{"id":17714,"date":"2006-04-28T17:29:02","date_gmt":"2006-04-28T17:29:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/28\/povo-chines-esta-a-ser-esmagado\/"},"modified":"2006-04-28T17:29:02","modified_gmt":"2006-04-28T17:29:02","slug":"povo-chines-esta-a-ser-esmagado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/povo-chines-esta-a-ser-esmagado\/","title":{"rendered":"Povo chin\u00eas est\u00e1 a ser esmagado"},"content":{"rendered":"<p>Den\u00fancias do Cardeal Joseph Zen Ze-Kiun <!--more--> Recentemente nomeado Cardeal, Joseph Zen Ze-Kiun \u00e9 um homem l\u00facido, desassombrado, que a partir de Hong Kong observa a realidade chinesa e se preocupa com a evolu\u00e7\u00e3o da Igreja numa sociedade profundamente capitalista e materialista. Sem meias tintas diplom\u00e1ticas, fala de tudo, diz tudo. Acerca da China, afirma que o povo est\u00e1 a ser esmagado, que o governo controla tudo, mas que mesmo assim existe o risco de uma explos\u00e3o. Justifica a aparente contradi\u00e7\u00e3o: \u00abA agita\u00e7\u00e3o social, sobretudo entre os camponeses, vem cada vez mais ao de cima. O desespero torna-se uma for\u00e7a.\u00bb  <b>Como v\u00ea a Igreja na China?<\/b> Por um lado, h\u00e1 sinais de esperan\u00e7a; por outro, h\u00e1 sinais desencorajadores. Entre os sinais de esperan\u00e7a, est\u00e3o a sagra\u00e7\u00e3o dos bispos de Xangai e Xian, o que significa que a Igreja tem conseguido impor-se ao Governo, sem golpes teatrais: com paci\u00eancia, com firmeza, e o governo teve de aceitar os bispos nomeados pela Santa S\u00e9. Ao mesmo tempo, h\u00e1 muitas desordens, desuni\u00f5es nas dioceses: bispos leg\u00edtimos que n\u00e3o est\u00e3o de acordo; e depois, naturalmente, o secularismo est\u00e1 a contagiar o clero. Na pol\u00edtica, apesar da abertura da economia, a democracia n\u00e3o fez qualquer progresso. Conseguem continuar a controlar, com a ajuda da t\u00e9cnica moderna e dos servidores da Internet.   <b>Mas ser\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil controlar&#8230;<\/b> Sim, mas neste momento conseguem ainda controlar. E tamb\u00e9m n\u00e3o existe democracia no Partido. E \u00e9 perigoso, porque se n\u00e3o mudam ser\u00e1 um desastre: a certo ponto rebentar\u00e1. O povo \u00e9 esmagado. Ao longo desta costa h\u00e1 prosperidade e muita corrup\u00e7\u00e3o. Mas no interior s\u00e3o ainda paup\u00e9rrimos. A agita\u00e7\u00e3o social, sobretudo entre os camponeses, vem cada vez mais ao de cima. O desespero torna-se uma for\u00e7a.  <b>Voltando \u00e0 Igreja, um dos sinais positivos s\u00e3o as numerosas voca\u00e7\u00f5es, os seminaristas. Como v\u00ea a prepara\u00e7\u00e3o do clero?<\/b> Eu tenho estado nos semin\u00e1rios: comecei em 1989 em Xangai; depois de 1993 a 1996 estive noutros semin\u00e1rios. Ao todo s\u00e3o sete semin\u00e1rios maiores. Havia muitas voca\u00e7\u00f5es provenientes de fam\u00edlias que tinham muitos filhos. Mas actualmente o n\u00famero diminuiu. Desde h\u00e1 muito tempo que as voca\u00e7\u00f5es florescem em algumas prov\u00edncias, mas n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno generalizado: nas grandes cidades n\u00e3o h\u00e1 voca\u00e7\u00f5es. Em Xangai, em Pequim&#8230; n\u00e3o existem. Actualmente a maior parte dos padres n\u00e3o s\u00e3o chineses. As voca\u00e7\u00f5es diminu\u00edram por toda a parte devido \u00e0 pol\u00edtica de um casal-um filho. O n\u00famero \u00e9 uma coisa. Depois h\u00e1 a quest\u00e3o da qualidade. Quando entr\u00e1mos sentimo-nos impotentes para ajudar. Faltava a forma\u00e7\u00e3o, o director espiritual. Havia j\u00e1 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com o discernimento. Nestes \u00faltimos anos tem havido muitas deser\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, apesar de os semin\u00e1rios estarem cheios, o n\u00famero de padres que se ordenam n\u00e3o chega, porque h\u00e1 muitos idosos e os jovens saem a conta gotas: ent\u00e3o, s\u00e3o senhores em tudo, situa\u00e7\u00e3o muito perigosa, especialmente quando n\u00e3o houve uma matura\u00e7\u00e3o profunda. O semin\u00e1rio pode ter disciplina, uma atmosfera de ora\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 o grupo que vai adiante. Uma vez que se encontram sozinhos, talvez numa par\u00f3quia distante, senhores absolutos, com press\u00f5es de todos os lados (os idosos que v\u00eaem com suspei\u00e7\u00e3o estes jovens padres, a nova liturgia que nem todos aceitam, o governo que p\u00f5e obst\u00e1culos, e depois uma religiosa jovem na par\u00f3quia&#8230;) encontram-se em situa\u00e7\u00f5es preocupantes. Recentemente muitas dioceses sentiram a necessidade de exerc\u00edcios (n\u00f3s mandamos de boa-vontade padres para pregar os exerc\u00edcios)&#8230; H\u00e1 uma grande necessidade de forma\u00e7\u00e3o espiritual. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o ambivalente.  <u>Uma aproxima\u00e7\u00e3o afectiva<\/u> <b>E quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es da Igreja oficial com a Igreja clandestina. H\u00e1 uma reconcilia\u00e7\u00e3o em vista?<\/b> Antes de mais, n\u00e3o se imagina como o Governo controla tudo. N\u00e3o fazem ideia de como tudo \u00e9 controlado. Nesta situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um verdadeiro di\u00e1logo entre as duas partes; pura e simplesmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Por outro lado, \u00e9 poss\u00edvel uma aproxima\u00e7\u00e3o afectiva. Temos de compreender que somos todos a mesma Igreja e que por isso n\u00e3o devemos combater-nos e alimentar preconceitos&#8230; Pelo menos n\u00e3o nos combatermos. Mas que seja poss\u00edvel unir-se, n\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, porque o Governo controla tudo. Naturalmente, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente entre uma igreja e outra. Em muitos lugares n\u00e3o existem grandes guerrilhas entre as duas partes, h\u00e1 uma coexist\u00eancia pac\u00edfica. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel colaborar em conjunto. Tomemos o exemplo de Xangai. Xangai \u00e9 uma diocese onde tanto a Igreja oficial como a Igreja clandestina s\u00e3o fortes. Muitos fi\u00e9is da Igreja clandestina t\u00eam m\u00e1 impress\u00e3o do bispo da Igreja oficial. Mas pouco a pouco v\u00eaem que o bispo da Igreja oficial, embora tenha tido algumas manchas na sua vida, faz as coisas bastante bem&#8230; Depois vieram a saber que ele estava em contacto com Roma. E recentemente soube-se que finalmente foi reconhecido por Roma. E sabem que o novo bispo auxiliar \u00e9 muito bom e \u00e9 aceite tamb\u00e9m pelos membros da Igreja clandestina: sabem que \u00e9 um bom padre, um santo homem. Portanto, podem viver em paz juntos. Os padres, individualmente, podem tamb\u00e9m favorecer a outra parte: um padre da Igreja oficial pode deixar que algu\u00e9m da Igreja clandestina v\u00e1 participar na missa na sua igreja. E algu\u00e9m da Igreja clandestina pode sentir o desejo de se unir \u00e0 Igreja oficial, que actualmente \u00e9 reconhecida pelo Papa. Neste momento, o Governo at\u00e9 gostaria que a Igreja clandestina viesse toda ela \u00e0 luz do dia. Mas \u00e9 uma armadilha: uma vez sa\u00edda da clandestinidade, o bispo deixaria de ter o comando; o Governo \u00e9 que passaria a mandar. Por isso \u00e9 perigoso. Eu tomei a liberdade de ir a Roma dizer \u00abaten\u00e7\u00e3o\u00bb, achavam que uma vez que este bispo sucedesse aos dois prelados \u2013 porque \u00e9 aceite pelos dois \u2013 podiam convidar os dois velhos bispos a retirarem-se e as duas Igrejas a unirem-se, mas neste momento n\u00e3o \u00e9 absolutamente poss\u00edvel. N\u00e3o cometam este erro, porque \u00e9 p\u00f4r toda a Igreja clandestina nas m\u00e3os dos comunistas. Neste momento n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, e o jovem bispo tem necessidade de tempo.  <b>Visto do lado de fora, tinha-se compreendido que a falta de di\u00e1logo entre as duas Igrejas era sobretudo um problema hist\u00f3rico e na medida em que os idosos fossem substitu\u00eddos haveria condi\u00e7\u00f5es para melhorar a rela\u00e7\u00e3o. Agora diz que enquanto o Governo controlar tudo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel&#8230;<\/b> Como procede o bispo oficial para falar com o bispo clandestino? Tem de faz\u00ea-lo sob o olhar do Governo, n\u00e3o h\u00e1 liberdade. Ai dele se vai encontrar-se secretamente com o bispo clandestino. No dia seguinte p\u00f5em-no sob pris\u00e3o domicili\u00e1ria&#8230;  <B>H\u00e1 progressos no di\u00e1logo diplom\u00e1tico da China com Roma?<\/b> Os progressos s\u00e3o poucos. Falam do longo prazo e que talvez entretanto fosse melhor resolver a quest\u00e3o dos bispos (muitas dioceses t\u00eam necessidade de um bispo)&#8230; Eu receio que eles imponham os seus bispos. Se a Santa S\u00e9 est\u00e1 disposta a ceder, \u00e9 perigoso. Nomear um certo n\u00famero de bispos jovens que n\u00e3o caiam bem, \u00e9 criar um problema.  <b>Parece que n\u00e3o h\u00e1 interesse no di\u00e1logo por parte de Pequim. Porqu\u00ea?<\/b> N\u00e3o sei. Provavelmente porque viram que o Papa Jo\u00e3o Paulo II era anticomunista; talvez o facto da canoniza\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires os tenha provocado realmente; ou talvez porque n\u00e3o sentem necessidade disso. Porqu\u00ea aceder a fazer pactos se dominam muito bem a Igreja, ningu\u00e9m pode levantar a voz, todas as na\u00e7\u00f5es fazem quest\u00e3o de dizer uma palavra sobre os direitos humanos mas depois ficam caladas para conseguir os neg\u00f3cios&#8230; Que necessidade h\u00e1 de comprometer-se com a Santa S\u00e9? Eu consigo compreender muito bem que n\u00e3o sentem necessidade disso. Mas parece que, com a morte de Jo\u00e3o Paulo II, viram que todo o mundo estava no funeral; ent\u00e3o talvez tenham visto que conv\u00e9m prosseguir.  <b>Antes pensava-se que o Governo chin\u00eas estava interessado no di\u00e1logo porque a Santa S\u00e9 tem uma posi\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio no concerto das na\u00e7\u00f5es&#8230; <\/b> Mas n\u00e3o davam grande import\u00e2ncia a esse prest\u00edgio e n\u00e3o lhe tinham medo porque no fim de contas todas as na\u00e7\u00f5es fazem bons neg\u00f3cios com eles.  <b>Sobretudo em \u00c1frica. A China est\u00e1 a fazer neg\u00f3cios com todos, sem escr\u00fapulos em mat\u00e9ria de direitos humanos&#8230; <\/b> Esse \u00e9 o problema. Todos v\u00eaem apenas o dinheiro, os neg\u00f3cios e mandam os direitos humanos passear!  <u>Liu \u00e9 o papa chin\u00eas<\/u> <b>Em 2008 haver\u00e1 os Jogos Ol\u00edmpicos em Pequim. Ser\u00e1 uma boa oportunidade para a Igreja, para a abertura? <\/b> N\u00e3o servir\u00e1 de nada ou servir\u00e1 de muito pouco. Houve os Jogos Asi\u00e1ticos. N\u00e3o s\u00e3o como os Ol\u00edmpicos, mas quase semelhantes; a Igreja n\u00e3o teve benef\u00edcios. Antes dos jogos prenderam alguns padres e alguns bispos; depois dos jogos libertaram-nos. Foi isso o que n\u00f3s ganh\u00e1mos.  <b>Os crist\u00e3os est\u00e3o a vencer na China ou n\u00e3o? Nos \u00faltimos meses as not\u00edcias falam de grandes convers\u00f5es e de que o n\u00famero dos crist\u00e3os teria superado o dos inscritos no Partido Comunista. \u00c9 verdade? <\/b> N\u00e3o temos dados para confirmar esse facto. Sabemos que os protestantes fazem grandes progressos, mas quanto aos cat\u00f3licos n\u00e3o sei. No S\u00ednodo disse que estamos a vencer, porque impusemos ao governo os bispos de Xangai e de Xian, mas a estrutura permanece ainda aquela que \u00e9. Por exemplo, os bispos convidados pelo Papa para o S\u00ednodo n\u00e3o puderam ir. At\u00e9 os do Vietname foram. E os da China n\u00e3o.  <b>O que \u00e9 que a Igreja universal ou as Igrejas particulares podem fazer para ajudar a Igreja na China? Neste momento, o que \u00e9 que acha que seja oportuno fazer? <\/b> Muitos est\u00e3o a fazer muitas coisas, discretamente. Mas naturalmente \u00e9 preciso saber a l\u00edngua. Os chineses origin\u00e1rios da China continental t\u00eam mais ocasi\u00f5es de trabalho: n\u00e3o s\u00e3o notados e ent\u00e3o podem fazer muitas coisas. Pelo contr\u00e1rio, algu\u00e9m que n\u00e3o seja do lugar vai l\u00e1 mas pouco depois \u00e9 notado, porque existe ainda um controlo capilar, embora um pouco menos do que antes. Em tempos, qualquer um que chegasse tinha de se apresentar, sen\u00e3o ia contra a lei e podia ser preso. Em Hong Kong h\u00e1 muitos que v\u00e3o l\u00e1 fazer cursos, exerc\u00edcios espirituais, etc. At\u00e9 mesmo qualquer estrangeiro que saiba a l\u00edngua consegue entrar: dirige-se \u00e0 Igreja clandestina, fica ali escondido um m\u00eas e faz algum curso de actualiza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s \u00edamos ensinar no semin\u00e1rio: eu fui o primeiro em 1989. E fi-lo durante sete anos. Empregava seis meses por ano para ensinar nos semin\u00e1rios. No in\u00edcio ia s\u00f3 a Xangai. A partir de 1993 comecei tamb\u00e9m a ir a outros semin\u00e1rios: ia a sete semin\u00e1rios para ensinar. Mas agora n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. O controlo \u00e9 cerrado. Em Xian n\u00e3o \u00e9 permitido, porque o bispo n\u00e3o obedeceu e est\u00e3o a castig\u00e1-lo. Em Hebei n\u00e3o confiam porque embora ali exista a Igreja oficial \u00e9 mais clandestina que oficial, dizem. At\u00e9 mesmo em Xangai; o bispo de Xangai \u00e9 poderoso em Xangai, mas n\u00e3o \u00e9 poderoso face a Pequim. Ora convidar os professores depende de Pequim. Ele manda uma lista de 12 e Pequim aprova cinco. Ele protesta e eles respondem: \u00abEstes sete vieram demasiadas vezes!\u00bb, mesmo se foram s\u00f3 uma vez. Ele n\u00e3o tem poder: o poder cabe a Pequim. \u00c9 Liu Bai Nie (o secret\u00e1rio executivo da Associa\u00e7\u00e3o Patri\u00f3tica) que faz tudo. Ele \u00e9 o papa. Agora, depois que morreu, h\u00e1 alguns anos, o l\u00edder da Confer\u00eancia Episcopal, e o bispo Michele Fu de Pequim, o dirigente da Associa\u00e7\u00e3o Patri\u00f3tica, est\u00e1 doente, Liu Bai Nie controla tudo. Provavelmente \u00e9 membro do Partido mesmo se se diz crist\u00e3o.  <b>A si n\u00e3o o deixam ir para l\u00e1&#8230; <\/b> N\u00e3o. Eu tenho de ser convidado. N\u00e3o dizem que n\u00e3o posso ir, dizem: \u00abO senhor tem de ser convidado\u00bb.  <b>Se tivesse que expressar um desejo sobre a China, qual seria? <\/b> N\u00e3o se pode separar a Igreja da China \u00c9 preciso que algum dirigente inteligente e corajoso fa\u00e7a algumas reformas. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Igreja, \u00e9 todo o regime que n\u00e3o mudou substancialmente. Aparentemente muita coisa mudou, mas h\u00e1 ainda um controlo absoluto. N\u00e3o se sabe o que pode acontecer. N\u00e3o h\u00e1 legalidade, podem prender-nos a qualquer momento por um pretexto qualquer. E no Ocidente ningu\u00e9m nos vai defender.  <u>Hong Kong &#8211; \u00c9 preciso salvar a democracia<\/u> <b>O controlo chega at\u00e9 aqui a Hong Kong? <\/b> N\u00e3o, aqui \u00e9 outra coisa. H\u00e1 muitos anos que estamos separados da China e o controlo da autoridade n\u00e3o chega aqui. Mas agora h\u00e1 sinais preocupantes. Quando se tratava de assegurar a transi\u00e7\u00e3o faziam todas as promessas: um pa\u00eds dois sistemas, um elevado grau de autonomia&#8230; Mas est\u00e3o a interferir cada vez mais. E est\u00e3o a dominar atrav\u00e9s das pessoas que lhes obedecem, e h\u00e1 gente de Hong Kong que em nome dos seus interesses atrai\u00e7oam Hong Kong. Os melhores amigos do regime s\u00e3o os rica\u00e7os de Hong Kong. Al\u00e9m de possu\u00edrem o dinheiro, querem ter a autoridade. Por isso, n\u00e3o existe verdadeira democracia. \u00c9 necess\u00e1rio lutar para a salvar. Por exemplo, a manifesta\u00e7\u00e3o do 1.\u00ba de Julho de 2003 reuniu meio milh\u00e3o. Porqu\u00ea? Porque estavam a propor leis anti-subvers\u00e3o que praticamente limitavam a liberdade. Ent\u00e3o levant\u00e1mo-nos e fizemos a grande manifesta\u00e7\u00e3o que meteu medo. Algu\u00e9m no seio do Governo mudou de posi\u00e7\u00e3o sobre este assunto, por isso o Governo teve de retirar o seu projecto de lei. Mas houve um grande perigo de a lei passar. Quanto \u00e0 Igreja, n\u00e3o procuraram limitar a liberdade religiosa, mas fizeram leis novas contra as nossas escolas. Infelizmente nem sequer os nossos farejaram o perigo. Isto \u00e9, acordaram demasiado tarde. Com o Conselho Legislativo como est\u00e1 agora, qualquer lei passa. Segundo esta lei amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o seremos n\u00f3s os donos das escolas.  <b>Perderam a liberdade? <\/b> Agora h\u00e1 um sistema em que o Governo nos controla a n\u00f3s e n\u00f3s controlamos a escola. Somos ainda senhores da escola, mas amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o o seremos. Cada escola ter\u00e1 um comit\u00e9 directivo e torna-se aut\u00f3noma, directamente dependente do Governo; e n\u00f3s seremos postos de lado. \u00c9 uma coisa desmedida. Estamos a procurar revog\u00e1-la, porque nos parece que isto \u00e9 contr\u00e1rio at\u00e9 mesmo \u00e0 lei basilar em que se diz que as comunidades religiosas t\u00eam o direito de ter escolas segundo o modelo anterior, segundo a pr\u00e1tica original. Esta lei mudou as coisas radicalmente. Os nossos advogados dizem que h\u00e1 esperan\u00e7as, ent\u00e3o apresent\u00e1mos a causa.  <b>Quais s\u00e3o os problemas e as possibilidades da Igreja de Hong Kong? <\/b> A Igreja est\u00e1 bastante activa. H\u00e1 muita juventude. Fizemos um s\u00ednodo h\u00e1 tr\u00eas anos, que teve sucesso. Fizemos bons prop\u00f3sitos e procuramos segui-los. Nas par\u00f3quias h\u00e1 vida. As voca\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, s\u00e3o poucas: neste momento contam-se pelos dedos. A sociedade est\u00e1 muito secularizada e prop\u00f5e muitas coisas para desfrutar. Os jovens d\u00e3o uma ajuda nas par\u00f3quias de boa-vontade, mas empenhar-se a longo prazo n\u00e3o \u00e9 com eles. Sentem-se um pouco inseguros at\u00e9 pelas condi\u00e7\u00f5es que vivem nas fam\u00edlias. Temos muita gente at\u00e9 mesmo no Governo e nos postos cimeiros da sociedade. Mas infelizmente n\u00e3o conhecem bem a Doutrina Social da Igreja. Vivemos num sistema capitalista favor\u00e1vel aos ricos e o fosso entre ricos e pobres alarga-se. Somos quase os primeiros nesta mat\u00e9ria. Esta estrutura pol\u00edtica \u00e9 totalmente a favor dos ricos, dos capitalistas. Eles det\u00eam a maioria no Conselho Legislativo. Por isso chumbam qualquer lei a favor dos pobres, dos oper\u00e1rios.  <b>Est\u00e1 a dizer que o impacte social da Igreja est\u00e1 a diminuir e que esta n\u00e3o tem maneira de interferir no rumo da sociedade segundo os valores do Evangelho? <\/b> Estou a dizer que a Igreja poderia ter muito mais influ\u00eancia. A influ\u00eancia \u00e9 mais no social, n\u00e3o no pol\u00edtico. O maior l\u00edder dos democr\u00e1ticos \u2013 embora j\u00e1 n\u00e3o seja o l\u00edder \u2013 \u00e9 um cat\u00f3lico. No Governo h\u00e1 muito cat\u00f3licos, mas favorecem o sistema capitalista. N\u00f3s temos influ\u00eancia sobretudo atrav\u00e9s das escolas. Onde pregamos o Evangelho, h\u00e1 boa conduta civil, honestidade nos neg\u00f3cios&#8230; Mas o sentido social e pol\u00edtico n\u00e3o parece que tenha feito parte desta educa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 recentemente, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz, \u00e9 que estamos a levar todas as par\u00f3quias a sentirem-se implicadas socialmente. Nestes anos intervim activamente no campo dos direitos humanos. Espero ter despertado um pouco o sentido social da Igreja.  <b>Como vive a Igreja de Hong Kong a dimens\u00e3o mission\u00e1ria? <\/b> N\u00f3s tivemos sempre a ajuda dos mission\u00e1rios: temos ainda muitos aqui. Sem eles n\u00e3o conseguimos caminhar em frente. Menos mal que v\u00eam ainda jovens mission\u00e1rios. Mas n\u00f3s fazemos pouca miss\u00e3o. Temos leigas que v\u00e3o para a \u00c1frica ou para o Camboja, mas s\u00e3o muito poucas. Recentemente mand\u00e1mos um padre para a \u00c1frica, mas s\u00f3 por tr\u00eas anos. N\u00f3s n\u00e3o fazemos muitos esfor\u00e7os mission\u00e1rios. Os padres est\u00e3o demasiado bem.  <b>O senhor \u00e9 filho de Dom Bosco. Os Salesianos est\u00e3o a celebrar o centen\u00e1rio da sua presen\u00e7a na China. Qual \u00e9 o desafio que estes 100 anos lhe lan\u00e7am? <\/b> Tivemos verdadeiramente grandes mission\u00e1rios. Dedicados, empenhados. E hoje temos talvez uma vida demasiado c\u00f3moda. O nosso superior-geral disse que devemos rezar para obter a gra\u00e7a de acordarmos. E o Papa, neste Natal, escreveu no cart\u00e3o de boas-festas: \u00abAcordai, porque o Senhor encarnou; acordai!\u00bb. O Senhor espera de n\u00f3s mais zelo apost\u00f3lico, mais zelo no an\u00fancio do Evangelho.  <i>Entrevista: Jos\u00e9 Rebelo e Manuel Augusto Ferreira,   Mission\u00e1rios Combonianos &#8211; in \u201cAl\u00e9m-Mar\u201d, Abril de 2006<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Den\u00fancias do Cardeal Joseph Zen Ze-Kiun<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[101,136,189,191,193,206,237,246,267,296,297],"class_list":["post-17714","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-africa","tag-combonianos","tag-direitos-humanos","tag-economia","tag-educacao","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-natal","tag-salesianos","tag-santa-se"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17714\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}