de replica\u00e7\u00e3o de 100% leva a que, cada gera\u00e7\u00e3o nova seja menos capaz de gerir os seus momentos de solitude, isto \u00e9, de estar junto com os seus pensamentos, e menos livre de optar pelo desapego tecnol\u00f3gico. Basta pensar naquilo que muitos sentem, sobretudo os jovens, quando se esquecem do telem\u00f3vel em casa. Neste sentido, estamos-nos a tornar m\u00e1quinas de <em>temes<\/em>, servidores \u00e0 merc\u00ea da tecnologia que se replica pela informa\u00e7\u00e3o digital trocada por milhares de milh\u00f5es de seres humanos em todo o mundo.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s conhecemos um mundo sem internet. Um mundo em que o vaguear do pensamento era o impulso criativo para realizar conex\u00f5es impensadas que davam origem \u00e0 inova\u00e7\u00e3o que v\u00edamos mais tarde realizada na vida quotidiana.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o formos n\u00f3s, a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o que viveu antes da internet, a testemunhar o poder criativo dos momentos ausentes de tecnologia, como a leitura de um livro, a escrita, uma caminhada, a pintura, a m\u00fasica, a escultura, e a simples observa\u00e7\u00e3o do mundo ao nosso redor que se converte num momento de contempla\u00e7\u00e3o, quem o far\u00e1?<\/p>\n<p>O tempo cronol\u00f3gico \u00e9 inflex\u00edvel, como a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a que assistimos quando cedemos o tempo para pensar ao tempo para \u201cinternetar.\u201d Parece que a tecnologia ganha vontade pr\u00f3pria, mas pergunto &#8211; queremos o que a tecnologia quer?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Para saber mais<\/h4>\n<ul>\n<li>Dr. Gary Small e Gigi Vorgan, \u201ciBrain: Surviving the Technological Alteration of the Modern Mind\u201d, William Morrow Ed., 2008<\/li>\n<li>Nicholas Carr, \u201cOs Superficiais\u201d, Gradiva, 2012<\/li>\n<li>Susan Blackmore, \u201cThe meme machine\u201d, Oxford University Press, 2000<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":166774,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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