{"id":177,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/das-aguas-para-a-vida-a-agua-viva\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"das-aguas-para-a-vida-a-agua-viva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/das-aguas-para-a-vida-a-agua-viva\/","title":{"rendered":"Das \u00e1guas para a vida \u00e0 \u00c1gua Viva"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Robson Cruz &#8211; Professor Faculdade Teologia\/UCP <!--more--> Das \u00e1guas para a vida \u00e0 \u00c1gua Viva  5 Fundaste a terra sobre bases s\u00f3lidas,  ela mant\u00e9m-se inabal\u00e1vel para sempre. 6  Tu a cobriste com o manto do abismo  e as \u00e1guas cobriram as montanhas; 7 mas, \u00e0 tua amea\u00e7a, elas fugiram,  ao fragor do teu trov\u00e3o, estremeceram. 8  Ergueram-se as montanhas, cavaram-se os vales nos lugares que lhes determinaste. 9 Puseste limites \u00e0s \u00e1guas, para n\u00e3o os ultrapassarem,  e nunca mais voltarem a cobrir a terra. 10  Transformas as fontes em rios,  que serpenteiam entre as montanhas.  11  Eles d\u00e3o de beber a todos os animais selvagens,  neles matam a sede os veados dos montes. 12  Os p\u00e1ssaros do c\u00e9u v\u00eam morar nas suas margens; ali chilreiam entre a folhagem. (Sl 104,5-12)  A tem\u00e1tica da \u00e1gua percorre a B\u00edblia como s\u00edmbolo mais eloquente para significar a exist\u00eancia humana. A geografia f\u00edsica do territ\u00f3rio pode ser um bom ponto de partida para compreender que \u201c\u00e1gua\u201d se torne s\u00edmbolo de vida, e sem ela, a aridez do deserto conduz ao ocaso de toda a vida. A \u00e1gua doce, por excel\u00eancia, \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o do amor de Deus que cria o universo sobre as \u00e1guas, como o espa\u00e7o de vida, e a \u00e1gua \u00e9 a sua possibilidade de manuten\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia. O relato da Cria\u00e7\u00e3o de Gn 1,1-2,4 exprime esse modo de conceber a \u00e1gua como o cen\u00e1rio da vida do universo, comum aos povos da Mesopt\u00e2mia, em que a terra firme est\u00e1 situada entre as \u00e1guas superiores e inferiores (Gn 1,6-10) e exprimindo poeticamente a permanente assist\u00eancia divina ao espa\u00e7o vital: \u201c\u2026e o esp\u00edrito de Deus pairava sobre as \u00e1guas.\u201d (Gn 1,1). Se a influ\u00eancia do meio \u00e9 decisiva neste relato, o que lhe sucede, pondo como quadro primordial um deserto, nem por isso relativiza a import\u00e2ncia das \u00e1guas como espa\u00e7o e condi\u00e7\u00e3o para a vida, fazendo irromper no deserto \u201cum manancial que subia da terra e regava toda a superf\u00edcie da terra\u201d (Gn 2,6). A \u00e1gua se torna, por isso, a primeira das b\u00ean\u00e7\u00e3o atribu\u00eddas a Jacob (Gn 27,28) e promessa de vida e paz para todo o povo se se deixarem guiar segundo os estatutos e mandamentos de Jahv\u00e9 (Lev 26,4). A ideia de que Deus exerce o seu dom\u00ednio sobre o ciclo da \u00e1gua passa a ter consequ\u00eancias religiosas directas: a presen\u00e7a das \u00e1guas \u00e9 sinal da ac\u00e7\u00e3o de Deus (Miq 5,6; Jb 38,22-28) que interv\u00e9m sempre em favor da sobreviv\u00eancia do seu povo (Is 30,23). Poder\u00e1 o homem dominar este ciclo da \u00e1gua de forma absoluta? A hist\u00f3ria de Ezequias, rei de Jud\u00e1 (aproximadamente 716-687) refere como seu maior empreendimento a constru\u00e7\u00e3o \u201cde um reservat\u00f3rio e aqueduto para levar \u00e1gua a cidade\u201d (2Rs 20,20). Este testemunho refere-se provavelmente \u00e0 necessidade de abastecer a cidade a partir da fonte de Gion, onde Salom\u00e3o fora ungido como rei (1Rs 1,33). A expans\u00e3o urbana de Jerusal\u00e9m punha o problema do abastecimento at\u00e9 \u00e0 piscina de Silo\u00e9, permitindo a sobreviv\u00eancia sem necessidade de se aventurar para al\u00e9m dos limites da cidade, e garantindo a sua sobreviv\u00eancia em caso de ser sitiada. Quais as motiva\u00e7\u00f5es de Ezequias? O texto do historiador deuteronomista n\u00e3o nos revela as inten\u00e7\u00f5es de Ezequias, mas provavelmente esta obra faria parte do plano de libertar Jud\u00e1 do tributo pago \u00e0 Ass\u00edria. Em Is 22,8-11, o profeta parece denunciar a estrat\u00e9gia subjacente a este apropriar-se das \u00e1guas: \u201c8 Ficou exposta a cidade de Jud\u00e1. Naquele dia, inspeccionastes o arsenal no pal\u00e1cio da floresta, 9  examinastes as in\u00fameras brechas da muralha da cidade de David, recolhestes as \u00e1guas na piscina inferior, 10  contastes as casas de Jerusal\u00e9m, demolistes algumas delas para refor\u00e7ar a muralha. 11 Fizestes um reservat\u00f3rio entre os dois muros para armazenar as \u00e1guas da piscina velha. Contudo n\u00e3o olhastes para aquele que disp\u00f4s estas coisas, n\u00e3o reparastes naquele que as preparou de longe.\u201d O or\u00e1culo termina com a condena\u00e7\u00e3o da arrog\u00e2ncia de Jerusal\u00e9m (vv.12-14). Seria a estrat\u00e9gia de Ezequias usar o bem livre da \u00e1gua para garantir o sucesso de uma ac\u00e7\u00e3o miliatar? Tal parece ser a interpreta\u00e7\u00e3o do Copeiro-Mor de Sena-querib que ironiza a grandiosidade da obra com a impossibilidade de oferecer resist\u00eancia, convidando o povo a voltar a beber, \u201ccada um da sua pr\u00f3pria cisterna\u201d (2Rs 18,31). Se a obra precedeu a invas\u00e3o de Senaquerib, \u00e9 licito supor que o rei tivesse manipulado a distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua com fins pol\u00edticos. E a frusta\u00e7\u00e3o dos seus planos consiste em perceber que a salva\u00e7\u00e3o veio n\u00e3o da sua estrat\u00e9gia, mas da ac\u00e7\u00e3o livre de Deus que afastou o inimigo. N\u00e3o se trata de uma cr\u00edtica \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, mas a den\u00fancia do que a arrog\u00e2ncia na sua manipula\u00e7\u00e3o, sem o horizonte de f\u00e9 e de comunh\u00e3o pode representar nos destinos de um povo: \u201cO meu povo cometeu dois crimes: eles abandonaram-me, a fonte das \u00e1guas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas furadas, que n\u00e3o podem conter \u00e1gua\u201d (Jer 2,13). O novo simbolismo da \u00e1gua parte da experi\u00eancia humana da sobreviv\u00eancia para exprimir a confian\u00e7a filial a Deus. Nessa confian\u00e7a, o homem saber\u00e1 que Deus o protege sempre, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais adversas: \u201cJahv\u00e9 ser\u00e1 para sempre o teu guia e te assegurar\u00e1 a fartura, mesmo em terra \u00e1rida; revigorar\u00e1 os teus ossos, e ser\u00e1s como um jardim bem irrigado, como uma fonte borbulhante, cujas \u00e1guas n\u00e3o faltam\u201d (Is 58,11), e a plenitude ser\u00e1 anunciada como um manancial incalcul\u00e1vel que brota do santu\u00e1rio divino como uma torrente (Ez 47,1-12). Esta expans\u00e3o do simbolismo das \u00e1guas recebe uma significa\u00e7\u00e3o ainda mais plena na prega\u00e7\u00e3o de Jesus que, com os seu ensinamento, \u00e9 fonte de \u00e1gua viva para a Samaritana (Jo 4,10-14), contrapondo-se \u00e0 Lei, assumida na mem\u00f3ria simb\u00f3lica do po\u00e7o de Jacob. O texto mais importante, por\u00e9m, dever\u00e1 ser o de Jo 7,37-39: \u201c37 No \u00faltimo dia, o mais solene da festa, Jesus, de p\u00e9, bradou: \u201cSe algu\u00e9m tem sede, venha a mim; e quem cr\u00ea em mim que sacie a sua sede! 38Como diz a Escritura, h\u00e3o-de correr do seu cora\u00e7\u00e3o rios de \u00e1gua viva.\u201d 39Ora Ele disse isto, referindo-se ao Esp\u00edrito que iam receber os que nele acreditassem; com efeito, ainda n\u00e3o tinham o Esp\u00edrito, porque Jesus ainda n\u00e3o tinha sido glorificado.\u201d O rito da festa das tenda acaba exactamente no termo do canal de Ezequias, onde o povo celebrava a conclus\u00e3o da festa das Tendas com a aspers\u00e3o simb\u00f3lica das \u00e1guas de Silo\u00e9, recordando o milagre das \u00e1guas no deserto (Ex 17,1-7) na expectativa da vinda do Messias, que haveria de libertar o seu povo (Zac 14,8; Ez 47,1-2). Todo o cap\u00edtulo s\u00e9timo gira \u00e0 volta da verdadeira identidade de Jesus, e de que s\u00f3 a f\u00e9 o pode revelar como aquele que vem restaurar a vida do homem. A tradi\u00e7\u00e3o mais antiga l\u00ea aqui Jesus como fonte (cf. Ap 7,17; 21,6), mas tamb\u00e9m o que cr\u00ea em Jesus poder\u00e1 ser associado a essa ideia de fonte viva. Ainda que o sentido simb\u00f3lico da \u00e1gua assuma os contornos de imagem metaf\u00f3rica, a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, e vida em plenitude, \u00e9 sempre o termo correlato. Participante desta fonte de vida pelo Baptismo, a \u00e1gua se torna sacramento e sinal eficaz de uma vida nova (Rm 6,1-11). Se a \u00e1gua aparecia como bem primordial para a possibilidade da vida, agora s\u00e3o as \u00e1guas a certeza de uma vida definitiva oferecida aos homens. N\u00e3o ser\u00e1 por acaso que o \u00faltimo livro da B\u00edblia, o Apocalipse, p\u00f5e como cen\u00e1rio da gl\u00f3ria definitiva, a imagem de um rio de \u00e1guas vivas como manifesta\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria que supera toda a maldi\u00e7\u00e3o e drama do humano com uma vis\u00e3o triunfal, repleta de esperan\u00e7a na humanidade e em toda a cria\u00e7\u00e3o: \u201c1 Mostrou-me, depois, um rio de \u00e1gua viva, resplendente como cristal, que sa\u00eda do trono de Deus e do Cordeiro. 2 No meio da pra\u00e7a da cidade e nas margens do rio est\u00e1 a \u00e1rvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada m\u00eas o seu fruto, e as folhas da \u00e1rvore servem de medicamento para as na\u00e7\u00f5es. 3 E ali nunca mais haver\u00e1 nada maldito. O trono de Deus e do Cordeiro estar\u00e1 na cidade e os seus servos h\u00e3o-de ador\u00e1-lo 4e v\u00ea-lo face a face, e h\u00e3o-de trazer gravado nas suas frontes o nome do Cordeiro. 5*N\u00e3o mais haver\u00e1 noite, nem ter\u00e3o necessidade da luz da l\u00e2mpada, nem da luz do Sol, porque o Senhor Deus irradiar\u00e1 sobre eles a sua luz e ser\u00e3o reis pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos.\u201d (Ap 22,15) Robson Cruz Professor Faculdade Teologia\/UCP <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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