{"id":176668,"date":"2020-05-29T12:35:59","date_gmt":"2020-05-29T11:35:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=176668"},"modified":"2020-05-29T12:39:10","modified_gmt":"2020-05-29T11:39:10","slug":"os-vazios-e-as-pausas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-vazios-e-as-pausas\/","title":{"rendered":"Os vazios e as pausas"},"content":{"rendered":"<p><em>C\u00f3nego M\u00e1rio Tavares de Oliveira, Arquidiocese de \u00c9vora<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_176669\" aria-describedby=\"caption-attachment-176669\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-176669\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Mario-Tavares_Evora.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-176669\" class=\"wp-caption-text\">Foto Arquidiocese de \u00c9vora, Padre M\u00e1rio Tavares de Oliveira<\/figcaption><\/figure>\n<p>Enquanto se conclu\u00eda a laje de cobertura duma nova igreja na periferia de \u00c9vora, o arquitecto Lu\u00eds Coelho perguntava-me: \u201c-M\u00e1rio, sabes o que \u00e9 uma igreja?\u201d Estupefacto pela pergunta, respondi com um franzir do sobrolho enquanto o arquitecto lan\u00e7ava um olhar saciado sobre o espa\u00e7o agora bem definido e a profetizar o futuro templo. Sem esperar a minha resposta, sentenciou: \u201c-Uma igreja \u00e9 um vazio para ser preenchido com ora\u00e7\u00f5es e hinos de louvor!\u201d<\/p>\n<p>Confesso que, nos \u00faltimos tempos, ao cruzar as igrejas que me est\u00e3o confiadas e ao observar a aus\u00eancia persistente da assembleia dos irm\u00e3os, servia-me de medita\u00e7\u00e3o profunda esta defini\u00e7\u00e3o de templo do meu amigo arquitecto. Nunca o sil\u00eancio gritou tanto e nunca os vazios foram t\u00e3o violentos. Acreditar que este n\u00e3o \u00e9 um tempo menor e que estes dias tamb\u00e9m s\u00e3o de salva\u00e7\u00e3o questionava as raz\u00f5es da minha esperan\u00e7a num turbilh\u00e3o de desafios inesperados.<\/p>\n<p>Os templos vazios, por sua vez, uniam-se num estranho gesto de comunh\u00e3o social \u00e0s ruas desertas, \u00e0s pra\u00e7as e aos largos, vazios tamb\u00e9m. Os restaurantes e as esplanadas, as escolas e os lugares de trabalho&#8230;tudo vazio. Com frequ\u00eancia, nas poucas pessoas com quem nos cruz\u00e1vamos, pressent\u00edamos olhares, tamb\u00e9m eles, vazios e at\u00e9 esquivos a evitar qualquer forma de aproxima\u00e7\u00e3o, acentuando ainda mais os abismos que n\u00e3o quer\u00edamos que existissem entre n\u00f3s. O caloroso abra\u00e7o e o beijo afectuoso foram substitu\u00eddos por gestos que nos deixavam&#8230;vazios.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de oitenta, Gilles Lipovetzky escrevia <em>A Era do Vazio<\/em>, mas estou certo, nem ele conseguiu imaginar um \u00edcone t\u00e3o eloquente como este tempo de confinamento para exprimir a sua den\u00fancia. Sim, vivemos tempos vazios de ideais onde a esperan\u00e7a est\u00e1 hipotecada e o futuro \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o perturbadora. Uma pandemia nefasta veio, de improviso, denunciar a nossa alma doente sem fechar a possibilidade de novos an\u00fancios com horizontes mais humanos, mas \u00e9 em tempos assim que tudo pode ser reconfigurado e onde muitos prognosticavam fatalismos, o sol pode renascer esplendoroso com uma beleza a redescobrir.<\/p>\n<p>Agora chegou o tempo do regresso e n\u00e3o sei interpretar este momento sem a luz que me vem dum outro regresso, o do cativeiro do povo de Israel. O salmista ilustra assim o momento: \u201c\u00c0 ida, iam a chorar levando as sementes; \u00e0 volta, v\u00eam a cantar, trazendo os molhos de espigas!\u201d O cativeiro tinha alimentado uma fome e uma sede que tornava ainda mais vibrante o tempo do regresso e a festa dos abra\u00e7os. O povo re\u00fane-se na pra\u00e7a junto \u00e0 porta das \u00e1guas, o levita proclama uma palavra luminosa e volta a como\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas e o desejo de reconstruir Jerusal\u00e9m. O cativeiro, afinal, gerara uma for\u00e7a que, pouco tempo antes, parecia imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Regressamos tamb\u00e9m do nosso cativeiro e voltaram os sorrisos e nas can\u00e7\u00f5es.\u00a0 Para todos, estou certo, o tempo do confinamento foi uma oportunidade. Redescobrimos coisas importantes que secund\u00e1vamos com as rotinas e o frenesim das nossas pressas. Redescobrimos que, afinal, era t\u00e3o bom o que faz\u00edamos habitualmente e aprendemos a beleza das coisas simples como \u00e9, em cada dia, levantar e ir para o trabalho, ter compromissos a cumprir, poder abra\u00e7ar e ir tomar um caf\u00e9. Como crist\u00e3os, percebemos tamb\u00e9m como \u00e9 belo reunirmo-nos ao Domingo para rezar e louvar a Deus. Afinal, a Eucaristia era um dom essencial de que agora est\u00e1vamos privados: a fome dum p\u00e3o do c\u00e9u e a sede da comunh\u00e3o com os irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Que este tempo tenha servido para redescobrir o essencial e nos fazer aproximar mais uns com os outros. \u00c9 mesmo verdade: \u201c-N\u00e3o podemos passar sem o Domingo!\u201d e como \u00e9 bom voltar a reencontrar-nos! \u00c9 como se os vazios suscitassem um novo desejo de louvar a Deus, de m\u00e3os dadas com os irm\u00e3os. As medidas sanit\u00e1rias que nos obrigam ainda a cuidados v\u00e1rios e a algum afastamento f\u00edsico, n\u00e3o poder\u00e3o fazer desvanecer a espiritualidade da assembleia: \u201cOnde dois ou mais se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles.\u201d As m\u00e1scaras e o gel, as dist\u00e2ncias e as normas n\u00e3o ser\u00e3o barreiras suficientes para impedir o encontro com o Senhor que nos salva.<\/p>\n<p>Lembro-me de ouvir um maestro, em pleno concerto, a dissertar sobre a import\u00e2ncia das pausas na m\u00fasica. S\u00e3o as pausas que fazem salientar a leveza e os sobressaltos da melodia, tornando-a mais graciosa e mais expressiva. Sem as pausas, as melodias teriam menos vivacidade e seriam menos cativantes. Quase passam despercebidas, s\u00e3o vazios na pauta, mas sem as pausas, as melodias n\u00e3o t\u00eam alma.<\/p>\n<p>Como ensina o ap\u00f3stolo: \u201cTudo concorre para o bem daqueles que O amam.\u201d Este tempo, com os seus vazios e as suas pausas, podem resultar num grande dom se aproveit\u00e1mos o confinamento para crescer na sede de amar a Deus e aos irm\u00e3os. \u00c9 tempo de preenchermos os vazios das nossas igrejas com as ora\u00e7\u00f5es e os hinos de louvor que brotam das nossas almas, porventura mais cristalinos e transfigurados porque modelados pelos vazios e pelas pausas.<\/p>\n<p>Bom regresso!<\/p>\n<p><em>M\u00e1rio Tavares de Oliveira\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00f3nego M\u00e1rio Tavares de Oliveira, Arquidiocese de 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